quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Quotas (2)


   Voltando à matéria da revista Veja, para falar um pouco mais do sistema de quotas.
   A primeira universidade a implantar o sistema de quotas foi a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2002. Somente em 2012, o sistema foi tornado obrigatório em todas as universidades federais do país.
   O "achismo" sobre esta política é muito grande, mesmo quinze anos após a primeira experiência desta ação positiva. A própria matéria informa que "não há estudo de abrangência nacional sobre o resultado das cotas". Isso é muito ruim. Qualquer política social implantada por um governo precisa ser objetivamente avaliada. Isto porque há custos para toda a sociedade. Estes precisam ser otimizados. Além disso, tem que haver uma avaliação precisa sobre a efetividade dessas políticas de exceção, a fim de verificar por quanto tempo elas precisam continuar sendo implementadas.
   De qualquer modo, ainda segundo a matéria, existem pesquisas isoladas sobre algumas das questões suscitadas pela adoção do sistema de quotas.
  Antes de tratar destas questões, vale à pena lembrar que "a fórmula [para reserva de vagas] foi se tornando mais complexa e mais abrangente, com a diminuição crescente do peso da questão racial".
   Seguem cinco mitos que parecem ter sido extintos:
   (Texto adaptado da matéria)
   1) A NOTA DE ENTRADA NA UNIVERSIDADE CAIRÁ MUITO - a nota média dos não quotistas é, de fato, maior que a de quotistas, mas a variação é irrisória - não chega a 5%.
  2) OS QUOTISTAS NÃO TERÃO CONDIÇÕES DE ACOMPANHAR AS AULAS E APRESENTAR BOM DESEMPENHO - quotistas tiram, em média, notas 10% menores na prova de conhecimentos específicos do Enade, teste que mede a qualidade do ensino superior. Mas, na UnB, que avaliou uma década de quotas, o desempenho dos dois grupos é praticamente igual, inclusive nos cursos considerados mais exigentes, como engenharia, ciência da computação e medicina.
   3) OS QUOTISTAS DEIXARÃO A FACULDADE NO MEIO DO CAMINHO - Os estudos revelam o contrário. Na Uerj, até hoje, dos que ingressaram por quotas, 26% desistiram no meio do caminho. Entre os não quotistas, o índice é de 37%.
   4) OS QUOTISTAS SERÃO PROFISSIONAIS DESPREPARADOS QUE NINGUÉM VAI QUERER EMPREGAR - Veja ouviu trezentos graduados - metade pelo sistema de quotas, metade pelo regime convencional. Em número de pessoas com emprego, os quotistas e os não quotistas se equivalem. Mas uma diferença persiste: na média, não quotistas ganham mais.
   5) AS QUOTAS VÃO EXACERBAR A QUESTÃO RACIAL NO BRASIL - Não se tem notícia do agravamento de conflitos raciais em campi universitários. Tudo sugere que os eventos que ocorrem são fruto do racismo que, historicamente, permeia a sociedade brasileira de modo geral. 
    
   Gostei... Mas é óbvio que existem problemas. Falo deles depois.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Quotas


   Passei na banca hoje e percebi a revista Veja desta semana. A matéria de capa tratava do sistema de quotas. Já na capa estava indicado que a revista tinha analisado dez pesquisas sobre o assunto.
   Sou favorável ao sistema de quotas, com algumas restrições ao modelo aplicado no Brasil. De qualquer modo, pensei ser interessante observar resultados de estudos sobre a questão.
   Escreverei depois sobre o que li, mas não queria deixar de registrar uma coisa que me deixou muito sensibilizado. Trata-se de um dos casos concretos apresentados pela revista. 
   Irapuã Santana tem trinta anos e é advogado. A matéria conta:
   "O casal José e Mirna, ele maquinista, ela dona de casa, trata o diploma do filho único como joia de família. Tem motivo para isso: Irapuã foi o primeiro do clã a pisar em uma universidade, e o fez com estilo. Em 2004, ingressou no curso de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), um dos melhores do país. Venceu o vestibular com o benefício das cotas raciais, mas a partir daí alçou voo sem ajuda. Escalou da graduação para o mestrado, do mestrado para o doutorado. Arranjou emprego de advogado, foi procurador e, atualmente, trabalha como assessor do ministro Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Irapuã é uma exceção dentro de sua família, mas também entre os amigos de infância do subúrbio carioca onde morava. 'De um grupo de quarenta garotos, só uns dez estão vivos e fora do sistema prisional', calcula. Ele não tem dúvida: 'Sem o empurrão das cotas, provavelmente não teria chegado tão longe'".
   Mas depois eu conto mais...

