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sábado, 2 de janeiro de 2021

Racismo (4)

 

    Por último, uma experiência pessoal.

    Certa vez, eu e minha esposa estávamos em um barzinho, aguardando nossa filha chegar. Nossa mesa só contava com duas cadeiras. Olhei a mesa ao lado, que só estava com uma pessoa, mas dispunha de duas cadeiras. Virei-me para o ocupante da mesa, e, num tom amistoso, disse: "Amigão, você me permite pegar essa cadeira?", apontando para o objeto em questão.

    O rapaz na mesa era negro. Ele me olhou e, em tom enfurecido, perguntou: "O que você disse?". Num primeiro momento, achei que ele não tivesse entendido a pergunta, e esclareci: "Eu queria saber se posso pegar essa cadeira". Ele voltou a falar com ar irritado: "Não. O que você disse antes?". Levei um instante para processar o motivo da raiva: ele havia interpretado o meu "amigão" como "negão". 

    Eu não quis polemizar, visto que minha intenção era apenas obter uma cadeira. Então, falei "Não disse nada antes. Só fiz uma pergunta. Se não quer ceder a cadeira, peço a outra pessoa". Virei para a mesa ao lado da dele, ocupada por uma pessoa branca, onde também havia uma cadeira sobrando, e perguntei: "Amigão, posso pegar essa cadeira?". A resposta foi afirmativa. Peguei a cadeira e esperei minha filha chegar. 

    Minha esposa, logo depois, quis me explicar o porquê da irritação do primeiro homem. Eu indiquei que havia entendido, mas que não quis entrar naquela polêmica... até porque não falei nada de errado. 

    Só quis destacar que a discriminação estava exclusivamente na mente do pretenso discriminado.    

    Aliás, vale o comentário de que a defesa do atleta do Bahia utilizou o argumento de que, pelo idioma diferente, o jogador do Flamengo pode ter confundido alguma outra palavra proferida com a que teria sido ouvida por ele.

Racismos (3)

 

    O segundo caso é bem menos grave, já pelo fato de não envolver uma morte... ainda bem. De qualquer modo, caso se tratasse de uma questão de racismo, deveria ser abordado com repúdio total, do ponto de vista moral... além, obviamente, das punições criminais.

    O jogador Gérson, do Clube de Regatas do Flamengo - atleta de sucesso, respeitado no meio futebolístico e bem sucedido financeiramente - denuncia ter ouvido de um adversário estrangeiro, de nome Ramírez, durante uma partida, a seguinte frase: "Joga, negro!". 

    Ainda durante o jogo, Gérson teria reclamado com o juiz. Aparentemente, o ato discriminatório do atleta do Esporte Clube Bahia não foi percebido por outras pessoas, a não ser aqueles que se manifestaram, no momento, contra o supracitado ato, notadamente os jogadores do time do próprio jogador ofendido.

       Como no caso anterior, é impossível descartar a possibilidade de discriminação racial. Mas há algumas variantes importantes em relação ao primeiro evento.

    Não se trata de uma pessoa negra humilde, marginalizada pela sociedade, sofrendo uma agressão de alguém numa posição socialmente superior. Muito pelo contrário, trata-se de um jogador com experiência na Europa, com destaque num time de estrelas no Brasil, teoricamente recebendo injúrias racistas de um estrangeiro - sul-americano - que joga em um time de menor expressão no  cenário nacional, e, muitíssimo provavelmente, com um salário e um status social bem menor que o do possível ofendido. 

   O sentir-se ofendido do jogador Gérson me parece mais estranho ainda em função de outra coisa: uma partida de futebol não é exatamente o lugar para "bons moços", numa conversa razoável e educada. Prova disso, inclusive, é uma discussão utilizada como prova, inicialmente pelo Flamengo, tentando demonstrar que o atleta do Bahia teria ofendido outro jogador do clube - desta vez, Bruno Henrique -, com o mesmo tipo de discurso, ao chamá-lo de "negro". Contudo, o clube baiano contratou especialistas que indicam que o atleta rubro-negro teria, num diálogo durante o jogo, chamado o possível ofensor de Gérson de "Gringo de merda".

    Ninguém deseja que exista desrespeito dentro das quatro linhas do gramado, mas... o fato é que isso existe, e é tomado como "parte do jogo" pelos próprios atletas. Tanto é que os jogadores ofendem, são ofendidos e... normalmente não se manifestam. Quando um deles decide fazê-lo, passamos a conhecer o que acontece dentro dos gramados de forma aberta, mas velada para nós, os espectadores. 

