quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Lendo Alcantara

Fiquei com saudade da leitura que fiz do livro "Espinosa", de Steven Nadler... que, infelizmente, ainda não foi publicado por editora brasileira.
O volume de informações biográficas do livro de Alcantara Nogueira não poderia, obviamente, ser comparado com o de Nadler, que é uma biografia, no sentido estrito, enquanto o primeiro é um livro sobre a filosofia spinozana, que passa pela história do filósofo para detectar influências.
De qualquer forma, para um livro com apenas vinte páginas biográficas, o trabalho foi muito bem feito. Aliás, uma informação que não vi nem em Nadler foi dos nomes e matérias dos professores do jovem Spinoza - além dos muito conhecidos Menasseh ben Israel e Saul Levi Morteira -, e que o próprio Alcantara destaca que é informação inédita no Brasil... em 1976... mas que, imagino, ter continuado como inovação, apesar dos livros lançados no Brasil desde então.
Por enquanto, só uma pequena divergência quanto à importância do pensamento de Uriel da Costa sobre o menino Spinoza - com apenas oito anos, quando do "acontecimento Uriel" -; embora o autor reforce a "presença" de Juan del Prado como "quem ofereceu as primeiras inspirações para a formação da mentalidade filosófica juvenil de Spinoza", reconhecendo-lhe o aprofundamento de questões levantadas por Uriel e que viriam, posteriormente, a ser desenvolvidas por Spinoza. Talvez, então, Uriel esteja presente apenas indiretamente em Spinoza.
Valeu muuuuuuuuuuito a pena ter comprado o livro!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mais um novo colaborador

Como já é o costume, gosto sempre de registrar a entrada de um novo colaborador (afinal, aquele rótulo de "seguidor" é horrível!). Agora, temos como companheiro o jovem (afinal, eu já passei dos 40, e quem tem menos de 30 é "jovem" para mim! Rsss) Cleiton.
Seja bem vindo, amigo! Esperamos, todos, sua colaboração nos debates que se iniciam por aqui. Apesar de saber que você é um spinozano convicto, saiba que os nossos "devaneios filosóficos" passeiam por vários assuntos... e você sempre estará convidado a participar de todos eles.
E, mais importante de tudo: sempre que houver um engano de minha parte, fico feliz em vê-lo apontado pelos amigos.
A casa é sua. Entre; fique à vontade e usufrua da amizade de todos.

O Spinoza de Ghiraldelli

Gosto muito do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. Um de seus últimos livros, "História da Filosofia - dos pré-socráticos a Sto. Agostinho", me parece uma obra de referência. Entretanto, nas obras que tenho de sua autoria, mesmo as que passam por diversos períodos históricos, percebo que ele sempre "esquece" de Spinoza. Fiquei, então, curioso, aguardando o próximo "História da Filosofia", que incluísse nosso caro filósofo. O livro ainda não foi publicado, entretanto, pude ouvir o que Ghiraldelli Jr. pensa sobre Spinoza no CD que acompanhou a revista "Amantes do Pensar - grandes filósofos da História em 30 questões"... e não gostei.
Logo na apresentação do luso-holandês, feito pela entrevistadora Sílvia Sibalde", é dito que Spinoza "ao contrário dos pais, não tinha qualquer identificação com a religião". Na verdade, logo no início, não consta que Spinoza não tivesse identificação com a religião. Ao que parece, durante o período em que seu pai estava vivo, Spinoza manteve-se um estudante dedicado, sendo aluno, inclusive, de um dos mais respeitados rabinos de Amsterdã, Saul Morteira.
Ainda na introdução, a entrevistadora nos informa sobre os motivos da excomunhão de Spinoza. Tudo vai bem, até que ela diz que o luso-holandês morreu de tuberculose com apenas 35 anos, quando sabemos que foi aos 44. O homem já morreu tão cedo, por que "matá-lo" com menos nove anos ainda?
Inicia-se, propriamente, a entrevista com Paulo Ghiraldelli Jr... e surge uma informação bastante problemática: segundo Ghiraldelli, Spinoza "está totalmente voltado para resolver o problema cartesiano: a distinção corpo e mente". O plano de Spinoza me parece muito maior do que esse, embora certamente passe pela solução desse problema.
Já no tocante à diferença entre o pensamento spinozano e o cartesiano sobre a relação corpo e mente, parece que Ghiraldelli acerta ao afirmar que o luso-holandês descarta o dualismo, entendendo corpo e mente como aspectos de uma substância única, sem caracterizá-la como material ou mental.
A seguir vem a pergunta se Spinoza acreditava em Deus. Ghiraldelli responde "Ah, certamente! Não só acreditava em Deus, como esse tipo de... materialismo é determinista. Você tem um Deus que organiza o Cosmos... E essa organização não pode ser aleatória. Ela tem que ter uma inteligência por trás".
Espera lá! "Inteligência por trás" que "organiza o Cosmos"???? Isso é um Deus transcendente! Extinguiu-se a ideia máxima de Spinoza: a imanêcia de Deus na Natureza... e o famoso "Deus sive Natura". Um filósofo do gabarito de Ghiraldelli dizendo isso?! Não dá para entender!
Mesmo reconhecendo que não se pode ser especialista em tudo, se um filósofo vai gravar uma entrevista que será formadora de opinião para muitos iniciantes, ele tem a obrigação de fazer uma pesquisa anterior, para não informar errado.
Ponto negativo para Ghiraldelli nessa!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Quase concluindo o "passeio"

