terça-feira, 19 de setembro de 2017

Leandro Karnal (2)


   Sabemos que Karnal é historiador, por formação. Contudo, é um homem ilustrado, com conhecimentos de várias áreas do saber.  
   Mas... no texto que trata sobre a velhice, ele dá uma "escorregada". E justamente com nosso querido Spinoza.
   Karnal diz: "[...]como queria Espinosa, sou o meu corpo. Não existem duas instâncias separadas, mas uma só. Meu corpo não contém o meu ser, ele é o que sou".
   Realmente, para Spinoza, o ser é uma coisa só, que pode ser percebida sob dois aspectos - um material e outro imaterial. Mas... dizer "sou o meu corpo" soaria materialista demais para Spinoza. Afinal, se há somente uma "coisa", eu poderia dizer "sou a minha mente". Mas isto é falacioso. Qualquer redução do ser a uma única "instância", como usa Karnal, seria confundir o nível da nossa percepção do ser com o da própria existência do ser.

Leandro Karnal


   Comprei o livro mais recente do pensador que dá título ao post. Trata-se de Diálogo de culturas, publicado pela Editora Contexto. São pequenos textos, produzidos originalmente para o jornal Estado de S. Paulo, que foram adaptados para publicação em um livro. 
   Estou lendo aos poucos - entre outras leituras -, e sem respeitar a ordem de apresentação do próprio livro. Dois artigos me chamaram muita atenção: um sobre amizade e outro sobre a velhice.
   Depois comento sobre eles... e sobre outros mais.

Vida que segue...


   Mais uma parada no blog. Desta vez, o motivo foi mais que o excesso de tarefas quotidianas. No dia 25 de agosto, faleceu minha mãe. 
   A data - Dia do Soldado -, em alguma medida, marca o que foi sua vida ao longo deste ano. Internada, quase que ininterruptamente, desde 09 de janeiro, com idas e vindas ao CTI, a luta parecia estar grande demais para um corpo por demais fragilizado. Ainda assim, ela não cedeu fácil. Em alguns momentos, achei que a carga estava excessiva e que ela não suportaria... mas ela foi em frente. 
   Havia três semanas que ela estava em casa. Em princípio, a recuperação estava correndo de modo regular. Contudo, na semana do seu falecimento, ela teve uma convulsão que gerou uma lesão na perna - suspeitava-se até de fratura, pela fragilidade dos ossos. Infelizmente, antes que a resposta do tratamento da lesão na perna viesse, ela teve uma insuficiência respiratória aguda - até então, um quadro que não fazia parte de sua rotina.
   Esta insuficiência fez com que, no dia 25 de agosto, uma sexta-feira, ela viesse a nos deixar.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O grande debate


   Eu já falei aqui no blog, há algum tempo, do livro Esquerda e direita - guia histórico para o século XXI, de autoria de Rui Tavares. Aliás, livro muito interessante, que acho que voltarei a mencionar aqui.
   Na época em que li este livro, havia a menção a uma forma alternativa de entender a famosa distinção entre esquerda e direita. 
  Como sabemos, a forma mais tradicional de tratar do início histórico desta distinção é aquela que remete à Revolução Francesa. Em 28 de agosto de 1789, estava em discussão se as deliberações aprovadas pela Assembleia Constituinte poderiam ser vetadas pelo rei. Os deputados contrários ao direito de veto real entraram e tomaram assento à esquerda do presidente da sessão, enquanto os favoráveis àquele direito se sentaram à direita. Esta organização espacial foi mantida quando houve a segunda discussão sobre o mesmo tema, em 11 de setembro de 1789.
   O livro diz, sobre isso: 
   "A oposição que se firmou em torno do direito de veto do rei [...] transcendi uma mera diferença de opiniões sobre um ponto específico, e via-se bem que se estendia a uma visão de múltiplas coisas: do próprio poder ao sentido da história, daquilo que constitui uma nação àquilo que constitui uma noção de direitos". 
  Mas... o livro informava também que:
  "Um autor norte-americano [...] chamado Yuval Levin, conta uma história diferente para o nascimento da esquerda e da direita, que situa entre a Revolução Americana e a Revolução Francesa [...]. Para isso vai buscar dois autores, Edmund Burke e Thomas Paine, como precursores da esquerda e da direita".
  Aí entra a novidade do post. 
  Agora, em 2017, foi lançado no Brasil o livro Grande debate - Edmund Burke, Thomas Paine e o nascimento da esquerda e da direita, de Yuval Levin, pela Editora Record. Este é justamente o livro a que se referia Rui Tavares em seu texto. Já comprei o meu, mas ainda não li.

Quotas (3)


   Vamos, agora, aos problemas.
   Como eu mostrei no último post, "fórmula [para reserva de vagas] foi se tornando mais complexa e mais abrangente, com a diminuição crescente do peso da questão racial". Agora, estão em jogo, também, dados sociais dos postulantes às vagas segregadas, como, por exemplo, o fato de ter estudado em escolas públicas. Mas vejamos o que a matéria diz:
   "Uma brecha permite que se qualifique para a reserva de vagas quem estudou em escola privada e, no finzinho do curso, fez um supletivo - e isso vale como carimbo de temporada em escola pública. A falta de limite de renda em uma porção das vagas desvirtua a proposta ao abrir espaço para alunos de nichos de excelência na rede pública, como os colégios militares e de aplicação".
   O maior problema, contudo, ainda está relacionado à própria noção de "ser negro", no que se refere ao candidato, "num país multiético e tão miscigenado". 
   A matéria conta um caso curioso:
  "[Em 2007, na UnB], a seleção era feita por fotos enviadas pelos candidatos. Dois gêmeos idênticos se candidataram. Tinham a aparência do que, no cardápio multicolorido da pele brasileira, se pode chamar de 'café com leite'. Cada um enviou a sua foto. Um foi aceito; o outro não". 
   Diante da experiência de insucesso, a UnB instituiu um novo sistema: uma entrevista presencial com os candidatos, por uma bancada. Tal evento passou a ser chamado pejorativamente de "Tribunal Racial". Mas, em 2013, tal "tribunal" foi desativado, e se voltou à "era da autodeclaração".
   Um dos coordenadores do "tribunal", o senhor Nélson Inocêncio, disse, sobre essa nova era: "Em um país movido a jeitinho, â burla, a autodeclaração produz injustiça. Muito branco acaba passando no critério da cota racial".
   Ele tem razão. Lembro que, há algum tempo, foi publicada uma matéria na mídia que mostrava o caso de alguns alunos quotistas da Uerj. As redes sociais desses alunos exibia jovens de pele branca, vários deles com olhos claros, que se declaravam "negros". 
   A revista informa que "A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) [...] criou recentemente um comitê para, com base em cor da pele e formato do nariz e boca, bater o martelo sobre quem pode ser contemplado". Esquisito isso. Não fica com cara de avaliação de "raça pura" esse negócio?
   Aliás, a própria matéria indica que este procedimento "não tem como contornar o fulcro da questão: definir com precisão científica quem é branco, pardo ou negro, simplesmente porque, a rigor, raça é uma invenção social". (Grifo nosso)
   Ainda me parece que o mais correto são as quotas sócio-econômicas. Uma pessoa com baixa renda per capita familiar; que mora em favela; que só cursou o ensino público, seja branco e loiro de olhos claros ou negro, merece ter acesso diferenciado aos bancos universitários, a fim de que se tente diminuir a desigualdade social.
   Mas surge outra pergunta: vale à pena dar tanta importância ao ensino superior, mesmo reconhecendo que o ensino médio público, de um modo geral, é de tão pouca qualidade?
   Depois falo sobre isso...

