sexta-feira, 31 de julho de 2015

Até os animais?


   Eu pensei que a sem-vergonhice estava limitada ao mundo humano. Mas eis que, através de uma notícia publicada estes dias, me dei conta que ela é mais ampla do que eu imaginava.
    Vejamos: 
   "Panda 'forja' gravidez para receber tratamento especial
   Uma panda do zoológico de Taipé, em Taiwan, teria apresentado falsos sinais de gravidez para garantir melhores condições no verão. Quando engravidam, elas são transferidas para quartos individuais com ar-condicionado e recebem mais frutas e bambu. O animal teve perda de apetite, espessamento do útero e aumento da concentração de progesterona fecal. Segundo especialistas, pandas inteligentes são capazes de forçar comportamentos para se beneficiar".
   Caramba!!!
   Agora, eu até entendi o "forçar comportamentos", mas não seria demais conseguir alterar até índices fisiológicos, como "espessamento do útero" e a "concentração de progesterona fecal"?
   Começo a ver que nós humanos somos até pouco competentes nas nossas tentativas de logro. Rsss.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Reflexões pós-revolução francesa


   Depois da leitura de Modelos de Filosofia Política, percebi a angústia de certos filósofos em compreender melhor o movimento completo da Revolução Francesa - de uma origem que pretendia a igualdade até uma carnificina "democrática", que não poupou nem mesmo alguns de seus maiores líderes.
   Chamou muito minha atenção a apresentação do pensamento de homens como Benjamin Constant (1767-1830) e Alexis de Tocqueville (1805-1859). 
   Prometendo posts futuros, neste momento só quero registrar a feliz coincidência de a Folha de São Paulo ter publicado, em versão econômica, para ser vendida em bancas de jornais, O Antigo Regime e a Revolução, de Tocqueville.
   Ah... lembro também que existe publicado em Português, pela Editora Edipro, Reflexões sobre a Revolução na França, de Edmund Burke.

Democracia


   O mesmo Dicionário de Política, de Bobbio, Matteucci e Pasquino - que já citei aqui, tratando do termo "demagogia" -, deixa de lado o que efetivamente diz Aristóteles, quando registra, no vocábulo "Democracia":
   "Na teoria contemporânea da Democracia confluem três grandes tradições: a) a teoria clássica, divulgada como teoria aristotélica, das três formas de Governo, segundo a qual a Democracia, como Governo do povo, de todos os cidadãos, ou seja, de todos aqueles que gozam dos direitos de cidadania, se distingue da monarquia, como Governo de um só, e da aristocracia, como Governo de poucos [...]".
   Fico pensando qual o motivo de não registrar pelo menos "Democracia/Politeia". Quem lê o dicionário fica com a nítida impressão de que, para o Estagirita, a democracia era algo positivo, sem nenhuma possibilidade de avaliação crítica da questão.