    Acho, sim, que pode ter havido discriminação em ambos os casos, o do atleta Ramirez, ao chamar Gérson de "negro", sem acrescentar, por exemplo, "de merda", mas também o de Bruno Henrique, se chamou o atleta do Bahia de "gringo", desta vez, acrescido do "de merda". Mas, sinceramente, dentro de um campo de futebol, ainda mais pela origem usualmente humilde dos jogadores, conseguiríamos realmente falar em "racismo"?

    Essa pergunta pode parecer desconsiderar que a prática racista é abominável em qualquer espaço social. Mas não se trata disso. O que quero ponderar é que acabamos tomando por racismo -  aquele que realmente priva pessoas de direitos sociais fundamentais, inclusive, infelizmente, algumas vezes, do próprio direito à vida - uma discriminação que ocorre num espaço em que os antagonismos, inclusive com uso de violência entre os próprios "colegas" atletas, são até valorizados pelos espectadores - e "contagiam" negativamente os próprios participantes dos jogos.

    É muito bonito os jogadores entrarem em campo com faixas dizendo "Não ao racismo" ou "Vidas negras importam", mas, na primeira bola dividida, saírem de dedo em riste, no rosto do adversário-colega de profissão, emitindo um montão de impropérios, vários deles de cunho discriminatório. Portanto, parece que eles mesmos se dão essa "licença poética" de dizerem "Você é um merda!", e isso não passar de uma expressão hiperbólica de desconforto com o outro... o que vale, igualmente, para "gringo de merda", "negro", "branquelo", "paraíba" - para qualquer nordestino -, etc.

    Aliás, em relação a essa última, se formos nos ofender mais radicalmente, acho que a discriminação é maior, porque "negro" é normalmente usado para pessoas de pele negra/preta, enquanto "paraíba" é uma referência jocosa que se faz a qualquer nordestino, e não somente àquele que efetivamente nasceu na Paraíba.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Racismos (2)

    Dois casos de "racismo" (entre aspas, provocativamente) recentes me chamaram atenção: o primeiro, de João Alberto Silveira Freitas - morto no supermercado Carrefour -; e o segundo, do jogador Gérson, do Flamengo-RJ.

    Gosto pouco de falar de casos muito recentes, por conta das fortes emoções que ainda estão presentes, dificultando uma crítica mais perfeita. Mesmo assim, vamos lá.

   Sinceramente, tenho dúvidas se os casos citados realmente caracterizam "racismo", no sentido em que está sendo discutido na grande mídia.

   Discutirei um caso de cada vez.

    Primeiro caso. Um homem - negro, sim - é espancado brutalmente até a morte. Não sou jurista, mas não tenho dúvidas de que foi um homicídio qualificado. Minha incerteza está no fato de ele ter sido morto POR ser negro. Não questiono que seja possível ter havido racismo até o ponto em que João Alberto foi conduzido para fora da área efetivamente comercial do supermercado. Pelos vídeos divulgados, parece haver um desentendimento entre a vítima e uma funcionária, no interior da loja - o que, reconheço, já pode ter sido fruto de alguma prática racista -; posteriormente, há a observação de João Alberto por outro funcionário; e, por fim, o acompanhamento da vítima por seguranças do supermercado ao longo de um corredor. Volto a reconhecer que, durante esse trajeto, pode ter ocorrido práticas racistas, com ofensas, ameaças, etc. Em determinado ponto, contudo, João Alberto desfere um soco em um dos seguranças. Aí, penso, a coisa muda de figura. Desse evento em diante, imagino que falar de "racismo" pode ser um tanto quanto inadequado. Afinal, ao ser agredido com um soco, o segurança - policial militar de folga - , ensandecido, passa às cenas de barbárie que ficaram registradas em nossa mente, levando à morte de João Alberto.

   Voltemos um pouco. Em momento algum, estou afirmando que não houve racismo, ou seja, uma ação deliberada de tratar um indivíduo de maneira injusta pelo fato de ele ser negro. A única coisa que estou dizendo é que não posso assegurar que o motivo do homicídio foi o fato de o rapaz ser negro, como está sendo seguidamente informado pela grande mídia.

   Obviamente, o segurança/policial tem que ser punido pelo homicídio. Afinal, a agressão sofrida na forma de um soco não poderia justificar um homicídio, principalmente quando se trata de alguém que deveria estar preparado para neutralizar um agressor... menos ainda quando observamos que havia dois seguranças para neutralizar a ameaça na forma de um único indivíduo desarmado.

   A questão do crime de racismo, contudo, tem que ser melhor investigada... para ser punida com justiça, caso efetivamente tenha ocorrido.  

   Resumindo, então: só acho que o assassinato não se deu exata e especificamente por racismo.

   Depois, veremos o segundo caso...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Aliás... "negro" ou "preto"?

