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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

O que há de meio "estranho"?

 

    O que julgo mais "estranho" é que, aparentemente, o suposto plano de substituição dos valores... ou de "transvaloração dos valores" - lembrando o bigodudo Nietzsche - não apresenta os valores novos apenas como mais dignos de serem tomados como fundamento da sociedade pretendida. Isso seria absolutamente compreensível. Parece, contudo, que os valores - novos e antigos - são colocados para "brigar", com um potencial, inclusive, de degradação absoluta da ordem, em vez de uma substituição de uma ordenação inconveniente, por outra melhor estabelecida.

    Vamos a um exemplo.

    Marx havia criticado a "família burguesa" pela mesma ter entrado na lógica da mercantilização. Em O manifesto comunista (1848), o filósofo alemão escreve: "A burguesia arrancou às relações familiares o seu comovente véu sentimental e as reduziu a pura relação monetária". 

    Ora, o que seria de se esperar da família inserida em uma nova ordem que se guiasse pelo marxismo? Imagino que seria a nova família abandonar a pura relação monetária e ter sobre si novamente o comovente véu sentimental. 

    Mas e se, em vez disso, propuséssemos o fim da família nuclear tal como a conhecemos? Não seria algo parecido com aquela ideia de jogar fora o bebê com a água da bacia, para eliminar a sujeira após o banho da criança? Ou seja, para resolver a situação problemática em relação a determinado objeto, elimina-se o objeto. Melhorando o exemplo: para curar um doente de câncer, mata-se o doente.



E a "guerra cultural" atual?

 

    Mas o que dizer da "guerra cultural" que, defendem alguns, está em curso agora, contra o Ocidente?

    Seguindo o que é apresentado pelos defensores desta ideia aqui no cenário brasileiro, temos que esta guerra é empreendida com a utilização das estratégias propostas pelo "marxismo cultural".

    E o que quer dizer exatamente isso?

    Em resumo, a ideia apresentada é a seguinte: quando perceberam que não haveria mais a possibilidade de implantar o socialismo - como passo inicial para o comunismo -, através de uma revolução, como preconizava o marxismo clássico, imaginou-se um outro caminho para alcançar o mesmo fim. Esse caminho seria o da substituição dos "valores burgueses" por outros, mais alinhados ao pensamento marxista, através de ações sobre a cultura ocidental.

    Assim é que, ao invés do campo econômico, que se referia à base, no pensamento marxista clássico, a atuação se daria sobre o campo cultural, referente à superestrutura daquele mesmo pensamento.

    O que parece mais interessante, entretanto, é que essas modificações seriam propostas a partir de "dentro" do próprio Ocidente, ou seja, as ações que permitiriam a substituição dos chamados "valores burgueses", na sua maior parte, seriam implementadas por cidadãos que vivenciam esses mesmos valores. Assim é que, se insurgindo contra a "democracia" de cunho liberal, os seus detratores se valeriam justamente dos espaços democráticos que admitem o embate de opiniões distintas.

    Mas há algo meio "estranho"...

    

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Essa tal "guerra cultural"

 

    Do que falamos, quando nos referimos a essa tal "guerra cultural", empreendida com base no "marxismo cultural"?

    Vamos por partes... e sem complicações desnecessárias.

    Uma "guerra" diz respeito a um conjunto de ações, propositalmente escolhidas, a fim de conquistar bens, materiais e imateriais, que pertencem a outros. Esses "bens", como foi destacado, podem ser materiais - ou seja, pode dizer respeito a riquezas naturais, produtos manufaturados, etc. - ou podem ser imateriais - como a liberdade, técnicas específicas de produção, conjuntos diversos de ideias, etc.

    Embora, dentro da perspectiva mais tradicional da Antropologia, o termo "cultura" se refira ao "conjunto de bens, materiais e imateriais, produzidos por uma sociedade e que pode ser objeto de transferência entre gerações", poderíamos ser um pouco mais "preciosistas" e destacar especificamente os "bens imateriais" para representar a cultura. Se assim o fizermos, podemos acrescentar o adjetivo "cultural" ao substantivo "guerra" e resumir a definição desse conjunto da seguinte forma: a luta de um grupo pela conquista dos bens imateriais de outro. Vale ressaltar que pode ser até uma "conquista" para eliminá-los e impor os seus próprios.

