Calma, gente. Eu não queria escrever "De Russell a Husserl". Era isso mesmo que está no título do post. Aliás, que é igual ao que está na coluna do Cristovam Buarque, publicada em "O Globo" do dia 11 passado.
Confesso que não conhecia o segundo nome, mas não poderia deixar de ligar o primeiro deles ao filósofo britânico Bertrand Russell - pensador bastante interessante.
O grande incentivador da educação como "saída" do Brasil - ou "entrada" em um mundo melhor -, o senador Cristovam Buarque, fez uma comparação entre o filósofo Russell, na condição de pacifista que foi, com o diplomata Stéphane Hessel, autor do livro "Indignai-vos".
O que os dois têm em comum? Seu ativismo político em prol dos mais fracos.
Segundo escreve o senador: "Além da formidável resistência dos vietcongues [na Guerra do Vietnã], foi a consciência mundial criada por Russell que despertou o mundo para a desumanidade daquela injusta e bárbara guerra, onde os bárbaros eram os ricos, cultos, desenvolvidos e tecnológicos americanos". Aliás, sem integrar nenhum grupo "estadunidensófobo", quero dizer que as imagens que vazaram do "campo de concentração de Guantánamo" mostram que os "bárbaros" continuam sendo os mesmos.
Mas continuemos...
"Bertrand Russell, Prêmio Nobel de Literatura em 1950, criou o Tribunal para Julgar os Crimes no Vietnã, e, caminhando ao lado de jovens, despertou o mundo para a tragédia vietnamita. Seu tribunal não tinha qualquer poder legal, mas uma imensa força moral capaz de encurralar os dirigentes da grande potência americana, com seus aviões e bombas, mas sem uma base ética para a guerra".
A bem da verdade, fico na dúvida se essa "imensa força moral" de que fala Cristovam foi realmente "capaz de encurralar os dirigentes da grande potência". Se o tivesse sido, parece-me que a guerra teria vida mais curta, bem como uma relação de mortes, igualmente, mais breve.
Mas continuemos... Buarque nos conta que Stéphane Hessel "... está despertando os jovens do mundo para indignarem-se contra outra guerra também maldita: a guerra da má economia, que destrói a natureza, provoca desemprego, desarticula os serviços públicos, condenando, sobretudo, os jovens a uma vida sem futuro...".
Segundo Buarque: "Para se transformar no Russell dos dias atuais, Hessel precisa dar um passo adiante e convocar o mundo para criar outro tribunal. Desta vez, para julgar os crimes contra a humanidade provocados pelo modelo econômico, pelo tipo de crescimento que constrói muros, exclui multidões, apartando os que têm dos que não têm acesso aos modernos bens e serviços. Um modelo econômico que escraviza a humanidade, uma parte pela dívida contraída para poder aumentar o consumo de bens supérfluos, a outra pelo desemprego que impede de consumir até os mais essenciais bens de consumo para uma sobrevivência digna".
O autor fecha o artigo dizendo que este "Tribunal Hessel [serviria] para julgar os crimes contra a humanidade, cometidos em nome de um crescimento econômico imoral, ineficiente e vazio existencialmente".
Cristovam Buarque escreve - como fala, também - muito bem. Suas opiniões apaixonadas têm como fundo o espírito de um verdadeiro educador preocupado com as crianças de hoje, que serão os adultos, e a sociedade de amanhã. Eu confesso: sou seu fã! Entretanto, não posso deixar de me questionar o porquê desse modelo econômico, que quase recebe, no artigo, qualificações como "imoral, ineficiente e vazio existencialmente" - na verdade, esses adjetivos se referem a "um crescimento econômico" - sair-se tão bem diante de outras alternativas. E aí, logo em seguida, surge a questão de ser o modelo "imoral" ou de sermos, nós que aderimos a ele, "imorais".
Obviamente, não quero dizer que todos somos imorais por não nos preocuparmos com aqueles que sofrem, mas quero dizer que, em certa medida, "acomodamo-nos", para dizer o menos pior, ao que nos circunda. É triste ver pessoas - E para reconhecer "pessoas" entre aqueles ossos de pé, semimortos, caminhando heroicamente, é uma dificuldade incrível -, na Etiópia, por exemplo, brigando por água distribuída pelas agências internacionais de auxílio. Mas, de um modo geral, trocamos essa preocupação quase instantaneamente quando estamos falando de nosso próximo aumento salarial.
Não é fácil, eu sei disso. Mas não precisamos voltar nossos olhos para a Etiópia para ver fome, miséria, doenças e maus tratos a pessoas. Há, sempre, em qualquer lugar que estejamos, essas mazelas à nossa volta. E, normalmente, o que fazemos é "olhar para o outro lado".
Será que o capitalismo é imoral, ou será que somos nós?