quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Karl Marx

Li, por estes dias, a revista “Discutindo Filosofia (Especial) – Karl Marx”.

Por conta da crise internacional, que tem enlouquecido muita gente, voltou-se a questionar o Capitalismo – “selvagem” demais, talvez – e o seu companheiro, o neoliberalismo. A revista em questão, portanto, vem num bom momento. Aliás, ela já contempla esses eventos. Um dos textos – “O muro cai. E o marxismo?” - mostra a opinião do professor Cogiolla, da USP, de que “É preciso contextualizar e pensar o legado de Marx... A doutrina do marxismo precisa ser confrontada com os acontecimentos históricos e utilizada para entender o mundo de hoje”. O sociólogo Mauro Iase, no mesmo texto, afirma: “A especulação financeira e a atual crise estão descritas com todas as letras no terceiro livro de ‘O Capital’”. Outra opinião interessante é a do economista francês Jacques Attali – que não é marxista – dizendo que “[Marx] É um pensador extraordinariamente moderno, porque, quando se observa o que ele escreveu, não se trata de uma teoria do que um país socialista organizado deveria ser, mas como o capitalismo será no futuro. O texto faz a ressalva de que “Attali reconhece a importância da análise de Marx e seus acertos, mas não acredita no comunismo como forma de consertar as distorções capitalistas”. Aliás, esta é minha humilde opinião, também.

O sempre lúcido Leandro Konder – esse, sim, marxista – afirma: “Marx, sozinho, não me é suficiente. É preciso ter outras referências... [O marxismo] freqüentemente se torna um dogma... Mais do que um instrumento que é aplicado pura e simplesmente, Marx nos dá uma ferramenta para compreender a realidade. Marx pensou com o material disponível no tempo dele. Acertou muita coisa, mas também errou. Ele é um homem do século XIX. Hoje, temos problemas aos quais Marx não traz nenhuma contribuição de peso”.

Outra matéria interessante é “Da camaradagem à inimizade”, que conta a relação de Marx com Proudhon e Bakunin, os pais do Anarquismo. Marx lê Proudhon com 24 anos, e se aproxima de sua ideologia, tornando-se amigo dele depois. Em 1846, Proudhon publica “Sistemas de contradições econômicas ou Filosofia da Miséria”, onde defende um Estado descentralizado e critica o autoritarismo comunista. Proudhon não aceita um Estado totalitário, mesmo que “transitório”, como pregava o marxismo. Marx não gostou e publicou, um ano mais tarde, sua resposta, através do livro “Miséria da Filosofia”. Para acabar de vez com a amizade, Proudhon envia uma carta a Marx em que diz “Procuremos juntos, se assim o desejar, as leis da sociedade... Mas, por Deus, depois que tivermos destruído a priori todos os dogmatismos, não sonhemos por nossa vez em doutrinar as pessoas; não nos deixemos cair na contradição de seu compatriota Martinho Lutero que, depois de ter demolido a teologia católica, lançou-se imediatamente à tarefa de criar as bases de uma teologia protestante, utilizando-se da excomunhão e do anátema”. O texto segue, mostrando que Bakunin e Marx se desentendem, em 1872, durante um congresso, e que Marx acusa Bakunin, sem provas, de ser agente secreto da polícia czarista – a briga pelo poder é sempre igual, não é? -, o que provoca a expulsão deste último da Associação Internacional dos Trabalhadores.

O texto afirma “Como se pode ver, ... a questão do Estado totalitário acabou sendo confirmada pela história a favor da linha do pensamento de Bakunin e Proudhon”.

Um trecho interessante da mesma matéria me fez lembrar do nosso presidente Lula. Lá vai a opinião de Bakunin sobre o estágio intermediário proposto pelo marxismo, antes do fim do Estado: “Chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de ANTIGOS OPERÁRIOS, mas que, TÃO LOGO SE TORNEM GOVERNANTES... cessarão de observar o mundo proletário de cima do Estado; NÃO MAIS REPRESENTARÃO O POVO, MAS A SI MESMOS E SUAS PRETENSÕES DE GOVERNÁ-LO. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”. (GRIFO MEU)Bakunin dá até uma de psicólogo, generalizando esse comportamento como pertencendo à essência do ser-humano. Se ele estiver certo... nosso presidente e seu Partido não estão lá muito alinhados conosco do povo.

Por que acreditar em Deus?