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Quotas (2)


   Voltando à matéria da revista Veja, para falar um pouco mais do sistema de quotas.
   A primeira universidade a implantar o sistema de quotas foi a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2002. Somente em 2012, o sistema foi tornado obrigatório em todas as universidades federais do país.
   O "achismo" sobre esta política é muito grande, mesmo quinze anos após a primeira experiência desta ação positiva. A própria matéria informa que "não há estudo de abrangência nacional sobre o resultado das cotas". Isso é muito ruim. Qualquer política social implantada por um governo precisa ser objetivamente avaliada. Isto porque há custos para toda a sociedade. Estes precisam ser otimizados. Além disso, tem que haver uma avaliação precisa sobre a efetividade dessas políticas de exceção, a fim de verificar por quanto tempo elas precisam continuar sendo implementadas.
   De qualquer modo, ainda segundo a matéria, existem pesquisas isoladas sobre algumas das questões suscitadas pela adoção do sistema de quotas.
  Antes de tratar destas questões, vale à pena lembrar que "a fórmula [para reserva de vagas] foi se tornando mais complexa e mais abrangente, com a diminuição crescente do peso da questão racial".
   Seguem cinco mitos que parecem ter sido extintos:
   (Texto adaptado da matéria)
   1) A NOTA DE ENTRADA NA UNIVERSIDADE CAIRÁ MUITO - a nota média dos não quotistas é, de fato, maior que a de quotistas, mas a variação é irrisória - não chega a 5%.
  2) OS QUOTISTAS NÃO TERÃO CONDIÇÕES DE ACOMPANHAR AS AULAS E APRESENTAR BOM DESEMPENHO - quotistas tiram, em média, notas 10% menores na prova de conhecimentos específicos do Enade, teste que mede a qualidade do ensino superior. Mas, na UnB, que avaliou uma década de quotas, o desempenho dos dois grupos é praticamente igual, inclusive nos cursos considerados mais exigentes, como engenharia, ciência da computação e medicina.
   3) OS QUOTISTAS DEIXARÃO A FACULDADE NO MEIO DO CAMINHO - Os estudos revelam o contrário. Na Uerj, até hoje, dos que ingressaram por quotas, 26% desistiram no meio do caminho. Entre os não quotistas, o índice é de 37%.
   4) OS QUOTISTAS SERÃO PROFISSIONAIS DESPREPARADOS QUE NINGUÉM VAI QUERER EMPREGAR - Veja ouviu trezentos graduados - metade pelo sistema de quotas, metade pelo regime convencional. Em número de pessoas com emprego, os quotistas e os não quotistas se equivalem. Mas uma diferença persiste: na média, não quotistas ganham mais.
   5) AS QUOTAS VÃO EXACERBAR A QUESTÃO RACIAL NO BRASIL - Não se tem notícia do agravamento de conflitos raciais em campi universitários. Tudo sugere que os eventos que ocorrem são fruto do racismo que, historicamente, permeia a sociedade brasileira de modo geral. 
    
   Gostei... Mas é óbvio que existem problemas. Falo deles depois.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Quotas


   Passei na banca hoje e percebi a revista Veja desta semana. A matéria de capa tratava do sistema de quotas. Já na capa estava indicado que a revista tinha analisado dez pesquisas sobre o assunto.
   Sou favorável ao sistema de quotas, com algumas restrições ao modelo aplicado no Brasil. De qualquer modo, pensei ser interessante observar resultados de estudos sobre a questão.
   Escreverei depois sobre o que li, mas não queria deixar de registrar uma coisa que me deixou muito sensibilizado. Trata-se de um dos casos concretos apresentados pela revista. 
   Irapuã Santana tem trinta anos e é advogado. A matéria conta:
   "O casal José e Mirna, ele maquinista, ela dona de casa, trata o diploma do filho único como joia de família. Tem motivo para isso: Irapuã foi o primeiro do clã a pisar em uma universidade, e o fez com estilo. Em 2004, ingressou no curso de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), um dos melhores do país. Venceu o vestibular com o benefício das cotas raciais, mas a partir daí alçou voo sem ajuda. Escalou da graduação para o mestrado, do mestrado para o doutorado. Arranjou emprego de advogado, foi procurador e, atualmente, trabalha como assessor do ministro Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Irapuã é uma exceção dentro de sua família, mas também entre os amigos de infância do subúrbio carioca onde morava. 'De um grupo de quarenta garotos, só uns dez estão vivos e fora do sistema prisional', calcula. Ele não tem dúvida: 'Sem o empurrão das cotas, provavelmente não teria chegado tão longe'".
   Mas depois eu conto mais...

10 Lições sobre Bobbio (2)


   Primeiro, uma citação de Bobbio, bem apropriada ao nosso momento tão polarizado do Brasil:
  "Sempre fui, ou creio ter sido, um homem do diálogo mais que da polêmica. A capacidade de trocar argumentos, em vez de acusações recíprocas acompanhadas de insultos, está na base de qualquer pacífica convivência democrática".
   Ainda no mesmo clima, e também válida para nosso momento Brasil atual:
   "Da observação da irredutibilidade das crenças últimas extraí a maior lição de minha vida. Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. [...] [F]aço mais uma [confissão] [...] : detesto os fanáticos com todas as minhas forças".
   Outra citação, de seu livro de memórias, ao falar do debate com os religiosos:
   "Quero apenas dizer que sempre me pareceram mais convincentes as razões da dúvida que aquelas da certeza. [...] Também aqueles que acreditam, acreditam de acreditar [credono di credere] [...]. Eu acredito não acreditar". 
   Parece-me haver um problema lógico na fala de Bobbio. Quem acredita não acreditar é o ateu. Se as razões da dúvida são mais convincentes que as da certeza, como ele indica, ele deveria simplesmente duvidar do acreditar. 
   Eu, por exemplo, assumo que sou um crente... um crente na inexistência de Deus. Portanto, acreditando na sua inexistência, considero-me ateu... uma espécie de crente negativo. Rsss.
   Depois conto mais...

sábado, 12 de agosto de 2017

10 Lições sobre Bobbio


   Já tratei várias vezes da coleção "10 Lições sobre...", publicado pela Editora Vozes. Acho os livrinhos muito bem escritos. A escolha dos temas de cada um dos capítulos é muito feliz. Os textos são recheados de referências bibliográficas, o que facilita a expansão do conhecimento, através de uma pesquisa pessoal.
   O exemplar sobre o pensador Norberto Bobbio não foge à regra. Ontem, adquiri o meu. Mesmo com outras leituras, fui dando um jeitinho de avançar na leitura... mas confesso que só cheguei à metade. De qualquer modo, fico tranquilo para confirmar a qualidade do texto, de autoria de Giuseppe Tosi, graduado e pós-graduado em universidades da Itália que atualmente leciona no Brasil.
   Como sempre, vou apresentando pedacinhos do livro aos poucos.
   A Introdução registra uma figura realmente digna de pesquisa, quando diz:
   "Bobbio foi, e continua sendo, um interlocutor privilegiado tanto para os liberais quanto para os socialistas. Aos primeiros, relembra a necessidade de conciliar a liberdade com a igualdade e critica os excessos do neoliberalismo de mercado. Em relação à esquerda, relembra que sem liberdade não pode haver socialismo e critica os perigos totalitários que rondam os projetos políticos de inspiração marxista".
   Vale à pena explorar, não é?

Vauvenargues (2)


   Achei curioso um fato. Depois que postei a citação do marquês de Vauvenargue, fui dar uma vasculhada em mais referências sobre ele. 
   O Dicionário Universitário dos Filósofos, da Martins Fontes, não tem nada. Os dicionários do Ferrater Mora, do Lalande e do Abbagnano não têm nada?!?!?
   O Dictionary of Philosophy, da Oxford, traz pouco mais de dez linhas sobre o filósofo. 
   A Wikipedia em Português traz um artigo sobre ele que dá algumas informações interessantes sobre suas ideias. Pensei: "A versão em inglês deve ser bem melhor!". Surpreendi-me. Ela é menor?!?!? Pensei: "Se ele é francês... o artigo no seu idioma deve ser bastante completo". Que nada... bem fraquinho. Biografia; apresentação pequena de ideias; obras e lista de citações. 
   Eu tenho Das Leis do Espírito, publicado pela Martins Fontes, que contém duas partes - Introdução ao conhecimento do espírito humano e Ensaios de moral e de filosofia. Normalmente, a Martins Fontes, insere uma apresentação do autor, antes das obras que publica do mesmo, com uma análise do seu pensamento. Neste, entretanto, há apenas uma "cronologia" da vida do pensador.
   Do Wikipedia, selecionei:
  
  "[...] afirmando a 'ordre immuable et nécessaire' de tudo o que acontece. Ele também rejeita a 'liberdade da vontade' e afirma a relatividade do 'bem e do mal'. 'On n'a point de volonté', pondera ele, 'qui ne soit un effet de quelque passion [...]', acrescentando 'donc l'homme ne peut agir que par les lois de son Dieu'. Como em Espinosa, o 'Deus' em Vauvenargues não é o criador do universo, a fonte do bem e do mal, o guardião e juiz do homem, ou o legislador divino que estabelece as regras da moralidade. Ele é simplesmente a totalidade da natureza e suas leis inalteráveis. Assim, para Vauvenargues, a moral é construída pelo homem e 'l'humanité est la première des vertus'".
   
