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sexta-feira, 4 de maio de 2018

O Freud do século XVII?!?!


   O livro Grandes lendas do pensamento, de Henri Pena-Ruiz, traz uma série de questões consideradas fundamentais para o pensamento humano - como o livre-arbítrio; o sentido da vida; as paixões, etc. -, valendo-se de estórias e mitos.
   Uma dessas estórias se refere ao filósofo francês René Descartes (1596-1650), respondendo, ao diplomata Hector-Pierre Chanut (1601-1662), a questão "Por que amamos mais certas pessoas do que outras?".
   Descartes apresenta uma resposta muito interessante, que lembra muito a visão freudiana sobre a associação de duas impressões, expondo uma análise que fora fazendo de si mesmo, a partir de uma experiência da sua infância.
   Em carta de 06 de junho de 1647, ele escreve: 
   "Quando criança, eu amava uma garota [...] que era um pouco vesga; com isso, a impressão em meu cérebro, quando olhava seus olhos desviantes, se aproximava tanto da que nele acontecia para estimular-me as paixões amorosas, que, muito tempo depois, vendo vesgos, eu tendia a gostar mais deles do que de outros, simplesmente por possuírem defeito; ignorava, contudo, que fosse por isso".
   Para arrepio do mestre vienense, criador da Psicanálise, contudo, Descartes conta que fez uma autoanálise, a partir da qual se conscientizou da origem de sua emoção - o mecanismo associativo entre uma emoção passada e outra presente -, e deixou de se comover. Permanecerá um "vestígio", uma "marca" no cérebro - como veremos a seguir -, mas sem futuro afetivo.
   A explicação do fenômeno do "vestígio" é o seguinte:
   "Os objetos que afetam nossos sentidos movem, por meio dos nervos, algumas partes de nosso cérebro, neles formando certas dobras que se desfazem quando o objeto cessa de agir; mas a zona na qual elas foram feitas permanece, posteriormente , predisposta a ser dobrada novamente, do mesmo jeito, por outro objeto semelhante, ainda que não totalmente, ao precedente".
   A ideia do "vestígio", essa "marca" que resta no cérebro, após uma impressão, em alguma medida, repete uma noção estoica... que depois parece ser retomada por Spinoza. Mas isso é outra estória...
   
   

quarta-feira, 13 de março de 2013

Esquecimento e Recalque

   A Segunda Consideração Intempestiva - Da utilidade e desvantagens da História para a vida, de Nietzsche, faz uma crítica da cultura de seu tempo, a partir do que o bigodudo chama de "historische krankheit" (doença histórica).
   Segundo o filósofo alemão, o "excesso de história", ou seja, supervalorição do conhecimento histórico acaba por "sufocar" a criatividade do vivente, que fica como que impotente em presença da grande carga que o passado e a tradição lhe impõem.
   Sem poder agir, o homem se imobiliza... e o critério nietzscheano para determinar se a História está sendo vantajosa, que é a vida, perde vigor, estabelecendo a "condenação" momentânea da "Historie".
    O texto é muito rico. A História, nele, não é um monolito, criticado tresloucadamente. Haverá espécies de História, cada uma delas tendo suas utilidades e desvantagens.
   De qualquer forma, esse não é um post sobre a Segunda Intempestiva como um todo, mas apenas sobre uma pequena passagem que diz respeito ao conceito nietzscheano de "Esquecimento". Só a partir dessa atividade é que o vivente se livraria do peso do passado, o qual impedia suas ações. Trata-se, portanto, de uma necessidade de um "espaço a-histórico", mesmo sendo reconhecido que o homem é um ser histórico.
   O comentador Günter Figal, no livro Nietzsche - Uma introdução filosófica, publicado no Brasil pela Mauad-X, escreve: "'todo vivente', diz Nietzsche, 'só pode tornar-se saudável, forte e frutífero no interior de um horizonte'; O QUE NÃO CONSEGUE SUBJUGAR PRECISA SER ESQUECIDO, e, então, ele não 'está mais aí'".
   Quem não lembra do conceito de "Recalque" freudiano, lendo isso?