segunda-feira, 17 de julho de 2017

Spinoza na Folha


   Vladimir Safatle, colunista da Folha de S. Paulo, escreveu o artigo "Existem realmente paixões tristes?", em 23/06/17. O título logo chamou minha atenção, por lembrar a teoria dos afetos de Spinoza. Mas não achei que se tratasse desse assunto. Só que era!?!? Legal!
   Vamos, então, ao que o filósofo Safatle escreveu. 
   Diz ele que algumas dicotomias atravessam o tempo, sendo uma destas a que diz respeito às paixões tristes e paixões alegres, do filósofo holandês. 
   Tecnicamente, há um pequeno problema no texto, quando Safatle fala de a liberdade estar ligada "à força afirmativa das paixões alegres" - já que sabemos que são os afetos ativos, e não os passivos (paixões), que garantiriam a liberdade. Mas isto é plenamente desculpável, pois, como indica o próprio Safatle, ele não quer "fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal". Basta, para uma aproximação geral, dizer que por "paixões tristes e alegres", Safatle entende "tristeza e alegria".
   Safatle indica que "gostaria de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos". 
   Considerando apenas aquela ideia geral de "tristeza e alegria", que coloquei, Safatle explica que "paixões tristes diminuem nossa potência de agir, [e] paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir".
   Em sua análise, Safatle explica que, com a tentativa de negar a existência dicotômica das paixões, o homem acaba por esperar emudecer as paixões tristes, numa "luta desesperada em apegar-se compulsivamente a uma afirmação cristalina e sem sombras".
   O caminho que Safatle percorre, dizendo que esta luta "corre o risco de acabar por alimentar a visão capitalista da felicidade como conformação estoica ao que acontece", não me parece o melhor. A filosofia estoica propõe algo mais profundo do que a simples "conformação ao que acontece", embora haja uma dimensão de reconhecimento do sábio quanto à imutabilidade de certas situações. Mas há um exercício ativo constante para a conquista da sabedoria e da felicidade.
   Eu diria que valeu à pena ver Spinoza frequentar a Folha de S. Paulo, mas que o desdobramento de seu pensamento ficou um pouco "truncado".

Revolução e Preguiça


   Não que eu concorde integralmente, mas achei interessante uma ideia do pai do Conservadorismo, o pensador irlandês Edmund Burke (1729-1797), quando ele se refere à ação revolucionária obedecer à preguiça de quem é incapaz de pacientemente estudar e reformar a comunidade real, optando por atalhos e pelas facilidades falaciosas da destruição e da recriação totais.

Pretorianismo


   Por esses dias, li no jornal que parte dos apoiadores do ex-presidente Lula às eleições de 2018 estava preocupada com algo inesperado à primeira vista: um possível crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro no Nordeste, reduto eleitoral reconhecidamente lulista.
  Os simpatizantes de Lula achavam que a, sempre citada em pesquisas de opinião, confiança nos militares, aliada à proximidade de Bolsonaro com estes atores sociais, poderia acabar por angariar simpatia e votos ao candidato capitão da reserva do Exército brasileiro.
   Se isso é verdade, eu não tenho certeza. Mas lembrei desse fato quando lia a definição do "pretorianismo", em Política - 50 conceitos fundamentais explicados de forma clara e rápida, cujo editor é Steven L. Taylor, publicado pela Publifolha.
   Lá está:
  "Pretorianismo geralmente se refere ao governo dos militares, mas também pode significar uma forte influência deles na política. [...] O fenômeno está claramente associado a compromissos débeis das elites com a democracia, a instituições políticas frágeis, a polarização ideológica, a laços da elite política com a os líderes militares e a uma sensação generalizada de que os militares têm legitimidade para governar. O papel dominantes dos militares vai aos poucos se enraizando, e eles passam a ser atores políticos fundamentais, em particular nos períodos de crise política ou econômica". (Grifos meus)
   Diante do exposto, apesar de não acreditar mais numa participação direta dos militares na condução do país, não dá para deixar de considerar a hipótese dos apoiadores de Lula de que os integrantes das Forças Armadas poderiam reforçar a candidatura de Bolsonaro, ainda que indiretamente, pela confiança depositada nestas instituições.
   Mas ainda há muita água para rolar na Política do Brasil até as eleições de 2018.

