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terça-feira, 23 de junho de 2015

"O livro mais polêmico do ano"


   O título do post é uma referência feita ao livro Submissão, de Michel Houellebecq, publicado no Brasil pela Editora Alfaguara.
   Não sou leitor frequente de romances, mas, vez por outra, sou "pescado" por algum, normalmente por conta de alguma relação com a História, ou seja, romances históricos, montados sobre a vida de alguma personagem real. Neste caso, contudo, a coisa foi um pouco diferente. Estava eu para ler Herege, de Ayaan Hirsi Ali, cujo tema, já comentei em outro post, é o Islã, quando, no blog do amigo Gustavo, vi uma referência ao livro. Fiquei curioso. E como o tema era, de certa forma, também o Islã, interessei-me.
   A orelha do livro conta a ideia do texto:
   "François é um professor universitário que leva uma vida solitária. [...] Num futuro próximo, ele acompanha pela TV desdobramentos dramáticos, que prometem mudar o panorama político e social da França. Pela primeira vez na história do país, o segundo turno das eleições presidenciais é disputado pelo partido de extrema direita e pela chamada Fraternidade Muçulmana. Os políticos moderados, tanto de direita quanto de esquerda, decidem apoiar o candidato islâmico - o aparentemente moderado Mohammed Ben Abbes -, e esse é o momento decisivo na vida não só de François como na de milhões de cidadãos franceses. [...] [O texto de Michel Houellebecq] é provocador, irônico, mas é também carregado de questionamentos sobre uma civilização em crise."
   Na contracapa do livro há uma referência ainda mais valorosa para o texto: 
   "Comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Submissão é uma sátira precisa e devastadora, sobre os valores da nossa sociedade. É um dos livros mais impactantes da literatura atual."
   Em que pese algum exagero midiático e marketeiro, o livro é realmente bom. Sua leitura flui bem e atrai o leitor, fixando-o ao texto. Eu li as quase 250 páginas entre a quinta-feira e o domingo passados, sem dificuldades. 
    Dito isto, que não é nenhuma propaganda do livro, queria destacar algumas passagens curiosas. Não são muitas, mas, neste post, colocarei apenas uma... só para vocês perceberem como Spinoza me persegue. Rssss.
   Não é que a personagem principal, comentando um texto produzido para defender a universalização do Islã evoca pejorativamente nosso querido Spinoza? Diz ele: "Mas o essencial do artigo era uma curiosa meditação, não desprovida de uma espécie de kitsch SPINOZIANO, com escólios e toda essa lenga-lenga, em torno da teoria dos grafos". (Grifo meu)
    Precisava falar mal do Spinoza? "kitsch" e "lenga-lenga"? Que falta de respeito. Eu deveria ter parado de ler aí... mas só faltavam vinte páginas. Preferi ir até o final. Rsss.
   

sábado, 13 de junho de 2015

Islamofobia????