    Pensemos no seguinte exemplo do que foi dito. Conquistadores portugueses chegam a um determinado local, que receberá no futuro o nome de Brasil, e lá encontram uma sociedade com seus modos de sentir, pensar e agir; seus valores e crenças; sua língua, em resumo, com sua cultura.  Os conquistadores/colonizadores empreendem uma "guerra cultural" que começa a privar o povo originário da sua cultura, que vai sendo substituída pela língua portuguesa, pela religião católica, pelo uso de vestuário diverso do anterior, por regras de convivência e de relacionamento sociais incorporadas, etc.

    O exemplo mostra que a ideia de "guerra cultural" não é tão nova assim.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Dois livros interessantes

 

   Concluí a leitura de dois livros interessantes, embora pequenos e leves.
   O primeiro é do polêmico Luiz Felipe Pondé, chamado (In)Felicidade para corajosos, publicado pela Editora Planeta, em 2021.
   O segundo é História da Psicologia sem as partes chatas, de Joel Levy, publicado pela Editora Cultrix, em 2016
   Tanto o de Pondé quanto o que tem a Psicologia como tema parecem fazer parte de uma série. Assim é que Pondé tem o Filosofia para corajosos, o Espiritualidade para corajosos, o Amor para corajosos... e talvez alguns outros "para corajosos".
   Já o outro é acompanhado por Filosofia sem as partes chatas, História do mundo sem as partes chatas e até História do sexo sem as partes chatas - e sexo lá tem partes chatas? Rsss.
   Gostei de ambos. 
   Pondé, no seus estilo provocativo, trata da felicidade, mas principalmente da ditadura da felicidade dos tempos atuais. No seu estilo ácido, logo no início do livro diz:
   "A obsessão pela felicidade sempre me pareceu entediante. Coisa de gentinha. Brega. O mercado da autoajuda prova isso: quem escreve e quem consome mente um para o outro. Quem escreve é um picareta, quem lê é um retardado. Mas há algo verdadeiro, apesar de não honesto nesse nicho de mercado. A infelicidade é a senhora da vida, por isso tal demanda desesperada impera".
   Como se vê, nada de linguagem politicamente correta. Mas... é o estilo dele. Tirando os "excessos", há coisa interessante no livro. Depois conto mais...
   Sobre o segundo, embora o título indique ser uma "História da Psicologia", o texto não vai simplesmente alinhando várias teorias, descobertas e propostas aparecidas ao longo dos anos... pelo menos de forma tão direta. Há trechos da historiografia da ciência em questão, mas também são tratados temas específicos, que fazem surgir pesquisas de determinadas áreas, como Psicologia Social, Psicologia Evolutiva, etc.; ou mesmo curiosidades mais gerais, que tem um tratamento, por vezes, mesmo filosófico, por exemplo, em "De onde vem a linguagem?", "Por que as pessoas são racistas?", "A tristeza é uma doença mental?" ou "O que é normal?". 
   Em "É melhor sentir um pouco menos?", por exemplo, o tema do livro de Pondé parece aparecer, quando Levy diz:
   "A maior novidade em saúde mental desde a década de 1970 foi o crescimento explosivo da terapia com medicamentos. [...] existem objeções mais profundas, filosóficas, ao uso de medicamentos para tratar de problemas como tristeza, melancolia, ansiedade, mania e hiperatividade. Esses problemas podem ser vistos como aspectos extremos, mas naturais da condição humana, levantando questões sobre se é certo medicá-los. [...] Os medicamentos aliviam sintomas ou suprimem sentimentos? Devíamos, de fato, tentar reprimir sentimentos, mesmo os angustiantes?".
   O texto vai além da citação, servindo, no mínimo, para fazer pensar sobre casos que estão mais longe dos extremos, ou seja, aqueles que circulam usualmente pelo nosso quotidiano como um certo "mal estar" em lidar com a vida "como ela é".
   Depois, comento mais sobre esse também. 
   
