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sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Estabelecendo uma diferença

 

    Antes de continuar avaliando a "Guerra Cultural" sob a perspectiva que estivemos utilizando até agora, vale sinalizar que há outra possibilidade de abordagem, que seria mais "europeia", se assim podemos chamá-la.

    No livro A cultura importa - fé e sentimento em um mundo sitiado, de Roger Scruton, a abordagem sobre a "Guerra Cultural" não capta tanto a estratégia de uma pretensa viabilização do marxismo no Ocidente através da subversão da cultura deste. Assim é que o autor diz: "As sociedades ocidentais estão vivendo uma crise aguda de identidade com ameaças externas, do Islã radical, e internas, do 'multiculturalismo'".

    Percebemos que o Ocidente, tendo como fundamento os valores judaico-cristãos, é tido como atacado pelo Oriente/Islã, externamente. Ao mesmo tempo, internamente, ele sofre com um fenômeno mais delicado, que parece menos hostil que o anterior. Isto porque, ao se pretender dar voz a outras culturas, dentro do Ocidente, tem-se a impressão de que só se está sendo "democrático". Contudo, não se trata apenas da inclusão de outros bens culturais, com enriquecimento da cultura que os admite. A intenção é "igualar" todos os elementos, o que, em certo sentido, acaba por diminuir o que pertence à tradição ocidental diante do que lhe é alienígeno. 

    Iremos, aos poucos, discutir essa abordagem também.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

O que há de meio "estranho"?

 

    O que julgo mais "estranho" é que, aparentemente, o suposto plano de substituição dos valores... ou de "transvaloração dos valores" - lembrando o bigodudo Nietzsche - não apresenta os valores novos apenas como mais dignos de serem tomados como fundamento da sociedade pretendida. Isso seria absolutamente compreensível. Parece, contudo, que os valores - novos e antigos - são colocados para "brigar", com um potencial, inclusive, de degradação absoluta da ordem, em vez de uma substituição de uma ordenação inconveniente, por outra melhor estabelecida.

    Vamos a um exemplo.

    Marx havia criticado a "família burguesa" pela mesma ter entrado na lógica da mercantilização. Em O manifesto comunista (1848), o filósofo alemão escreve: "A burguesia arrancou às relações familiares o seu comovente véu sentimental e as reduziu a pura relação monetária". 

    Ora, o que seria de se esperar da família inserida em uma nova ordem que se guiasse pelo marxismo? Imagino que seria a nova família abandonar a pura relação monetária e ter sobre si novamente o comovente véu sentimental. 

    Mas e se, em vez disso, propuséssemos o fim da família nuclear tal como a conhecemos? Não seria algo parecido com aquela ideia de jogar fora o bebê com a água da bacia, para eliminar a sujeira após o banho da criança? Ou seja, para resolver a situação problemática em relação a determinado objeto, elimina-se o objeto. Melhorando o exemplo: para curar um doente de câncer, mata-se o doente.



E a "guerra cultural" atual?

 

    Mas o que dizer da "guerra cultural" que, defendem alguns, está em curso agora, contra o Ocidente?

    Seguindo o que é apresentado pelos defensores desta ideia aqui no cenário brasileiro, temos que esta guerra é empreendida com a utilização das estratégias propostas pelo "marxismo cultural".

    E o que quer dizer exatamente isso?

    Em resumo, a ideia apresentada é a seguinte: quando perceberam que não haveria mais a possibilidade de implantar o socialismo - como passo inicial para o comunismo -, através de uma revolução, como preconizava o marxismo clássico, imaginou-se um outro caminho para alcançar o mesmo fim. Esse caminho seria o da substituição dos "valores burgueses" por outros, mais alinhados ao pensamento marxista, através de ações sobre a cultura ocidental.

    Assim é que, ao invés do campo econômico, que se referia à base, no pensamento marxista clássico, a atuação se daria sobre o campo cultural, referente à superestrutura daquele mesmo pensamento.