   Percebe-se, imediatamente, algo parecido com o pensamento spinozano, a quem o trecho selecionado faz menção. Porém, há um pouco mais, na sequência do texto da Wikipedia:
   
   "As principais influências que deram forma à sua Filosofia foram Bayle e, em especial, Espinosa [...]. Mas o Espinosismo de Vauvenargues é uma Filosofia individual intensamente moralista, senão também uma instância política, a serviço do indivíduo liberado. Preocupado com as implicações do sistema de Espinosa para o estilo de vida e a moralidade, ele parece de todo alheio às polêmicas da crítica à Bíblia do Tractatus [Tratado Teológico-político] e do sistema cuidadosamente criado na construção da Ética. Tipicamente vauvenargueniano na sua luta com o paradoxo contido no coração do sistema de Espinosa, que todas as ações e decisões humanas são determinadas necessariamente, e não há livre arbítrio, mas que, no entanto, esse fatalismo 'n'exclut point la Liberté'". 

  Pesquisarei mais sobre o marquês de Vauvenargues. Depois registro aqui.

Vauvenargues


   Luc de Clapiers (1715-1747) ficou mais conhecido como marquês de Vauvenargues. Era um ensaísta e moralista francês, autor de frases bem interessantes. Uma delas, em particular, chamou minha atenção:
   "O espírito é o olho da alma, não sua força; sua força está no coração, isto é, nas paixões. A razão mais esclarecida não faz agir e querer. Basta ter a vista boa para caminhar? Não é preciso ainda ter pés e a vontade com o poder de movê-los?"
    Paixões prevalecendo sobre a razão... isso me faz lembrar outro pensador. Rsss

Estupro legalizado (2)


   A notícia explicava ainda que "o Supremo Tribunal [do Paquistão] tentou dar fim a essas assembleias tradicionais, tornando-as ilegais em 2006. Contudo, para tentar acelerar a Justiça, o governo voltou a autorizá-las para resolver conflitos locais".
   Para "tentar acelerar a JUSTIÇA"???? Ah... entendi. Parece estar funcionando realmente muito bem... só que não!

Estupro legalizado


   No começo deste mês, noticiou-se que, no Paquistão, uma instância jurídica, ordenou o estupro de uma menina de dezesseis anos. 
   Num primeiro momento, parece que a notícia está errada. Não seria "puniu o estupro de uma menina"? Não. A informação está correta.
   Na vila de Raja Jam, na província de Punyab, o panchayat ou jirga, que é um conselho de "sábios", que representa uma espécie de tribunal para julgamento e aplicação das normas, conforme a tradição paquistanesa, puniu com a pena de estupro a jovem, como reparação pelo insulto infligido a uma outra menina de doze anos.
   Detalhes mais perversos da história são: (1) a "criminosa" recebeu a pena por ser parente do estuprador da criança de doze anos e (2) o "agente da lei", responsável por aplicar a pena, seria o irmão da primeira vítima - a menina de doze anos. 
   Pensemos. A "criminosa" não fez nada de errado, a não ser ter um parente delinquente... o que já foi o suficiente para fazê-la ser estuprada sob o império e a proteção da lei.
   Além disso, o irmão da vítima original, que deveria estar profundamente sensibilizado - e mesmo horrorizado - com o ocorrido à sua irmã, terá que perpetrar o mesmo tipo de crueldade com outra pessoa inocente... tão vítima quanto a primeira criança.
   Relativismo cultural... entendo... só que não!

domingo, 6 de agosto de 2017

Fluminense fazendo história


  Sou tricolor de coração... Como tal, orgulho-me com vários fatos envolvendo o Fluminense ao longo da história do futebol brasileiro - e mesmo mundial. Decerto que nem todos, mas... isso é estória para outro post.
   Desta vez, fiquei curioso ao ler uma afirmação de Tony Platão - tricolor fanático -, sobre o Fluminense ter sido o primeiro clube fundado contendo a palavra "futebol" na sua "certidão de nascimento". Seria uma visão excessivamente valorizadora do clube de coração? Fui pesquisar. 
   A Wikipedia tem um artigo com o título "Lista dos 60 clubes de futebol mais antigos do Brasil". Pronto... Está lá:
119/07/1900Sport Club Rio GrandeRio GrandeRSMais antigo clube brasileiro ainda em atividade a ser fundado[1]
211/08/1900Associação Atlética Ponte PretaCampinasSPMais antigo clube paulista ainda em atividade a ser fundado[2]
314/07/1902Esporte Clube 14 de JulhoSantana do LivramentoRSFundado em cidade na fronteira com o Uruguai[3]
421/07/1902Fluminense Football ClubRio de JaneiroRJPrimeiro dos 12 maiores do Brasil a entrar em campo e o primeiro a ostentar a palavra futebol no nome[4]
513/09/1902*Esporte Clube VitóriaSalvadorBAFundação do clube: 13/05/1899. Primeiro clube baiano ainda em atividade a entrar em campo, em 22/05/1901, informalmente por associados. Departamento de futebol inaugurado em 1902, primeira partida do clube em 13/09/1902[5][6]
615/09/1903Grêmio Foot-Ball Porto AlegrensePorto AlegreRSPrimeiro clube de Porto Alegre ainda em atividade a ser fundado
    Confirmado. O Fluminense é o quarto clube de futebol mais antigo do Brasil, sendo o primeiro a utilizar a palavra "futebol" - na forma inglesa. Após o tricolor carioca, outro tricolor, o gaúcho, faz uso da expressão.
   Parabéns aos tricolores!

Maoísmo


   No mesmo livro da PubliFolha citado no post anterior, há a descrição do Maoísmo. Da mesma forma que o Leninismo, mostra-se que Mao Tsé-tung fez sua própria leitura do Marxismo.
   O livro diz:
   "Assim como Lênin, Mao pegou os preceitos básicos da teoria da luta de classes marxista e adaptou-os à sua realidade. Embora os princípios básicos da visão marxista de progresso da história prescrevessem que a revolução comunista só poderia ocorrer no contexto do capitalismo avançado, Mao acreditava que a teoria poderia ser adaptada à sociedade chinesa de base camponesa dos anos 1930 e 1940. O próprio Mao definia sua abordagem como 'marxismo adaptado às condições chinesas'".

Leninismo


   Já falei daquele livro introdutório, publicado pela PubliFolha, chamado Política - 50 conceitos e teorias fundamentais explicados de forma clara e rápido, cujo editor é Steven L. Taylor. Acho que como apresentação inicial de conceitos, teorias e personagens, o livro funciona muito bem. É certo que, por vezes, a apresentação é tão "superficial", para não se tornar complicada, que fica aquele gostinho de "quero mais", como se não tivesse sido suficiente o conteúdo registrado. Mas esse é um defeito compreensível dentro do espírito deste tipo de obra.
   No caso do Leninismo, achei bem interessante a apresentação da ideia de que esta "variante" do Marxismo pode ser mais uma "traição" do que uma "evolução".
   Lá está assim:
   "O leninismo nasceu do marxismo. No entanto, tem-se discutido se representa uma contribuição ao marxismo ou uma corrupção deste. Seus detratores argumentam que o leninismo inverteu a ordem da economia precedendo a política ao negar a necessidade da existência do capitalismo plenamente desenvolvido loga antes da revolução proletária espontânea."
   E explica o porquê disso:
  "A fim de criar uma base teórica pragmática para a transição socialista à época, ele adaptou o marxismo às condições de seu país, transformando o marxismo de teoria utópica [OBS.: os marxistas não concordariam com o adjetivo 'utópica' vinculado à teoria baseada na ação, proposta por Marx] em realidade revolucionária. Lênin sugeriu que [...] países subdesenvolvidos como a Rússia poderiam realizar a primeira revolução proletária em lugar dos países industriais avançados, porque estes últimos, a fim de evitar a revolução, conseguiriam fortalecer o capitalismo e suavizar as relações domésticas entre capital e trabalho [...]. Lênin acreditava que a classe operária só desenvolveria a consciência revolucionária e derrubaria o capitalismo se fosse liderada por uma vanguarda de revolucionários profissionais, provenientes principalmente da intelligentsia burguesa".
   Achei o texto bem elaborado para uma introdução.