 
   

sábado, 21 de maio de 2022

História da Liberdade Religiosa

 

    Comprei esses dias o livro História da liberdade religiosa - da Reforma ao Iluminismo, de Humberto Schubert Coelho, publicado pela Vozes Acadêmica e pelo Instituto Homero Pinto Vallada, agora em 2022.

    O livro é dividido em seis capítulos: (1) Raízes medievais e renascentistas da luta pela liberdade religiosa; (2) Nasce a Reforma; (3) O mundo moderno: religião e ciência reconfiguram sua relação; (4) Despertar espiritualista na aurora do Iluminismo; (5) A geração de Voltaire; e (6) A Era das Luzes.

    Nosso filósofo aparece no capítulo 3, no artigo de título "O papel decisivo de Espinosa no entendimento moderno da religião".

    Há uma rápida biografia, seguindo-se logo a apresentação das ideias spinozanas, ao longo dos seus diversos escritos.

    Diversas passagens são interessantes, mas eu destacaria essa, que achei, no mínimo, curiosa:

    "[...] suas [de Spinoza] ideias estão muito longe de serem fáceis, transparentes ou desambíguas, dando margem tanto para a defesa do materialismo mais radical quanto para a mística mais exaltada ao longo do século XVIII. Em ambas as vertentes, a presença de Espinosa formatou significativamente aquilo que entendemos por materialismo e mística modernos, com influência sobre autores tão discrepantes quanto os philosophes franceses e os idealistas alemães".

    Reconheço que há passagens do texto spinozano que podem sugerir certo materialismo - apesar de não concordar que ele seja um materialista -, bem como há, no mínimo, uma passagem que flerta com o misticismo - o que também não me parece ser a posição do holandês. Daí a dizer que ele "formatou significativamente aquilo que entendemos por materialismo e mística modernos", acho um pouco extremado. 

    De qualquer modo, o livro parece ter um conteúdo bem amplo, facilitando a pesquisa de vários nomes envolvidos com a liberdade religiosa ao longo da história. Acho que vale a pena adquirir.

O direito de ser humano

 

    "O direito a ter direitos, ou o direito de cada indivíduo a pertencer à humanidade deveria ser garantido pela própria humanidade"

(ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo)

sexta-feira, 6 de maio de 2022

O fim da Metafísica

 

       A Metafísica vive sendo "assassinada". Lembro que, desde a graduação, eu explicava a um colega de turma, que se dizia "materialista", que esta posição acabava sendo a adoção de uma, dentre algumas, opções metafísicas de encarar a realidade.
    Lembrei disso agora, depois de ler uma crítica de Heidegger a Sartre, em Carta sobre o humanismo, quando diz:

    O existencialismo diz que a existência precede a essência. Nesta afirmação, ele está tomando existência e essência de acordo com seus significados metafísicos, que, desde a época de Platão, disse que essência precede existência. Sartre inverte essa afirmação. Mas a reversão de uma afirmação metafísica permanece uma afirmação metafísica. 

   Pois é...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O pai do Utilitarismo

 

    Estava assistindo a um vídeo sobre Dos delitos e das penas, de Cesare Beccaria (1738-1794), publicado em 1764, quando me deparei com uma informação interessante - e, infelizmente, desconhecida por mim:  o inglês Jeremy Bentham (1748-1832), chamado de "Pai do Utilitarismo", apreciava as ideias de Cesare Beccaria. Até aqui, nada tão estranho; afinal, ambos eram juristas. A questão mais importante é outra: a de que já se encontra em Beccaria a ideia de que a finalidade de toda legislação deveria ser levar a maior felicidade possível ao maior número possível de pessoas. Ora, esse é justamente o espírito do Princípio da Utilidade de Bentham, que é ampliado, obviamente, para tratar não só das normas jurídicas, mas também das normas morais.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Giambattista Vico

 

   Herbert Spencer (1820-1903) é considerado o pai do Darwinismo Social. Este tipo de pensamento marcou profundamente a gênese da Antropologia Social. Na esteira desse discurso, o antropólogo americano Lewis Morgan (1818-1881) escreve, em 1877, Sociedade Antiga, em que descreve os três estágios de evolução das sociedades - selvageria, barbárie e civilização.