O Spinoza de Bertrand Russell


   Tenho o volume III de uma coleção antiga do Bertrand Russell em que ele trata de Spinoza. O texto está todo marcado, mas teria que relê-lo para lembrar exatamente como o filósofo inglês apresenta seu amigo holandês. Prometo fazer isso em breve, e comentar aqui. Ultrapassadas as leituras obrigatórias da professora Marilena Chauí, este foi um texto de referência lido por mim... mas lá se vão anos.
   Contudo, o post de hoje tem a ver com outro texto de Russell, o "The elements of Ethics", que se encontra no livro Philosophical Essays. 
   Neste texto, em dado momento, Russell se propõe a analisar a questão do mundo ser completamente bom... ou, pelo menos, de alguns assim o considerarem. Diz ele, então:
   "The belief that the world is wholly good has, nevertheless, been widely held. It has been held either because, as a part of revealed religion, the world has been supposed created by a good and omnipotent God, or because, on metaphysical grounds, it was thought possible to prove that the sum-total of existent things must be good."
   Russell indica que não tratará do aspecto teológico da questão. Sem problema. Afinal, não seria essa a análise que a mim interessaria. Prossegue, então, um pouco mais adiante:
   "As a mattter of fact, those who have endeavoured to prove that the world as a whole is good have usually adopted the view that all evil consists wholly in the absence of something and that nothing positive is evil. This they have usually supported by defining 'good' as meaning the same as 'real'."
   É curioso como essa discussão remete claramente ao filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Quem não lembra do "melhor dos mundos possíveis"? Mas existe uma diferença: Leibniz indicava que este mundo não é completamente bom, mas que, numa reunião daquilo que é bom com o que é mau, a harmonia favorável seria a que efetivamente se materializa. Portanto, não é dele a posição que Russell indica como daqueles que usualmente o fazem definindo "bom" como significando o mesmo que "real".
   Eu só lembrei isso porque Russell tem um livro específico sobre a filosofia leibniziana. 
   Note-se, também, que há uma pequena diferença técnica entre "the world is wholly good" e "the world as a whole is good". A mim parece que a primeira se coaduna com o que Russell quer dar a entender como a pura negatividade do mal, mas que a segunda forma diz respeito mais à posição leibniziana de que o todo, isto é, retirado o foco sobre cada parte - a qual pode até ser individualmente má -, sempre será bom.
     Mas voltemos à discussão principal.
   Então, segundo Russell, a forma mais usual de afirmar que o mundo é completamente bom consiste em identificar "bom" e "real". Que seja. O problema vem com o que o filósofo inglês indica depois:
   "Spinoza says: 'By reality and perfection I mean the same thing'; and hence it follows [...] that the real is perfect". 
    Eu falo em "problema" não tanto pelo que Spinoza diz, mas pelo que Russell depreende da fala do holandês. Vejamos...
    Spinoza não diz, em momento algum, que sua definição de perfeição é a mesma de bom. Aliás, o filósofo holandês começa explicando a etimologia de "perfeito" - que quer dizer apenas "feito até o fim". Imaginemos, por exemplo, que uma casa é construída de cabeça para baixo. Se o plano do arquiteto - seja lá por quais motivos - era justamente produzir uma casa de ponta-cabeça, ao final desta loucura, a casa se dirá perfeita. Contudo, é usual estabelecermos - ainda que imaginativamente - um "modelo" universal a ser seguido e tentar identificar se o objeto de estudo se encaixa neste padrão, o que, não ocorrendo, dá ensejo a que falemos em "imperfeição" da coisa. 
   Spinoza lembra ainda que temos uma tendência a tentar identificar esses modelos - que seriam uma espécie de "projeto" - mesmo para as coisas naturais, a respeito das quais, em realidade, não temos como vislumbrar um "projeto" estabelecido por um designer.   
   Explicado isto, devemos, sim, reconhecer que Spinoza identifica "realidade" e "perfeição", como Russell indica em seu texto. Contudo, visto que não há aquele "modelo ideal" a ser seguido, o holandês simplesmente quer dizer que aquilo que existe, ou seja, o "real" está feito completamente, isto é, está perfeito. Mas... isto não quer dizer, em absoluto, que esteja "bem feito"... ou, mais ainda, que seja "bom".
   O "bom", segundo Spinoza, é o que é "verdadeiramente útil". Envolve, portanto, algum grau de subjetividade - ainda que essa possa não corresponder à de um indivíduo. Eu diria, reunindo todas as correlações de Spinoza, que "bom" é o que tem a capacidade de nos fazer verdadeiramente felizes... embora para conhecer aquilo que efetivamente nos faça felizes, tenhamos que nos deslocar rumo à sabedoria.
   Deste modo, resta-nos reconhecer que mesmo uma "fera" da Filosofia pode, talvez por açodamento, embaralhar as coisas, e se enganar em algumas de suas afirmações.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Demagogia