   Dia desses, um dos amigos aqui do blog postou um comentário indicando que os atentados e violências dos movimentos fundamentalistas islâmicos continuam, apesar da desaprovação dos muçulmanos mais "conscientes", digamos assim. E sugeria que não via saída para isso, pelo menos a curto prazo. 
   Concordei com sua análise, e opinei que só haveria solução se, além da simples repreensão, os fundamentalistas fossem excomungados do Islã, tendo em vista a ideia de que compreendem mal as orientações da sua religião. 
   Mas... lendo a entrevista com a escritora e ativista somali Ayaan Hirsi Ali, pensei que o problema pode ser um pouco mais sério.
   Segundo ela, "Somos [os muçulmanos] ensinados que a violência por causa de Alá é obrigação. Se você ler o material de segurança e de propaganda do Estado Islâmico, o que se vê constantemente são referências ao profeta Maomé e ao Alcorão. Quando se pergunta sobre violência, os extremistas dizem que não estão inventando essas coisas. Que o profeta fazia o mesmo. Ele também decapitou, ele também escravizou mulheres. Eles argumentam que estão fazendo justamente o que o profeta ordenou".
   Perguntada sobre a necessidade de uma reforma no Islã, ela indicou quais seriam os principais pontos da mesma: "O primeiro é atitude. Muitos muçulmanos acham que têm de agir exatamente como está escrito no Alcorão e seguindo os passos de Maomé. A reverência incondicional ao profeta e ao livro é um problema. O segundo é a narrativa da vida após a morte. O Islã é obcecado como a ideia de se preparar para a morte. A morte é o objetivo. Outra mudança seria na sharia, que regula absolutamente tudo no mundo islâmico. Por último, a jihad, que significa guerra santa, deveria ser substituída por guerra de paz".
   Depois, inquirida sobre a possibilidade destas mudanças ocorrerem em breve, a ativista diz: "Sou muito otimista e acho que vai acontecer, só não sei se isso ocorrerá enquanto eu estiver viva".
   Segundo ela, as lideranças devem encorajar a reforma, "confrontando a ideologia radical".
   Embora eu ainda não ache que a religião islâmica, em si, seja o problema - devemos lembrar, por exemplo, que o Antigo Testamento também revela um banho de sangue para com os adversários do povo judeu -, acho muito difícil frear os fundamentalistas, principalmente por causa do posicionamento frouxo em relação à última colocação de Ayaan, ou seja, ao confronto esclarecedor com a ideologia radical. Não sei se isso é por simples acomodação ou por medo, mesmo, dos mais razoáveis serem tidos como infiéis por grande parte dos muçulmanos.
   Por último, vale citar que a escritora teve seu Herege publicado no Brasil, e que devemos manter sempre em mente, diante de suas opiniões, que ela é acusada, por alguns muçulmanos, de ser "islamofóbica".

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Maomé... o inovador


   Todos sabemos que Maomé criou uma nova religião, e, neste sentido, já é um inovador. Porém, ao lermos a revista Super Interessante deste mês de fevereiro, iremos saber que ele foi um inovador em sentido muito mais amplo... e, arrisco-me a dizer, até mais interessante.
   O autor do texto "Maomé - A face oculta do criador do Islã" é Alexandre Versignassi. Escreveu de forma bastante informativa, mas leve... e até divertida, por vezes. Vejamos uma prova desta última parte da frase: "Uma de suas primeiras medidas no campo das coisas práticas foi baixar a Selic. [...] Então ele criou um BNDES em Medina".
   Como Spinoza diz, a religião tem uma função política nos grupos. O texto mostra como Maomé formou "uma tribo [a Ummah] que não era unida por laços de sangue, mas por uma ideologia". E esta comunidade gozava de privilégios, como, por exemplo, empréstimos a juro zero para os seus afiliados. Além dessa medida financeira, outra, que dizia respeito à quebra do monopólio do controle do comércio, em Meca, pela poderosa tribo dos Quraysh, foi instaurada, com a criação de uma feira que não cobrava taxas, como todas as que existiam fornecendo dinheiro àquela megatribo, o que resultou numa queda geral de preços. 
   Outra medida citada na reportagem é a concessão às mulheres da Ummah do direito de herdarem propriedades, "pela primeira vez na história das Arábias".
   Uma espécie de "Bolsa Família" foi outra novidade. Os membros da Ummah pagavam um imposto de acordo com suas posses, o zakat, que também abastecia os seguidores mais pobres.
   Mesmo a biografia de Maomé tem fatos inovadores. Sua primeira esposa, por exemplo, quinze anos mais velha que o profeta, foi Khadija, uma mulher emancipada - ao contrário do costume da época - dona de caravanas extremamente lucrativas.
   Como eu disse, além dessas informações extraordinárias, a matéria traz a história da nova religião e de seu criador.
    Em suma, superinteressante!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Paul Johnson


   O historiador Paul Johnson tem opiniões polêmicas, como a de que os estilistas, por serem, segundo ele, em sua maior parte homossexuais, criam roupas que transformam as mulheres em "macacas", ou ainda a de que Picasso não tem nenhum valor.
   Sem entrar no mérito das opiniões acima, gostaria de comentar uma outra. Segundo ele, o Islã, ao contrário do catolicismo e do judaísmo, permanece "uma religião de feições medievais". Apesar de não achar possível falar do islamismo em geral, o fato é que a morte do piloto jordaniano Muath al-Kasaesbeh, queimado vivo, tem realmente notas das fogueiras da Santa Inquisição do cristianismo da Idade Média.
   Não é estranho imaginar que uma religião surgida somente no século VII esteja "atrasada", cronologicamente falando, em relação às outras. Contudo, temos que recordar que o islamismo contou com grandes pensadores já no medievo cristão, o que poderia garantir a esta religião, na verdade, um avanço doutrinário e prático em relação às demais. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"Carta aberta ao mundo muçulmano"