Tese bem diferente


   Notícia bem interessante a de que um aluno se doutorou com uma tese escrita no formato de quadrinhos.
   Trata-se de Nick Sousanis, aluno do curso de Educação da Universidade Columbia. A tese, apresentada em 2014, acabou sendo publicada como livro, e agora chega ao Brasil sob o título Desaplanar. Na obra, que chegou a ser premiada, o autor analisa o processo de aprendizagem, questionando a primazia da palavra escrita na linguagem e defendendo uma simbiose das palavras com as imagens.
   Ele declarou, sobre seu projeto:
  
 "Comecei a pensar na forma como a página estática e plana ['flat', em inglês] de um quadrinho poderia conter mais informações do que parecia possível – a meu ver, mais do que um texto conseguiria [...]. De alguma forma, a página estava 'desaplanando' ['unflattening', em inglês] para mim. O termo ficou na minha cabeça."
   
   Bem interessante este caso, mostrando que há espaço para uma flexibilização no mundo acadêmico... pelo menos no exterior.
   

sábado, 5 de agosto de 2017

Injustiça com Locke


   Outro dia, eu ouvia um discurso de uma pessoa de "esquerda" - as aspas não são por conta de uma possível desonestidade ideológica do orador, mas por conta de algumas incoerências que imagino existirem no conjunto do seu pensamento. No tal discurso, reclamava-se de ações violentas contra pessoas em situação de fragilidade social. Até aqui, tudo certo. Acho que poucos, refletidamente, endossam violência contra pessoas que já vivem em situação de abandono. Mas... mas... aí veio uma crítica ao possível "fundador" desse tipo de pensamento... ninguém menos que Locke. Eu pensei, por um átimo, que deveria ser algum pensador contemporâneo que não conhecia... alguém meio fascista... sei lá. Porém, o orador desfez qualquer mal entendido, ao esclarecer que se tratava mesmo de John Locke (1632-1704).
   Faltava dizer o que o inglês fez de errado. E o "crime" do grande empirista foi anunciado. Segundo nosso orador, Locke teria indicado que o direito à propriedade era o que havia de mais importante, daí que qualquer ataque às pessoas estaria justificado, se a intenção fosse salvaguardar o patrimônio.
   John Locke deve ter se revirado no túmulo... mas se não o fez, eu me sacudi na cadeira. Não podia falar nada... mas deu vontade; afinal, foi uma tremenda injustiça com o filósofo britânico. 
   No Segundo tratado do governo civil, Locke indica que, mesmo no Estado de Natureza, existem leis, mas leis naturais. Estas seriam leis dadas por Deus, e os homens seriam capazes de descobri-las através da reflexão. Os homens seriam iguais e livres, no Estado de Natureza, mas Locke explica que "liberdade" não é licença para fazer o que quiser. As leis naturais dadas por Deus impedem o suicídio - já que o Ser Supremo teria determinado a vida daquele indivíduo - e a destruição de outros indivíduos - visto que Deus também os teria criado como iguais. 
   A criação do Estado civil atenderia ao desejo de se proteger três coisas: a vida, a liberdade e a propriedade. Desta forma, não há que postular que Locke incentivasse o ataque à vida, como se esta significasse um valor menor.
   

Venezuela (2)


   O jornal O Globo de hoje apresentou a algumas personalidades a pergunta "Os venezuelanos ainda vivem numa democracia?".
   Particularmente, achei a resposta mais elucidativa a de José Miguel Vivanco, diretor da Divisão das Américas da Human Rights Watch, que disse:
   "São necessários dois princípios básicos para caracterizar um governo como democrático: eleições livres, justas e competitivas; e a obrigação de se governar democraticamente - exercendo o poder com respeito aos limites do Estado de direito, à separação de poderes, à independência do Judiciário, à imprensa livre e à sociedade civil. E não perseguir dissidentes e líderes políticos. Não acho que a Venezuela passe no teste. E o governo deve ser tratado como tal. Em linguagem simples, como uma ditadura".

Venezuela


   Assisti a alguns vídeos, que me chegaram pelo Whatsapp, registrando a situação das ruas da Venezuela. Uma só palavra poderia definir o que vi: "Barbárie". Violência gratuita, contra pessoas isoladas, praticada por grupos enormes de policiais, fortemente armados. 
   Socialismo bolivariano é aquilo? O Foro de São Paulo  queria disseminar esta política pela América do Sul?
   Se as respostas são positivas, sou contra os dois.
   Vergonhosa a produção de um antagonismo tão grande entre os cidadãos, a ponto de vivermos a possibilidade, inclusive, de uma guerra civil.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Fichte


   Em O caminho para uma vida bem aventurada ou A doutrina da religião (1849), Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) escreveu:
   
   "A religião não é uma ocupação independente que seria possível praticar fora das outras ocupações, por exemplo, em certas horas; mas é o espírito interior que penetra, anima e impregna todo o nosso pensamento e toda a nossa ação".
   
   Quem dera fosse assim para todos aqueles que falam tanto sobre o assunto.

Anne Dias e os "professores"


   Essa Anne Dias é muito legal mesmo. No artigo que escreveu, sob o título "Coisas irritantes que os corredores fazem", ela descreveu cinco coisas da galera de corrida que a incomodam. Fiquei morrendo de rir. Mas, sinceramente, a que mais gostei foi a que diz respeito aos "professores".
   Vejam só:
   
 A chatice: deve haver no atletismo brasileiro uns 45 caras realmente aptos a dar aula de corrida. Mas, assim como o Brasil tem 200 milhões de cientistas políticos e técnicos de futebol, tem uns 5 milhões de especialistas em corrida - que é o número estimado de corredores no país.
   A solução: Ao questionar o que o professor está falando, enfie a expressão "pesquisas dizem que..." e invente uma teoria qualquer. Se o cara for dos 45 mestres de corrida, ele te derruba e vocês caem na risada. Se não for, você vai rir sozinho.

   Não ri só pela questão da corrida, mas também pela referência aos duzentos milhões de cientistas políticos e técnicos de futebol no Brasil. Rssss
   Além disso, o "pesquisas dizem que..." é usado por muita gente... principalmente aqueles que não sabem sobre o que estão falando.

Cerveja (2)


   O norte-americano Tim Kliegl correu 3.138 km ao longo de todo o ano de 2016 por conta de um desafio feito no aniversário de 2015. Ele se propôs a correr 1,6 km por dia.
   E o que isso tem a ver com "cerveja", que consta no título do post?
   Respondo. Após cada corrida, fazia parte da proposta beber uma cerveja diferente - só para reidratar. Rsss. Não é que nosso amigo conseguiu beber 366 cervejas diferentes? E mais... em vez de 1,6 km, ele ficou com uma média diária de mais de 8,5 km. Caracas!!!
   Eu treino 8,5 km duas, no máximo três, vezes por semana. Acho que está faltando o prêmio da cerveja ao final, para dar uma forcinha. Rsss

Cerveja


   Hoje, dia 04 de agosto, é o Dia Internacional da Cerveja. A data é móvel, sendo comemorada na primeira sexta-feira do mês de agosto.
   Segundo a Wikipedia, a ideia da data comemorativa surgiu em 2007, na Califórnia.
   São três os propósitos:
   
   1. estar com amigos para saborear a bebida;
   2. celebrar aqueles que fabricam e os que a servem; e
   3. ter o sentido de união mundial com outros comentadores, com cervejas de todas as nações e culturas.

   Vamos respeitar a data e sair do trabalho para comemorar!

    sexta-feira, 28 de julho de 2017

    Rousseau colou!?!?


       Acho que Jean Jacques Rousseau "colou" essa ideia de Baruch Spinoza: "Tudo o que parece estender ou fortalecer nossa existência encanta-nos; tudo o que parece destruí-la ou abreviá-la, aflige-nos. Esta é a fonte primitiva de todas as nossas paixões". (Fragmentos filosóficos e morais)
       Sei lá, Rousseau... mas isso tem um espírito spinozano. Parece que se trata do aumento e da diminuição da potência de existir, em função daquelas modificações provocadas pelos afetos, e na busca daquilo que acabamos por considerar bom, pelo desejo daquele aumento, ou na rejeição àquilo que consideramos mau, por aversão àquela diminuição.