A condenação de Lula


   Impossível deixar de registrar a primeira condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 12 de julho de 2017. Afinal de contas, "Nunca antes na História deste país..." um ex-presidente havia sido condenado - parafraseando o próprio Lula. É de estranhar, contudo, que com tantos problemas nas gestões do ex-presidente - mensalão e petrolão já comprovados, por exemplo -, Luiz Inácio da Silva tenha sido condenado por ocultar um tríplex "Minha casa, minha vida" - como ele mesmo disse - e um sítio em Atibaia.
   A curiosidade faz com entremos mais no caso para perceber que os dois imóveis faziam parte de uma dívida de R$ 16 milhões da OAS com o PT, por conta da vitória no contrato para construção da Refinaria Abreu Lima, em Pernambuco. Pelas contas apresentadas no processo, os dois imóveis, com suas respectivas benfeitorias, corresponderiam a R$ 2,2 milhões daquele total. 
   A bem da verdade, portanto, a condenação de nove anos e meio não se refere à ocultação de patrimônio, mas à corrupção passiva (seis anos) e à lavagem de dinheiro (três anos e meio). 
  Lula é réu em mais quatro outros processos. Vamos ver o que ainda há de vir por aí...

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Olga Benario (3)


   Ao final do livro, há parte da correspondência de Olga. Realmente o que transparece é um profundo amor entre Olga e Prestes.
   Numa das cartas, por exemplo, ela escreve ao marido:
   "Querido, tua mãe me enviou tua fotografia. Agora passo muito tempo com a pequena no colo te contemplando e meus pensamentos ficam então contigo. Agora faz um ano que nos separamos. Mas, sabes, todo este tempo difícil trouxe como resultado apenas o fortalecimento de meus sentimentos em relação a ti. Vou encontrar forças para aguardar o feliz dia em que novamente estaremos juntos".
   Infelizmente, para o casal, como bem sabemos, o dia do reencontro nunca chegou.
   Uma outra coisa que me chamou atenção foi a intenção de Olga de participar da educação da filha, mesmo a distância. Numa carta de 1939, escrita a Prestes, ela diz:
   "Mas, sabes, Carlos, tens de me ajudar com minha mãe [Olga se referia à mãe de Prestes como sua própria mãe] para que eu também tenha voz ativa sobre Anita".
   E em outra, de 1940, também dirigida ao marido, escreve:
   "No que se refere à sua [de Anita] educação, peço-te que tenhas voz de poder com mamãe. Nossos muitos e queridos tios e tias parecem querer compensar a falta dos pais de Anita com mimos exagerados. [...] Mas nada é mais prejudicial do que passar à criança a sensação de ser algo especial. Isso lhe tornará a vida mais difícil no futuro. [...] [N]ossa filha não deve se tornar uma bonequinha mimada!".
   A opinião sobre não "passar à criança a sensação de ser algo especial" pode ser controversa para os pais mais contemporâneos... mas não me parece incorreta de todo. 
   

Olga Benario (2)


  Terminei de ler o livro sobre Olga Benario. Muito legal. 
  Queria comentar uma passagem assustadora, sobre o extermínio dos judeus.
  Conta o livro:
  "Os nazistas mostravam-se extremamente ciosos de manter o extermínio em massa de prisioneiros em segredo. Na secretaria do campo de concentração de Ravensbrück, registrava-se uma doença inventada como causa de morte de cada mulher entre milhares que haviam sido assassinadas em Bernburg. Segundo Sarah Helm: O local da morte era sempre Ravensbrück. A data variava, mas era sempre no futuro - por outras palavras, várias semanas depois de as mulheres serem levadas [...]. Eram as próprias prisioneiras que trabalhavam na Secretaria que preenchiam o espaço destinado à causa da morte [...]. O pessoal andava ocupado há semanas a escrever as certidões de óbito. Havia quatro razões diferentes para a morte: problemas de coração; pulmões infectados; problemas de circulação ou poderia também escrever-se: 'Todos os esforços médicos para salvar a pessoa foram em vão'. As prisioneiras que tinham que preencher as certidões podiam escolher a seu gosto a doença dada como a causa de morte da mulher em questão".
   Imaginem ter que inventar um motivo falso para a morte de alguém que poderia ter sido amiga daquela que preenchia a certidão de óbito... principalmente sabendo que aquilo seria para encobrir uma violência terrível.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Esquerda e conservadorismo