   O Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, registra neste vocábulo a seguinte definição:
   "A Demagogia não propriamente uma forma de Governo e não constitui um regime político, é, porém, uma praxe política que se apoia na base das massas, secundando e estimulando suas aspirações irracionais e elementares, desviando-a da sua real e consciente participação ativa na vida política. Este processo desenvolve-se mediante fáceis promessas impossíveis de ser mantidas, que tendem a indicar como os interesses corporativos da massa popular ou da parte mais forte e preponderante dela coincidem fora de toda lógica de bom Governo, com os da comunidade nacional, tomada em seu conjunto.
    [...] Na história das doutrinas políticas se faz necessário remontar a Aristóteles, que primeiro individualizou e definiu a Demagogia indicando-a como aquela prática corrupta ou degenerada da Politeia, pela qual se chega a instituir um governo despótico das classes inferiores ou de muitos que governam em nome da multidão (Política, IV, 5, 1292 a)".
    Em primeiro lugar, sendo sinceros, temos que indicar que o termo a que os autores se referem com sendo aristotélico, "demagogia", não é o que o filósofo grego usa. Ele, em realidade, usa "democracia". Podemos até concordar que, o termo vai ganhando ares diferentes com o passar dos anos, e que o conceito aristotélico, do modo que está registrado, poderia contaminar o entendimento - positivo - atual, com a visão de algo degenerado, como é o caso no Estagirita. Por esse motivo, valeria à pena substituir o "democracia", original, pelo "demagogia", conforme vemos. Que seja... o mais importante, contudo, é perceber como se dá esse tipo de "praxe política".
   Vemos que o que se faz é estimular as "aspirações irracionais" da "massa", "desviando-a da sua real e consciente participação ativa na vida política". O que está dito não é outra coisa que aquilo que Spinoza indica como sendo a manipulação dos afetos passivos, as paixões - no sentido técnico do termo -, diminuindo a capacidade de o ser humano direcionar-se para o que efetivamente lhe faz bem. Os desejos de honra, riquezas e prazeres sensuais tomam a liderança na motivação das ações. Este tipo de homem faz parte do "vulgo", afastando-se do sábio, que escolhe o que verdadeiramente lhe faz bem, e também à sua comunidade, que é uma espécie de macroindivíduo.
   Por último, vale ressaltar como vemos essa prática política grassando em nosso país.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Linha da pobreza


   O livro Globalização e Filosofia, de Michael Reder, diz, logo em sua Introdução, que "a pobreza é um problema grave como sempre: mundo afora, mais de um bilhão de seres humanos vivem abaixo da linha da pobreza, o que significa que eles dispõem de menos do que um dólar americano por dia para viver".
   Na verdade, o valor exato considerado como índice para determinação da pobreza varia. O mais aceito usualmente é o do Banco Mundial. Embora este utilizasse o valor de referência per capita da pobreza como US$ 1/dia, há algum tempo isto foi revisto. Hoje, a instituição citada utiliza US$ 1/dia como "linha de indigência" e US$ 2/dia como "linha de pobreza".
   Se fizermos uma conta rápida, estando o dólar hoje custando aproximadamente R$ 3,30, veremos que um casal com dois filhos cuja única fonte de renda seja a do responsável, recebendo um salário mínimo nacional (R$ 788), terá uma renda per capita diária de  US$ 1,99. Diríamos, portanto, que uma família deste tipo - nada tão impensável no nosso país -, simplesmente está beirando a pobreza. 
   A questão é saber quantas são as pessoas que se enquadram nesta faixa. Um dado da ONU, entre 2000 e 2007, mostra que, utilizando o índice per capita de US$ 1,25/dia, o Brasil tem aproximadamente 20%. Imaginem, então, se passássemos a utilizar os US$ 2? Talvez chegássemos à conclusão de que um em cada quatro brasileiros esteja vivendo em estado de penúria... ou, melhor dizendo, sobrevivendo em estado de penúria.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Ainda as paixões


   Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) concordava com Diderot, pelo menos no Emílio, em relação às paixões. Ele escreveu: "Nossas paixões são os principais instrumentos de nossa conservação; portanto, é um empreendimento vão e ridículo querer destruí-las".
   Já o também fracófono Jean Paul Sartre (1905-1980) pensava diferente. Disse ele, em O existencialismo é um humanismo: "O existencialismo não acredita no poder da paixão. Jamais pensará que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos atos e que, consquentemente, é uma desculpa. Pensa que o homem é responsável por sua paixão".
   A visão de Sartre corresponde coerentemente ao seu projeto existencialista, no que diz respeito à liberdade do homem. Contudo, penso que sua percepção da natureza humana - e, principalmente, da psicologia humana - perde, em termos de qualidade, para a de muitos outros filósofos que vieram antes dele. O reconhecimento de algo que nos escapa e que nos motiva abaixo do nível da consciência, ou da razão, ou pelo menos ao lado destas - ainda que não necessariamente nos determine completamente -, parece-me algo inelutável. Discutir se "fatalmente" determina nossos atos e em que medida "o homem é responsável por sua paixão" me parece interessante e válido, mas não reconhecer a onipresença deste "algo" em nós, penso beirar o excesso de inocência filosófica.