    Mulato


       Outro dia, conversava com um amigo, e utilizei o termo "mulato". Ele sutilmente me repreendeu, indicando que a palavra era pejorativa. Eu argumentei que, em Biologia, quando se falava da cor da pele, geneticamente se usavam as expressões "negro", "mulato escuro", "mulato claro" e "branco". Portanto, não me parecia algo depreciativo, visto que era um termo científico. Ele insistiu que "mulato" vinha de "mula", indicando uma animalidade/bestialidade do indivíduo assim chamado.
       Fui pesquisar e...
       "Mulato", em Português, realmente tem a ver com a palavra "mula", do latim mulus. A mula é o progênito do cavalo com a jumenta ou do jumento com a égua. Como representa um "híbrido" de duas raças de animais, passou a ser utilizado para a mistura entre um homem branco e uma mulher negra, ou vice-versa.
       Esta perspectiva, do hibridismo ou mistura, parece diminuir a carga pejorativa do termo "mulato". Historicamente, inclusive, a palavra "mula", com esta perspectiva de mescla, não se limita nem mesmo ao animal. Senão vejamos...
       O uso da palavra "mula" para designar uma pessoa mestiça aparece nas Histórias, de Heródoto. Neste escrito é contado que o oráculo de Delfos havia profetizado a Creso, rei da Lídia, que o seu reino duraria até que uma "mula" fosse rei dos medos.  De fato, quando Ciro II, que tinha pai persa e mãe meda, se tornou rei da Média e da Pérsia, o reino de Creso caiu.
       Desta forma, embora meu amigo tivesse razão ao afirmar que "mulato" vem de "mula", isto não significava uma indicação de bestialidade daquele a quem o termo se refere, mas tão somente ao seu status de "mestiço". E, seguindo esta ideia, o termo "mulato" se aplica razoavelmente bem àquela tonalidade de pele intermediária entre o branco e o negro.  

    LGBTQI


       Tento ser um cara "antenado", mas a velocidade das modificações é muito grande. Quando eu já estava por dentro do LGBTS, vem o LGBTQI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros, queer e intersexo)... e eu acho que falta o S, de "simpatizantes", como na sigla anterior.
       A sigla está na revista Psicologia - grandes temas do conhecimento - especial Sexualidade e Gênero, mais especificamente no artigo "Ideologia de gênero ou educação para a cidadania?", de autoria de Francisca Jocineide da Costa e Silva e Maria Eulina Pessoa de Carvalho.
       O texto é bastante interessante. Vou registrando aos poucos. 
      A primeira coisa que merece destaque é a informação de que "o sexo e o gênero não são binários e fixos. Nascem crianças intersexo, que não podem ser registrados como menino ou menina. Existem pessoas que não se identificam com o sexo de nascimento. [...] E, enfim, a sexualidade não se restringe à reprodução biológica, mas engloba a pluralidade de desejos e prazeres".
       Um registro que vale à pena mencionar, e que o texto cita, é que "os conceitos de gênero e sexualidade ainda não foram assimilados socialmente nem na prática escolar". E a prática escolar é um dos caminhos que facilitará a assimilação social destes conceitos. 
       Em seguida, temos a apresentação dos conceitos de "ideologia" e "gênero".
       O conceito de "ideologia" já é aquele com uma visão crítica. Está lá: "Ideologia é um sistema de ideias que é útil para sustentar relações de poder, mascarar a realidade, podendo ter fundamentos religiosos, políticos e econômicos". E, depois: "Gênero é definido como construção histórica, social, cultural e educacional de características, identidades, posições, papéis, valores e normas para homens e mulheres de acordo com seu sexo biológico". Cita ainda Pierre Bourdieu, quando indica que "[gênero] É o primeiro marcador social, definidor da identidade pessoal e das relações sociais, [correspondendo a] um princípio de visão e divisão social".
       Há ainda a referência histórica de que o conceito de gênero "surgiu no final da década de 1950 [...]. Foi criado pelo médico John Money, do Hospital e Escola de Medicina John Hopkins (Estados Unidos), que assistia crianças intersexo, aquelas que nascem com genitália indefinida. Ele acreditava que, uma vez definido cirurgicamente o sexo, o gênero poderia ser aprendido".
       Depois, conto mais...

    Anne Dias


       Anne Dias é uma jornalista que escreve na revista O2. Dizer que ela "escreve" é muito pouco, tal o modo criativamente divertido com que ela registra suas ideias.
       Na revista do bimestre fevereiro-março deste ano, ela produziu o texto "Queniano, que nada! Existem desafios muito maiores do que as sub-2h na maratona". Mais outro texto legal!
       Primeiro, ela traz uma ideia muito interessante em relação àquelas pessoas que ficam colocando suas planilhas de treino em redes sociais, dizendo "Fio, para nós, tanto faz se você faz 10 km em 35 minutos ou em 1h15min. Está tudo certo, principalmente se você está feliz". Show! É lógico que há aqueles que só ficam felizes com a melhora da performance... mas para aqueles que não são atletas, de um modo geral, basta o prazer.
       Até aqui, nada de tão divertido. Mas... a parte seguinte é demais. Ela vai tratar daqueles tipos de pessoas que nos revoltam, quando nos ultrapassam. Obviamente, eu, que tenho 51 anos, não fico espumando quando um rapaz fortão, com seus vinte anos, me passa numa corrida, mas veja os tipos que Anne cita e como os descreve. 
       Em resumo... (Já digito rindo)
       1. A gordelícia: gorduchinha em todo o corpo menos na pança. Tem cintura de violão e está sempre sorrindo porque vive à base de brigadeiro, a melhor fruta que Deus criou. (Essa do brigadeiro é demais!!! Kkkkk....)
       2. Os tiozinhos: De todo o aparato tecnológico do mercado, ele usa apenas a bermuda de tecido leve que o neto deu.
      3. Os fantasiados: Eles te ultrapassam no km 8, porque antes estavam fazendo selfies.
       4. As crianças: nunca vou esquecer uma prova de 10 km em que um menino de 12 anos me passou com folga. Juro, pensei em desistir dessa bobagem que é a corrida. 
       O fechamento é demais... Lá vai...
       "Pergunto: sub-2h em maratona é impossível? Fio,com treino a partir dos 15 anos de idade, 2.500 abdominais por dia, tênis tecnológico, comida controlada e uns fortificantes, você faz. Agora, correr atrás de filho, ficar na cola da gordelícia, virar sombra do tio, acompanhar a Mulher Maravilha, tudo isso só na base da planilha, gluglu iê iê, aí eu quero ver". 
         Kkkkkk...

    quinta-feira, 27 de julho de 2017

    Pai


       Meu pai, que faria 95 anos no próximo dia 29 de julho, era um sujeito muito ético... duro até demais com alguns posicionamentos sobre os valores que defendia. Portanto, pela boa memória que tenho dele, nunca o invocaria se eu estivesse no meio de inúmeras falcatruas. Na pior das hipóteses, pediria desculpas a ele, todas as noites, em memória, por estar fazendo o contrário do que ele me ensinou ser o correto. 
       Isso sou eu, porque a revista Veja de 19 de julho, numa matéria cujo título é "O bando dos quatro" - em que trata de Lula, Dilma, José Dirceu e Antonio Palocci - traz uma frase de Dirceu que deve ter deixado o pai dele se revirando no túmulo, caso tenha sido um senhor honesto. Disse o ex-ministro: "Aprendi com meu pai que na vida o mais importante são os valores éticos e os valores morais, e o mais importante é o Brasil" (02 de janeiro de 2003).
       Surgem duas possibilidades: ou ele não aprendeu direito, ou o pai não sabia bem o que "valores éticos e morais" significavam, e, por isso, não pôde ensinar direito.
       De minha parte, vou preferir acreditar que só o filho não era ético o suficiente, tendo deixado de aprender o que o pai lhe passou com tanto cuidado.
       Só por curiosidade, aí vão frases dos outros três políticos.
       "O combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu governo" (1º de janeiro de 2003) - Luiz Inácio Lula da Silva.
       "Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente" (1º de janeiro de 2011) - Dilma Rousseff.
       "Trabalhei dentro da mais estrita legalidade, respeitando rigorosamente os padrões éticos que se impõem aos homens públicos" (08 de junho de 2011) - Antonio Palocci.

