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sexta-feira, 22 de julho de 2022

Psicologia existencial e... Spinoza

 

    Estava lendo apenas a introdução do livro Psicologia Existencial, organizado por Rollo May, com textos de Abraham Maslow e Carl Rogers, entre outros, e me deparo com a seguinte afirmação, logo no primeiro parágrafo:

    "Pensadores cujas formulações se tornaram importantes para o seu século e para os subsequentes são os que obtiveram êxito, penetrando e articulando o significado e a direção dominante do desenvolvimento do seu contexto cultural..."

    E segue uma lista brevíssima destes "pensadores". Lá vai:

    "Espinosa, no século XVII; Kierkegaard, no século XIX; Freud, no século XX"

    Depois dessa lista, dá para desconsiderar nosso grande Spinoza? Pensemos rapidamente... Kierkegaard é o Pai do Existencialismo e Freud é o Pai da Psicanálise. Ambos, portanto, têm tudo a ver com a ideia de uma "Psicologia Existencial". Spinoza só pode ter entrado na lista por conta de ter "penetrado e articulado o significado no seu contexto cultural". Aliás, eu diria que não apenas do seu "contexto cultural", mas num âmbito bem mais amplo, conseguindo captar, com rara felicidade, o que é o ser humano.

    Outras duas curiosidades...

    A primeira, o que considero certa injustiça da lista, é não haver nenhum pensador indicado como tendo conseguido penetrar no contexto cultural do século XVIII. Afinal, a lista pula de Spinoza, no século XVII, para Kierkegaard, no século XIX.

    A segunda é que a lista continua, dizendo "intercalados por nomes não menos ilustres...". Apesar de "não menos ilustres", eles só são citados depois. Mas, vamos lá:

    ".... desde os Filósofos Renascentistas, os Reformadores da Idade Média, até mais recentes celebridades como Giordano Bruno [...], Jacob Boheme, Paracelso, Descartes, Locke, Galileu, Newton e outros".

sábado, 21 de maio de 2022

História da Liberdade Religiosa

 

    Comprei esses dias o livro História da liberdade religiosa - da Reforma ao Iluminismo, de Humberto Schubert Coelho, publicado pela Vozes Acadêmica e pelo Instituto Homero Pinto Vallada, agora em 2022.

    O livro é dividido em seis capítulos: (1) Raízes medievais e renascentistas da luta pela liberdade religiosa; (2) Nasce a Reforma; (3) O mundo moderno: religião e ciência reconfiguram sua relação; (4) Despertar espiritualista na aurora do Iluminismo; (5) A geração de Voltaire; e (6) A Era das Luzes.

    Nosso filósofo aparece no capítulo 3, no artigo de título "O papel decisivo de Espinosa no entendimento moderno da religião".

    Há uma rápida biografia, seguindo-se logo a apresentação das ideias spinozanas, ao longo dos seus diversos escritos.

    Diversas passagens são interessantes, mas eu destacaria essa, que achei, no mínimo, curiosa:

    "[...] suas [de Spinoza] ideias estão muito longe de serem fáceis, transparentes ou desambíguas, dando margem tanto para a defesa do materialismo mais radical quanto para a mística mais exaltada ao longo do século XVIII. Em ambas as vertentes, a presença de Espinosa formatou significativamente aquilo que entendemos por materialismo e mística modernos, com influência sobre autores tão discrepantes quanto os philosophes franceses e os idealistas alemães".

    Reconheço que há passagens do texto spinozano que podem sugerir certo materialismo - apesar de não concordar que ele seja um materialista -, bem como há, no mínimo, uma passagem que flerta com o misticismo - o que também não me parece ser a posição do holandês. Daí a dizer que ele "formatou significativamente aquilo que entendemos por materialismo e mística modernos", acho um pouco extremado. 

    De qualquer modo, o livro parece ter um conteúdo bem amplo, facilitando a pesquisa de vários nomes envolvidos com a liberdade religiosa ao longo da história. Acho que vale a pena adquirir.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Fernando Savater