    Decerto que podemos lembrar de Auguste Comte (1798-1857), com sua Lei dos Três Estados - Teológico, Metafísico e Positivo -, divulgada no seu Curso de Filosofia Positiva, entre os anos de 1830 e 1842 - anterior, portanto ao A origem das espécies por meio da seleção natural, de Charles Darwin, publicado em 1859. Contudo, eu gostaria de voltar um pouco mais do que isso.

    Volto ao ano de 1725, ou seja, ao século anterior a esse do qual falamos. Encontro, então, La scienza nuova, de Giambattista Vico (1668-1744). Reconheço que ainda não estamos falando de "ciência" nos moldes que esta viria a ser definida posteriormente, com o rigor do método científico - embora a mesma procure argumentar em favor de um entendimento científico da História. De qualquer modo, gostaria de registrar algo sobre esse pensador italiano - com apoio do livro História da Antropologia, de Thomas H. Eriksen e Finn S. Nielsen, que registra:

    Vico propõe um esquema universal de desenvolvimento social segundo o qual todas as sociedades passariam por quatro fases com características própria e bem definidas. O primeiro estágio seria uma "condição bestial" sem moralidade ou arte, sendo seguida de uma "Idade dos Deuses", caracterizada pelo culto à natureza e por estruturas sociais rudimentares. Adviria, então, a "Idade dos Heróis", perpassada por perturbações sociais generalizadas resultantes de uma grande desigualdade social. Por fim, viria a "Idade do Homem", uma era em que as diferenças de classe desaparecem e a igualdade predomina. 

    Interessante perceber a visão antecipatória da proposta de Vico. Mas ainda há mais coisas que merecem destaque, no texto que cita o italiano. Vejamos:

    Vemos aqui, pela primeira vez, uma teoria do desenvolvimento social que não apenas contrapõe barbárie e civilização, mas especifica também alguns estágios de transição. A teoria de Vico serviria de modelo para os evolucionistas posteriores, de Karl Marx a James Frazer. Mas Vico detém um elemento que está ausente em muitos de seus seguidores. As sociedades não necessariamente se desenvolvem linearmente em direção a condições sempre melhores, mas passam por ciclos de degeneração e desenvolvimento. 

        Isso porque Vico indica que aquela tal fase da "Idade do Homem" seria "ameaçada pela corrupção interna e pela degenerescência em direção à 'bestialidade'". Ou seja, adeus "fim da História"!


    

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Mary Whiton Calkins


   O mês de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, ainda não começou. Contudo, já iniciarei minhas homenagens a essas nossas companheiras de humanidade. E isso será feito através da senhora que dá título ao post. 
    A americana Mary Whiton Calkins (1863-1930) começou seus estudos em casa. Concluída a educação formal na high school, ingressou na universidade - a Smith College -, graduando-se em 1884, com ênfase nos clássicos e em Filosofia. Conseguiu ser tutora no Departamento de Grego de Wellesley College - uma universidade só para mulheres. Um dos professores do Departamento de Filosofia, percebendo a qualidade de Mary como professora, convidou-a para lecionar a disciplina de Psicologia, que era nova em seu departamento. Ela aceitou, com a condição de que pudesse cursar Psicologia por um ano. Analisou os programas das universidades de Michigan, Yale, Clark e Harvard - escolhendo esta última instituição. Contudo, inicialmente, Harvard não a aceitou, visto que não admitia mulheres em seus cursos. Depois de insistência de seu pai e de carta de Wellesley College, ela pôde ingressar, mas não como estudante regular - embora tivesse acesso a palestras. Ela decidiu, então, assistir às aulas no Harvard Annex - precursora da Radcliffe College -, onde ensinava Josiah Royce. Royce e, ninguém menos que, William James - que dava aulas em Harvard - pressionaram o reitor da universidade, que acabou cedendo. Mas, ainda que pudesse assistir às aulas, junto aos homens, não lhe foi dado o direito de ser uma "estudante registrada".
    Em 1891, Mary Calkins retornou ao Wellesley College como instrutora de Psicologia, no Departamento de Filosofia - conforme proposto inicialmente -, e começou a planejar completar sua formação em Psicologia. Acabou estudando com Hugo Münsterberg, que viera de Freiburg para Harvard, e tendo vários artigos publicados.
   Um dos estudos orientados por Münsterberg constituiu sua tese de doutorado. Harvard, contudo, negou-lhe o doutoramento, ainda que todos os seus professores tivessem recomendado a concessão. William James descreveu sua performance como "o exame mais brilhante para o Ph.D que nós já tivemos em Harvard".
   Em 1895, retornou a Wellesley como professora associada de Psicologia. Dois anos depois, tornou-se professora de Psicologia e Filosofia.
   Entre as inúmeras conquistas de Mary, talvez a mais relevante seja o fato de ela ter sido eleita presidente da American Psychological Association, em 1905, e da American Philosophical Association, em 1918 - a primeira mulher a obter esta posição em ambas as instituições.
   Acho que minhas homenagens às mulheres começaram bem.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Começando com uma fofoca...