10 Lições sobre Bobbio (2)


   Primeiro, uma citação de Bobbio, bem apropriada ao nosso momento tão polarizado do Brasil:
  "Sempre fui, ou creio ter sido, um homem do diálogo mais que da polêmica. A capacidade de trocar argumentos, em vez de acusações recíprocas acompanhadas de insultos, está na base de qualquer pacífica convivência democrática".
   Ainda no mesmo clima, e também válida para nosso momento Brasil atual:
   "Da observação da irredutibilidade das crenças últimas extraí a maior lição de minha vida. Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. [...] [F]aço mais uma [confissão] [...] : detesto os fanáticos com todas as minhas forças".
   Outra citação, de seu livro de memórias, ao falar do debate com os religiosos:
   "Quero apenas dizer que sempre me pareceram mais convincentes as razões da dúvida que aquelas da certeza. [...] Também aqueles que acreditam, acreditam de acreditar [credono di credere] [...]. Eu acredito não acreditar". 
   Parece-me haver um problema lógico na fala de Bobbio. Quem acredita não acreditar é o ateu. Se as razões da dúvida são mais convincentes que as da certeza, como ele indica, ele deveria simplesmente duvidar do acreditar. 
   Eu, por exemplo, assumo que sou um crente... um crente na inexistência de Deus. Portanto, acreditando na sua inexistência, considero-me ateu... uma espécie de crente negativo. Rsss.
   Depois conto mais...

sábado, 12 de agosto de 2017

10 Lições sobre Bobbio


   Já tratei várias vezes da coleção "10 Lições sobre...", publicado pela Editora Vozes. Acho os livrinhos muito bem escritos. A escolha dos temas de cada um dos capítulos é muito feliz. Os textos são recheados de referências bibliográficas, o que facilita a expansão do conhecimento, através de uma pesquisa pessoal.
   O exemplar sobre o pensador Norberto Bobbio não foge à regra. Ontem, adquiri o meu. Mesmo com outras leituras, fui dando um jeitinho de avançar na leitura... mas confesso que só cheguei à metade. De qualquer modo, fico tranquilo para confirmar a qualidade do texto, de autoria de Giuseppe Tosi, graduado e pós-graduado em universidades da Itália que atualmente leciona no Brasil.
   Como sempre, vou apresentando pedacinhos do livro aos poucos.
   A Introdução registra uma figura realmente digna de pesquisa, quando diz:
   "Bobbio foi, e continua sendo, um interlocutor privilegiado tanto para os liberais quanto para os socialistas. Aos primeiros, relembra a necessidade de conciliar a liberdade com a igualdade e critica os excessos do neoliberalismo de mercado. Em relação à esquerda, relembra que sem liberdade não pode haver socialismo e critica os perigos totalitários que rondam os projetos políticos de inspiração marxista".
   Vale à pena explorar, não é?