    O que parece mais interessante, entretanto, é que essas modificações seriam propostas a partir de "dentro" do próprio Ocidente, ou seja, as ações que permitiriam a substituição dos chamados "valores burgueses", na sua maior parte, seriam implementadas por cidadãos que vivenciam esses mesmos valores. Assim é que, se insurgindo contra a "democracia" de cunho liberal, os seus detratores se valeriam justamente dos espaços democráticos que admitem o embate de opiniões distintas.

    Mas há algo meio "estranho"...

    

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Essa tal "guerra cultural"

 

    Do que falamos, quando nos referimos a essa tal "guerra cultural", empreendida com base no "marxismo cultural"?

    Vamos por partes... e sem complicações desnecessárias.

    Uma "guerra" diz respeito a um conjunto de ações, propositalmente escolhidas, a fim de conquistar bens, materiais e imateriais, que pertencem a outros. Esses "bens", como foi destacado, podem ser materiais - ou seja, pode dizer respeito a riquezas naturais, produtos manufaturados, etc. - ou podem ser imateriais - como a liberdade, técnicas específicas de produção, conjuntos diversos de ideias, etc.

    Embora, dentro da perspectiva mais tradicional da Antropologia, o termo "cultura" se refira ao "conjunto de bens, materiais e imateriais, produzidos por uma sociedade e que pode ser objeto de transferência entre gerações", poderíamos ser um pouco mais "preciosistas" e destacar especificamente os "bens imateriais" para representar a cultura. Se assim o fizermos, podemos acrescentar o adjetivo "cultural" ao substantivo "guerra" e resumir a definição desse conjunto da seguinte forma: a luta de um grupo pela conquista dos bens imateriais de outro. Vale ressaltar que pode ser até uma "conquista" para eliminá-los e impor os seus próprios.

    Pensemos no seguinte exemplo do que foi dito. Conquistadores portugueses chegam a um determinado local, que receberá no futuro o nome de Brasil, e lá encontram uma sociedade com seus modos de sentir, pensar e agir; seus valores e crenças; sua língua, em resumo, com sua cultura.  Os conquistadores/colonizadores empreendem uma "guerra cultural" que começa a privar o povo originário da sua cultura, que vai sendo substituída pela língua portuguesa, pela religião católica, pelo uso de vestuário diverso do anterior, por regras de convivência e de relacionamento sociais incorporadas, etc.

    O exemplo mostra que a ideia de "guerra cultural" não é tão nova assim.

sábado, 16 de julho de 2022

Pobreza no Brasil (1)

 

   Tratar do tema "pobreza", no Brasil, não é uma coisa simples. A começar, pela dificuldade de encontrar uma definição precisa do que vem a ser "pobreza" - o que é fundamental para análise de qualquer conceito -, e que continua com a profusão de números que envolvem a mesma. 

    A Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, utiliza o fator renda para classificar o que é "pobreza". A União Europeia segue esta linha, bem como o Banco Mundial e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

   A Organização de Alimentação e Agricultura (FAO), organismo pertencente à ONU, e também a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) traçam os limites da pobreza a partir da quantidade de calorias ingeridas pelos indivíduos.

    Os valores também variam bastante. Em relação às calorias, a FAO utiliza como limite de pobreza uma dieta diária abaixo de 1.750 kcal, enquanto a Cepal usa o valor de 2.200 kcal.

    Já no que se refere à parte econômica, a ONU fala em pobreza quando a renda diária média de uma pessoa está na casa de US$ 1,25; mas o Banco Mundial e o IBGE usam um valor maior do que este para identificar a "extrema pobreza", com US$ 1,90, e a pobreza estando entre US$ 3,20 (para países subdesenvolvidos) e US$ 5,50 (para países em desenvolvimento).

    Mesmo admitindo que a referência à renda diária per capita é mais usual, ainda resta essa variação grande para administrar.

    Diante desse fato, não é tão fácil discutir os números que são apresentados - e usados politicamente - sobre a pobreza e a extrema pobreza, no Brasil. 

    Utilizando uma tabela produzida pelo IBGE de Síntese de Indicadores Sociais restará estabelecido que US$ 1,90 demarca a linha da extrema pobreza, enquanto US$ 5,50, o da pobreza. 