A pergunta não é feita por mim – pelo menos nesse momento -, mas pela “Revista da Semana” (acessível pelo site www.revistadasemana.com.br), logo na capa. O título da matéria é “A crença dos ateus”. Aliás, percepção correta, já que os ateus também crêem em algo: a inexistência do Deus concebido pelas “mitologias” monoteístas... quero dizer, pelas religiões monoteístas. Rsss. A matéria é bem superficial – afinal, a proposta da revista é ser uma espécie de “resumo” das notícias de outros meios de comunicação – e começa com a informação sobre a divulgação, em outdoors, de uma campanha patrocinada por ateus, com dizeres como “Provavelmente Deus não existe. Agora pare de se preocupar e aproveite a vida”. Descrevem-se algumas idéias dos líderes desse “novo ateísmo” mundial, como Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris e Daniel Dennett. Passa-se por um breve relato histórico da questão sobre a existência, ou não de Deus; destacando tanto o aumento da dúvida depois das atrocidades da Segunda Grande Guerra, quanto a perspectiva da evolução científica em poder explicar tudo; até a constatação de que as religiões continuam fortemente presentes, citando a radicalização de movimentos islâmicos e o crescimento das igrejas evangélicas – que exemplos “valorosos” para a favor da religião, hein!
A revista fala das tentativas de interferência da Igreja no plano secular; passa por uma estatística sobre o ateísmo, onde é apresentada a estimativa de que apenas 2% dos brasileiros são ateus – com fé! Rsss -, embora o número dos “sem religião”, no Brasil, pelo censo de 2000, chegue a 7,3%; e conclui dizendo que “Os argumentos dos novos ateus podem ser usados contra sua própria causa. Não é possível provar a existência de Deus, é certo. Da mesma maneira, a ciência, por trabalhar com probabilidades, jamais conseguiu provar que Deus não existe. A imensa maioria das pessoas jamais viu um átomo. Elas simplesmente acreditam nas representações e nos textos dos livros didáticos. Tudo é questão de crença, alimento para um debate intelectual fascinante”.
A conclusão da matéria não é ruim, mas contém um engano: os “novos ateus” não pretendem provar cientificamente a inexistência de Deus – isso é impossível! Aliás, provar a inexistência normalmente é mais difícil que provar a existência. É como declarar morto alguém desaparecido: fica-se sempre com a impressão que o suposto morto poderá aparecer a qualquer dia. Ao contrário da facilidade de provar a existência, para o que basta apresentar o “ente” em questão e dizer: “Ei-lo!”. O que se pretende é demonstrar que, como dizia Lavoisier, Deus passou a ser uma hipótese não necessária para explicar a natureza. Da mesma forma que se deixou de acreditar nas mitologias greco-romanas – e em tantas outras pelo mundo -, entendendo que não passavam de explicações da realidade que apelavam para uma via “alternativa” à razão, parece-me plausível que se fizesse o mesmo com a “mitologia cristã”, por exemplo. Até porque a maioria dos cristãos já sabe que muito do que a Bíblia diz é “simbólico”. Ou seja, concordam que é uma espécie de mitologia, mas não se desapegam dela, ao contrário do que sugeririam para quem quisesse retomar o culto a Zeus, por exemplo. Além disso, já se criaram explicações teológicas que compatibilizariam a tese darwinista com a tese da criação divina, tornando relativos os dogmas fundamentais. O bom senso exigiria uma coerência maior, penso.De qualquer forma, como diz a conclusão da matéria, “tudo é questão de crença”. E se é questão de crença, uns acreditam em Deus e outros podem não acreditar, sem serem, por isso, seres imorais e insensíveis. Mesmo que não se acredite em Deus, haverá sempre espaço para o mistério e para o absoluto. O problema, a meu ver, é rotular esse mistério-absoluto e dizer-se intérprete único dele. Para concluir, destaco uma citação, pela revista, de Simone de Beauvoir: “É mais fácil pensar em um mundo sem criador do que um criador lidando com todas as contradições do mundo”... acrescentando que, muitas vezes, essas “contradições” significam o bom sofrendo o mal, num reino criado pelo sumamente bom.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O Dia da Filosofia

Xiiii... não me homenagearam direito! Ao contrário do que eu, todo embevecido, pensava, o Dia Mundial da Filosofia não é no dia do meu aniversário... ou, pelo menos, não sempre. Na verdade, a data é móvel. Ela é comemorada na terceira quinta-feira do mês de novembro. Este ano, por exemplo, foi comemorada no dia 20.
Eu vou dizer uma coisa à Unesco... Eu e o Voltaire, que nascemos em 21 de novembro, não gostamos nada disso, hein! Rssss