   O espanhol Fernando Savater é um grande divulgador da Filosofia. São dele, livros como Ética para meu filho, Política para meu filho, Os sete pecados capitais, Os Dez Mandamentos para o século XXI e mais alguns. Já li alguns desses. Agora, leio um que não conhecia, A importância da escolha. O original é de 2003, mas a tradução foi publicada no Brasil em 2004. Eu o descobri em uma feira de livros usados.
   Savater começa o livro dizendo que o tema do livro, pode ser colocado "ingenuamente" através da seguinte pergunta: "Em que consiste a liberdade?"... na linha investigativa básica da Filosofia: "O que é X?". Logo em seguida, explica que "logo que formulada, ela se mistura com outras - como acontece sempre com as verdadeiras questões filosóficas - que dificultam e retardam uma resposta direta: a liberdade existe realmente? [...] Sou capaz de liberdade ou sou liberdade, e por isso sou capaz de ser humano? E tantas, tantas outras: perguntas em demasia".
    O livro é bem interessante... até por conta da linguagem que Savater usa. Depois valerá uma exploração maior do seu conteúdo. Por enquanto, contudo, só quero registrar uma passagem. Lia eu:
   "[...] é preciso compreender que os dois extremos da balança axiológica, o Bem e o Mal, de nada servem à razão ou ao coração se os utilizamos em termos absolutos: só têm sentido a utilidade conceitual quando funcionam em relação a algo [...]"
   No que li isso, marquei logo a passagem como a posição de Spinoza. Eis que... logo depois, Savater escreve:
   "Isso significa que, no lugar de Bem e Mal, preferiremos dizer 'bom para...' e 'mau para...', como nos ensinou nosso pai Spinoza."
    Nem preciso dizer da minha felicidade... falar em "nosso pai Spinoza" reforça o peso do nosso querido holandês.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A 'apatia' estoica


   Os estoicos se referem ao "sábio" como alguém que atingiu a "tranquilidade" e a "liberdade" da escravidão das paixões.
   Contudo, esse empreendimento de superar as "paixões" causa muita confusão e leva a uma concepção enganosa de que os estoicos seriam sem emoção, procurando reprimir seus sentimentos.
   Mas, conforme explica Diógenes Laércio, o próprio Zenão indica que:
  "O homem sábio é 'desapaixonado' [apathê], porque ele não é vulnerável a elas".
   Donald Robertson, em Stoicism and the art of happiness, explica:
   "Zeno meant that the wise man was not enslaved by his feelings of fear or desire, but we're explicitly told here [na continuação da passagem aí de cima] that's not the same as being 'hard-hearted' and 'insensitive', which is the false impression many people have today of Stoicism".
   E em outra passagem, Robertson reforça essa "falsa impressão", ao dizer:
   "However, these endeavours to overcome the 'passions' have caused much confusion and led to the widespread misconception that the Stoics are somehow 'unemotional' or seek to repress their feelings".
   Vou explorar um pouco mais este assunto nos próximos posts. Isso, principalmente, porque me lembro de, no mestrado, ter feito um trabalho que se referia à possibilidade de Spinoza ser um "neo-estoico". Demarquei bem a diferença entre o pensamento do nosso filósofo daquele dos estoicos. Mas tenho achado que a barreira é uma zona mais cinzenta do que percebi à época.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Ainda divagando sobre "determinado" Spinoza


   Louis Althusser  dizia, em Ler O Capital, que "[Spinoza] é o único ancestral direto de Marx".
  No artigo Is it simple to be Spinozist in Philosophy? (https://www.radicalphilosophyarchive.com/article/is-it-simple-to-be-a-spinozist-in-philosophy), a autora Katja Diefenbach, apresenta de modo interessante a visão de Althusser sobre Spinoza, no que concerne a sua relação com o marxismo. 
  Vejamos a parte em que o filósofo franco-argelino "critica" Marx por ele não ter captado um ponto importante da teoria spinozana:
      "At strategic points in Reading Capital, Louis Althusser introduces Spinoza's idea of an immanent cause as the decisive concept that is absent from Marx's discourse. For the Althusser of 1965, Spinoza's model of causality is the great missing link in Marx'se thought, a philosophical omission and lacuna of symptomatic force. It explains the whole detour that Marx was forced to take through Hegel's system of thought. Because Marx was neither aware of the concept of immanent causality in Spinoza nor produced it himself, the idea of the effectivity of structure is foun only in practical state in the complexity with which Marx depicts the social reproduction of economic relations in Capital".
   

Spinoza, o bom jogador (2)


   Aliás, continuei dando uma olhada e descobri um artigo russo - já traduzido para o Português, obviamente... caso contrário, eu não leria - sobre nosso querido filósofo. 
   Olhei rapidamente. Volto a ele depois. Por alto, dá para perceber umas coisinhas questionáveis. Mas... se alguém quiser dar uma lida, aí vai o endereço:

