O tema não é simples, além disso a questão do aborto é extremamente "desconfortável" de ser debatida. No entanto, não se trata de uma discussão meramente teórica, cujo resultado pode ser um simples veredito - "certo" ou "errado" -, a questão é efetivamente prática.
Principalmente diante de dois casos que foram noticiados nos últimos dias, o assunto se põe urgentemente em debate.
Penso que a questão é eminentemente de saúde pública. Os apelos religiosos são válidos, mas devem prevalecer enquanto se trata do aspecto motivacional da decisão sobre o aborto, e não sobre o ato em si.
Imagino ser inadmissível duas jovens mulheres morrerem vítimas de procedimentos "médicos" - com aspas mesmo - mal planejados, mal realizados e sem os cuidados necessários a um tipo de intervenção tão delicada.
Seria leviano defender a morte de um feto, porém mais incorreto ainda - penso eu - é apoiar a cegueira diante de uma prática perigosa, que tem vitimado várias mulheres, em nome de uma esquisita "moralidade".
É importante colocar que não estamos, pelo menos nesses dois casos, diante de jovens "tresloucadas", simplesmente arrependidas por terem se entregue, antes, a arroubos hedonísticos, os quais têm como resultado crianças indesejadas. O que vimos são mulheres com certa experiência que, por algum problema momentâneo, acabaram por engravidar e que, até com um certo grau de responsabilidade, quiseram evitar uma gravidez que poderia vir a produzir "efeitos" complicados em relação às suas vidas.
Os "efeitos" não são propriamente as crianças geradas, mas os problemas que advêm de uma gestação não programada. Nos dois casos, aliás, vimos moças - Jandira tinha apenas 27 anos!!! - preocupadas com o futuro das crianças das quais já eram mães.
É óbvio que defendo, inicialmente, uma conscientização maior das mulheres no que diz respeito às suas relações sexuais. E indico diretamente as mulheres - embora pense que tanto elas, quanto nós, homens, devamos ter essa maior consciência - porque serão elas que terão que tomar a difícil decisão de se submeter ao tipo de procedimento em questão ou carregar uma criança não planejada no ventre por nove meses. Mas... como acidentes acontecem, há que ter um "Plano B". Se este é a interrupção da gravidez, que se faça como um procedimento médico - que é efetivamente o caso -, em um lugar em que as mulheres não estejam na mão de açougueiros, e sim de cirurgiões e assistentes gabaritados.
Volto a enfatizar que é necessário um tratamento laico da questão, solicitando que o foco se dê, de verdade, sobre a perspectiva da saúde. Não é possível que fechemos os olhos diante de um problema que é real, e que tem consequências sérias. Aliás, hoje o jornal O Globo anuncia uma estatística - não sei se completamente confiável, mas com justificativas - de que há mais de 67 abortos por ano no Estado do Rio de Janeiro. Isso, com base nas mulheres que chegam ao SUS com complicações, que são mais de dezesseis mil!!!!!
Acho que várias das mulheres que se submetem a este procedimento sofrem muito mais psicologicamente do que fisicamente. Se o aspecto físico, desde que tudo corra bem, se resolve em meses, o psicológico fica marcado pelo resto da vida. Mas se com esse sofrimento elas têm obrigatoriamente que conviver, não permitamos que a situação se agrave ainda mais, e que haja sequelas e mortes dessas mulheres.
Pela legalização do aborto de forma mais ampla já!