 

   Já que estamos falando de "racismo", vale a pena enfrentar uma questão paralela ao tema: Qual é o correto, "negro" ou "preto"?

   Há anos, existia uma lógica de que negra era a raça, enquanto preta era a cor. Dessa forma, seria um desrespeito dizer que alguém era "preto", pois se estava comparando um indivíduo a uma coisa. 

    A disputa em torno da linguagem foi se acirrando, a partir do momento em que se entendeu que a estrutura social de dominação era continuada através de um mecanismo linguístico que "normalizava" as discriminações - ainda que não se percebesse esse uso discriminatório. Expressões como "denegrir", "lista negra", dentre muitas outras, passaram a ser criticadas.

    No meio disso tudo, passou-se a discutir a preferência pelo uso de "negro" ou "preto", para se referir ao indivíduo categorizado como da raça negra.

    Até onde sei, não existe consenso. Tanto é que convivemos com o Movimento Negro do Brasil; o "Vidas negras importam" (apesar de também haver a alternativa "Vidas pretas importam"); e até a banda de pagode "Raça Negra"... todas iniciativas de valorização e pertencimento do indivíduo negro/preto na sociedade.

    Embora reconhecendo que as palavras também se inserem num jogo cultural, que não é, ele mesmo, neutro, acho que devemos  perceber sempre o contexto do uso. Não sei o que seria mais preconceituoso, um amigo (branco) dizendo para outro (negro) "Negão, vamos beber uma cerveja?" ou um motorista (branco) dizendo para um frentista (negro) "Loirinho, coloca vinte litros de gasolina pra mim".

Racismos

 

    Vale destacar, antes de tudo, que há pessoas que se revoltam quando se fala em "raças" no que se refere a seres humanos. Estas pessoas indicam que só há uma "raça humana", não fazendo sentido, portanto, a distinção entre caucasoide, negroide ou mongoloide.

     A questão é que, para a Sociologia, o que importa não é a precisão biológica do conceito de "raça", e sim seus efeitos na realidade social.

    Ora, se pessoas são discriminadas em função de alguma característica que possuem, e se esta característica compõe um campo conceitual que se pode chamar de "raça", então, esta ideia merece ser estudada pela Sociologia.

    Para melhorar a precisão daquilo de que estamos falando, vale lembrar que "raça", sociologicamente falando, indica um conjunto de características físicas que são utilizadas para agrupar - como sempre, arbitrária e subjetivamente - determinados indivíduos.

    Não devemos confundir esse conceito com o de "etnia", que se vale mais de aspectos culturais para realização do tal agrupamento. Sem deixar de reconhecer, obviamente, que alguns desses aspectos culturais podem ser tradicionalmente associados a indivíduos com determinados traços físicos que evocam uma determinada raça.

    Assim, para alguém leigo no assunto, duas pessoas de pele de cor preta, com cabelos cacheados e determinadas traços fisionômicos podem ser categorizadas como pertencentes à mesma "raça negra", quando elas se oporiam a esta pretensa "igualdade" entre elas, por pertencerem a etnias diferentes - isto é, por terem referências históricas distintas, bem como costumes, valores, ideias e tradições diversas... até antagônicas, segundo suas concepções individuais.

   Para "apimentar" ainda mais o assunto, devemos nos recordar que, há pouco tempo, levantou-se a hipótese de se estar cometendo xenofobia e "racismo" tratar o coronavírus como "vírus chinês". Mas essa é outra estória.

    Continuemos com nossos "racismos", que já vão se provar mais de um, em breve...

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Racismo


   Eu já escrevi aqui no blog que, no caso do ser humano, só há uma raça, a humana. Segundo esta perspectiva, não haveria o negro, o branco, o pardo, etc.
   Já escrevi, mas... outro dia, pensei: "Quando se define racismo não se fala em raças? Ora, então há raças?"
   Vejamos. O site InfoEscola diz que "Racismo é uma maneira de discriminar as pessoas com base em motivos raciais". Ora, se existem "motivos raciais" é porque existem "raças" - e não apenas a "raça humana".
    Comecei a avaliar o conceito de "raça". A perspectiva sociológica é muito interessante: raça é como os outros nos avaliam, com base em nossas aparências. O problema, portanto, não é diferençar as pessoas em função de suas características externas - seja cor da cútis, seja determinado desenho de nariz, boca ou tipo de cabelo. A questão problemática é achar que determinado tipo de conjunto seja superior a outro.
   Desta forma, racismo não é considerar a existência de raças distintas, em função das diferentes características físicas das pessoas, e sim achar que há diferenças de valor entre estas distintas características, justificando o tratamento distinto entre as tais raças.
   Será interessante, posteriormente, considerarmos a distinção entre "raça" e "etnia'.