    Procedendo assim, teríamos, em 2020, com uma população aproximada de 211 milhões de pessoas, cerca de 12 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de extrema pobreza, enquanto o total de brasileiros considerados pobres - descontados os que estão abaixo da linha da pobreza - seria algo em torno de 39 milhões. Ou seja, teríamos aproximadamente 51 milhões de brasileiros categorizados como pobres ou extremamente pobres.

    

sexta-feira, 27 de maio de 2022

"Socioanálise"

 

   Achei bem interessante uma ideia de Pierre Bourdieu, segundo a qual poder-se-ia fazer uma analogia entre o trabalho do sociólogo e o do psicanalista.

  Consta do livro 50 grandes sociólogos contemporâneos, de John Scott:

   "Bourdieu pensou a prática da sociologia em termos de uma 'socioanálise', em que o sociólogo está para o 'inconsciente social' da sociedade como o psicanalista está para o inconsciente do paciente. O inconsciente social consiste de interesses não reconhecidos que os atores seguem [...]"

sábado, 21 de maio de 2022

Globalização...

    

    "Temos o direito de ser iguais, quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes, quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí, a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades"

(SANTOS, Boaventura de Souza. Uma concepção multicultural dos direitos humanos)

sábado, 2 de janeiro de 2021

Racismo (4)

 

    Por último, uma experiência pessoal.

    Certa vez, eu e minha esposa estávamos em um barzinho, aguardando nossa filha chegar. Nossa mesa só contava com duas cadeiras. Olhei a mesa ao lado, que só estava com uma pessoa, mas dispunha de duas cadeiras. Virei-me para o ocupante da mesa, e, num tom amistoso, disse: "Amigão, você me permite pegar essa cadeira?", apontando para o objeto em questão.

    O rapaz na mesa era negro. Ele me olhou e, em tom enfurecido, perguntou: "O que você disse?". Num primeiro momento, achei que ele não tivesse entendido a pergunta, e esclareci: "Eu queria saber se posso pegar essa cadeira". Ele voltou a falar com ar irritado: "Não. O que você disse antes?". Levei um instante para processar o motivo da raiva: ele havia interpretado o meu "amigão" como "negão". 

    Eu não quis polemizar, visto que minha intenção era apenas obter uma cadeira. Então, falei "Não disse nada antes. Só fiz uma pergunta. Se não quer ceder a cadeira, peço a outra pessoa". Virei para a mesa ao lado da dele, ocupada por uma pessoa branca, onde também havia uma cadeira sobrando, e perguntei: "Amigão, posso pegar essa cadeira?". A resposta foi afirmativa. Peguei a cadeira e esperei minha filha chegar. 

    Minha esposa, logo depois, quis me explicar o porquê da irritação do primeiro homem. Eu indiquei que havia entendido, mas que não quis entrar naquela polêmica... até porque não falei nada de errado. 

    Só quis destacar que a discriminação estava exclusivamente na mente do pretenso discriminado.    

    Aliás, vale o comentário de que a defesa do atleta do Bahia utilizou o argumento de que, pelo idioma diferente, o jogador do Flamengo pode ter confundido alguma outra palavra proferida com a que teria sido ouvida por ele.

Racismos (3)

 

    O segundo caso é bem menos grave, já pelo fato de não envolver uma morte... ainda bem. De qualquer modo, caso se tratasse de uma questão de racismo, deveria ser abordado com repúdio total, do ponto de vista moral... além, obviamente, das punições criminais.

    O jogador Gérson, do Clube de Regatas do Flamengo - atleta de sucesso, respeitado no meio futebolístico e bem sucedido financeiramente - denuncia ter ouvido de um adversário estrangeiro, de nome Ramírez, durante uma partida, a seguinte frase: "Joga, negro!". 

    Ainda durante o jogo, Gérson teria reclamado com o juiz. Aparentemente, o ato discriminatório do atleta do Esporte Clube Bahia não foi percebido por outras pessoas, a não ser aqueles que se manifestaram, no momento, contra o supracitado ato, notadamente os jogadores do time do próprio jogador ofendido.