   O livro 50 clássicos da Filosofia, de Tom Butler-Bowdon, publicado pela Benvirá, em 2019, parece bastante interessante. 
   Há comentários sobre livros e autores considerados clássicos, no sentido mais especial do termo, isto é, aqueles que colocam questões que sobrevivem ao tempo - embora este possa vir a ser curto, como é o caso de A soberania do bem, de Iris Murdoch.
   Mas vamos à fofoca.
   Junto com o comentário de cada obra clássica, aparece também uma pequena biografia sobre o autor. No caso de Aristóteles, veja o que está dito: "Casou-se com Pítia, uma de suas colegas na academia de Platão, mas teve um filho, Nicômaco, com sua amante, a escrava Herpília".
   Será que é isso mesmo? Vamos consultar a Wikipédia primeiro. Lá está dito:
While in Lesbos, Aristotle married Pythias, either Hermias's adoptive daughter or niece. She bore him a daughter, whom they also named Pythias.
   E, depois:
While in Athens, his wife Pythias died and Aristotle became involved with Herpyllis of Stagira, who bore him a son whom he named after his father, Nicomachus
   Bem... parece que essa estória de "amante" não é muito procedente... pelo menos, no que se refere a Herpília, já que:
According to the Suda, he also had an erômenos, Palaephatus of Abydus

    Diógenes Laércio, em Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, não parece dar tanta relevância às fofocas. Sobre o primeiro casamento de Aristóteles, ele explica que "Hermias se ligou a Aristóteles por laços de parentesco, dando-lhe a filha ou a neta em casamento", que seria Pítia. Contudo, Diógenes Laércio cita também uma estorinha, contada por Aristipo, segundo a qual, na verdade, Aristóteles teria se casado com uma concubina de Hermias, com a autorização deste. 
   Sobre o segundo casamento, nada se diz de modo tão explícito. Mas há a informação de que, em seu testamento, Aristóteles fala dos "ossos de Pítias" - indicando que ela já estaria morta - e dos cuidados com Herpilis e as crianças, citando logo a seguir que uma delas é uma menina, cujo nome não é referenciado, e outra é um menino, Nicômacos, segundo indica Diógenes Laércio.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Hegel em Marx


   Escrevi um post com o título "Assim, eu desisto...", onde citava a ideia de Lenin de que, para entender Marx, seria ter uma ótima compreensão de Hegel. Tal informação veio através da leitura do livro Arqueomarxismo - comentários sobre o pensamento socialista. 
   Pois bem... em outra leitura - agora Curso livre Marx-Engels: a criação destruidora, organizado por José Paulo Netto e publicado pela Boitempo e Carta Maior - encontrei o seguinte:
   "[...] indiretamente, Hegel marcou o início da trajetória de Marx. [...] Marx sempre foi contra Hegel e, por causa disso, está preso a todo o horizonte do velho pensador. Afinal, passar um tempo [...] falando de alguém quer dizer que esse alguém é sua referência, ainda que seja para dizer que não concorda com ele. [...] [E]sse é o jovem Marx, porque sua referência é o outro. Depois, em certo momento, ele abandona a negativa sobre o outro e passa a se concentrar em um 'sim', isto é, na afirmação de si mesmo."
   Em princípio, o trecho acima parece apontar para uma correção no pensamento de Lenin, mas... apenas no que se refere ao jovem Marx. Afinal, o texto indica que, amadurecido, há uma "afirmação de si mesmo", por parte do filósofo alemão.
   Então... continua valendo minha esperança de ainda compreender Marx.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Mais uma atribuição enganosa...