       Eita...

    O novo...


       Há alguns dias, o senador Cristovam Buarque publicou no jornal O Globo, um pequeno artigo chamado "Portadores do novo".
       No artigo, ele acusava até mesmo as "forças progressistas" de terem um apego ao passado, deixando, portanto, de serem "portadoras do novo". E aí, ele diz o que é "o novo", em vários parágrafos.
       Não citarei tudo. Mas há algumas partes de que gostei bastante... embora não tenha a certeza de que "o novo" represente necessidades tão novas assim... nem que algumas das definições sejam tão facilmente realizáveis na prática como o senador insiste em enxergá-las.
       Mas, vamos lá:
       "O novo está mais no dinamismo decorrente da coesão social, do que na disputa de interesses de grupos, corporações e classes". Sinceramente, diante da questão de que sociedade não é comunidade, ou seja, em vez de um objetivo universalmente comum dos partícipes, desta última, a realidade da primeira envolve sempre uma assimetria de poderes e de desejos, acho inimaginável essa tal "coesão social" sem "disputa de interesses".
       "O novo não é mais a proposta da igualdade plena de renda, que, além de demagógica, é autoritária, ineficiente e não respeita o mérito, o empenho e as opções pessoais. O novo está na tolerância com uma desigualdade de renda e no consumo dentro de limites decentes, entre um piso social que elimine a exclusão e um teto ecológico que proteja o equilíbrio ambiental". Concordo com o início - a rejeição à proposta de igualdade plena de renda -, mas discordo da "desigualdade [...] dentro de limites decentes"... embora também concorde com os limites apresentados. Ou seja, minha implicância está com a "decência" dos limites. Eu sempre achei que o que incomoda não é haver pobres e ricos, mas tão somente o fato de haver miseráveis. Ser pobre é ter menos recursos financeiros - é muito mais, mas uma avaliação pragmática imediatista se contenta com este indicador -, mas não é passar fome. Pode ser não ter um tênis caríssimo, mas não é andar descalço. Pode ser não ter a roupa novíssima, da última moda e da marca mais badalada, mas não é passar frio por falta de qualquer roupa. Já o limite maior me parece imposto por outro tipo de consciência, aquela referente à sustentabilidade da satisfação dos nossos desejos e também a um compromisso com as gerações vindouras. Não se deve exaurir a natureza para produzir tudo o que queremos agora, deixando de pensar que outros virão e terão necessidades - e não simplesmente desejos supérfluos - que precisaram ser supridas com recursos que precisamos compartilhar.
       "O novo não está na riqueza definida pelo PIB, a renda e o consumo, mas na evolução civilizatória". Concordo plenamente. Até já discuti isso num post referente ao conceito de "desenvolvimento".
       "O novo não está mais no excesso de gastos e de consumo, mas na austeridade e bem-estar". Concordo. Penso que o fundamento do Estado não é só a solução de conflitos pela via da não-violência - ou da violência como prerrogativa do próprio Estado -, mas na produção de bem-estar para os partícipes deste mesmo Estado, ou seja, do povo.
       "A política nova não está apenas na democracia do voto, mas também no comportamento ético dos políticos, [...] espírito público sem corporativismo". A Política velha também deveria ser assim definida.
       "O novo está na educação"... bem como "o velho" também deveria ter estado. Sem ela... ou com ela precarizada, ficaremos sempre dependendo do "novo".

    Mais Bioética


       Historicamente, o termo "Bioética" surge em 1927, com o escrito Bioethics: a review of the ethical relationships of humans to animals and plants, de autoria do pastor, filósofo e educador alemão, Fritz Jahr. 
       Basta ler o título para verificar que a intenção central é tematizar a relação dos humanos com outros seres vivos - o que parece estar bem adequado àquela raiz etimológica grega a que já nos referimos em outro post.
       Porém, o texto considerado o "pai do conceito" é produzido bem mais tarde, em 1971, pelo bioquímico americano Van Rensselaer Potter (1911-2001), cujo título é Bioethics: bridge to the future. 
       A ideia potteriana também tinha um apelo mais global, dizendo respeito aos cuidados necessários com a natureza, por parte do ser humano, em função dos avanços tecnológicos obtidos por este último, mas que demandavam cada vez mais dos recursos naturais, sem uma preocupação com o que haveria de vir no futuro - daí a necessidade de um saber que valorizasse esses cuidados e possibilitasse a chegada efetiva do homem, de modo sustentável, ao futuro.
       Ocorre que, pouco a pouco, o termo "bioética" foi sendo apropriado pela Medicina. O próprio Potter viu a necessidade de desvincular sua ideia inicial daquela em que o termo se viu enredado, e cunhou, então, a expressão "global bioethics" para traduzir aquele conceito que produzira inicialmente.
       Edmund D. Pellegrino (1920-2013), um dos notáveis pioneiros da Bioética nos Estados Unidos, levanta questões que a Bioética terá que enfrentar. A primeira delas é como resolver a diversidade de opiniões sobre o que é Bioética e qual é o seu campo de abrangência temática. A segunda é como relacionar os vários modelos de ética e bioética, uns com os outros. Hoje, estaríamos começando a falar de "bioéticas", no plural.
       Saiamos da parte histórica...

    quarta-feira, 26 de julho de 2017

    Cartas de um antagonista


       O título do post é o mesmo do livro de Mario Sabino, um dos produtores do site O Antagonista, juntamente com Diogo Mainard.
       O livro, publicado pela Editora Record em 2016, é uma coletânea de artigos, tanto escritos quando Sabino era correspondente da revista Veja, em Paris, quanto para o site, no período entre o mês imediatamente anterior ao afastamento de Dilma até o seu impeachment. 
       São textos breves e fáceis de ler. A maioria deles com bastante conteúdo político... uns mais interessantes, outros menos.
       Antes de citar algumas passagens de que gostei, queria fazer uma correção à informação do autor, logo no começo do livro. Ele escreve que Fernando Henrique Cardoso, numa entrevista concedida a Sabino, discorreu sobre a "ética da convicção" e a "ética da responsabilidade". E emenda "FHC lançou mão desses conceitos do filósofo alemão Immanuel Kant"... Opaaa... Kant? Até onde eu sei, esses conceitos são elaborados por Max Weber. 
        Vamos lá, agora.
       "o PT tentou ulcerar a democracia para conquistar votos através da distribuição de migalhas a pobres desassistidos eternizados como pobres assistidos". Nem me refiro especificamente ao que ele diz ser a ação do PT, mas achei bem inteligente a ideia falar nesta transformação de "pobres desassistidos eternizados como pobres assistidos". 
        "a imagem do Brasil será indelevelmente a de uma república das bananas. É o que somos. [...] O Brasil é bananeiro na vulgaridade do Congresso Nacional. O Brasil é bananeiro na rapacidade de seus partidos. [...] O Brasil é bananeiro na caipirice de seus cidadãos. O Brasil é bananeiro na emotividade despudorada de lulistas e antilulistas. O Brasil é bananeiro na precariedade das suas cidades. O Brasil é bananeiro na mediocridade das suas universidades. O Brasil é bananeiro na indigência de sua cultura. Os modernistas tentaram transformar os nossos defeitos de república das bananas em qualidades maravilhosas que nos diferenciavam de todos os outros povos". Que porraaaada no nosso Brasil, hein! Pegou pesado demais! Se bem que... não há como negar que ele acerta em alguns diagnósticos. Gostei muuuuuito da questão da "emotividade despudorada de lulistas e antilulistas", que vivem se "matando" enquanto os políticos profissionais fazem teatro e só se preocupam em salvar as próprias peles.
       "a política deve entrar no rol das suas preocupações cotidianas, porque quase todas elas são... política!
          A calçada esburacada é política; a falta de iluminação é política; o rio sujo é política; a mensalidade exorbitante da escola do seu filho é política; os reajustes abusivos dos planos de saúde são política; a falta de emprego é política; a ciclovia que foi tragada por uma onda é política.
        O impeachment de Dilma Rousseff não pode ser apenas uma catarse. Tem de ser um ponto de inflexão no nosso atávico desinteresse pela política.
        Política não é o fim, mas o começo". Bela reflexão para todos nós.
       Depois escrevo mais...
        