       Como no caso anterior, é impossível descartar a possibilidade de discriminação racial. Mas há algumas variantes importantes em relação ao primeiro evento.

    Não se trata de uma pessoa negra humilde, marginalizada pela sociedade, sofrendo uma agressão de alguém numa posição socialmente superior. Muito pelo contrário, trata-se de um jogador com experiência na Europa, com destaque num time de estrelas no Brasil, teoricamente recebendo injúrias racistas de um estrangeiro - sul-americano - que joga em um time de menor expressão no  cenário nacional, e, muitíssimo provavelmente, com um salário e um status social bem menor que o do possível ofendido. 

   O sentir-se ofendido do jogador Gérson me parece mais estranho ainda em função de outra coisa: uma partida de futebol não é exatamente o lugar para "bons moços", numa conversa razoável e educada. Prova disso, inclusive, é uma discussão utilizada como prova, inicialmente pelo Flamengo, tentando demonstrar que o atleta do Bahia teria ofendido outro jogador do clube - desta vez, Bruno Henrique -, com o mesmo tipo de discurso, ao chamá-lo de "negro". Contudo, o clube baiano contratou especialistas que indicam que o atleta rubro-negro teria, num diálogo durante o jogo, chamado o possível ofensor de Gérson de "Gringo de merda".

    Ninguém deseja que exista desrespeito dentro das quatro linhas do gramado, mas... o fato é que isso existe, e é tomado como "parte do jogo" pelos próprios atletas. Tanto é que os jogadores ofendem, são ofendidos e... normalmente não se manifestam. Quando um deles decide fazê-lo, passamos a conhecer o que acontece dentro dos gramados de forma aberta, mas velada para nós, os espectadores. 

    Acho, sim, que pode ter havido discriminação em ambos os casos, o do atleta Ramirez, ao chamar Gérson de "negro", sem acrescentar, por exemplo, "de merda", mas também o de Bruno Henrique, se chamou o atleta do Bahia de "gringo", desta vez, acrescido do "de merda". Mas, sinceramente, dentro de um campo de futebol, ainda mais pela origem usualmente humilde dos jogadores, conseguiríamos realmente falar em "racismo"?

    Essa pergunta pode parecer desconsiderar que a prática racista é abominável em qualquer espaço social. Mas não se trata disso. O que quero ponderar é que acabamos tomando por racismo -  aquele que realmente priva pessoas de direitos sociais fundamentais, inclusive, infelizmente, algumas vezes, do próprio direito à vida - uma discriminação que ocorre num espaço em que os antagonismos, inclusive com uso de violência entre os próprios "colegas" atletas, são até valorizados pelos espectadores - e "contagiam" negativamente os próprios participantes dos jogos.

    É muito bonito os jogadores entrarem em campo com faixas dizendo "Não ao racismo" ou "Vidas negras importam", mas, na primeira bola dividida, saírem de dedo em riste, no rosto do adversário-colega de profissão, emitindo um montão de impropérios, vários deles de cunho discriminatório. Portanto, parece que eles mesmos se dão essa "licença poética" de dizerem "Você é um merda!", e isso não passar de uma expressão hiperbólica de desconforto com o outro... o que vale, igualmente, para "gringo de merda", "negro", "branquelo", "paraíba" - para qualquer nordestino -, etc.

    Aliás, em relação a essa última, se formos nos ofender mais radicalmente, acho que a discriminação é maior, porque "negro" é normalmente usado para pessoas de pele negra/preta, enquanto "paraíba" é uma referência jocosa que se faz a qualquer nordestino, e não somente àquele que efetivamente nasceu na Paraíba.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Racismos (2)

    Dois casos de "racismo" (entre aspas, provocativamente) recentes me chamaram atenção: o primeiro, de João Alberto Silveira Freitas - morto no supermercado Carrefour -; e o segundo, do jogador Gérson, do Flamengo-RJ.

    Gosto pouco de falar de casos muito recentes, por conta das fortes emoções que ainda estão presentes, dificultando uma crítica mais perfeita. Mesmo assim, vamos lá.