   O título do post não se refere a uma carta escrita por mim, mas de autoria do filósofo francês, de família convertida ao islamismo, Abdennour Bidar.
   Segundo o autor da carta, não basta que os muçulmanos digam, sobre os atentados, "Isto não é o Islã" ou "Não em meu nome". Eles têm que fazer mais: reconhecer que "esse monstro nasceu do Islã".
   A íntegra da carta segue abaixo - conforme a tradução do site "Comunidade brasileira na França":

"Caro mundo muçulmano, sou um de teus filhos distantes que te vê do lado de fora e de longe, na França, onde tantos dos teus filhos vivem hoje. Te vejo com meus olhos severos de filósofo, abastecido desde a infância pelotaçawwuf(sufismo) e pela mentalidade ocidental. Logo, te vejo à partir da minha posição de barzakh, do istmo entre os dois mares do oriente e do  ocidente!
E o que é que vejo ? O que é que vejo melhor do que outros, justamente por que vejo de longe, com o recuo da distancia ? Te vejo num estado de miséria e sofrimento que me deixam infinitamente triste, mas que torna ainda mais severo o meu julgamento de filósofo ! Pois te vejo parindo um monstro que se pretende nomear  “Estado Islâmico”, o qual alguns preferem nomear de demonio : DAESH. Mas o pior é que te vejo se perder – perder teu tempo e tua honra – na recusa de reconhecer que o monstro nasceu de você, das tuas erranças, das tuas contradições, da tua defasagem interminavel entre o passado e presente, da tua incapacidade tão duravel de encontrar teu lugar na civilização humana.
O que você diz face a esse monstro ? Qual é o teu discurso ? Você grita “não fui eu !”, “Isso não é o Islã !”.  Você recusa que os crimes desse monstro sejam cometidos em teu nome (hashtag #NotInMyName). Você se indigna diante de tal monstruosidade, se insurge também se o monstro usurpa a tua identidade e é claro, tem razão de fazê-lo.
É indispensavel que diante do mundo você proclame alto e forte também, que o islã denuncie essa barbárie. Mas não é suficiente ! Pois você se refugia no reflexo de auto defesa sem assumir também, e sobretudo, a responsabilidade da auto crítica. Você se contenta em se indignar, no entanto esse momento histórico teria sido uma formidavel ocasião para você se questionar! E como sempre, você acusa em vêz de tomar sua própria responsabilidade : « Parem ocidentais e vocês todos os inimigos do islã de nos associar a esse monstro !  O terrorismo não é o islã, o verdadeiro islã, o bom islã que não quer dizer guerra e sim paz !
Eu escuto esse grito de revolta que se eleva em você, oh meu caro mundo muçulmano e eu o compreendo. Sim, você tem razão, como cada uma das grandes inspirações sagradas do mundo islâmico tem criado em toda sua história, a  beleza, a justiça, o sentido, o bem, e tem poderosamente iluminado o ser humano no caminho do mistério da existencia… Eu luto aqui, no ocidente, em cada um dos meus livros, para que essa sabedoria do islã e de todas as religiões não seja esquecida nem desprezada ! Mas da minha posição distante, eu vejo também outra coisa –  que você não sabe ver ou que você não quer ver… E isso inspira a minha questão. A grande questão : porque esse monstro roubou o teu rosto ? Porque esse monstro ignobil escolheu o teu rosto e não outro ? Por que pegou a máscara do islã e não outra ? É por que na verdade atras dessa imagem do monstro se esconde um imenso problema, que você não parece estar pronto a ver de frente. No entanto é preciso, é preciso que você tenha coragem.
De onde vem os crimes desse tal « Estado Islâmico » ? Eu vou te dizer, meu amigo. E isso não vai te agradar, mas é meu dever de filósofo. As raizes desse mal que te rouba a face hoje, estão em você mesmo, o monstro saiu do teu proprio ventre, o câncer está no teu proprio corpo. E de teu ventre doente, sairão novos monstros no futuro – piores ainda que esses – quanto mais tempo você se recusar a encarar essa verdade, quanto mais tempo você tardar a admitir e a atacar enfim, essa raiz do mal ! 