    segunda-feira, 17 de julho de 2017

    Spinoza na Folha


       Vladimir Safatle, colunista da Folha de S. Paulo, escreveu o artigo "Existem realmente paixões tristes?", em 23/06/17. O título logo chamou minha atenção, por lembrar a teoria dos afetos de Spinoza. Mas não achei que se tratasse desse assunto. Só que era!?!? Legal!
       Vamos, então, ao que o filósofo Safatle escreveu. 
       Diz ele que algumas dicotomias atravessam o tempo, sendo uma destas a que diz respeito às paixões tristes e paixões alegres, do filósofo holandês. 
       Tecnicamente, há um pequeno problema no texto, quando Safatle fala de a liberdade estar ligada "à força afirmativa das paixões alegres" - já que sabemos que são os afetos ativos, e não os passivos (paixões), que garantiriam a liberdade. Mas isto é plenamente desculpável, pois, como indica o próprio Safatle, ele não quer "fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal". Basta, para uma aproximação geral, dizer que por "paixões tristes e alegres", Safatle entende "tristeza e alegria".
       Safatle indica que "gostaria de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos". 
       Considerando apenas aquela ideia geral de "tristeza e alegria", que coloquei, Safatle explica que "paixões tristes diminuem nossa potência de agir, [e] paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir".
       Em sua análise, Safatle explica que, com a tentativa de negar a existência dicotômica das paixões, o homem acaba por esperar emudecer as paixões tristes, numa "luta desesperada em apegar-se compulsivamente a uma afirmação cristalina e sem sombras".
       O caminho que Safatle percorre, dizendo que esta luta "corre o risco de acabar por alimentar a visão capitalista da felicidade como conformação estoica ao que acontece", não me parece o melhor. A filosofia estoica propõe algo mais profundo do que a simples "conformação ao que acontece", embora haja uma dimensão de reconhecimento do sábio quanto à imutabilidade de certas situações. Mas há um exercício ativo constante para a conquista da sabedoria e da felicidade.
       Eu diria que valeu à pena ver Spinoza frequentar a Folha de S. Paulo, mas que o desdobramento de seu pensamento ficou um pouco "truncado".

    Revolução e Preguiça


       Não que eu concorde integralmente, mas achei interessante uma ideia do pai do Conservadorismo, o pensador irlandês Edmund Burke (1729-1797), quando ele se refere à ação revolucionária obedecer à preguiça de quem é incapaz de pacientemente estudar e reformar a comunidade real, optando por atalhos e pelas facilidades falaciosas da destruição e da recriação totais.

    Pretorianismo


       Por esses dias, li no jornal que parte dos apoiadores do ex-presidente Lula às eleições de 2018 estava preocupada com algo inesperado à primeira vista: um possível crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro no Nordeste, reduto eleitoral reconhecidamente lulista.
      Os simpatizantes de Lula achavam que a, sempre citada em pesquisas de opinião, confiança nos militares, aliada à proximidade de Bolsonaro com estes atores sociais, poderia acabar por angariar simpatia e votos ao candidato capitão da reserva do Exército brasileiro.
       Se isso é verdade, eu não tenho certeza. Mas lembrei desse fato quando lia a definição do "pretorianismo", em Política - 50 conceitos fundamentais explicados de forma clara e rápida, cujo editor é Steven L. Taylor, publicado pela Publifolha.
       Lá está:
      "Pretorianismo geralmente se refere ao governo dos militares, mas também pode significar uma forte influência deles na política. [...] O fenômeno está claramente associado a compromissos débeis das elites com a democracia, a instituições políticas frágeis, a polarização ideológica, a laços da elite política com a os líderes militares e a uma sensação generalizada de que os militares têm legitimidade para governar. O papel dominantes dos militares vai aos poucos se enraizando, e eles passam a ser atores políticos fundamentais, em particular nos períodos de crise política ou econômica". (Grifos meus)
       Diante do exposto, apesar de não acreditar mais numa participação direta dos militares na condução do país, não dá para deixar de considerar a hipótese dos apoiadores de Lula de que os integrantes das Forças Armadas poderiam reforçar a candidatura de Bolsonaro, ainda que indiretamente, pela confiança depositada nestas instituições.
       Mas ainda há muita água para rolar na Política do Brasil até as eleições de 2018.

    A condenação de Lula


       Impossível deixar de registrar a primeira condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 12 de julho de 2017. Afinal de contas, "Nunca antes na História deste país..." um ex-presidente havia sido condenado - parafraseando o próprio Lula. É de estranhar, contudo, que com tantos problemas nas gestões do ex-presidente - mensalão e petrolão já comprovados, por exemplo -, Luiz Inácio da Silva tenha sido condenado por ocultar um tríplex "Minha casa, minha vida" - como ele mesmo disse - e um sítio em Atibaia.
       A curiosidade faz com entremos mais no caso para perceber que os dois imóveis faziam parte de uma dívida de R$ 16 milhões da OAS com o PT, por conta da vitória no contrato para construção da Refinaria Abreu Lima, em Pernambuco. Pelas contas apresentadas no processo, os dois imóveis, com suas respectivas benfeitorias, corresponderiam a R$ 2,2 milhões daquele total. 
       A bem da verdade, portanto, a condenação de nove anos e meio não se refere à ocultação de patrimônio, mas à corrupção passiva (seis anos) e à lavagem de dinheiro (três anos e meio). 
      Lula é réu em mais quatro outros processos. Vamos ver o que ainda há de vir por aí...

    quinta-feira, 13 de julho de 2017

    Olga Benario (3)


       Ao final do livro, há parte da correspondência de Olga. Realmente o que transparece é um profundo amor entre Olga e Prestes.
       Numa das cartas, por exemplo, ela escreve ao marido:
       "Querido, tua mãe me enviou tua fotografia. Agora passo muito tempo com a pequena no colo te contemplando e meus pensamentos ficam então contigo. Agora faz um ano que nos separamos. Mas, sabes, todo este tempo difícil trouxe como resultado apenas o fortalecimento de meus sentimentos em relação a ti. Vou encontrar forças para aguardar o feliz dia em que novamente estaremos juntos".
       Infelizmente, para o casal, como bem sabemos, o dia do reencontro nunca chegou.
       Uma outra coisa que me chamou atenção foi a intenção de Olga de participar da educação da filha, mesmo a distância. Numa carta de 1939, escrita a Prestes, ela diz:
       "Mas, sabes, Carlos, tens de me ajudar com minha mãe [Olga se referia à mãe de Prestes como sua própria mãe] para que eu também tenha voz ativa sobre Anita".
       E em outra, de 1940, também dirigida ao marido, escreve:
       "No que se refere à sua [de Anita] educação, peço-te que tenhas voz de poder com mamãe. Nossos muitos e queridos tios e tias parecem querer compensar a falta dos pais de Anita com mimos exagerados. [...] Mas nada é mais prejudicial do que passar à criança a sensação de ser algo especial. Isso lhe tornará a vida mais difícil no futuro. [...] [N]ossa filha não deve se tornar uma bonequinha mimada!".
       A opinião sobre não "passar à criança a sensação de ser algo especial" pode ser controversa para os pais mais contemporâneos... mas não me parece incorreta de todo. 
       