   Outra citação famosa a respeito da qual se negou a autoria foi "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo". Voltaire nunca escreveu tal coisa... infelizmente. Afinal, muito do seu pensamento é louvado justamente pela defesa que ele faz do direito à liberdade de expressão - resumida brilhantemente nesta frase.
   

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Os Econômicos, de Aristóteles


   Estudar traz cada novidade...
   Ainda em Perfil de Aristóteles, Berti louva o Estagirita, dizendo que "Aristóteles pode ser considerado o fundador do conceito da filosofia prática entendida como ciência diferente das teoréticas, porém munida de racionalidade própria". Até aqui, tudo bem.
   Berti continua: "As obras nas quais ele expõe essa filosofia prática são as três Éticas, isto é, a Ética a Nicômaco, a Ética a Eudemo e a assim chamada Grande Ética, e a seguir a Política". Até aqui, tudo bem também.
   Agora vem a novidade, para mim: "O tratado intitulado Econômica [ou Os econômicos], transmitido como parte do corpus aristotelicum e que trata de temas igualmente pertencentes à filosofia prática, é concordemente considerado como não sendo obra de Aristóteles". É mesmo?!?! Dessa, eu não sabia!!!

terça-feira, 8 de maio de 2018

Aristóteles vs. Spinoza, Hobbes, Hegel e Marx


   O enfrentamento desses sujeitos do título da postagem é "briga de cachorro grande". Quem o propõe é o especialista no Estagirita, o professor Enrico Berti, no livro Perfil de Aristóteles. 
   Quando trata do conceito de razão prática, em Aristóteles, Berti explica: "[...] o seu [da razão prático-poiética] é tudo aquilo que depende do homem, da sua proposição [proaíresis] ou de algum modo da sua intervenção, ou seja, as ações e as produções humanas, a 'história' [...]. A característica de tal objeto é ser constituído pelas coisas que podem estar diferentemente de como são [ou seja, dos contingentes] [...]. Portanto, ele resulta ser [...] aquilo que poderíamos chamar o reino da liberdade. Dada a margem de indeterminação que contém, essa liberdade não permite conhecimento propriamente científico, isto é, demonstrativo, dos objetos por ela caracterizados. Isso significa que, para Aristóteles, não há conhecimento científico das ações e das produções humanas ou da 'história': em síntese, não há ética ou política dotada da mesma necessidade própria das ciências matemáticas ou físicas, como pretenderão filósofos como Spinoza e Hobbes, nem história cientificamente determinável, como pretenderão os filósofos dialéticos modernos (Hegel e Marx) ou os positivistas".

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O Freud do século XVII?!?!