Mesmo os intelectuais ocidentais, quando digo isso, tem dificuldade em enxergar: a maioria esqueceu o que é a potência de uma religião – pro bem e pro mal, na vida e na morte –  me diz « não, o problema do mundo muçulmano não é o islã, não é a religião, é a politica, a história, a economia, etc ». Vivem em sociedades tão seculares que não se lembram mais que a religião pode ser o coração do reator de uma civilização humana ! E que o futuro da humanidade passará não somente pela resolução da crise financeira e econômica, mas de modo bem mais essencial pela resolução da crise espiritual sem precedentes, que atravessa nossa humanidade inteira !
Saberemos nos juntar em escala planetária para enfrentar esse desafio fundamental ? A natureza espiritual do homem tem horror ao vazio, e se não encontra nada de novo para preenchê-la, ela o fará amanhã com religiões cada vêz menos adaptadas ao presente – e como o islã atualmente, se meterão a produzir monstros.
Vejo em você, oh mundo muçulmano, forças imensas prontas para se levantarem para contribuir com o esforço mundial de encontrar uma vida espiritual para o século XXI! Há em você, apesar da gravidade da sua doença, apesar da extensão das sombras do obscurantismo com que querem te cobrir inteiramente, uma imensidão extraordinária de mulheres e homens que estão prontos a reformar o islã, a reinventar sua vocação além de suas formas históricas e a participar também da renovação completa da relação que a humanidade mantinha até aqui com seus deuses ! É a todos esses, muçulmanos e não muçulmanos, que sonham juntos uma revolução espiritual, que me dirigi em meus livros ! Para dar à eles, com minhas palavras de filósofo, confiança no que entrevê suas esperanças!
Existe na Oumma (comunidade de muçulmanos) dessas mulheres e homens de progresso, que carregam neles a visão do futuro espiritual do ser humano. Mais eles ainda não são bastante numerosos e suas vozes ainda não são bastante potentes. Todos esses, a quem saúdo a lucidez e a coragem, observaram perfeitamente o estado geral da doença profunda do mundo muçulmano, que explica o nascimento de monstros terroristas sob os nomes de Al Qaida, Al Nostra, AQMI ou de «Estado Islâmico». Eles compreenderam que não são esses os sintomas mais graves e mais visíveis no imenso corpo doente, onde as doenças crônicas são as seguintes : Impotência em instituir democracias duraveis nas quais são reconhecidas como direito moral e político, a liberdade de pensamento perante os dogmas da religião; prisão moral e social de uma religião dogmática, paralisada e às vezes totalitária; dificuldades crônicas em melhorar as condições das mulheres na direção da igualdade, responsabilidade e da liberdade; impotência em separar suficientemente o poder político, do controle da religião; incapacidade em instituir respeito, tolerancia e um verdadeiro reconhecimento do pluralismo religioso e das minorias religiosas.
Tudo isso seria culpa do ocidente ? Quanto tempo precioso, anos cruciais, você  ainda vai continuar perdendo, oh caro mundo muçulmano, com sua estúpida acusação que nem mesmo você acredita mais, na qual você se esconde para continuar mentindo à você mesmo ? Se te critico assim duramente, não é porque sou um filósofo ocidental, mas porque sou um de teus filhos, conscientes de que você perdeu a grandeza há tanto tempo, que ela se transformou em mito !
É tempo de confessar que desde o século XVIII (particularmente), você foi incapaz de responder aos desafios do Ocidente. Ou você se refugiou de modo infantil e mortífero no passado, com a regressão intolerante e obscurantista do wahhabisme que continua a fazer  desastres em quase todas as fronteiras  – um wahhabisme que você derrama de lá dos teus lugares sagrados da Arabia Saudita como um câncer que partiria do teu proprio coração ! Ou você seguiu o pior do ocidente, produzindo com ele os nacionalistas e um modernismo que é a caricatura da modernidade –  quero dizer do frenesi do consumo, ou do desenvolvimento tecnológico sem coerência com seu arcaismo religioso que faz das tuas « elites » riquissimas do Golfo somente vitimas coniventes dessa doença atualmente mundial que é o culto ao Deus dinheiro.
