domingo, 31 de julho de 2011

"100 obras-chave de Filosofia" (5... e último)

   CONCEITOS:

   Afeto : o afeto corresponde ao que modifica nossa potência de agir, seja aumentando-a (fala-se então de afeto alegre), seja diminuindo-a (os afetos tristes). A afetividade diz respeito às  coisas finitas, necessariamente tomadas em relações com os outros seres do mundo que atestam sua passividade. Só os afetos ativos, sendo o principal deles a compreensão, nos permitem ultrapassá-la.

   Substância/atrituto/modo : esses três conceitos, explicados no Livro I, estruturam toda a ontologia da Ética. A substância é "o que é em si e se concebe por si" (I, definição 1), é nisto que Espinosa retoma seus caracteres clássicos. A originalidade está na afirmação de uma substância única (monismo) apreensível através de seus atributos, em número infinito. No entanto, os seres humanos não percebem nela mais do que duas, a extensão e o pensamento, cujas expressões particulares constituem os modos ou maneiras de existir.

   Potência : todo ser pode ser compreendido como um grau de potência, parte cujo todo é Deus, potência absoluta de existir. Cada potência é ato, isto é, tende a afirmar-se produzindo efeitos por ela mesma. A equação original de Espinosa resulta da identificação de potência e virtude, de um lado, que exclui toda definição da virtude em termos de norma transcendente e exterior à nossa natureza; e, no fundo, à liberdade, porque afirmar sua potência é agir só de conformidade com as leis de sua natureza e, portanto, escapar à passividade.

[THE END!!!]

sábado, 30 de julho de 2011

"100 obras-chave de Filosofia" (4)

   O espírito é a ideia do corpo (II,13)
   O corpo é um modo da extensão, o espírito um modo do pensamento, cada atributo exprimindo de maneira original uma mesma coisa. Deve-se, todavia, distinguir a ideia que somos das ideias que temos. Devemos também repensar o sentido da união entre as duas entidades: não há, propriamente falando, exterioridade de um ao outro e, portanto, determinação possível de um pelo outro, tal como dariam a entender, por exemplo, a ideia de um domínio do corpo pelo espírito. Falou-se de paralelismo  para qualificar a identidade de ordem e de conexão das ideias e das coisas: a consequência  é que "a ordem das ações e paixões de nosso corpo vai de par com a ordem das ações e paixões do espírito" (III,2). Espinosa inverte assim a correspondência tradicional entre paixão da alma e ação do corpo, e afirma sua igual dignidade.

   "O ser humano não é um império num império" (III, Prefácio)
   A proposição que tem em vista o estatuto do ser humano tem por pano de fundo uma crítica da natureza concebida como um império que Deus regeria como chefe. As duas ilusões estão ligadas: trata-se de retificar tanto o pensamento de Deus como o da pessoa humana. Deus não é uma pessoa, e muito menos o ser humano se governa segundo os decretos de uma vontade livre de toda determinação. Se o ser humano não é um "império", é que ele é algo singular, finito, capaz de produzir efeitos, mas determinado por sua vez pelo que o cerca; portanto, ele não é inteligível por ele mesmo, desligado do todo natural no qual se encontra imerso. Enfim, é a teoria do livre-arbítrio que Espinosa recusa, tanto nos moralistas como em sua forma cartesiana: ela supõe a crença num domínio possível e desejável das paixões e, além disso, uma disciplina do sensível pela vontade. A Ética III buscará, ao contrário, mostrar a necessidade dos afetos revelando seus mecanismos.

   "O desejo é a essência do ser humano" (III, definição geral dos afetos)
   Afirmar isto é antes de tudo reconhecer a importância e a necessidade do desejo; irredutível a uma imperfeição, uma falta, ele é suscetível de exprimir nossa natureza. Isto tem a ver com a maneira de Espinosa encarar a existência individual: cada uma é caracterizada por uma tendência a afirmar seu ser, o conatus, que no ser humano é consciente de si mesmo. Ele nasce de uma "afeição" de nossa essência, que pode referir-se só ao espírito - neste caso trata-se de uma vontade - ou simultaneamente ao espírito e ao corpo - fala-se então de apetite. Portanto, a existência é afirmação dinâmica de uma potência que se orienta sempre para o que lhe parece útil. O desejo é o suporte desta afirmação. No entanto, nem todo desejo exprime integralmente ou adequadamente minha natureza. Entre os afetos, é preciso distinguir os afetos que são paixões, determinados por uma causa exterior, dos afetos ativos. Desses últimos só podem proceder os desejos que correspondem a uma afirmação de si mesmo.