   O livro Grandes lendas do pensamento, de Henri Pena-Ruiz, traz uma série de questões consideradas fundamentais para o pensamento humano - como o livre-arbítrio; o sentido da vida; as paixões, etc. -, valendo-se de estórias e mitos.
   Uma dessas estórias se refere ao filósofo francês René Descartes (1596-1650), respondendo, ao diplomata Hector-Pierre Chanut (1601-1662), a questão "Por que amamos mais certas pessoas do que outras?".
   Descartes apresenta uma resposta muito interessante, que lembra muito a visão freudiana sobre a associação de duas impressões, expondo uma análise que fora fazendo de si mesmo, a partir de uma experiência da sua infância.
   Em carta de 06 de junho de 1647, ele escreve: 
   "Quando criança, eu amava uma garota [...] que era um pouco vesga; com isso, a impressão em meu cérebro, quando olhava seus olhos desviantes, se aproximava tanto da que nele acontecia para estimular-me as paixões amorosas, que, muito tempo depois, vendo vesgos, eu tendia a gostar mais deles do que de outros, simplesmente por possuírem defeito; ignorava, contudo, que fosse por isso".
   Para arrepio do mestre vienense, criador da Psicanálise, contudo, Descartes conta que fez uma autoanálise, a partir da qual se conscientizou da origem de sua emoção - o mecanismo associativo entre uma emoção passada e outra presente -, e deixou de se comover. Permanecerá um "vestígio", uma "marca" no cérebro - como veremos a seguir -, mas sem futuro afetivo.
   A explicação do fenômeno do "vestígio" é o seguinte:
   "Os objetos que afetam nossos sentidos movem, por meio dos nervos, algumas partes de nosso cérebro, neles formando certas dobras que se desfazem quando o objeto cessa de agir; mas a zona na qual elas foram feitas permanece, posteriormente , predisposta a ser dobrada novamente, do mesmo jeito, por outro objeto semelhante, ainda que não totalmente, ao precedente".
   A ideia do "vestígio", essa "marca" que resta no cérebro, após uma impressão, em alguma medida, repete uma noção estoica... que depois parece ser retomada por Spinoza. Mas isso é outra estória...
   
   

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Filosofia e cerveja


   Eu sempre achei que Filosofia e cerveja combinam muito bem. Parece que o professor de Filosofia do Long Beach City College pensa o mesmo. Tanto é que escreveu o livro Filosofia de botequim, publicado pela Editora Alaúde, aqui no Brasil.

   O livro começa apresentando 48 cervejas que serão "harmonizadas" com questões filosóficas. Há cervejas e questões para todos os gostos - artesanais e comerciais; claras e escuras (as cervejas) e metafísica, moral, epistemologia... (as questões).
   O final do prefácio é assim:
   "Com a cerveja e o livro em mãos, você está pronto para começar. Mas lembre-se: Beba com moderação. Pense em excesso". Boa!!!! Rsss.
   Depois, conto mais...

terça-feira, 15 de agosto de 2017

10 Lições sobre Bobbio (2)


   Primeiro, uma citação de Bobbio, bem apropriada ao nosso momento tão polarizado do Brasil:
  "Sempre fui, ou creio ter sido, um homem do diálogo mais que da polêmica. A capacidade de trocar argumentos, em vez de acusações recíprocas acompanhadas de insultos, está na base de qualquer pacífica convivência democrática".
   Ainda no mesmo clima, e também válida para nosso momento Brasil atual:
   "Da observação da irredutibilidade das crenças últimas extraí a maior lição de minha vida. Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. [...] [F]aço mais uma [confissão] [...] : detesto os fanáticos com todas as minhas forças".
   Outra citação, de seu livro de memórias, ao falar do debate com os religiosos:
   "Quero apenas dizer que sempre me pareceram mais convincentes as razões da dúvida que aquelas da certeza. [...] Também aqueles que acreditam, acreditam de acreditar [credono di credere] [...]. Eu acredito não acreditar". 
   Parece-me haver um problema lógico na fala de Bobbio. Quem acredita não acreditar é o ateu. Se as razões da dúvida são mais convincentes que as da certeza, como ele indica, ele deveria simplesmente duvidar do acreditar. 
   Eu, por exemplo, assumo que sou um crente... um crente na inexistência de Deus. Portanto, acreditando na sua inexistência, considero-me ateu... uma espécie de crente negativo. Rsss.
   Depois conto mais...

