Li, por estes dias, a revista “Discutindo Filosofia (Especial) – Karl Marx”.
Por conta da crise internacional, que tem enlouquecido muita gente, voltou-se a questionar o Capitalismo – “selvagem” demais, talvez – e o seu companheiro, o neoliberalismo. A revista em questão, portanto, vem num bom momento. Aliás, ela já contempla esses eventos. Um dos textos – “O muro cai. E o marxismo?” - mostra a opinião do professor Cogiolla, da USP, de que “É preciso contextualizar e pensar o legado de Marx... A doutrina do marxismo precisa ser confrontada com os acontecimentos históricos e utilizada para entender o mundo de hoje”. O sociólogo Mauro Iase, no mesmo texto, afirma: “A especulação financeira e a atual crise estão descritas com todas as letras no terceiro livro de ‘O Capital’”. Outra opinião interessante é a do economista francês Jacques Attali – que não é marxista – dizendo que “[Marx] É um pensador extraordinariamente moderno, porque, quando se observa o que ele escreveu, não se trata de uma teoria do que um país socialista organizado deveria ser, mas como o capitalismo será no futuro. O texto faz a ressalva de que “Attali reconhece a importância da análise de Marx e seus acertos, mas não acredita no comunismo como forma de consertar as distorções capitalistas”. Aliás, esta é minha humilde opinião, também.
O sempre lúcido Leandro Konder – esse, sim, marxista – afirma: “Marx, sozinho, não me é suficiente. É preciso ter outras referências... [O marxismo] freqüentemente se torna um dogma... Mais do que um instrumento que é aplicado pura e simplesmente, Marx nos dá uma ferramenta para compreender a realidade. Marx pensou com o material disponível no tempo dele. Acertou muita coisa, mas também errou. Ele é um homem do século XIX. Hoje, temos problemas aos quais Marx não traz nenhuma contribuição de peso”.
Outra matéria interessante é “Da camaradagem à inimizade”, que conta a relação de Marx com Proudhon e Bakunin, os pais do Anarquismo. Marx lê Proudhon com 24 anos, e se aproxima de sua ideologia, tornando-se amigo dele depois. Em 1846, Proudhon publica “Sistemas de contradições econômicas ou Filosofia da Miséria”, onde defende um Estado descentralizado e critica o autoritarismo comunista. Proudhon não aceita um Estado totalitário, mesmo que “transitório”, como pregava o marxismo. Marx não gostou e publicou, um ano mais tarde, sua resposta, através do livro “Miséria da Filosofia”. Para acabar de vez com a amizade, Proudhon envia uma carta a Marx em que diz “Procuremos juntos, se assim o desejar, as leis da sociedade... Mas, por Deus, depois que tivermos destruído a priori todos os dogmatismos, não sonhemos por nossa vez em doutrinar as pessoas; não nos deixemos cair na contradição de seu compatriota Martinho Lutero que, depois de ter demolido a teologia católica, lançou-se imediatamente à tarefa de criar as bases de uma teologia protestante, utilizando-se da excomunhão e do anátema”. O texto segue, mostrando que Bakunin e Marx se desentendem, em 1872, durante um congresso, e que Marx acusa Bakunin, sem provas, de ser agente secreto da polícia czarista – a briga pelo poder é sempre igual, não é? -, o que provoca a expulsão deste último da Associação Internacional dos Trabalhadores.
O texto afirma “Como se pode ver, ... a questão do Estado totalitário acabou sendo confirmada pela história a favor da linha do pensamento de Bakunin e Proudhon”.
Um trecho interessante da mesma matéria me fez lembrar do nosso presidente Lula. Lá vai a opinião de Bakunin sobre o estágio intermediário proposto pelo marxismo, antes do fim do Estado: “Chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de ANTIGOS OPERÁRIOS, mas que, TÃO LOGO SE TORNEM GOVERNANTES... cessarão de observar o mundo proletário de cima do Estado; NÃO MAIS REPRESENTARÃO O POVO, MAS A SI MESMOS E SUAS PRETENSÕES DE GOVERNÁ-LO. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”. (GRIFO MEU)Bakunin dá até uma de psicólogo, generalizando esse comportamento como pertencendo à essência do ser-humano. Se ele estiver certo... nosso presidente e seu Partido não estão lá muito alinhados conosco do povo.