   É sempre bom ver nosso "bom jogador" entrando em campo. Rsss

Spinoza, o bom jogador


   Todo bom jogador é disputado pelas grandes equipes. Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar (???) e outros estão sempre na mira dos dirigentes de clube para serem contratados.
   Não é que nosso querido Spinoza também vive algo assim. Rsss. 
   Estava dando uma espiada na Introdução da versão eletrônica da Contribuição para a Crítica da Economia Política (1852), de Marx, quando vi que o holandês possui seu nome citado no texto... com um hyperlink.
    A passagem é essa:
a) Produção e Consumo
A produção é também imediatamente consumo. Duplo consumo, subjetivo e objetivo: o indivíduo que, ao produzir, está desenvolvendo as suas capacidades, está também dispendendo-as, isto é, consome-as no ato da produção, tal como na procriação natural se consomem forças vitais. Em segundo lugar: consumo dos meios de produção utilizados, os quais se desgastam e se dissolvem em parte (como na combustão, por exemplo) nos seus elementos naturais; do mesmo modo, as matérias-primas utilizadas perdem a sua forma e a sua constituição naturais: são consumidas. Portanto, em todos os seus momentos, o próprio ato da produção é também um ato de consumo. Aliás, os economistas admitem-no. Chamam consumo produtivo à produção que corresponde diretamente ao consumo e ao consumo que coincide imediatamente com a produção. Esta identidade da produção e do consumo remete para a proposição de Espinoza: determina tio est nega tio.

   Há um errinho, ali, obviamente: "determinatio est negatio". Mas, sigamos. Fiquei curioso para onde apontava o hyperlink. Fui ver e...
era para o Dicionário Político do site www.marxists.org. Vejam o que consta lá:
logotipo
  Spinoza, Baruch
foto(1633-1677): Filosofo originário de uma família de comerciantes judeus de Amsterdam, a cidade burguesa mais desenvolvida da época. Foi excluído da comunidade em consequência das duvidas que emitiu, com referencia à autenticidade dos textos sagrados Retirou-se para as vizinhanças da cidade de Haia e, depois, da própria cidade, afim de se dedicar à meditação, ganhando a vida como polidor de lentes para microscópios. Publicou, em 1670, o seu Tratado teológico-político, no qual desenvolveu seu racionalismo religioso e seu liberalismo politico. Suas outras obras só foram publicadas após sua morte. Spinoza foi o cérebro mais livre em filosofia no século XVII. Deve ser considerado como um dos antepassados do materialismo dialético. Sua obra principal é a Ética, publicada em suas obras póstumas (1677): Sua filosofia exerceu influência revolucionária, tanto na França do século XVIII como na Alemanha em fins do século XVIII e princípios do século XIX. Sobre Spinoza, consultar Karl MarxA Sagrada Família. Spinoza escreveu: Ética, 1677; Tratado político-teológico, 1670, etc

    Achei bem estranha a afirmação de que Spinoza "Deve ser considerado como um dos antepassados do materialismo dialético". De onde se tirou isso? Para mim, da vontade de todo grande time ter o craque. Rssss

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Feuerbach


    Ludwig Feuerbach (1804-1872) é um filósofo mais conhecido pela influência gerada sobre Karl Marx. Por enquanto, não pretendo mudar essa imagem. 
   No entanto, dando uma olhadinha rápida em Teses provisórias para a reforma da Filosofia (1842), que, confesso, nunca tinha lido, encontrei referências tão diretas a Spinoza, que me interessei. Uma delas, por exemplo, diz:
   "Spinoza é o verdadeiro criador da moderna filosofia especulativa; Schelling é o seu restaurador e Hegel levou-a ao pleno cumprimento".
   Não sei se, para Spinoza, é bom negócio estar citado ao lado de Hegel, nem ser dado como o "criador da moderna filosofia especulativa". 
   Talvez, pior ainda, seja  julgar que "A filosofia da identidade [que aparentemente ele atribui a Hegel] distinguiu-se da filosofia spinozista tão só por ter insuflado à coisa morta e idolente da Substância o espírito do idealismo", porque, afinal, para Spinoza, a Substância não é uma "coisa morta"... muito pelo contrário.
   De qualquer modo, queria registrar uma citação que julgo interessante de Feuerbach, que diz:
   "A verdadeira filosofia consiste não em fazer livros, mas homens".




terça-feira, 18 de junho de 2019

Spinoza, segundo Robert C. Solomon


  Adoro o livro A passion for wisdom - a very brief History of Philosophy, de Robert C. Solomon e Kathleen M. Higgins. Meu exemplar é todo rabiscado. Mas voltei a ele para dar uma refrescada em alguns personagens da História da Filosofia, aproveitando o modo agradável com que Solomon e Higgins os apresentam.
   Obviamente, vou citar o registro de Solomon a respeito de... Spinoza. Rsss. Achei bem interessante uma determinada observação dele sobre o filósofo holandês:
   "Spinoza's claims about substance, however, have far more important implications that cannot be understood in terms of metaphysical technicalities alone.
     In Spinoza's vision, there is no ultimate distinction between different individuals. [...] This means that our sense of isolation from and opposition to one another is illusion, and it also means that our sense of distance from God is mistaken. [...] Furthermore, since the One Substance has always existed and will always exist,  our own immortality is assured".
    Aliás, como sabemos, a Ética é toda construída em favor da felicidade, enquanto aumento da nossa potência de existir e agir.
   Como dizem Solomon e Higgins:
   "The book [Ética] is, in keeping with its title, a heartfelt proposal for a better way to live"... a despeito de toda sua poderosa construção metafísica.
   