Continuando a viagem por "O passeio do cético", de Diderot, comento as duas últimas alamedas.
Como diz o ditado "Os últimos serão os primeiros". Então, começo pela última alameda descrita por Diderot: a "Alameda das Flores".
Como eu já havia dito antes, essa alameda diz respeito ao caminho dos prazeres. Seria de se esperar que Diderot - cuja vida é marcada por tantas estórias de amantes - elogiasse esta via. Entretanto, o que vemos é uma crítica severa - seria um reconhecimento dos erros na vida particular? Diderot, na voz da personagem, mostra as "aventuras" amorosas dos viajantes dessa alameda, deixando clara a pouca importância que eles dão ao amor verdadeiro. Os casos amorosos citados envolvem, sempre, falcatruas e espertezas.
A via que ganha maior destaque, como seria de se esperar num livro de Filosofia, ainda que seja um romance filosófico, é a "Alameda dos Castanheiros" - que corresponde ao caminho seguido pelos filósofos.
Nesta parte, Diderot explica que a "multidão está dividida em bandos" - que são as escolas filosóficas. Ele passa a descrever as posições de cada escola, sempre de modo muito irônico. A descrição dos "pirrônicos" é a seguinte: "pessoas que dizem que não há nem alameda, nem árvores, nem viajantes; que tudo o que vemos poderia ser alguma coisa e poderia também não ser nada", caracterizando bem os céticos como aqueles que têm que fazer uma suspensão dos seus juízos, visto acreditarem que não podem conhecer nada.
As descrições seguem, com Diderot delineando os perfis dos ateus, deístas, panteístas, idealistas/solipsistas, etc.
A caracterização dos ateus é muito sugestiva, também: "admitem que há uma alameda e árvores, mas pretendem... que o príncipe é apenas uma quimera, que a venda dos olhos é o uniforme dos tolos e que o temor do castigo atual é a única boa razão para se conservar a roupa limpa. Caminham intrepidamente em direção ao final da alameda, onde acham que a areia afundará.... e que serão engolidos, não sendo apegados a nada". Lembrando que "príncipe", "venda nos olhos" e "roupa limpa" são as metáforas para "Deus", "fé cega" e "alma pura", respectivamente.
Não poderia deixar de registrar o "bando" cujo líder é descrito como "uma espécie de guerreiro, que fez incursões frequentes e sempre causou alvoroço na alameda dos espinhos" - o nosso querido Spinoza, segundo a nota da edição original. O trecho do texto onde esse grupo aparece é o seguinte: "Um quarto bando dir-te-á que a alameda foi construída sobre as costas do monarca... Tira-se proveito da razão e de algumas expressões equivocadas para insinuar que o príncipe faz parte do mundo visível; que ele e o universo são apenas uma e mesma coisa e que nós mesmos somos parte de seu vasto corpo".
Há dois pontos altos nesse trecho do livro: o diálogo entre um devoto e um ateu e a reunião de representantes das diversas escolas num debate.
O primeiro, eu vou deixar para registrar num post futuro, pois ele merece um pouquinho mais de espaço. De qualquer modo, como "aperitivo", digo que o trecho é bem representativo de uma conversa entre um "crente" e um "não crente" - nem diria, necessariamente, ateu... poderia ser um agnóstico, também. Um dos pontos que vale a pena registrar é aquele em que o ateu, que pretende usar a "luz natural" da razão, vê-se embaraçado pela constante referência à Bíblia, por parte do crente. Ele diz "Ah, deixai para lá vosso código. Combatamos com armas iguais. Apresento-me sem armadura e de boa vontade, e vós vos cobris de um arnês mais apropriado para embaraçar... seu homem do que a defendê-lo... E de onde tirastes que vosso código é divino?... Que confiança podeis ter nesses relatos maravilhosos dos quais essa obra está cheia?... Acreditais e quereis obrigar os outros a acreditar em fatos inusitados, invocando escritores mortos há mais de dois mil anos, enquanto vosos contemporâneos vos enganam todos os dias sobre acontecimentos que se passam a vosso lado, e que estais em condições de verificar!".
