segunda-feira, 17 de julho de 2017

Pretorianismo


   Por esses dias, li no jornal que parte dos apoiadores do ex-presidente Lula às eleições de 2018 estava preocupada com algo inesperado à primeira vista: um possível crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro no Nordeste, reduto eleitoral reconhecidamente lulista.
  Os simpatizantes de Lula achavam que a, sempre citada em pesquisas de opinião, confiança nos militares, aliada à proximidade de Bolsonaro com estes atores sociais, poderia acabar por angariar simpatia e votos ao candidato capitão da reserva do Exército brasileiro.
   Se isso é verdade, eu não tenho certeza. Mas lembrei desse fato quando lia a definição do "pretorianismo", em Política - 50 conceitos fundamentais explicados de forma clara e rápida, cujo editor é Steven L. Taylor, publicado pela Publifolha.
   Lá está:
  "Pretorianismo geralmente se refere ao governo dos militares, mas também pode significar uma forte influência deles na política. [...] O fenômeno está claramente associado a compromissos débeis das elites com a democracia, a instituições políticas frágeis, a polarização ideológica, a laços da elite política com a os líderes militares e a uma sensação generalizada de que os militares têm legitimidade para governar. O papel dominantes dos militares vai aos poucos se enraizando, e eles passam a ser atores políticos fundamentais, em particular nos períodos de crise política ou econômica". (Grifos meus)
   Diante do exposto, apesar de não acreditar mais numa participação direta dos militares na condução do país, não dá para deixar de considerar a hipótese dos apoiadores de Lula de que os integrantes das Forças Armadas poderiam reforçar a candidatura de Bolsonaro, ainda que indiretamente, pela confiança depositada nestas instituições.
   Mas ainda há muita água para rolar na Política do Brasil até as eleições de 2018.

A condenação de Lula


   Impossível deixar de registrar a primeira condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 12 de julho de 2017. Afinal de contas, "Nunca antes na História deste país..." um ex-presidente havia sido condenado - parafraseando o próprio Lula. É de estranhar, contudo, que com tantos problemas nas gestões do ex-presidente - mensalão e petrolão já comprovados, por exemplo -, Luiz Inácio da Silva tenha sido condenado por ocultar um tríplex "Minha casa, minha vida" - como ele mesmo disse - e um sítio em Atibaia.
   A curiosidade faz com entremos mais no caso para perceber que os dois imóveis faziam parte de uma dívida de R$ 16 milhões da OAS com o PT, por conta da vitória no contrato para construção da Refinaria Abreu Lima, em Pernambuco. Pelas contas apresentadas no processo, os dois imóveis, com suas respectivas benfeitorias, corresponderiam a R$ 2,2 milhões daquele total. 
   A bem da verdade, portanto, a condenação de nove anos e meio não se refere à ocultação de patrimônio, mas à corrupção passiva (seis anos) e à lavagem de dinheiro (três anos e meio). 
  Lula é réu em mais quatro outros processos. Vamos ver o que ainda há de vir por aí...

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Olga Benario (3)


   Ao final do livro, há parte da correspondência de Olga. Realmente o que transparece é um profundo amor entre Olga e Prestes.
   Numa das cartas, por exemplo, ela escreve ao marido:
   "Querido, tua mãe me enviou tua fotografia. Agora passo muito tempo com a pequena no colo te contemplando e meus pensamentos ficam então contigo. Agora faz um ano que nos separamos. Mas, sabes, todo este tempo difícil trouxe como resultado apenas o fortalecimento de meus sentimentos em relação a ti. Vou encontrar forças para aguardar o feliz dia em que novamente estaremos juntos".
   Infelizmente, para o casal, como bem sabemos, o dia do reencontro nunca chegou.
   Uma outra coisa que me chamou atenção foi a intenção de Olga de participar da educação da filha, mesmo a distância. Numa carta de 1939, escrita a Prestes, ela diz:
   "Mas, sabes, Carlos, tens de me ajudar com minha mãe [Olga se referia à mãe de Prestes como sua própria mãe] para que eu também tenha voz ativa sobre Anita".
   E em outra, de 1940, também dirigida ao marido, escreve:
   "No que se refere à sua [de Anita] educação, peço-te que tenhas voz de poder com mamãe. Nossos muitos e queridos tios e tias parecem querer compensar a falta dos pais de Anita com mimos exagerados. [...] Mas nada é mais prejudicial do que passar à criança a sensação de ser algo especial. Isso lhe tornará a vida mais difícil no futuro. [...] [N]ossa filha não deve se tornar uma bonequinha mimada!".
   A opinião sobre não "passar à criança a sensação de ser algo especial" pode ser controversa para os pais mais contemporâneos... mas não me parece incorreta de todo. 
   