 

terça-feira, 8 de maio de 2018

Aristóteles vs. Spinoza, Hobbes, Hegel e Marx


   O enfrentamento desses sujeitos do título da postagem é "briga de cachorro grande". Quem o propõe é o especialista no Estagirita, o professor Enrico Berti, no livro Perfil de Aristóteles. 
   Quando trata do conceito de razão prática, em Aristóteles, Berti explica: "[...] o seu [da razão prático-poiética] é tudo aquilo que depende do homem, da sua proposição [proaíresis] ou de algum modo da sua intervenção, ou seja, as ações e as produções humanas, a 'história' [...]. A característica de tal objeto é ser constituído pelas coisas que podem estar diferentemente de como são [ou seja, dos contingentes] [...]. Portanto, ele resulta ser [...] aquilo que poderíamos chamar o reino da liberdade. Dada a margem de indeterminação que contém, essa liberdade não permite conhecimento propriamente científico, isto é, demonstrativo, dos objetos por ela caracterizados. Isso significa que, para Aristóteles, não há conhecimento científico das ações e das produções humanas ou da 'história': em síntese, não há ética ou política dotada da mesma necessidade própria das ciências matemáticas ou físicas, como pretenderão filósofos como Spinoza e Hobbes, nem história cientificamente determinável, como pretenderão os filósofos dialéticos modernos (Hegel e Marx) ou os positivistas".

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Mais um fã?!?!


   Há bastante tempo tenho o livro A companhia dos filósofos, do filósofo Roger-Pol Droit. Contudo, só por estes dias, fazendo uma arrumação nas estantes é que resolvi dar uma folheada mais séria no livro.
   Começando pela "orelha". Lá está: "Você já encontrou algum filósofo? [...] Constatou que os filósofos não são tristes? [...] Você constatará [através do livro] que esses fabricantes de ideias, que costumam ser tidos por uns chatos consumados, são aventureiros de uma espécie curiosa, experimentadores de existência. [...] Eles lhe mostram que pensar, viver e rir são atividades semelhantes. De Sócrates e Platão a Foucault e Deleuze, você vai ver que o exercício da filosofia luta apenas contra dois inimigos: a tolice e a tristeza".
   Prognóstico positivo de uma boa leitura. Fui direto para onde? Capítulo VI - Razão Clássica - Descartes e Spinoza. E... acho que descobri alguém mais entusiasmado com Spinoza do que eu. Vejamos o que Roger-Pol Droit fala da Ética, do Spinoza:
   "Livro-universo
    A Ética pertence ao pequeno número dos livros-universos. Muitos filósofos sonharam encerrar o mundo numa só análise, como explicar até mesmo suas zonas de sombra. Poucas obras dão a sensação de perfeição definitiva que emana dessa obra. Nenhuma, sem dúvida, conserva tão fortemente uma força de agir sobre nossas vidas. De fato, sua finalidade não é saber por saber. Graças ao conhecimento, trata-se de limpar o humano, em espírito e em corpo, das suas angústias insensatas, das suas cegueiras fanáticas, de todos os males gerados pelas ilusões ligadas à sua ignorância. A chave do mundo também é a chave da felicidade. A razão tem por missão governar a vida, cotidianamente. O saber pode levar à salvação. Desvendar os verdadeiros princípios, tirar retamente deles as justas consequências não é, aqui, uma contribuição limitada a um trabalho científico sem fim. É a via de acesso à beatitude infinita da sabedoria".
   Isso já disse muito. Mas Droit vai mais longe:
   "[...] convém ler e reler a Ética [...] tratado matemático que tem nossos sentimentos por objeto e que transforma em libertação o mais total determinismo".
   Em mais uma bela passagem, Droit explica:
   "[...]ao preconceito corrente segundo o qual cremos desejar o que é belo e bom, Spinoza opõe a ideia de que julgamos belo e bom aquilo para o que nosso desejo nos inclina. [...] somente o desejo julga e comanda. Positivo, construtor e motor, o desejo já não é uma parte maldita a ser refreada sob a autoridade da razão. A vida do sábio não é ascética. Ela é automodificação do desejo que sabe preferir, graças à compreensão racional, o que é mais proveitoso à sua expansão real".
   E, por fim:
   "A sabedoria de Spinoza é sem transcendência e sem mortificação. Essa alegria [...] é inimiga de toda e qualquer forma de tristeza, de diminuição ou de dilaceramento de si. Não se escapa do mundo pela salvação. Ao contrário, o ser humano se torna tão plenamente vivo que já não resta nenhum lugar para a ilusão dos transmundos".
   Eu queria ter escrito isso... Inveja branca... Rsss

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Leandro Karnal (2)