    Olga Benario (2)


      Terminei de ler o livro sobre Olga Benario. Muito legal. 
      Queria comentar uma passagem assustadora, sobre o extermínio dos judeus.
      Conta o livro:
      "Os nazistas mostravam-se extremamente ciosos de manter o extermínio em massa de prisioneiros em segredo. Na secretaria do campo de concentração de Ravensbrück, registrava-se uma doença inventada como causa de morte de cada mulher entre milhares que haviam sido assassinadas em Bernburg. Segundo Sarah Helm: O local da morte era sempre Ravensbrück. A data variava, mas era sempre no futuro - por outras palavras, várias semanas depois de as mulheres serem levadas [...]. Eram as próprias prisioneiras que trabalhavam na Secretaria que preenchiam o espaço destinado à causa da morte [...]. O pessoal andava ocupado há semanas a escrever as certidões de óbito. Havia quatro razões diferentes para a morte: problemas de coração; pulmões infectados; problemas de circulação ou poderia também escrever-se: 'Todos os esforços médicos para salvar a pessoa foram em vão'. As prisioneiras que tinham que preencher as certidões podiam escolher a seu gosto a doença dada como a causa de morte da mulher em questão".
       Imaginem ter que inventar um motivo falso para a morte de alguém que poderia ter sido amiga daquela que preenchia a certidão de óbito... principalmente sabendo que aquilo seria para encobrir uma violência terrível.

    quarta-feira, 12 de julho de 2017

    Esquerda e conservadorismo


       Aqui no Brasil, temos nos acostumado com uma esquerda alinhada às liberdades sociais. Um dos partidos que mais mobilizam os jovens, o PSOL, tem parlamentares declaradamente favoráveis à liberação da maconha e à luta contra a discriminação aos gays. Plataformas que realmente precisam estar presentes numa discussão da sociedade real em que vivemos. 
       Esta esquerda acusa a direita de conservadorismo. Ou seja, no terreno do "social", os liberais são os "de esquerda", enquanto os conservadores são os "de direita".
       Pois bem... Anunciou-se ontem que o Teatro Bolshoi adiou para o ano que vem a peça, que seria lançada na próxima semana, sobre o bailarino russo Rudolf Nureyev (1938-1993). Embora a justificativa oficial diga respeito à baixa qualidade da montagem, em virtude de os bailarinos ainda não estarem preparados, suspeita-se que o real motivo seja a temática da peça, que envolve a homossexualidade de Nureyev.
        O jornal O Globo, em uma matéria sobre o assunto, explica que existe uma lei anti-gay que veta propagandas "que incentivem relações não tradicionais a menores de idade" e cita, também, um "crescente conservadorismo social russo".
       O que os militantes do PSOL diriam disso, hein? Isso, eu não sei. Mas é interessante pensar bem sobre esses conceitos de "esquerda" e "direita".


    terça-feira, 11 de julho de 2017

    Ainda a Bioética


       No dia 09 deste mês, Hélio Schwartsman escreveu o texto "Desolação", em que tratava do tema Bioética, através do caso do bebê Charlie Gard.
       Para quem não lembra, Charlie tem onze meses e está internado num hospital inglês, com uma doença rara. Os médicos acharam que prolongar a vida do bebê artificialmente não valia mais à pena, mas os pais não concordaram. O caso foi parar na Justiça, que determinou o desligamento dos aparelhos. Contudo, os pais insistem em levar a criança para o exterior e tentar um tratamento experimental. Impasse...
        Schwartsman começa por dizer algo interessante: "A bioética [...] é a mais depressiva das especialidades filosóficas. Seus manuais são uma coleção de situações médicas trágicas que geram dilemas sem solução".
       Prossegue, avaliando que "Os médicos e as cortes estão certos ao definir que esforços terapêuticos precisam parar em algum ponto. Não dá para insistir em tratamentos fúteis. Por cruel que seja dizê-lo, é preciso pensar também em custos".
       Parece que o caso nem envolve custos para o governo inglês, visto que os pais arcariam com os custos do transporte do menino. Mas, segundo matéria do jornal O Globo: "Nesse caso, a Justiça baseia sua decisão, diz o NHS [Sistema de Saúde Público Inglês], no que é melhor para Charlie. Por isso, mesmo que os pais queiram custear a viagem aos Estados Unidos com o dinheiro arrecado, eles não têm autonomia para isso, uma vez que a Justiça determinou que o tratamento não trará benefícios ao bebê".
       Se não existe custo para o Estado e os pais desejam realizar o tratamento em outro local, onde ele é possível, concordo com a avaliação de Schwarstan, quando este comenta: "Se existe um princípio heurístico na sempre triste bioética, é o de que o respeito à autonomia do paciente e seus familiares é quase sempre a resposta menos ruim".
          

    sexta-feira, 7 de julho de 2017

    Olga Benario


       O filme Olga, de 2004, com a bela Camila Morgado, me impressionou bastante. Nem sei por que não li o livro depois de tê-lo visto. De qualquer modo, nunca é tarde para corrigir um engano. Rsss.
        Foi lançado este ano o livro Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo, pela Editora Boitempo, de autoria da filha da própria Olga, Anita Leocadia Prestes. Não resisti e, hoje, comprei o livro.
        Um dos fatos mais interessantes a respeito do texto é que ele inclui informações dos arquivos da Gestapo que só começaram a ser disponibilizadas para consulta pública a partir de 2015.
       Li muito pouco. Primeiro, a história da própria Olga até o encontro com Luiz Carlos Prestes, em 1934. Depois, a vinda dos dois para o Brasil, em 1935. E, por fim, a deportação dela para a Alemanha nazista, já grávida, e o nascimento de Anita Leocadia, em 1936.
       Por enquanto, queria registrar apenas uma observação do editor da correspondência de Olga e Prestes, sobre o tempo relativamente curto de relacionamento dos dois. Diz Robert Cohen:
       "Desde seu primeiro encontro em Moscou até sua prisão no Rio se passaram exatos um ano, três meses e vinte e dois dias. Pouco tempo, se diria. Mas qual seria o tempo ideal para o amor? A importância de uma relação não se mede por sua duração. Se quisermos saber alguma coisa sobre o amor entre duas pessoas, não devemos indagar o que as pessoas fazem do amor, mas sim o que o amor faz das pessoas. O que o amor fez de Olga Benario e Carlos Prestes descobrimos em suas cartas". 
       Depois, conto mais...

    Óptica e ideologia


       Um torcedor do Fluminense entra com sua bandeira tricolor (verde, branca e vermelha), todo feliz, num ambiente iluminado por uma luz vermelha. Lá dentro, volta a olhar para o pavilhão tricolor e se assusta. Ele percebe que vinha carregando um pano com as cores do seu arquirrival, o Flamengo. Desesperado, rasga aquele pano em preto e vermelho. Aborrecido, deixa o tal ambiente em que entrara, e se vê com sua bandeira tricolor em farrapos. Agora triste, não entende o que aconteceu.
       É lógico que quem lembrou das aulas de óptica do segundo grau, entendeu o fato. O branco reflete todas as cores, e, neste caso, é visto como vermelho. O vermelho reflete o vermelho, sendo visto também como vermelho. O verde não reflete o vermelho, sendo percebido como preto. Conclusão, a bandeira tricolor original é percebida, no ambiente com luz monocromática vermelha, como uma bandeira rubro-negra.
      A brincadeira óptica serve de pano de fundo para uma reflexão nossa sobre a ideologia.
      Quando estamos mergulhados em uma ideologia - e sempre estamos -, mas não conseguimos o mínimo afastamento crítico do que percebemos, acabamos fazendo discursos que beiram o ridículo - como no caso do dono da bandeira, que rasgou seu tão amado objeto. 
       Não deve ser verdade que tudo o que os governos de Lula e Dilma fizeram foi péssimo. Como também não deve ser verdade que tudo o que fizeram foi ótimo. Deve-se elogiar o que acertaram e censurar o que erraram. Quando se é um político profissional, que precisa do apoio do partido para "existir", eu até entendo que a defesa de tudo - quando se é da base de apoio - ou o ataque a tudo - quando se é da oposição - pode fazer um mínimo sentido. Mas quando somos meros participantes "amadores" da Política, ainda que tenhamos nossas preferências ideológicas, o bom senso tem que dizer "Presente!" com mais força.
       Vemos a situação lastimável do governo atual, enredado em acusações complicadas, que, pelo menos num primeiro momento, parecem incontornáveis. Para livrar-se delas, escutamos desculpas pouco convincentes, com ares burlescos. Este é um fato. Mas tão risíveis quando as ponderações dos primeiros são as observações feitas por aqueles que foram defenestrados do poder pelo acusado de agora, quando se percebe que os atos deste só significariam uma continuidade dos daqueles.
       Como alguém que vive a Política e reflete sobre ela, gostaria de algo muito simples: o expurgo de todos aqueles que agiram mal. O "todos", neste caso, significando tanto aqueles que se alinham com as minhas ideologias políticas, quanto aqueles que a ela se opõem.
       A questão ideológica, neste caso, não pode superar a questão ética e mesmo cívica.