   Sinceramente, tenho dúvidas se os casos citados realmente caracterizam "racismo", no sentido em que está sendo discutido na grande mídia.

   Discutirei um caso de cada vez.

    Primeiro caso. Um homem - negro, sim - é espancado brutalmente até a morte. Não sou jurista, mas não tenho dúvidas de que foi um homicídio qualificado. Minha incerteza está no fato de ele ter sido morto POR ser negro. Não questiono que seja possível ter havido racismo até o ponto em que João Alberto foi conduzido para fora da área efetivamente comercial do supermercado. Pelos vídeos divulgados, parece haver um desentendimento entre a vítima e uma funcionária, no interior da loja - o que, reconheço, já pode ter sido fruto de alguma prática racista -; posteriormente, há a observação de João Alberto por outro funcionário; e, por fim, o acompanhamento da vítima por seguranças do supermercado ao longo de um corredor. Volto a reconhecer que, durante esse trajeto, pode ter ocorrido práticas racistas, com ofensas, ameaças, etc. Em determinado ponto, contudo, João Alberto desfere um soco em um dos seguranças. Aí, penso, a coisa muda de figura. Desse evento em diante, imagino que falar de "racismo" pode ser um tanto quanto inadequado. Afinal, ao ser agredido com um soco, o segurança - policial militar de folga - , ensandecido, passa às cenas de barbárie que ficaram registradas em nossa mente, levando à morte de João Alberto.

   Voltemos um pouco. Em momento algum, estou afirmando que não houve racismo, ou seja, uma ação deliberada de tratar um indivíduo de maneira injusta pelo fato de ele ser negro. A única coisa que estou dizendo é que não posso assegurar que o motivo do homicídio foi o fato de o rapaz ser negro, como está sendo seguidamente informado pela grande mídia.

   Obviamente, o segurança/policial tem que ser punido pelo homicídio. Afinal, a agressão sofrida na forma de um soco não poderia justificar um homicídio, principalmente quando se trata de alguém que deveria estar preparado para neutralizar um agressor... menos ainda quando observamos que havia dois seguranças para neutralizar a ameaça na forma de um único indivíduo desarmado.

   A questão do crime de racismo, contudo, tem que ser melhor investigada... para ser punida com justiça, caso efetivamente tenha ocorrido.  

   Resumindo, então: só acho que o assassinato não se deu exata e especificamente por racismo.

   Depois, veremos o segundo caso...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Aliás... "negro" ou "preto"?

 

   Já que estamos falando de "racismo", vale a pena enfrentar uma questão paralela ao tema: Qual é o correto, "negro" ou "preto"?

   Há anos, existia uma lógica de que negra era a raça, enquanto preta era a cor. Dessa forma, seria um desrespeito dizer que alguém era "preto", pois se estava comparando um indivíduo a uma coisa. 

    A disputa em torno da linguagem foi se acirrando, a partir do momento em que se entendeu que a estrutura social de dominação era continuada através de um mecanismo linguístico que "normalizava" as discriminações - ainda que não se percebesse esse uso discriminatório. Expressões como "denegrir", "lista negra", dentre muitas outras, passaram a ser criticadas.

    No meio disso tudo, passou-se a discutir a preferência pelo uso de "negro" ou "preto", para se referir ao indivíduo categorizado como da raça negra.

    Até onde sei, não existe consenso. Tanto é que convivemos com o Movimento Negro do Brasil; o "Vidas negras importam" (apesar de também haver a alternativa "Vidas pretas importam"); e até a banda de pagode "Raça Negra"... todas iniciativas de valorização e pertencimento do indivíduo negro/preto na sociedade.

    Embora reconhecendo que as palavras também se inserem num jogo cultural, que não é, ele mesmo, neutro, acho que devemos  perceber sempre o contexto do uso. Não sei o que seria mais preconceituoso, um amigo (branco) dizendo para outro (negro) "Negão, vamos beber uma cerveja?" ou um motorista (branco) dizendo para um frentista (negro) "Loirinho, coloca vinte litros de gasolina pra mim".