   Sabemos que Karnal é historiador, por formação. Contudo, é um homem ilustrado, com conhecimentos de várias áreas do saber.  
   Mas... no texto que trata sobre a velhice, ele dá uma "escorregada". E justamente com nosso querido Spinoza.
   Karnal diz: "[...]como queria Espinosa, sou o meu corpo. Não existem duas instâncias separadas, mas uma só. Meu corpo não contém o meu ser, ele é o que sou".
   Realmente, para Spinoza, o ser é uma coisa só, que pode ser percebida sob dois aspectos - um material e outro imaterial. Mas... dizer "sou o meu corpo" soaria materialista demais para Spinoza. Afinal, se há somente uma "coisa", eu poderia dizer "sou a minha mente". Mas isto é falacioso. Qualquer redução do ser a uma única "instância", como usa Karnal, seria confundir o nível da nossa percepção do ser com o da própria existência do ser.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Spinoza na Folha


   Vladimir Safatle, colunista da Folha de S. Paulo, escreveu o artigo "Existem realmente paixões tristes?", em 23/06/17. O título logo chamou minha atenção, por lembrar a teoria dos afetos de Spinoza. Mas não achei que se tratasse desse assunto. Só que era!?!? Legal!
   Vamos, então, ao que o filósofo Safatle escreveu. 
   Diz ele que algumas dicotomias atravessam o tempo, sendo uma destas a que diz respeito às paixões tristes e paixões alegres, do filósofo holandês. 
   Tecnicamente, há um pequeno problema no texto, quando Safatle fala de a liberdade estar ligada "à força afirmativa das paixões alegres" - já que sabemos que são os afetos ativos, e não os passivos (paixões), que garantiriam a liberdade. Mas isto é plenamente desculpável, pois, como indica o próprio Safatle, ele não quer "fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal". Basta, para uma aproximação geral, dizer que por "paixões tristes e alegres", Safatle entende "tristeza e alegria".
   Safatle indica que "gostaria de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos". 
   Considerando apenas aquela ideia geral de "tristeza e alegria", que coloquei, Safatle explica que "paixões tristes diminuem nossa potência de agir, [e] paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir".
   Em sua análise, Safatle explica que, com a tentativa de negar a existência dicotômica das paixões, o homem acaba por esperar emudecer as paixões tristes, numa "luta desesperada em apegar-se compulsivamente a uma afirmação cristalina e sem sombras".
   O caminho que Safatle percorre, dizendo que esta luta "corre o risco de acabar por alimentar a visão capitalista da felicidade como conformação estoica ao que acontece", não me parece o melhor. A filosofia estoica propõe algo mais profundo do que a simples "conformação ao que acontece", embora haja uma dimensão de reconhecimento do sábio quanto à imutabilidade de certas situações. Mas há um exercício ativo constante para a conquista da sabedoria e da felicidade.
   Eu diria que valeu à pena ver Spinoza frequentar a Folha de S. Paulo, mas que o desdobramento de seu pensamento ficou um pouco "truncado".

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O Spinoza de Bertrand Russell