Vauvenargues (2)


   Achei curioso um fato. Depois que postei a citação do marquês de Vauvenargue, fui dar uma vasculhada em mais referências sobre ele. 
   O Dicionário Universitário dos Filósofos, da Martins Fontes, não tem nada. Os dicionários do Ferrater Mora, do Lalande e do Abbagnano não têm nada?!?!?
   O Dictionary of Philosophy, da Oxford, traz pouco mais de dez linhas sobre o filósofo. 
   A Wikipedia em Português traz um artigo sobre ele que dá algumas informações interessantes sobre suas ideias. Pensei: "A versão em inglês deve ser bem melhor!". Surpreendi-me. Ela é menor?!?!? Pensei: "Se ele é francês... o artigo no seu idioma deve ser bastante completo". Que nada... bem fraquinho. Biografia; apresentação pequena de ideias; obras e lista de citações. 
   Eu tenho Das Leis do Espírito, publicado pela Martins Fontes, que contém duas partes - Introdução ao conhecimento do espírito humano e Ensaios de moral e de filosofia. Normalmente, a Martins Fontes, insere uma apresentação do autor, antes das obras que publica do mesmo, com uma análise do seu pensamento. Neste, entretanto, há apenas uma "cronologia" da vida do pensador.
   Do Wikipedia, selecionei:
  
  "[...] afirmando a 'ordre immuable et nécessaire' de tudo o que acontece. Ele também rejeita a 'liberdade da vontade' e afirma a relatividade do 'bem e do mal'. 'On n'a point de volonté', pondera ele, 'qui ne soit un effet de quelque passion [...]', acrescentando 'donc l'homme ne peut agir que par les lois de son Dieu'. Como em Espinosa, o 'Deus' em Vauvenargues não é o criador do universo, a fonte do bem e do mal, o guardião e juiz do homem, ou o legislador divino que estabelece as regras da moralidade. Ele é simplesmente a totalidade da natureza e suas leis inalteráveis. Assim, para Vauvenargues, a moral é construída pelo homem e 'l'humanité est la première des vertus'".
   
   Percebe-se, imediatamente, algo parecido com o pensamento spinozano, a quem o trecho selecionado faz menção. Porém, há um pouco mais, na sequência do texto da Wikipedia:
   
   "As principais influências que deram forma à sua Filosofia foram Bayle e, em especial, Espinosa [...]. Mas o Espinosismo de Vauvenargues é uma Filosofia individual intensamente moralista, senão também uma instância política, a serviço do indivíduo liberado. Preocupado com as implicações do sistema de Espinosa para o estilo de vida e a moralidade, ele parece de todo alheio às polêmicas da crítica à Bíblia do Tractatus [Tratado Teológico-político] e do sistema cuidadosamente criado na construção da Ética. Tipicamente vauvenargueniano na sua luta com o paradoxo contido no coração do sistema de Espinosa, que todas as ações e decisões humanas são determinadas necessariamente, e não há livre arbítrio, mas que, no entanto, esse fatalismo 'n'exclut point la Liberté'". 

  Pesquisarei mais sobre o marquês de Vauvenargues. Depois registro aqui.

Vauvenargues


   Luc de Clapiers (1715-1747) ficou mais conhecido como marquês de Vauvenargues. Era um ensaísta e moralista francês, autor de frases bem interessantes. Uma delas, em particular, chamou minha atenção:
   "O espírito é o olho da alma, não sua força; sua força está no coração, isto é, nas paixões. A razão mais esclarecida não faz agir e querer. Basta ter a vista boa para caminhar? Não é preciso ainda ter pés e a vontade com o poder de movê-los?"
    Paixões prevalecendo sobre a razão... isso me faz lembrar outro pensador. Rsss

Estupro legalizado (2)


   A notícia explicava ainda que "o Supremo Tribunal [do Paquistão] tentou dar fim a essas assembleias tradicionais, tornando-as ilegais em 2006. Contudo, para tentar acelerar a Justiça, o governo voltou a autorizá-las para resolver conflitos locais".
   Para "tentar acelerar a JUSTIÇA"???? Ah... entendi. Parece estar funcionando realmente muito bem... só que não!