Olga Benario (2)


  Terminei de ler o livro sobre Olga Benario. Muito legal. 
  Queria comentar uma passagem assustadora, sobre o extermínio dos judeus.
  Conta o livro:
  "Os nazistas mostravam-se extremamente ciosos de manter o extermínio em massa de prisioneiros em segredo. Na secretaria do campo de concentração de Ravensbrück, registrava-se uma doença inventada como causa de morte de cada mulher entre milhares que haviam sido assassinadas em Bernburg. Segundo Sarah Helm: O local da morte era sempre Ravensbrück. A data variava, mas era sempre no futuro - por outras palavras, várias semanas depois de as mulheres serem levadas [...]. Eram as próprias prisioneiras que trabalhavam na Secretaria que preenchiam o espaço destinado à causa da morte [...]. O pessoal andava ocupado há semanas a escrever as certidões de óbito. Havia quatro razões diferentes para a morte: problemas de coração; pulmões infectados; problemas de circulação ou poderia também escrever-se: 'Todos os esforços médicos para salvar a pessoa foram em vão'. As prisioneiras que tinham que preencher as certidões podiam escolher a seu gosto a doença dada como a causa de morte da mulher em questão".
   Imaginem ter que inventar um motivo falso para a morte de alguém que poderia ter sido amiga daquela que preenchia a certidão de óbito... principalmente sabendo que aquilo seria para encobrir uma violência terrível.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Esquerda e conservadorismo


   Aqui no Brasil, temos nos acostumado com uma esquerda alinhada às liberdades sociais. Um dos partidos que mais mobilizam os jovens, o PSOL, tem parlamentares declaradamente favoráveis à liberação da maconha e à luta contra a discriminação aos gays. Plataformas que realmente precisam estar presentes numa discussão da sociedade real em que vivemos. 
   Esta esquerda acusa a direita de conservadorismo. Ou seja, no terreno do "social", os liberais são os "de esquerda", enquanto os conservadores são os "de direita".
   Pois bem... Anunciou-se ontem que o Teatro Bolshoi adiou para o ano que vem a peça, que seria lançada na próxima semana, sobre o bailarino russo Rudolf Nureyev (1938-1993). Embora a justificativa oficial diga respeito à baixa qualidade da montagem, em virtude de os bailarinos ainda não estarem preparados, suspeita-se que o real motivo seja a temática da peça, que envolve a homossexualidade de Nureyev.
    O jornal O Globo, em uma matéria sobre o assunto, explica que existe uma lei anti-gay que veta propagandas "que incentivem relações não tradicionais a menores de idade" e cita, também, um "crescente conservadorismo social russo".
   O que os militantes do PSOL diriam disso, hein? Isso, eu não sei. Mas é interessante pensar bem sobre esses conceitos de "esquerda" e "direita".


terça-feira, 11 de julho de 2017

Ainda a Bioética


   No dia 09 deste mês, Hélio Schwartsman escreveu o texto "Desolação", em que tratava do tema Bioética, através do caso do bebê Charlie Gard.
   Para quem não lembra, Charlie tem onze meses e está internado num hospital inglês, com uma doença rara. Os médicos acharam que prolongar a vida do bebê artificialmente não valia mais à pena, mas os pais não concordaram. O caso foi parar na Justiça, que determinou o desligamento dos aparelhos. Contudo, os pais insistem em levar a criança para o exterior e tentar um tratamento experimental. Impasse...
    Schwartsman começa por dizer algo interessante: "A bioética [...] é a mais depressiva das especialidades filosóficas. Seus manuais são uma coleção de situações médicas trágicas que geram dilemas sem solução".
   Prossegue, avaliando que "Os médicos e as cortes estão certos ao definir que esforços terapêuticos precisam parar em algum ponto. Não dá para insistir em tratamentos fúteis. Por cruel que seja dizê-lo, é preciso pensar também em custos".
   Parece que o caso nem envolve custos para o governo inglês, visto que os pais arcariam com os custos do transporte do menino. Mas, segundo matéria do jornal O Globo: "Nesse caso, a Justiça baseia sua decisão, diz o NHS [Sistema de Saúde Público Inglês], no que é melhor para Charlie. Por isso, mesmo que os pais queiram custear a viagem aos Estados Unidos com o dinheiro arrecado, eles não têm autonomia para isso, uma vez que a Justiça determinou que o tratamento não trará benefícios ao bebê".
   Se não existe custo para o Estado e os pais desejam realizar o tratamento em outro local, onde ele é possível, concordo com a avaliação de Schwarstan, quando este comenta: "Se existe um princípio heurístico na sempre triste bioética, é o de que o respeito à autonomia do paciente e seus familiares é quase sempre a resposta menos ruim".
      

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Olga Benario


   O filme Olga, de 2004, com a bela Camila Morgado, me impressionou bastante. Nem sei por que não li o livro depois de tê-lo visto. De qualquer modo, nunca é tarde para corrigir um engano. Rsss.
    Foi lançado este ano o livro Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo, pela Editora Boitempo, de autoria da filha da própria Olga, Anita Leocadia Prestes. Não resisti e, hoje, comprei o livro.
    Um dos fatos mais interessantes a respeito do texto é que ele inclui informações dos arquivos da Gestapo que só começaram a ser disponibilizadas para consulta pública a partir de 2015.
   Li muito pouco. Primeiro, a história da própria Olga até o encontro com Luiz Carlos Prestes, em 1934. Depois, a vinda dos dois para o Brasil, em 1935. E, por fim, a deportação dela para a Alemanha nazista, já grávida, e o nascimento de Anita Leocadia, em 1936.
   Por enquanto, queria registrar apenas uma observação do editor da correspondência de Olga e Prestes, sobre o tempo relativamente curto de relacionamento dos dois. Diz Robert Cohen:
   "Desde seu primeiro encontro em Moscou até sua prisão no Rio se passaram exatos um ano, três meses e vinte e dois dias. Pouco tempo, se diria. Mas qual seria o tempo ideal para o amor? A importância de uma relação não se mede por sua duração. Se quisermos saber alguma coisa sobre o amor entre duas pessoas, não devemos indagar o que as pessoas fazem do amor, mas sim o que o amor faz das pessoas. O que o amor fez de Olga Benario e Carlos Prestes descobrimos em suas cartas". 
   Depois, conto mais...