   Tenho o volume III de uma coleção antiga do Bertrand Russell em que ele trata de Spinoza. O texto está todo marcado, mas teria que relê-lo para lembrar exatamente como o filósofo inglês apresenta seu amigo holandês. Prometo fazer isso em breve, e comentar aqui. Ultrapassadas as leituras obrigatórias da professora Marilena Chauí, este foi um texto de referência lido por mim... mas lá se vão anos.
   Contudo, o post de hoje tem a ver com outro texto de Russell, o "The elements of Ethics", que se encontra no livro Philosophical Essays. 
   Neste texto, em dado momento, Russell se propõe a analisar a questão do mundo ser completamente bom... ou, pelo menos, de alguns assim o considerarem. Diz ele, então:
   "The belief that the world is wholly good has, nevertheless, been widely held. It has been held either because, as a part of revealed religion, the world has been supposed created by a good and omnipotent God, or because, on metaphysical grounds, it was thought possible to prove that the sum-total of existent things must be good."
   Russell indica que não tratará do aspecto teológico da questão. Sem problema. Afinal, não seria essa a análise que a mim interessaria. Prossegue, então, um pouco mais adiante:
   "As a mattter of fact, those who have endeavoured to prove that the world as a whole is good have usually adopted the view that all evil consists wholly in the absence of something and that nothing positive is evil. This they have usually supported by defining 'good' as meaning the same as 'real'."
   É curioso como essa discussão remete claramente ao filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Quem não lembra do "melhor dos mundos possíveis"? Mas existe uma diferença: Leibniz indicava que este mundo não é completamente bom, mas que, numa reunião daquilo que é bom com o que é mau, a harmonia favorável seria a que efetivamente se materializa. Portanto, não é dele a posição que Russell indica como daqueles que usualmente o fazem definindo "bom" como significando o mesmo que "real".
   Eu só lembrei isso porque Russell tem um livro específico sobre a filosofia leibniziana. 
   Note-se, também, que há uma pequena diferença técnica entre "the world is wholly good" e "the world as a whole is good". A mim parece que a primeira se coaduna com o que Russell quer dar a entender como a pura negatividade do mal, mas que a segunda forma diz respeito mais à posição leibniziana de que o todo, isto é, retirado o foco sobre cada parte - a qual pode até ser individualmente má -, sempre será bom.
     Mas voltemos à discussão principal.
   Então, segundo Russell, a forma mais usual de afirmar que o mundo é completamente bom consiste em identificar "bom" e "real". Que seja. O problema vem com o que o filósofo inglês indica depois:
   "Spinoza says: 'By reality and perfection I mean the same thing'; and hence it follows [...] that the real is perfect". 
    Eu falo em "problema" não tanto pelo que Spinoza diz, mas pelo que Russell depreende da fala do holandês. Vejamos...
    Spinoza não diz, em momento algum, que sua definição de perfeição é a mesma de bom. Aliás, o filósofo holandês começa explicando a etimologia de "perfeito" - que quer dizer apenas "feito até o fim". Imaginemos, por exemplo, que uma casa é construída de cabeça para baixo. Se o plano do arquiteto - seja lá por quais motivos - era justamente produzir uma casa de ponta-cabeça, ao final desta loucura, a casa se dirá perfeita. Contudo, é usual estabelecermos - ainda que imaginativamente - um "modelo" universal a ser seguido e tentar identificar se o objeto de estudo se encaixa neste padrão, o que, não ocorrendo, dá ensejo a que falemos em "imperfeição" da coisa. 
   Spinoza lembra ainda que temos uma tendência a tentar identificar esses modelos - que seriam uma espécie de "projeto" - mesmo para as coisas naturais, a respeito das quais, em realidade, não temos como vislumbrar um "projeto" estabelecido por um designer.   
   Explicado isto, devemos, sim, reconhecer que Spinoza identifica "realidade" e "perfeição", como Russell indica em seu texto. Contudo, visto que não há aquele "modelo ideal" a ser seguido, o holandês simplesmente quer dizer que aquilo que existe, ou seja, o "real" está feito completamente, isto é, está perfeito. Mas... isto não quer dizer, em absoluto, que esteja "bem feito"... ou, mais ainda, que seja "bom".
   O "bom", segundo Spinoza, é o que é "verdadeiramente útil". Envolve, portanto, algum grau de subjetividade - ainda que essa possa não corresponder à de um indivíduo. Eu diria, reunindo todas as correlações de Spinoza, que "bom" é o que tem a capacidade de nos fazer verdadeiramente felizes... embora para conhecer aquilo que efetivamente nos faça felizes, tenhamos que nos deslocar rumo à sabedoria.
   Deste modo, resta-nos reconhecer que mesmo uma "fera" da Filosofia pode, talvez por açodamento, embaralhar as coisas, e se enganar em algumas de suas afirmações.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Demagogia


   O Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, registra neste vocábulo a seguinte definição:
   "A Demagogia não propriamente uma forma de Governo e não constitui um regime político, é, porém, uma praxe política que se apoia na base das massas, secundando e estimulando suas aspirações irracionais e elementares, desviando-a da sua real e consciente participação ativa na vida política. Este processo desenvolve-se mediante fáceis promessas impossíveis de ser mantidas, que tendem a indicar como os interesses corporativos da massa popular ou da parte mais forte e preponderante dela coincidem fora de toda lógica de bom Governo, com os da comunidade nacional, tomada em seu conjunto.
    [...] Na história das doutrinas políticas se faz necessário remontar a Aristóteles, que primeiro individualizou e definiu a Demagogia indicando-a como aquela prática corrupta ou degenerada da Politeia, pela qual se chega a instituir um governo despótico das classes inferiores ou de muitos que governam em nome da multidão (Política, IV, 5, 1292 a)".
    Em primeiro lugar, sendo sinceros, temos que indicar que o termo a que os autores se referem com sendo aristotélico, "demagogia", não é o que o filósofo grego usa. Ele, em realidade, usa "democracia". Podemos até concordar que, o termo vai ganhando ares diferentes com o passar dos anos, e que o conceito aristotélico, do modo que está registrado, poderia contaminar o entendimento - positivo - atual, com a visão de algo degenerado, como é o caso no Estagirita. Por esse motivo, valeria à pena substituir o "democracia", original, pelo "demagogia", conforme vemos. Que seja... o mais importante, contudo, é perceber como se dá esse tipo de "praxe política".
   Vemos que o que se faz é estimular as "aspirações irracionais" da "massa", "desviando-a da sua real e consciente participação ativa na vida política". O que está dito não é outra coisa que aquilo que Spinoza indica como sendo a manipulação dos afetos passivos, as paixões - no sentido técnico do termo -, diminuindo a capacidade de o ser humano direcionar-se para o que efetivamente lhe faz bem. Os desejos de honra, riquezas e prazeres sensuais tomam a liderança na motivação das ações. Este tipo de homem faz parte do "vulgo", afastando-se do sábio, que escolhe o que verdadeiramente lhe faz bem, e também à sua comunidade, que é uma espécie de macroindivíduo.
   Por último, vale ressaltar como vemos essa prática política grassando em nosso país.