Racismos

 

    Vale destacar, antes de tudo, que há pessoas que se revoltam quando se fala em "raças" no que se refere a seres humanos. Estas pessoas indicam que só há uma "raça humana", não fazendo sentido, portanto, a distinção entre caucasoide, negroide ou mongoloide.

     A questão é que, para a Sociologia, o que importa não é a precisão biológica do conceito de "raça", e sim seus efeitos na realidade social.

    Ora, se pessoas são discriminadas em função de alguma característica que possuem, e se esta característica compõe um campo conceitual que se pode chamar de "raça", então, esta ideia merece ser estudada pela Sociologia.

    Para melhorar a precisão daquilo de que estamos falando, vale lembrar que "raça", sociologicamente falando, indica um conjunto de características físicas que são utilizadas para agrupar - como sempre, arbitrária e subjetivamente - determinados indivíduos.

    Não devemos confundir esse conceito com o de "etnia", que se vale mais de aspectos culturais para realização do tal agrupamento. Sem deixar de reconhecer, obviamente, que alguns desses aspectos culturais podem ser tradicionalmente associados a indivíduos com determinados traços físicos que evocam uma determinada raça.

    Assim, para alguém leigo no assunto, duas pessoas de pele de cor preta, com cabelos cacheados e determinadas traços fisionômicos podem ser categorizadas como pertencentes à mesma "raça negra", quando elas se oporiam a esta pretensa "igualdade" entre elas, por pertencerem a etnias diferentes - isto é, por terem referências históricas distintas, bem como costumes, valores, ideias e tradições diversas... até antagônicas, segundo suas concepções individuais.

   Para "apimentar" ainda mais o assunto, devemos nos recordar que, há pouco tempo, levantou-se a hipótese de se estar cometendo xenofobia e "racismo" tratar o coronavírus como "vírus chinês". Mas essa é outra estória.

    Continuemos com nossos "racismos", que já vão se provar mais de um, em breve...

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Giambattista Vico

 

   Herbert Spencer (1820-1903) é considerado o pai do Darwinismo Social. Este tipo de pensamento marcou profundamente a gênese da Antropologia Social. Na esteira desse discurso, o antropólogo americano Lewis Morgan (1818-1881) escreve, em 1877, Sociedade Antiga, em que descreve os três estágios de evolução das sociedades - selvageria, barbárie e civilização.

    Decerto que podemos lembrar de Auguste Comte (1798-1857), com sua Lei dos Três Estados - Teológico, Metafísico e Positivo -, divulgada no seu Curso de Filosofia Positiva, entre os anos de 1830 e 1842 - anterior, portanto ao A origem das espécies por meio da seleção natural, de Charles Darwin, publicado em 1859. Contudo, eu gostaria de voltar um pouco mais do que isso.

    Volto ao ano de 1725, ou seja, ao século anterior a esse do qual falamos. Encontro, então, La scienza nuova, de Giambattista Vico (1668-1744). Reconheço que ainda não estamos falando de "ciência" nos moldes que esta viria a ser definida posteriormente, com o rigor do método científico - embora a mesma procure argumentar em favor de um entendimento científico da História. De qualquer modo, gostaria de registrar algo sobre esse pensador italiano - com apoio do livro História da Antropologia, de Thomas H. Eriksen e Finn S. Nielsen, que registra:

    Vico propõe um esquema universal de desenvolvimento social segundo o qual todas as sociedades passariam por quatro fases com características própria e bem definidas. O primeiro estágio seria uma "condição bestial" sem moralidade ou arte, sendo seguida de uma "Idade dos Deuses", caracterizada pelo culto à natureza e por estruturas sociais rudimentares. Adviria, então, a "Idade dos Heróis", perpassada por perturbações sociais generalizadas resultantes de uma grande desigualdade social. Por fim, viria a "Idade do Homem", uma era em que as diferenças de classe desaparecem e a igualdade predomina. 