Que tem você de admiravel hoje, meu amigo ? O que em você continua digno de suscitar o respeito e a admiração dos outros povos e civilizações da Terra ? Onde estão teus sábios ? Você ainda tem sabedoria a propor ao mundo ? Onde estão teus grandes homens, quem são teus Mandela, Gandhi,  Aung San Suu Kyi ? Onde estão teus grandes pensadores ? Teus intelectuais cujos livros deveriam estar sendo lidos no mundo inteiro, como no tempo onde teus matemáticos e filósofos  árabes eram referência, da India à Espanha ? Na verdade, você se tornou tão fraco, tão impotente por tras dessa certeza que sempre demonstra à respeito de você mesmo… Você não sabe mais quem é e onde vai e isso o torna tão infeliz quanto agressivo…
Você se obstina a não escutar os que te chamam para a mudança a fim de te liberar da dominação que você ofereceu à religião durante toda a vida. Você escolheu que Mohammed era profeta e rei. Voce escolheu definir o islã como religião política, social, moral, reinando como um tirano tanto quanto o Estado na vida civil, tanto nas ruas quanto em casa e dentro de cada consciência. Você escolheu acreditar e impor que o islã é submissão, quando na verdade o alcorão proclama que não há submissão na religião (La ikraha fi Dîn). Você fez do seu chamado à liberdade o império da submissão !  Como uma civilização pode trair a esse ponto seu próprio texto sagrado ? É hora da civilização islâmica instituir essa liberdade espiritual – a mais sublime e difícil de todas  – em vêz dessas leis inventadas por gerações de teólogos !
Inúmeras vozes que você não quer escutar, se elevam hoje dentro das comunidades árabes para se insurgirem contra esse escândalo, para denunciarem o tabu de uma religião autoritária e indiscutível, de onde se servem seus chefes para perpetuarem indefinidamente sua dominação… Ao ponto que muitos crentes interiorizaram uma cultura de submissão à tradição e aos « mestres da religião » (imams, muftis, shouyoukhs, etc.) e eles mesmos não compreendem porque falamos de liberdade espiritual e não admitem que falemos de escolhas pessoais face aos pilares do islã. Tudo isso se constitui em « linha vermelha » para eles, alguma coisa de tão sagrada, que não ousam sequer dar às suas proprias consciencias, o direito de se questionarem ! E há tantas familias, tantas sociedades muçulmanas cuja confusão entre espiritualidade e servidão está incrustrada em suas mentes desde a infância e a educação espiritual pobre, que tudo que se refere à religião, seja perto ou longe, não se discute.
Isso não é, evidentemente, imposto pelo terrorismo de alguns loucos, por algumas trupes de fanáticos abarcados pelo Estado Islâmico. Esse problema é bem mais profundo e mais vasto! Mas quem o verá e o dirá ? Quem quererá ouvi-lo ? Silêncio sobre o assunto no mundo muçulmano e nas mídias ocidentais. Escutamos mais do que tudo, esses especialistas em terrorismo que agravam dia após dia a miopia geral ! Não se iluda, oh meu amigo, crendo e fazendo crer que quando tivermos terminando com o terrorismo islamista, o islã terá regrado seus problemas ! Pois tudo que acabo de evocar – uma religião tirânica, dogmática, literalista, formalista, machista, conservadora, regressiva – é frequentemente, não sempre, mas frequentemente o islã comum, o islã cotidiano, que sofre e faz sofrer muitas consciências, o islã da tradição, do passado, deformado por todos os que o utilizam politicamente, o islã termina sempre por sufocar as primaveras árabes e a voz de todas essas juventudes que pedem outra coisa. Quando você vai finalmente fazer a verdadeira revolução ? Essa revolução que nas sociedades e nas consciências fará rimar definitivamente religião e liberdade, essa revolução sem retorno que se transformará num feito social em meio a tantos outros no mundo e que seus direitos exorbitantes não sejam mais legítimos !