Sinceramente, não há como deixar de concordar com Diderot de que, sem uma avaliação crítica do que lemos, no nosso quotidiano, podemos ser facilmente conduzidos por opiniões alheias... que diremos, então, de textos tão pouco verossímeis; escritos com parcialidade total; cheios de interesses, nem tão obscuros, de propaganda; narrando fatos de tantos e tantos séculos (em verdade, dois milênios) anteriores.
O outro ponto a destacar é o encontro dos representantes de céticos, ateus, deístas, panteístas e idealistas.
Nesse debate, surge um questionamento que está muito na moda hoje, no que diz respeito ao embate entre o criacionismo e o evolucionismo. Um dos representantes deístas diz: "Temos diante de nós uma máquina... um relógio não revela a inteligência do relojoeiro que o construiu? Ousaríeis afirmar que são obras do acaso?", ao que o ateu responde: "As coisas não são iguais. Comparais uma obra acabada, cuja origem e cujo autor são conhecidos, com um composto infinito, cujo início, cujo estado atual e cujo fim são ignorados, e sobre cujo autor não fazeis senão conjecturas". O deísta insiste: "Sua estrutura não anuncia um autor?" e o ateu retruca com um argumento que, penso, é realmente decisivo: "Não. Não estais vendo como ele é. Quem vos disse que essa ordem que admirais aqui não é desmentida em nenhum lugar? Será que vos é permitido tirar conclusões a partir de um ponto do espaço para o espaço infinito?".
Nota do tradutor destaca que essa limitação da prova pelos efeitos já havia sido assinalada pelo inteligentíssimo David Hume em seus "Diálogos sobre a religião natural".
Uma "simplificação irônica da filosofia de Espinosa", segundo nota do tradutor, é feita um pouco a seguir da passagem anterior. O começo deste trecho lembrou-me mais uma referência à negação da causalidade, como fizera Hume. Nele, o panteísta rejeita a tese da regularidade do mundo, indicando que o príncipe (Deus) poderia, um dia, resolver modificar o que observamos. Fico com a impressão de haver, enganadamente, uma referência a uma "vontade" em Deus/Natureza, que não parece se coadunar com o pensamento spinozano.
De qualquer forma, o trecho final é totalmente pertinente ao sistema spinozano, ao indicar que "Procurai-o [a Deus] antes em vós mesmos. Fazeis parte de seu ser; ele está em vós, vós estais nele. Sua substância é única, imensa, universal; somente ela existe: o resto são tão-somente seus modos".
Por fim, duas pequenas passagens divertidas.
Na primeira, o ateu se rebela contra a observação de que a beleza de todas as coisas existentes revela a "presença" de Deus: "Bela ocupação para esse grande monarca, a de exercer o seu savoir-faire sobre os pés de uma lagarta e sobre a asa de uma mosca".
Na segunda, um cético fala sobre o extenso conhecimento dos deístas sobre os desígnios de Deus: "Esses senhores são os confidentes do grande artífice, assim como os eruditos são os confidentes dos autores que comentam, para fazê-los dizer o que nunca pensaram".

