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quarta-feira, 17 de abril de 2013

A tragédia do estupro (3)

   A Parte III da Ética contém uma passagem que lembra bem o que sentimos no caso de "tragédias" tão marcantes quanto aquela do estupro que tem ganho espaço neste blog.
   Trata-se do escólio da Proposição 52. Lá está:
   "Esta afecção da mente, ou essa imaginação de uma coisa singular que, sozinha, ocupa a mente, chama-se admiração [Aqui, com o sentido de 'espanto']. Se, entretanto, a admiração [ou espanto] é provocada por um objeto que tememos, designamos por pavor, pois a admiração [ou espanto] diante de um mal mantém o homem de tal maneira suspenso na sua exclusiva consideração que ele é incapaz de pensar em outras coisas que lhe permitam evitá-lo. [...] Chama-se, além disso, horror, se o que nos admira [ou espanta] é a ira, a inveja, etc."
   No caso do "horror" que sentimos na situação em questão, ele representa o espanto não só pela "ira, inveja, etc.", mas sim pelo conjunto de afecções produzidas pelos "não-humanos" que perpetraram aquelas ações.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A tragédia do estupro (2)

   Não bastasse tudo o que já soubemos que aconteceu na "van do medo e da piedade", hoje é veiculada a notícia de que as três "coisas" foram "oferecer" a moça, já violentada e machucada fisicamente, a outra "coisa" numa "comunidade", e que ela foi recusada. Infelizmente, entretanto, não podemos ficar felizes com o suposto ato de dignidade humana de quem recebeu a oferta. O fato simples é que ela estaria "muito estragada".
   Isso me faz lembrar uma conversa filosófica que tive, em certa oportunidade - certamente, depois de alguma outra barbaridade cometida por um pretenso "ser humano" -, com meu amigo Henrique Peres. O tema era se alguém, através de alguma ação - ou mesmo omissão -, poderia perder seu status de "ser humano". Ou seja, algum ato faz com que um homem perca a qualidade da humanidade?
   Ambos concordamos que isso seria possível. O problema seria definir o responsável em decidir a perda da "humanidade" e o novo estatuto - ontológico, jurídico, político, etc. - desse "indivíduo".
   Continuo com uma ideia meio problemática quanto a isso. Penso sempre que se a nossa sociedade é de seres humanos, alguém que não o é não pode sequer ficar encarcerado, já que as prisões são também feitas - em tese, pelo menos - para indivíduos dessa espécie - "espécie", aqui, não no sentido meramente biológico, visto que, neste sentido, o tal indivíduo nunca perderia as qualidades que o distinguem de outras espécies animais.
   Penso, entretanto, que se Aristóteles está certo em relação ao homem ser um zoon politikon, só pode ser homem quem se submete a algum regramento político - e obviamente jurídico.
   Portanto, se houvesse uma instância capaz de decidir pela exclusão de um determinado indivíduo da "categoria" de ser humano, penso que ele deveria ser definitivamente exilado do "mundo humano", ainda que isso custasse a própria existência biológica desse ser.
   Difícil debate, hein!
   Tenho um livro sobre esse tema. Depois comento sobre ele.   

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A tragédia do estupro

   Se eu acreditasse em reencarnação, diria que já fui uma mulher e que fui estuprado, ou melhor, estuprada, em alguma vida anterior. Digo isto por conta dos afetos que surgem em mim diante de casos  de violência sexual contra mulheres.
   Como não acredito em reencarnação, limitar-me-ei a fazer uma reflexão filosófica sobre a questão.
   Pensei logo na Poética, de Aristóteles, que analisa as tragédias.
   Lá, o Estagirita fala das emoções/paixões que surgem na plateia diante da representação do enredo. E essas emoções são as de piedade e medo.
   Percebendo o sofrimento não merecido de alguém, apiedamo-nos desta pessoa, e, ao nos identificarmos com sua condição humana, tememos pela possibilidade daquilo também acontecer conosco.
   No caso que me faz escrever - o do casal de turistas submetido a violência física e psicológica, durante seis horas, tendo sido a moça estuprada durante várias horas por três "coisas" -, o problema é que sentimos isso, mas não se trata de um enredo  - ou mythos, como escreve o macedônio -, e sim de um fato. Ficamos, portanto, privados daquela "barreira de irrealidade" que nos possibilita fazer uma experiência psicagógica saudável, que gerará efeitos positivos, transformando-nos eticamente, depois da katharsis, produzindo mesmo um prazer, segundo nosso filósofo.
   Sem essa "barreira", não estamos diante daquela universalidade do que "poderia ser", mas sim efetivamente do que é. Parece-me, então, que toda a teoria peripatética "vai por água abaixo" - embora tenhamos que fazer justiça a Aristóteles de que sua teoria não foi postulada para estas condições reais. Neste choque de realidade, ficamos com heleos (piedade) e phobos (medo) remoendo nossa alma/psyché, sem conseguir aquela salutar katharsis.
   O que fazer agora? Esse é um momento de cuidado, para que não cedamos àquela proposta simplória e pobre de "Tem que matar! Tem que castrar! Tem que estuprar, também!".
   Mas também temos que evitar a crença de que estes homens foram simplesmente moldados pelas circunstâncias - certamente violentas - que envolveram a constituição de suas subjetividades.
   Difícil, hein!