   Aqui no Brasil, temos nos acostumado com uma esquerda alinhada às liberdades sociais. Um dos partidos que mais mobilizam os jovens, o PSOL, tem parlamentares declaradamente favoráveis à liberação da maconha e à luta contra a discriminação aos gays. Plataformas que realmente precisam estar presentes numa discussão da sociedade real em que vivemos. 
   Esta esquerda acusa a direita de conservadorismo. Ou seja, no terreno do "social", os liberais são os "de esquerda", enquanto os conservadores são os "de direita".
   Pois bem... Anunciou-se ontem que o Teatro Bolshoi adiou para o ano que vem a peça, que seria lançada na próxima semana, sobre o bailarino russo Rudolf Nureyev (1938-1993). Embora a justificativa oficial diga respeito à baixa qualidade da montagem, em virtude de os bailarinos ainda não estarem preparados, suspeita-se que o real motivo seja a temática da peça, que envolve a homossexualidade de Nureyev.
    O jornal O Globo, em uma matéria sobre o assunto, explica que existe uma lei anti-gay que veta propagandas "que incentivem relações não tradicionais a menores de idade" e cita, também, um "crescente conservadorismo social russo".
   O que os militantes do PSOL diriam disso, hein? Isso, eu não sei. Mas é interessante pensar bem sobre esses conceitos de "esquerda" e "direita".


terça-feira, 11 de julho de 2017

Ainda a Bioética


   No dia 09 deste mês, Hélio Schwartsman escreveu o texto "Desolação", em que tratava do tema Bioética, através do caso do bebê Charlie Gard.
   Para quem não lembra, Charlie tem onze meses e está internado num hospital inglês, com uma doença rara. Os médicos acharam que prolongar a vida do bebê artificialmente não valia mais à pena, mas os pais não concordaram. O caso foi parar na Justiça, que determinou o desligamento dos aparelhos. Contudo, os pais insistem em levar a criança para o exterior e tentar um tratamento experimental. Impasse...
    Schwartsman começa por dizer algo interessante: "A bioética [...] é a mais depressiva das especialidades filosóficas. Seus manuais são uma coleção de situações médicas trágicas que geram dilemas sem solução".
   Prossegue, avaliando que "Os médicos e as cortes estão certos ao definir que esforços terapêuticos precisam parar em algum ponto. Não dá para insistir em tratamentos fúteis. Por cruel que seja dizê-lo, é preciso pensar também em custos".
   Parece que o caso nem envolve custos para o governo inglês, visto que os pais arcariam com os custos do transporte do menino. Mas, segundo matéria do jornal O Globo: "Nesse caso, a Justiça baseia sua decisão, diz o NHS [Sistema de Saúde Público Inglês], no que é melhor para Charlie. Por isso, mesmo que os pais queiram custear a viagem aos Estados Unidos com o dinheiro arrecado, eles não têm autonomia para isso, uma vez que a Justiça determinou que o tratamento não trará benefícios ao bebê".
   Se não existe custo para o Estado e os pais desejam realizar o tratamento em outro local, onde ele é possível, concordo com a avaliação de Schwarstan, quando este comenta: "Se existe um princípio heurístico na sempre triste bioética, é o de que o respeito à autonomia do paciente e seus familiares é quase sempre a resposta menos ruim".
      

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Olga Benario


   O filme Olga, de 2004, com a bela Camila Morgado, me impressionou bastante. Nem sei por que não li o livro depois de tê-lo visto. De qualquer modo, nunca é tarde para corrigir um engano. Rsss.
    Foi lançado este ano o livro Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo, pela Editora Boitempo, de autoria da filha da própria Olga, Anita Leocadia Prestes. Não resisti e, hoje, comprei o livro.
    Um dos fatos mais interessantes a respeito do texto é que ele inclui informações dos arquivos da Gestapo que só começaram a ser disponibilizadas para consulta pública a partir de 2015.
   Li muito pouco. Primeiro, a história da própria Olga até o encontro com Luiz Carlos Prestes, em 1934. Depois, a vinda dos dois para o Brasil, em 1935. E, por fim, a deportação dela para a Alemanha nazista, já grávida, e o nascimento de Anita Leocadia, em 1936.
   Por enquanto, queria registrar apenas uma observação do editor da correspondência de Olga e Prestes, sobre o tempo relativamente curto de relacionamento dos dois. Diz Robert Cohen:
   "Desde seu primeiro encontro em Moscou até sua prisão no Rio se passaram exatos um ano, três meses e vinte e dois dias. Pouco tempo, se diria. Mas qual seria o tempo ideal para o amor? A importância de uma relação não se mede por sua duração. Se quisermos saber alguma coisa sobre o amor entre duas pessoas, não devemos indagar o que as pessoas fazem do amor, mas sim o que o amor faz das pessoas. O que o amor fez de Olga Benario e Carlos Prestes descobrimos em suas cartas". 
   Depois, conto mais...