    Interessante perceber a visão antecipatória da proposta de Vico. Mas ainda há mais coisas que merecem destaque, no texto que cita o italiano. Vejamos:

    Vemos aqui, pela primeira vez, uma teoria do desenvolvimento social que não apenas contrapõe barbárie e civilização, mas especifica também alguns estágios de transição. A teoria de Vico serviria de modelo para os evolucionistas posteriores, de Karl Marx a James Frazer. Mas Vico detém um elemento que está ausente em muitos de seus seguidores. As sociedades não necessariamente se desenvolvem linearmente em direção a condições sempre melhores, mas passam por ciclos de degeneração e desenvolvimento. 

        Isso porque Vico indica que aquela tal fase da "Idade do Homem" seria "ameaçada pela corrupção interna e pela degenerescência em direção à 'bestialidade'". Ou seja, adeus "fim da História"!


    

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Paulo Freire


   Confesso-me um quase ignorante completo em Paulo Freire (1921-1997)... como em muitas coisas mais. Minha formação em Filosofia se deu como bacharel. Portanto, nenhuma necessidade houve de me debruçar sobre questões pedagógicas e educacionais. Agora, fazendo nova graduação, desta vez, de licenciatura em Sociologia, deparo-me com as disciplinas pedagógicas e... encaro Paulo Freire, entre tantos outros pensadores da educação.

    Vejo as ideias de Rousseau, Piaget, Vygostky, Dewey, Anísio Teixeira e mais um monte de pensadores, e me encanto com alguns dos aspectos apresentados. Mas por que falar especificamente de Paulo Freire, então?

    Inicialmente, gostaria de dizer que o blog não está vetado aos citados, bem como a outros que não fazem parte da lista ínfima acima. Mas... Paulo Freire está em moda no Brasil. Talvez, entre os educadores, ele nunca tenha saído de moda. Contudo, para o público em geral, as referências a ele, penso, são muito vagas. O "estar em moda" a que me refiro diz respeito ao uso - e, talvez, abuso - político que se faz de sua figura.

    Em função deste uso político... ou, melhor dizendo, ideológico que se faz de Paulo Freire é que me decidi a tentar conhecer um pouquinho mais do que está escrito em meu livro de referência da disciplina. Comprei outros livros, mais especificamente sobre ele, os quais, confesso, ainda não tive oportunidade de ler, bem como a Pedagogia do Oprimido - igualmente não lido. Em realidade, registro apenas as primeiras impressões - estas, vindas da internet. Trata-se de um pequeno embate entre um detrator e um defensor de Paulo Freire. Deixarei o link no final deste post, para quem se interessar pela interessante leitura. Contudo, gostaria de registrar algo que me pareceu importante, logo de início: talvez seja necessário falar em "Paulos Freires", no plural. Vamos lá...

    Poderíamos pensar, pelo menos, em três Freires diferentes: (1)  o de antes do Golpe de 1964; (2) o do exílio e (3) o que volta ao país, quando da redemocratização.

    Segundo Hugo Cristo, o defensor de Paulo Freire, este, quando apresentou seu famoso método de alfabetização para adultos, não tinha nada de político, no sentido de fomentador de uma revolução da ordem política vigente. Obviamente, num sentido lato, poderia ser considerada uma ação política, visto que visava permitir o acesso à leitura - ainda que minimamente -, o que dificultaria a manipulação dos atores políticos a quem interessava um povo completamente iletrado. Mas isso é outra estória.

    Aliás, em outro momento, pretendo refletir acerca do  fato de o método de Freire ser realmente autoral ou não. Bem como se já haveria esse ingrediente revolucionário nessa época. Porém, sigamos.

    O segundo Freire seria aquele do exílio. Este, segundo Hugo Cristo, "incorpora formalmente a discussão crítica da condição social do aprendiz". Ou seja, aqui temos, realmente uma caracterização mais politizada do educador Freire. Vale lembrar, então, que a crítica não recai mais sobre o Método Paulo Freire, mas sobre o seu posicionamento político, de viés marxista. 

    Sem entrar no mérito da questão, há que se registrar, como faz Hugo Cristo, que um posicionamento crítico à visão ideológica daqueles que o expulsaram de seu país é até afetivamente justificável. Porém, sigamos, já que o importante, neste post, é a demarcação dos três Freires.