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Essa tal sincronicidade

Ontem, após colocar o post, vi uma “nova” revista de Filosofia nas bancas e a comprei. Na verdade, era uma revista já existente “remodelada” – agora é a “Conhecimento Prático – Filosofia”. A proposta atual é de aproveitar mais o “mundo vivido” para mostrar como a reflexão filosófica se encaixa perfeitamente no quotidiano. Gostei!Mas o que me leva (ou traz. Rsss) a escrever hoje é a “onipresença” dessa tal “Sincronicidade junguiana”. Não é que, no mesmo dia em que postei “Filosofia e poesia”, vejo uma matéria na revista com o título de “Sobre filosofia e poesia”?!
A matéria é escrita por Ulisses Razzante Vacari. Gostei da parte em que ele diz: “O pensamento de que os sistemas de Filosofia são, em verdade, grandes e longos poemas, pois, em certa medida, eles possuem... uma estreita ligação com o divino e com o Belo, foi sugerido por um filósofo e poeta alemão chamado Friedrich Hölderlin (1770-1843). Cansado que estava do ‘frio deserto da especulação’ que tinha se tornado a Filosofia em sua época, devido a uma incessante e obstinada procura pela verdade, principalmente com Emmanuel Kant (1724-1804) e Gottlieb Fichte (1762-1814), a obra filosófica desse poeta consistiu em evidenciar justamente esses laços que a Filosofia mantinha e deveria manter com a mitologia e a própria poesia”.
Só para complementar a sincronicidade – se é que ela existe mesmo – vemos que o texto destaca Hölderlin e o meu post fala de Heidegger, que é justamente quem retoma o poeta alemão para aproximar Filosofia e poesia.
Esse Jung...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Filosofia e poesia

Há algum tempo, registrei minha estranheza no que diz respeito a um livro que havia comprado e que traçava um paralelo entre os pensamentos de Martin Heidegger e Fernando Pessoa. Agora, lendo o livro “Metafísica e realidade”, de Tomás Melendo, vejo essa aproximação entre Filosofia e poesia destacada novamente. Logo no Prefácio, de Antônio Livi, lê-se: “Entre poesia e metafísica existem – desde os tempos do poema de Parmênides – relações estreitíssimas”. O autor do prefácio ainda destaca, sobre Melendo, que “as citações dos poetas [no livro] não servem só para expressar de maneira sugestiva o que a metafísica expressa... com a frieza da lógica e da terminologia técnica... A experiência artística capta (às vezes melhor do que qualquer outra experiência) a verdade das coisas”.
Além disso, há uma citação, antes do Prólogo, de R. M. Rilke, no famoso “Cartas a um jovem poeta”, digna de constar nas cartas de Epicuro, por exemplo, que é “Não busque agora respostas: não lhe podem ser dadas porque não poderia vivê-las. E o que importa é isso: viver todas as coisas. Viva você agora os problemas. Vivendo-os, talvez, em um dia distante, pouco a pouco, sem perceber, penetre na resposta”.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Saramago no Brasil

José Saramago veio ao Brasil lançar seu novo livro, "Viagem do elefante". Vale a pena dar uma olhada no blog do escritor "Nobel", a fim de ver seu sensível registro, do dia 27/11, sobre a catástrofe em Santa Catarina, quando diz: "Para quem, como nós, não vivemos directamente a tragédia, gestos como estes também nos consolam, nos fazem pensar que a jovem da editorial que se preocupa com a sorte de gente que não conhece é uma imagem possível do mundo". E são justamente os exemplos de solidariedade que tornam o nosso povo brasileiro tão bonito. Precisamos, de alguma forma, expandir esse movimento solidário para o quotidiano, mesmo quando não há grandes tragédias coletivas, mas só "grandes" tragédias pessoais envolvidas.
Em tempo... o endereço do blog do Saramago é http://caderno.josesaramago.org/

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um pouco mais de Bachelard

“Convencemo-nos que um realismo que voltou a encontrar a dúvida científica já não pode ser da mesma espécie que o realismo imediato (NM. Imagino que a melhor tradução fosse “realismo ingênuo”) ... e que um racionalismo que tenha corrigido julgamentos a priori, como aconteceu com os novos ramos da geometria, já não pode ser um racionalismo fechado”.
Aliás, como sempre defendo, acho que o melhor é um afastamento “saudável” dos extremos. Nem realismo, nem idealismo, nem racionalismo, nem empirismo puros! Será que essa é, por si só, uma opinião “extremada”? Rsss