Óptica e ideologia


   Um torcedor do Fluminense entra com sua bandeira tricolor (verde, branca e vermelha), todo feliz, num ambiente iluminado por uma luz vermelha. Lá dentro, volta a olhar para o pavilhão tricolor e se assusta. Ele percebe que vinha carregando um pano com as cores do seu arquirrival, o Flamengo. Desesperado, rasga aquele pano em preto e vermelho. Aborrecido, deixa o tal ambiente em que entrara, e se vê com sua bandeira tricolor em farrapos. Agora triste, não entende o que aconteceu.
   É lógico que quem lembrou das aulas de óptica do segundo grau, entendeu o fato. O branco reflete todas as cores, e, neste caso, é visto como vermelho. O vermelho reflete o vermelho, sendo visto também como vermelho. O verde não reflete o vermelho, sendo percebido como preto. Conclusão, a bandeira tricolor original é percebida, no ambiente com luz monocromática vermelha, como uma bandeira rubro-negra.
  A brincadeira óptica serve de pano de fundo para uma reflexão nossa sobre a ideologia.
  Quando estamos mergulhados em uma ideologia - e sempre estamos -, mas não conseguimos o mínimo afastamento crítico do que percebemos, acabamos fazendo discursos que beiram o ridículo - como no caso do dono da bandeira, que rasgou seu tão amado objeto. 
   Não deve ser verdade que tudo o que os governos de Lula e Dilma fizeram foi péssimo. Como também não deve ser verdade que tudo o que fizeram foi ótimo. Deve-se elogiar o que acertaram e censurar o que erraram. Quando se é um político profissional, que precisa do apoio do partido para "existir", eu até entendo que a defesa de tudo - quando se é da base de apoio - ou o ataque a tudo - quando se é da oposição - pode fazer um mínimo sentido. Mas quando somos meros participantes "amadores" da Política, ainda que tenhamos nossas preferências ideológicas, o bom senso tem que dizer "Presente!" com mais força.
   Vemos a situação lastimável do governo atual, enredado em acusações complicadas, que, pelo menos num primeiro momento, parecem incontornáveis. Para livrar-se delas, escutamos desculpas pouco convincentes, com ares burlescos. Este é um fato. Mas tão risíveis quando as ponderações dos primeiros são as observações feitas por aqueles que foram defenestrados do poder pelo acusado de agora, quando se percebe que os atos deste só significariam uma continuidade dos daqueles.
   Como alguém que vive a Política e reflete sobre ela, gostaria de algo muito simples: o expurgo de todos aqueles que agiram mal. O "todos", neste caso, significando tanto aqueles que se alinham com as minhas ideologias políticas, quanto aqueles que a ela se opõem.
   A questão ideológica, neste caso, não pode superar a questão ética e mesmo cívica. 
   

domingo, 2 de julho de 2017

O que é Bioética?


   Tenho me interessado por este tema nos últimos tempos. Minha ênfase em Filosofia é em Ética. Mas isso, nem de longe, me torna um especialista em Bioética. Aliás, até então, eu poderia dizer que tinha pouca intimidade com o tema.
   Como sabemos, a Ética, como área da Filosofia, se divide fundamentalmente em metaética, ética normativa e ética aplicada. Meu foco sempre foi a ética normativa, que, aliás, é aquilo que se conhece mais como "ética" lato sensu, ou seja, a Filosofia Moral. 
   Dentro da ética aplicada temos aquelas situações mais práticas, ligadas mais diretamente às nossas experiências morais na vida quotidiana. Justamente dentre os saberes listados na ética aplicada é que aparece a Bioética.
   Se pensarmos na Bioética ligada a assuntos médicos, não estaremos errados, mas este conceito tem se modificado desde o seu surgimento... e, até hoje, parece comportar algumas perspectivas diferentes.
    Só para começarmos a pensar, valendo-nos mais do senso comum, dá para imaginar que "Bioética" (bios + ethike) seria algo como um "comportamento correto no lidar com os seres vivos".
    Mas depois a gente conversa mais...

Alemanha campeã


   A seleção de futebol da Alemanha foi campeã, hoje, da Copa das Confederações. Era uma seleção formada por jogadores menos consagrados do que aqueles campeões mundias de 2014. E ainda pegou a seleção chilena, bicampeã da Copa América, jogando muito bem organizada e ameaçando muito. Mas os alemães foram cirúrgicos, e mataram o jogo quando tiveram oportunidade.
   Contudo, nem é tanto sobre o próprio jogo de que quero falar, mas de uma inovação apresentada nesta copa: a utilização de auxiliares vendo os jogos em monitores, com a possibilidade de avisar ao árbitro de campo sobre lances polêmicos.
    Bem interessante esta novidade. Pelo menos alguns dos erros bisonhos e desastrosos que acompanhamos todos os dias serão evitados. 
   Parabéns à Alemanha... e também à Fifa.