Claro, dentro do teu imenso território, há ilhotas de liberdade espiritual : Famílias que transmitem  um islã de tolerância, de escolha pessoal, de aprofundamento espiritual ; Meios sociais onde as grades da prisão religiosa estão abertas ou entre-abertas ; Lugares onde o islã dá o melhor de si, uma cultura de partilha, de honra, da busca do saber, e uma espiritualidade em busca de lugar sagrado onde o ser humano  e a realidade que chamamos Allâh se encontrem. Na Terra do islã e por toda parte nas comunidades muçulmanas do mundo, existem mentes fortes e livres, mas são condenadas à viverem sua liberdade sem segurança, sem reconhecimento de direitos,  a seus riscos e perigos face ao controle comunitário ou mesmo o controle da polícia religiosa. Nem por um momento o direito de dizer “Eu escolhi meu islã”, “Tenho minha própria relação com o islã » foi reconhecido pelo “islã oficial” dos dignatários. Esses, ao contrário, se precipitam em afirmar que  « A doutrina do islã é única » e que « A obediência aos pilares do islã é a única via correta» (sirâtou-l-moustaqîm).
Essa recusa ao direito a liberdade face à religião, é uma das raizes do mal da qual você sofre, oh meu caro mundo muçulmano, um dos centros obscuros onde crescem os monstros que você faz surgir há alguns anos diante de rostos alarmados do mundo inteiro, pois essa religião de ferro impõe à tuas sociedades uma violência insustentavel. Ela aprisiona  muitas de tuas filhas e filhos nas prisões de um bem ou mal, de um lícito (halâl) e de um ilícito (harâm) que ninguém escolheu, mas que todos se submetem. Ela aprisiona as vontades, ela condiciona os espíritos, ela impede ou entrava toda escolha pessoal de vida. Em muitas das tuas regiões, você associa religião com violência  – contra mulheres, contra os « maus crentes », contra as minorias cristãs ou outras, contra os pensadores e espíritos livres, contra os rebeldes – de tal maneira que  essa religião e essa violência se terminam por se confundirem, entre os mais desequilibrados e os mais frageis, na monstruosidade do jihad !
Então não se espante, não faça de conta que está espantado por tais demônios travestidos de Estado islâmico terem roubado teu rosto! Pois os monstros e os demônios só roubam rostos deformados! E se você quer saber como não parir mais esses monstros, vou te dizer. É simples, quer dizer, simples e ao mesmo tempo difícil. É preciso que você comece por reformar toda a educação que dá às tuas crianças, que você reformule cada uma de tuas escolas, cada um dos teus lugares do saber e do poder. Que você os reformule para dirigir de acordo com os principios universais (mesmo se você não é o unico a transgredi-los ou a persistir em sua ignorancia) : a liberdade de consciência, a democracia, a tolerancia e o direito de cité para toda a diversidade de visões e de crenças no  mundo, igualdade de sexos e a emancipação das mulher de toda tutela masculina, a reflexão e a cultura crítica do religioso nas universidades, na literatura, na midia. Você não pode mais recuar, você não pode fazer por menos ! Sua revolução espiritual tem que ser completa ! É o único meio de você não parir mais tais monstros, e se você não o fizer,  logo será devastado por seu poder de destruição.  Quando você tiver desempenhado bem essa tarefa colossal – em lugar de se refugiar na má fé e na cegueira voluntária, nenhum outro monstro abjeto poderá te roubar a face.
Caro mundo muçulmano… Sou apenas um filósofo. Alguns dirão que a filosofia é herege. Estou tentando apenas fazer resplandecer de novo a luz – o nome que você me deu me ordena, Abdennour, “Servidor da luz”.
Eu não seria tão severo nessa carta se eu não acreditasse em você. Como se diz em francês : «Qui aime bien châtie bien». E ao contrário dos que hoje não são severos o bastante com você – que encontram sempre desculpas, que querem fazer de você uma vítima, ou que não veem a tua responsabilidade no que te acontece – todos esses na realidade não estão te ajudando !
Eu acredito em você, eu acredito na tua contribuição em fazer do nosso Planeta, um universo mais humano e mais espiritual ! Salâm, que a paz esteja com você."

Publicado pelo jornal canadense huffingtonpost: 15/10/2014 22:58 EDT Atualizado em: 09/01/2015 05:12 EST
Tradução e adaptação Carla Cristina Daher, colaboradora.
http://quebec..ca/abdennour-bidar/lettre-au-monde-musulman_b_5991640.html