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um tesouro spinozano

Os últimos posts têm falado das sensações. Seguindo esta linha, este post poderia ter como título "Uma dica para a visão", dizendo respeito à leitura.
Vou contar, então, uma estorinha.
Por conta da indicação do lançamento do livro de Amauri Ferreira, fui tentar comprar o livro, chegando à Estante Virtual. Percebi que a busca se dava pelo termo "Spinoza", e que havia outros resultados nessa busca.
Fiquei surpreso, primeiramente, com a publicação "O encontro de Aristóteles e Spinoza", e mais ainda em saber que este livro estava disponível aqui no Rio de Janeiro. Visto que sou admirador de ambos os filósofos, fui em busca da publicação.
Outro título que surgiu foi "O método racionalista-histórico em Spinoza". A pequena descrição causou-me interesse na aquisição do mesmo.
Fui buscar ambos os títulos. E consegui adquiri-los... além de outros, como faço costumeiramente.
O primeiro, "O encontro de Aristóteles e Spinoza", de Orlando Mara de Barros, mostrou-se uma decepção. O autor - filósofo, jurista, poeta, orador, conferencista, professor... e, talvez justamente por tudo isso, não é nada especificamente -, parece-me, não entendeu corretamente o pensamento de Spinoza. Comecei a ler o livro. Aristóteles pareceu muito mais bem entendido que Spinoza. E o pensamento do holandês foi reduzido de tal forma que ficou mutilado. E, mutilado, foi deturpado. O livro, portanto, não foi lido até o final.
O segundo - e menos importante, no primeiro momento - livro, demonstrou-se "maravilhoso".
O autor é um professor brasileiro. O prefácio é de Miguel Reale, que destaca que o autor, Alcantara Nogueira, "se achegou à obra de Spinoza com o coeficiente de simpatia requerido por toda a exegese, pois esta jamais se reduz a um frio remoer de textos". Ao longo do livro - do qual estou apenas no início -, Alcantara Nogueira mostra-se um apaixonado por Spinoza, que entende não só pontos específicos da doutrina spinozana, mas que percebe o seu "todo".
Alcantara Nogueira avalia vários opositores de Spinoza, combatendo os enganos de seus pontos de vista, explicando a doutrina spinozana de uma maneira muito rica.
Estou bem no início do livro, mas percebo que Alcantara Nogueira se apaixonou pelo pensamento spinozano - tal como eu, mas com muito mais "bagagem" filosófica, obviamente.
Prometo vários posts - de muita qualidade... por conta do próprio livro - sobre "O método racionalista-histórico em Spinoza".
Para quem gostar do nosso querido holandês, vale a pena a leitura... e, resumidamente, os posts desse blog.

domingo, 2 de agosto de 2009

Uma dica para o paladar

Já que no último post privilegiei o sentido da audição, nesse dou uma dica para o sentido do paladar... que diz respeito a um bom vinho.
Eu tinha uma certa prevenção com vinhos do Douro, de tão acostumado que já estava com os do Alentejo e em função de uma degustação onde fui apresentado a um vinho chamado "Terra dos Homens", dessa região, que não me agradou em nada.
De qualquer forma, em função de recomendações em revistas especializadas, havia comprado esse vinho, bem conceituado entre os de uma faixa de preços bem acessível, e guardado a tal garrafa.
Ontem, enquanto aguardava o futebol e via minha esposa e filha assistirem ao filme "As crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian", escolhi o tal vinho para degustar. Após aquela "geladinha" rápida, peguei minha garrafinha, da safra de 2004, do vinho Grandjó, que é um corte de uvas deliciosas de Portugal (Tinta Roriz, Tinta Barroca, Touriga Nacional e Touriga Francesa) e adorei. O vinho é leve, frutado e bem equilibrado, com seus 13% de teor alcoólico.
Vale a pena experimentar!

sábado, 1 de agosto de 2009

Uma dica para os ouvidos

Apesar de ser uma dica "para os ouvidos", não se trata de música.
Como sabem os amigos mais antigos, gosto de "flertar" com as ideias de Freud. Já fiz algumas leituras sobre seu pensamento e outras até diretamente dos seus textos. E a simpatia em relação a ele sempre aumenta.
Por esses dias, passando por uma banca de jornais, vi a revista "Mestres da Psicanálise", que vem acompanhada de um CD contendo uma conversa com o psicanalista Luís Carlos Menezes sobre a vida e o pensamento de Freud.
É certo que essa conversa de cinquenta minutos não poderia ser "profundíssima", mas a verdade é que representa uma boa introdução às teorias freudianas, visto que ela trata do inconsciente, da sexualidade, dos sonhos e do superego, pelo módico preço de R$ 12,90... e com a facilidade de irmos conhecendo essas teorias enquanto fazemos outras coisas, apenas emprestando nossos ouvidos ao CD.
Vale a pena conferir!