Ainda sobre a Lava Jato (2)


   Na mesma linha da preocupação que apresentei, o sociólogo Bernardo Sorj parece ter se manifestado em O Globo, há já alguns dias. Em seu texto, ele diz:
  "Durante os últimos dois anos, os brasileiros acompanham, embasbacados, uma novela [...]. Mocinhos pertencentes ao Poder Judiciário, ao Ministério Público e à Polícia Federal desmascaram políticos e empresários corruptos [...]. Acontece que a trama se complicou. Os mocinhos fizeram um serviço aplaudido por todos, mas no caminho foram destruindo possíveis saídas para a trama. [...] É necessária a entrada em cena de um novo ator, que indique a saída. Caso contrário, no lugar de uma novela brasileira, teremos um filme de Tarantino no qual todos se matam".
   Uma solução apresentada pelo autor é a criação de uma frente política, formada por políticos comprometidos com o bem público, que realizem as reformas necessárias.
   O problema é que esses tais "políticos comprometidos com o bem público", pelo menos hoje, não têm força para capitanear modificação alguma do status quo.
   Parece que, em algum momento, o pragmatismo dará um freio na Lava Jato, com os próprios operadores da mesma concluindo que será melhor algum governo, com alguns corruptos, do que nenhum governo, com nenhum corrupto. 
    

Ainda sobre a Lava Jato


   Obviamente, não há quem seja contra a operação Lava Jato continuar derrubando, um atrás do outro, como naquela brincadeira com pedras de dominó, os políticos corruptos e seus esquemas de obtenção e lavagem de dinheiro ilícito... a não ser os envolvidos nessas falcatruas.
   A questão é saber se, no mundo político atual, que se constrói, organiza e vive fundamentalmente desse modo de operar, é possível ir tão fundo assim.
   Ficou claro, infelizmente, que Sérgio Cabral, bem como outros nomes citados, não é a "corrupção" personificada. Ele, que realmente parece ter errado a mão nos seus malfeitos, é mais uma peça do sistema corrompido que impera no meio político - e naquele que o financia.
   Aí, resta a seguinte reflexão: Retirado Temer; assume Rodrigo Maia e convoca eleições indiretas. Os eleitores serão, pelo menos alguns deles, senhores desconfortavelmente citados na Lava Jato - além de outros que só não foram citados AINDA... e, espero, de alguns tantos desembaraçados dessas teias da falta de ética. 
   Uma pergunta: será que aqueles senhores deputados envolvidos em "esquemas" desejarão realmente escolher um presidente honestíssimo, que possa incentivar e acelerar as investigações e punições contra os culpados? Uhmmmm.... sei não...

Assim fica feio...


   O Painel, do site da Folha de S. Paulo, divulgou a seguinte notícia:
   "Os advogados de Michel Temer (PMDB), Dilma Rousseff (PT), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Aécio Neves (PSDB) articulam o lançamento de um manifesto para questionar a atuação da Justiça e do Ministério Público".
   Eu, sinceramente, não sei o que é pior: ver o pessoal que foi retirado do governo por crimes de responsabilidade, mas que agora é citado como tendo cometido crimes comuns, mostrando verdadeiro asco por quem o retirou, e que é citado nas mesmas delações por crimes semelhantes; OU todos que fizeram coisas erradas se reunindo contra um inimigo comum deles, mas não do povo, para tentar criar um fato novo que possa barrar a faxina que se desenvolve.
   Só aguardando para ver no que vai dar...

Solidariedade?


   Ingrid Guimarães contou, outro dia, em seu Facebook:
   "Postei um vídeo pra Bela Gil tentando fazer um leite de amêndoas e me enrolei com o liquidificador. No dia seguinte, ganhei um liquidificador novo da marca que me atolei. Falei no Papo de Segunda que vivia pagando calcinha e uma marca me ofereceu várias calcinhas lindas (...) Disse que queria voltar a malhar e recebi várias roupas de malhação como incentivo. Mas quando peço ajuda pra ONG, trabalho social ou peça de alguém, ninguém liga. Nascemos humanos e vivemos produtos. Humanos não rendem likes".
   Apesar de não desejar, sou forçado a concordar com ela. Solidariedade, para muitos, só se render algum lucro comercial. Que coisa, hein...