terça-feira, 23 de junho de 2015

"O livro mais polêmico do ano"


   O título do post é uma referência feita ao livro Submissão, de Michel Houellebecq, publicado no Brasil pela Editora Alfaguara.
   Não sou leitor frequente de romances, mas, vez por outra, sou "pescado" por algum, normalmente por conta de alguma relação com a História, ou seja, romances históricos, montados sobre a vida de alguma personagem real. Neste caso, contudo, a coisa foi um pouco diferente. Estava eu para ler Herege, de Ayaan Hirsi Ali, cujo tema, já comentei em outro post, é o Islã, quando, no blog do amigo Gustavo, vi uma referência ao livro. Fiquei curioso. E como o tema era, de certa forma, também o Islã, interessei-me.
   A orelha do livro conta a ideia do texto:
   "François é um professor universitário que leva uma vida solitária. [...] Num futuro próximo, ele acompanha pela TV desdobramentos dramáticos, que prometem mudar o panorama político e social da França. Pela primeira vez na história do país, o segundo turno das eleições presidenciais é disputado pelo partido de extrema direita e pela chamada Fraternidade Muçulmana. Os políticos moderados, tanto de direita quanto de esquerda, decidem apoiar o candidato islâmico - o aparentemente moderado Mohammed Ben Abbes -, e esse é o momento decisivo na vida não só de François como na de milhões de cidadãos franceses. [...] [O texto de Michel Houellebecq] é provocador, irônico, mas é também carregado de questionamentos sobre uma civilização em crise."
   Na contracapa do livro há uma referência ainda mais valorosa para o texto: 
   "Comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Submissão é uma sátira precisa e devastadora, sobre os valores da nossa sociedade. É um dos livros mais impactantes da literatura atual."
   Em que pese algum exagero midiático e marketeiro, o livro é realmente bom. Sua leitura flui bem e atrai o leitor, fixando-o ao texto. Eu li as quase 250 páginas entre a quinta-feira e o domingo passados, sem dificuldades. 
    Dito isto, que não é nenhuma propaganda do livro, queria destacar algumas passagens curiosas. Não são muitas, mas, neste post, colocarei apenas uma... só para vocês perceberem como Spinoza me persegue. Rssss.
   Não é que a personagem principal, comentando um texto produzido para defender a universalização do Islã evoca pejorativamente nosso querido Spinoza? Diz ele: "Mas o essencial do artigo era uma curiosa meditação, não desprovida de uma espécie de kitsch SPINOZIANO, com escólios e toda essa lenga-lenga, em torno da teoria dos grafos". (Grifo meu)
    Precisava falar mal do Spinoza? "kitsch" e "lenga-lenga"? Que falta de respeito. Eu deveria ter parado de ler aí... mas só faltavam vinte páginas. Preferi ir até o final. Rsss.
   