sábado, 12 de agosto de 2017

10 Lições sobre Bobbio


   Já tratei várias vezes da coleção "10 Lições sobre...", publicado pela Editora Vozes. Acho os livrinhos muito bem escritos. A escolha dos temas de cada um dos capítulos é muito feliz. Os textos são recheados de referências bibliográficas, o que facilita a expansão do conhecimento, através de uma pesquisa pessoal.
   O exemplar sobre o pensador Norberto Bobbio não foge à regra. Ontem, adquiri o meu. Mesmo com outras leituras, fui dando um jeitinho de avançar na leitura... mas confesso que só cheguei à metade. De qualquer modo, fico tranquilo para confirmar a qualidade do texto, de autoria de Giuseppe Tosi, graduado e pós-graduado em universidades da Itália que atualmente leciona no Brasil.
   Como sempre, vou apresentando pedacinhos do livro aos poucos.
   A Introdução registra uma figura realmente digna de pesquisa, quando diz:
   "Bobbio foi, e continua sendo, um interlocutor privilegiado tanto para os liberais quanto para os socialistas. Aos primeiros, relembra a necessidade de conciliar a liberdade com a igualdade e critica os excessos do neoliberalismo de mercado. Em relação à esquerda, relembra que sem liberdade não pode haver socialismo e critica os perigos totalitários que rondam os projetos políticos de inspiração marxista".
   Vale à pena explorar, não é?

Vauvenargues (2)


   Achei curioso um fato. Depois que postei a citação do marquês de Vauvenargue, fui dar uma vasculhada em mais referências sobre ele. 
   O Dicionário Universitário dos Filósofos, da Martins Fontes, não tem nada. Os dicionários do Ferrater Mora, do Lalande e do Abbagnano não têm nada?!?!?
   O Dictionary of Philosophy, da Oxford, traz pouco mais de dez linhas sobre o filósofo. 
   A Wikipedia em Português traz um artigo sobre ele que dá algumas informações interessantes sobre suas ideias. Pensei: "A versão em inglês deve ser bem melhor!". Surpreendi-me. Ela é menor?!?!? Pensei: "Se ele é francês... o artigo no seu idioma deve ser bastante completo". Que nada... bem fraquinho. Biografia; apresentação pequena de ideias; obras e lista de citações. 
   Eu tenho Das Leis do Espírito, publicado pela Martins Fontes, que contém duas partes - Introdução ao conhecimento do espírito humano e Ensaios de moral e de filosofia. Normalmente, a Martins Fontes, insere uma apresentação do autor, antes das obras que publica do mesmo, com uma análise do seu pensamento. Neste, entretanto, há apenas uma "cronologia" da vida do pensador.
   Do Wikipedia, selecionei:
  
  "[...] afirmando a 'ordre immuable et nécessaire' de tudo o que acontece. Ele também rejeita a 'liberdade da vontade' e afirma a relatividade do 'bem e do mal'. 'On n'a point de volonté', pondera ele, 'qui ne soit un effet de quelque passion [...]', acrescentando 'donc l'homme ne peut agir que par les lois de son Dieu'. Como em Espinosa, o 'Deus' em Vauvenargues não é o criador do universo, a fonte do bem e do mal, o guardião e juiz do homem, ou o legislador divino que estabelece as regras da moralidade. Ele é simplesmente a totalidade da natureza e suas leis inalteráveis. Assim, para Vauvenargues, a moral é construída pelo homem e 'l'humanité est la première des vertus'".
   
   Percebe-se, imediatamente, algo parecido com o pensamento spinozano, a quem o trecho selecionado faz menção. Porém, há um pouco mais, na sequência do texto da Wikipedia:
   
   "As principais influências que deram forma à sua Filosofia foram Bayle e, em especial, Espinosa [...]. Mas o Espinosismo de Vauvenargues é uma Filosofia individual intensamente moralista, senão também uma instância política, a serviço do indivíduo liberado. Preocupado com as implicações do sistema de Espinosa para o estilo de vida e a moralidade, ele parece de todo alheio às polêmicas da crítica à Bíblia do Tractatus [Tratado Teológico-político] e do sistema cuidadosamente criado na construção da Ética. Tipicamente vauvenargueniano na sua luta com o paradoxo contido no coração do sistema de Espinosa, que todas as ações e decisões humanas são determinadas necessariamente, e não há livre arbítrio, mas que, no entanto, esse fatalismo 'n'exclut point la Liberté'". 

  Pesquisarei mais sobre o marquês de Vauvenargues. Depois registro aqui.