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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

"Je ne suis pas Charlie"


   Apesar de pessoalmente alinhado à indignação pelo atentado ao periódico Charlie Hebdo, como pensador honesto, sou obrigado a perspectivar minha reflexão, tomando outros pontos de vista como inicialmente válidos. Este exercício é fundamental para qualquer um que queira ultrapassar o somente dado. Por este motivo, passemos ao "Eu não sou Charlie", mas sou "o outro".
    Assustei-me ao ver, na manhã do dia 14, a seguinte manchete no Portal G1: "Polêmico humorista francês é detido após comentário sobre 'Charlie Hebdo'". Trata-se de Dieudonné M'Bala, que teria participado do ato em repúdio ao atentado, mas postado um "deboche" sobre o mesmo, dizendo "instante mágico comparável ao Big Bang" - a interpretação do "deboche" da frase é da própria notícia. Além disso, teria acrescentado "Eu me sinto Charlie Coulibaly" - misturando os nomes do periódico e de um dos terroristas mortos.
   Em que pese a acusação de seus desenhos promoverem o antissemitismo e de brincarem com o conteúdo INDEFENSÁVEL dos vídeos da degola de pessoas pelo Estado Islâmico, essas não seriam, também, manifestações satíricas da liberdade de expressão? Humor meio non-sense, de qualidade duvidosa, é certo... mas não era esse o caso, também, do Charlie Hebdo?
   Além disso, a frase "Eu me sinto Charlie Coulibaly", dependendo da intenção, pode ser tomada como bastante profunda. É necessário pensar nos jornalistas mortos por um motivo tão "fútil" quanto a sua fina ironia, mas há também que estar atento à opressão sócio-econômica que torna jovens como Coulibaly presas fáceis de uma doutrina que se diz vingadora do mal. E aqui cabe o alerta de Hannah Arendt para que presentifiquemos em nossos discursos os totalitarismos, em vez de "esquecê-los" como algo do passado, a fim de que evitemos que eles se tornem novamente algo concreto e vivo.
    Este é o primeiro post da série "Je ne suis pas Charlie"... só para pré-aquecer nossa máquina de reflexão...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Parece brincadeira de mau gosto


   O Emirado Islâmico do Afeganistão - nome oficial do grupo dos talibãs naquele país - divulgou nota condenando a charge da capa do Charlie Hebdo desta quarta (14/01/15), na qual aparece uma imagem do profeta Maomé segurando uma placa com a inscrição "Je suis Charlie".
   Entenderia uma manifestação crítica da tal organização, reclamando de nova "provocação" ao ideário religioso muçulmano, mas o conteúdo, dirigindo-se aos jornalistas, parece até brincadeira de mau gosto. Diz o seguinte: "Condenamos este ato repugnante e desumano [que é a publicação de um desenho!?!?], e consideramos seus autores e os que o perpetraram como inimigos da humanidade".
    Ah... sei... "inimigos da humanidade"... de toda a humanidade? Mesmo lembrando que há 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo, não sei se todos concordam com essa "desumanidade" do ato de veicular uma caricatura e, por outro lado, admitem o fuzilamento dos "infiéis" que "perpetraram este ato repugnante".

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Je suis Charlie! (3)


   No rastro de violência deixado pelo atentado terrorista ao periódico Charlie Hebdo, dois muçulmanos foram figuras emblemáticas: Ahmed Merabet e Lassana Bathily. 
   O primeiro deles era o policial cruelmente executado na calçada, próximo ainda ao prédio do periódico, por um dos irmãos Kouachi. Já o segundo, que se tornou herói sem precisar - ainda bem - virar mártir, talvez tenha um simbolismo ainda maior. Isto porque, sendo funcionário do mercado kosher invadido pelo terrorista Amedy Coulibaly, ajudou diversos clientes judeus que estavam no estabelecimento a se esconderem, diminuindo a possibilidade de serem mortos.
   Vimos, então, o assassinato de um muçulmano por muçulmanos e o auxílio de um muçulmano a judeus, ameaçados por outro muçulmano. Isto mais do que comprova as palavras de Malek Merabet, irmão do policial covardemente assassinado, já que estava ferido e deitado indefeso diante de seus algozes: "Quero me endereçar a todos os racistas, islamofóbicos e antissemitas: não se pode misturar os extremistas e os muçulmanos. OS LOUCOS NÃO TÊM COR OU RELIGIÃO" (Grifo nosso).