   "Nada é mais útil ao ser humano do que o ser humano" (IV, 35, corolário 1)
   É útil o que aumenta a nossa capacidade de agir e favorece os afetos de alegria. Entre as coisas singulares finitas, nada convém mais à nossa natureza do que um outro ser humano. A proposição tem evidentemente um alcance político, pois subentende a conclusão seguinte: "O que conduz à sociedade comum é bom" (IV, 40). No entanto, não se deve esperar também de nossos semelhantes o pior? Sim, mas somente se eles são governados por paixões. Pelo fato de um mesmo objeto poder afetar-nos de maneira bem diversa, as paixões criam diferenciações suscetíveis de transformar-se em oposição. Por exemplo, quando Pedro ama o que Paulo odeia. Portanto, o ser humano não é verdadeiramente útil ao ser humano, a não ser na medida em que ele vive sob o comando da razão. Também o aumento de nossa potência de agir passa por uma sociedade que se esforça para cultivar a vida racional; então, e só então, o útil próprio combina hamoniosamente com o útil comum.

[TO BE CONTINUED!]


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Aniversário...

   Embora já não esteja mais me dando o prazer de suas conversas, nem a sabedoria de suas lições, hoje é dia do aniversário do homem que mais amei: meu pai.
   Seriam 89 anos, hoje... mas nos despedimos quando ele tinha 77.
   Eita... que falta você faz!
   Beijão, pai! Feliz aniversário!
   Como sempre fazemos, vamos à festa! Tudo marcado... mamãe, mulher, netos... e cerveja, paizão! 

Spinoza "neoestoico" (2)

   Se Spinoza é realmente um "neoestoico" - não stricto sensu, pois, como já vimos em post anterior, o termo tem um significado que não condiz especificamente com a doutrina spinozana, mas, pelo menos, lato sensu -, então teríamos que entender inicialmente o que quer dizer "estoico", a fim de compararmos os sistemas de ambos e chegarmos à tão esperada similaridade.
   O problema começa quando nos debruçamos mais detidamente sobre o Estoicismo. Vemos, logo de início, sem maiores preocupações doutrinárias, mas levando em conta apenas a historicidade, que há três "Estoicismos": o antigo (de Zenão, Cleanto e Crisipo), o médio (de Panécio e Posidônio) e o imperial (de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio).
   O senso comum liga Estoicismo rapidamente a um dos aforismos mais típicos desta escola: "Domina-te e suporta". Um estoico é aquele que enfrenta corajosamente os reveses da vida. 
   Se não é errado fazer essa ligação, obviamente o Estoicismo não se limita ao que é representado por esse aforismo e, muito mais importante que isso, dispõe de uma fundamentação teórica ampla, a qual faz parte de um sistema muito bem estruturado, que suporta essa "coragem" estoica diante das vicissitudes.
    Para entender o que é o Estoicismo, não há como fugir da avaliação de sua fundação histórica e das circunstâncias em que ela se deu.
   Como todas as escolas helenistas - Estoicismo, Epicurismo e Ceticismo -, a teoria filosófica estoica deveria produzir um efeito prático: a tranquilidade da alma. Portanto, diz-se dessas escolas que elas produziram basicamente sistemas éticos, isto é, referentes ao ethos, ao comportamento prático do indivíduo frente ao mundo em que vivia. Embora liguemos o Ceticismo à Epistemologia, considerando-o sempre um "desconfiar" constante das "verdades" alcançadas pelas outras doutrinas, há que se lembrar que a proposta de "suspensão dos juízos" tem como finalidade última justamente a ataraxia, isto é, a "imperturbabilidade/tranquilidade da alma", conforme as demais escolas do período.
   Entretanto, Zenão de Cício (335-263aC), fundador do Estoicismo, não se limita a estabelecer simplesmente uma filosofia prática; realiza uma divisão de seu sistema em "partes": a Lógica, a Física e a Ética. Há uma analogia que compara o sistema estoico a uma propriedade rural, onde a Lógica é a cerca do terreno; a Física é o solo e a Ética seriam os frutos colhidos. Embora haja um interrelação absoluta entre as partes, pode-se perceber que elas exercem papéis diversos. Se a Lógica protege a doutrina de enganos e a Física dá suporte teórico, através do entendimento do mundo, às árvores que irão produzir, é a Ética, efetivamente, que fornecerá os frutos doutrinários, que poderão ser colhidos pelo sábio estoico. Apesar da imediata constatação, por conta da analogia, que a parte "principal" é a Ética, Zenão se furta a indicar isto, afirmando que todas as partes são igualmente importantes, bem como estabelecendo que, em realidade, não há "entrada" privilegiada para estudo da doutrina. Cada uma das "partes", sendo bem compreendida, permitiria acesso ao Estoicismo como um todo. De qualquer forma, pelo menos em termos pedagógicos, começava-se sempre pela Lógica, seguindo-se para a Física, até que se chegasse efetivamente à Ética.
   O Estoicismo tem início de um modo, na Antiguidade, mas logo recebe alguns retoques e inovações. Essas modificações vão se tornando mais severas, ao longo dos tempos, até que desembocamos em uma doutrina que praticamente abandona os aspectos lógico e físico - pelo menos enquanto especulação teórica, utilizando destes somente os aspectos imediatamente ligados à Ética -, no seu período dito "Imperial".
   A Lógica estoica é muito mais que um mero instrumento (organon) para a Filosofia, como fora para Aristóteles, dizendo respeito a toda uma Teoria do Discurso, incluindo uma poderosa Filosofia da Linguagem e, em certa medida, uma Teoria do Conhecimento. Em relação a ela, eu diria que acharemos poucos contatos com a filosofia spinozana.
   A Física e a Ética estoicas parecem produzir mais pontos de contato com a doutrina spinozana. E é isso que analisaremos em um próximo post.     