terça-feira, 26 de maio de 2015

Laranja Mecânica


   Ao ouvir a expressão "Laranja Mecânica" é quase natural lembrar de Stanley Kubrick e do filme produzido por ele. Só que, como sabemos, Kubrick fez uma adaptação para os cinemas do livro, de mesmo nome, escrito por Anthony Burgess, em 1961.
   Num de meus aniversários, recebi de presente de uma querida amiga - que, aliás, é a protagonista do meu interesse pela Filosofia -, a Sandra, a edição comemorativa do livro. Ele é encadernado com capa dura e tem várias páginas de conteúdo extra, com artigos do próprio Burgess e até cópias de páginas originais datilografadas, com anotações pela mão do autor.
   Novamente, no período sabático, era a hora de ler o livro. E foi o que fiz. Por enquanto, ainda faltam os conteúdos extras.
    A estória, para quem não lembra, é a do jovem Alex - um encrenqueiro de marca maior, como tantos outros jovens do ambiente do livro - que é submetido a um tratamento inovador, que consta de "reforços negativos para a ação", numa linguagem de B. F. Skinner, teórico do behaviourismo. Este tratamento dá "certo", pelo menos no que concerne à violência do garoto. Contudo, há certos "problemas" que aparecem posteriormente, os quais serão utilizados politicamente, e que acabam por tornar importante fazer com que o comportamento do jovem volte a ser aquele de antes, tornando-o novamente aquele reprovável rapaz violento e "imoral".
   Há um epílogo no livro - que não aparece no filme e nem na versão americana do texto - que mostra Alex "crescendo", e se pensando em se afastar da vida violenta, retomada após o desfazimento do processo de modificação comportamental.
   O livro é realmente ótimo. Valeu a pena a leitura. Mas o mais curioso foi algo que li nos conteúdos extras - coisa que minha amiga não sabia quando me deu o livro.
   Burgess discute a questão da submissão a um certo nível de "padronização" ser reconfortante. Ele diz algo assim: "Existe algo em nossa natureza gregária que faz com que desejemos nos submeter. Até mesmo os rebeldes anticonformistas encontram suas próprias conformidades: o 'uniforme' de cabelo longo, barba, calças de algodão trançado, miçangas e amuletos, por exemplo, e o invariável gosto por maconha e músicas de protesto tocadas no violão". Contudo, o mais engraçado mesmo é algo que vem um pouco antes: "Talvez exista algo de positivo na submissão social, considerando que a vida dos trabalhadores tem muito pouco espaço para o individualismo: é doloroso ser um especialista em Spinoza à noite e um operário durante o dia".
   Eu me sinto um pouco "um especialista em Spinoza à noite e um operário durante o dia". Rssss.

Steven Nadler e o TTP


   Steven Nadler é autor de A book forged in the Hell, que já tem tradução no Brasil. Desta vez, ninguém inventou, e o título em Português é Um livro forjado no Inferno, ou seja, o equivalente exato do original Inglês.
   O livro já está na minha biblioteca há algum tempo, mas sempre foi ficando para ser lido em um momento mais adequado. E qual o momento mais adequado do que um período sabático? Ou seja, agora. Rsss.
   Por enquanto, só quero registrar que o livro já foi lido. No máximo, acrescentar a observação de que Nadler é um gênio desse tipo de escrita: ele consegue tratar um tema histórico sem deixar de fazer uma análise filosófica. Quero lembrar que ele é também o autor do fantástico Spinoza -  A Life.

domingo, 17 de maio de 2015

Le fatalisme vs. The necessitarianism


   Apesar de minha ênfase, agora, ser a Filosofia Política, não posso deixar de continuar estudando alguns assuntos que me encantam, como a natureza, a liberdade e a felicidade humanas. 
  No caso específico da liberdade, Spinoza tem concepções bastante interessantes - a bem da verdade, não é só em relação à liberdade, mas esse é um conceito spinozano que me preocupa muito, em função principalmente do meu campo de estudo, a Ética.
   Um aspecto que sempre tem que ser discutido quando se trata da ética spinozana é o "necessitarismo". Quem se debruça sobre o mundo francófono do mundo spinozano, normalmente descarta essa questão como meramente anglófona. Contudo, eles esquecem que há uma discussão semelhante no mundo francês, que responde pelo título de "le fatalisme". 
   Esse paralelo entre "fatalisme" e "necessitarianism" será algo a que me dedicarei nos próximos tempos.
   Isso... sem esquecer o meu período sabático. Rssss.

terça-feira, 12 de maio de 2015

A Política de Spinoza (2)


   Voltando ao livro Modelos de Filosofia Política, mais especificamente ao capítulo onde encontramos o item tratando do pensamento de Spinoza.
   O texto faz referência a duas diferenças entre as concepções do "Contrato social" em Spinoza e em Hobbes.
   "Ao passo que Hobbes preferia a forma monárquica, Spinoza defende com grande força que a melhor forma de governo é a democrática. Com efeito, na democracia, o direito do qual cada um gozava no estado de natureza não é transferido a um indivíduo particular (o monarca ou o soberano) mas à coletividade de todos aqueles que subscreveram o pacto social. [...] Mas há também outro aspecto pelo qual a concepção de Spinoza se distingue muito claramente, e criticamente da de Hobbes. O pacto social, uma vez subscrito, não é, na perspectiva spinoziana, absolutamente irrevogável. [...] [S]e a sociedade não atua aquela utilidade comum que é a verdadeira razão do pacto, ele não tem mais nenhum motivo de existir e, portanto, pode ser anulado e destruído".
    Além disso, de acordo com Spinoza, não é possível transferir todos os direitos. A liberdade de pensamento, por exemplo, não é algo de que se possa abrir mão, a não ser recusando a própria humanidade.
   Talvez Spinoza devesse dizer que "a liberdade de pensamento não é algo de que se DEVA abrir mão". Isto porque vemos as diversas ideologias tomando para si o direito de "pensar" pelos seus diversos "seguidores", e estes até se orgulharem do seu pertencimento a grupos dessa natureza. Teriam aberto mão de sua humanidade, esses indivíduos? É... pensando melhor, talvez sim.