"100 obras-chave de Filosofia" (3)

   TESES ESSENCIAIS:

   "Deus, isto é, a natureza" (IV, Prefácio)
   Afirmação importante do sistema de Espinosa, a fórmula alimentou as acusações de ateísmo e de panteísmo. Deus é a única substância, infinita e eterna, inclusive "tudo está em Deus" e procede de sua essência. Esta definição derruba as bases de um Deus pessoal e transcendente, concepção muito difundida e que seria apenas, segundo o autor, uma projeção antropomórfica que procede da imaginação. Ao mesmo tempo, é todo o pensamento da natureza em termos de criação divina que é recusado: Deus é causa imanente de tudo o que existe, ele não poderia reger a natureza pelos decretos de sua vontade. Sua perfeição se exprime no encadeamento necessário das causas e dos efeitos na natureza, que não é o terreno de nenhuma intenção e não pode, portanto, ser apreendida em termos de causas finais.

   Três gêneros de conhecimento (II,40)
   O conhecimento não é contemplação, mas afirmação da ideia de uma coisa em nós. Espinosa distingue três formas de conhecimento segundo a maneira como esta afirmação se produz. No primeiro gênero, a afirmação procede do encontro do meu corpo com um corpo ou um sinal exterior de onde resultam imagens. Esta é a imaginação ou opinião, modo espontâneo mas confuso de conhecer. No segundo gênero, a afirmação procede de um dedução racional das propriedades gerais de uma coisa; o ser é apreendido através das "noções comuns" sempre adequadas e, portano, certas. Enfim, no terceiro gênero, a afirmação procede da intuição da essência apreendida, contrariamente às noções comuns, na sua singularidade. A ruptura essencial se situa entre o primeiro e o segundo gêneros. Se eles são hierarquizados, não é em função de um critério de verdade, mas de atividade do espírito: ele só é plenamente o autor do que se afirma nele em 2 e 3. Libertar-se da imaginação e da opinião é, por conseguinte, tornar-se causa adequada de seus próprios pensamentos, em outras palavras, compreender.

[TO BE CONTINUED!]
  

   

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Sêneca e Machiavelli

   Aliás, outro "proto-machiavellismo" de Sêneca aparece no texto Da tranquilidade da alma. É aí que Sêneca constrói a oposição entre virtude e fortuna.
   Mas que não se pense apenas em "virtude" como "bondade", aos moldes cristãos. Sêneca explica, em suas Cartas a Lucílio, que "a virtude é a fortitudo animi, a força da alma", bem ao modelo da "virtù" machiavelliana. Será essa força que permitirá "resistir" à fortuna quando for impossível vencê-la. Essa virtude é o traço característico do sábio, para os estoicos.

"O Príncipe", de Sêneca

   Sabemos que, ao tempo de Machiavelli, os textos aconselhando os monarcas sobre a boa arte de governar eram comuns. Quem começou essa "moda", entretanto, está vários séculos distante do florentino. Trata-se do filósofo estoico Lúcio Aneu Sêneca ( 4 aC - 65).
   Conta-nos Marilena Chauí, em "Introdução à História da Filosofia" - volume 2 - As escolas helenísticas:
   "Sêneca se dispõe a educar o príncipe: escreve o Da clemência, na expectativa de fazer de Nero um homem virtuoso. Com esse tratado, Sêneca inaugura um gênero político-literário que só desaparecerá com a obra de Maquiavel: o espelho dos príncipes ou a formação do governante virtuoso do qual dependerá a virtude da cidade e dos cidadãos. Esse gênero de discurso tornar-se-á, a partir da Idade Média, o fundamento da teoria política do Bom Governo, definido pelo conjunto das chamadas virtudes principescas (clemência, constância, magnanimidade, justiça, liberalidade, fortaleza, coragem)."
   É certo que o nosso querido florentino subverte a ordem das coisas, deixando de ditar ao governante as "virtudes principescas" - que formariam o "ideal" do bom governante -, para apresentar-lhe a realidade dos fatos, incentivando-o, isso sim, a agir em conformidade com as circunstâncias políticas efetivamente dadas e não segundo aqueles padrões de valores meramente desejados pela imaginação.
   Importante lembrar que, se para o estoico "a política é uma expressão da ética", para o florentino, política e ética/moral são duas instâncias autônomas.
   Talvez o "imperador maluquinho" Nero preferisse Machiavelli a Sêneca como "amigo de César".