    Por último, teríamos o Freire que retorna ao Brasil em 1980, e se filia ao Partido dos Trabalhadores. Este último teria uma atuação mais institucional, como planejador da educação, já integrado ao novo cenário democrático brasileiro. Portanto, já mais transformador da realidade dada do que propositor de uma revolução marxista no Brasil.

    Como introdução à reflexão sobre Paulo Freire, acho que valeu.

   O link da embate sobre Paulo Freire - embora devam existir outros - é: https://medium.com/@hugocristo/o-fracasso-da-pedagogia-de-paulo-freire-qual-delas-a0171dc9e254

     

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Ideologia (2)


   Antes de tratar do conceito de "ideologia" como o percebemos rotineiramente hoje em dia, gostaria de registrar que sempre penso em algum termo que possa exprimir melhor a essência do mesmo. Gosto de "idealidade", sugerido, sem grande explicação, por Emmanuel Renault, em seu Vocabulário de Karl Marx, justamente no verbete "Ideologia". 
   Vejamos seu texto no verbete em questão, com grifos meus.
   "Ao conceber a ideologia como 'a linguagem da vida real', o objetivo de Marx é explicar as IDEALIDADES por seu contexto histórico [...]. O conceito de ideologia é, com efeito: a) o do condicionamento das IDEALIDADES por interesses materiais; b) o da dimensão política da consciência e da teoria (as idealidades aparecem como meio de garantir a dominação de uma classe sobre outra [...]". 
   Há uma sequência, com mais dois significados, para, depois, ser apresentado um resumo: "Logo, a ideologia pode ser identificada às ideias dominantes no sentido das ideias dominantes numa determinada época, no sentido das ideias que produzem uma dominação e no sentido das ideias que justificam uma dominação".
   Ou seja, "ideologia" estaria associado a um conjunto de ideias... que poderíamos traduzir melhor como "idealidade". Pelo menos, é o que penso.

Ideologia


   Sempre me incomodou muito o conceito de "Ideologia"... mas de uma maneira distinta daquela que alguns teóricos sentem. 
   Meu incômodo é essencialmente etimológico. 
   O que é Biologia? Simplificadamente, é a ciência que tem por objeto os seres vivos (bios). O que é Psicologia? Resumidamente, é a ciência que tem por objeto a mente/alma (psyche). E por aí vai...
   Temos sempre um objeto que é estudado e explicado por um discurso (logos), o que poderia ser pensado como um saber organizado ou uma "ciência". 
   Então, o que seria Ideologia? Seria a ciência das ideias. 
   Mas é isso? Lógico que não é assim que percebemos o conceito de "ideologia" hoje... porém, já foi.
   Anthony Giddens dá a seguinte explicação:
  "O conceito de ideologia foi usado pela primeira vez na França ao final do século XVIII para descrever uma suposta ciência das ideias e do conhecimento - uma ideia-logia. Nesse sentido, a ideologia deveria ser uma disciplina próxima da Psicologia [...]. Nas décadas de 1930 e 1940, Karl Mannheim tentou recuperar essa ideia em sua Sociologia do Conhecimento, que associava modos particulares de pensamento às suas bases sociais".
   A versão "neutra" do conceito de "ideologia" não se tornou o mais aceito. Ficamos, então, com a categoria marxiana de "ideologia"... motivo para outro post.
   

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Por que se vota em alguém? (3)


   Esse tema ganhou um colorido especial quando foi comentado, aqui no blog, pelo Luís. Aliás, o diálogo sempre enriquece nossas posições.  
   A primeira coisa a dizer é que, dentro de uma democracia, a motivação do voto - ou do não-voto - pertence ao eleitor. Vimos, em posts anteriores, algumas propostas de análise das motivações dos votantes, no que se referia a uma valorização da influência social, em oposição à escolha mais autônoma. De qualquer modo, a opção de votar em alguém ou de não votar em ninguém pertence ao jogo democrático. 
   Dito isto, passemos as ideias sobre o tema.
   Que nosso sistema representativo tem defeitos, disso eu não duvido. Aliás, alguns defendem que a própria ideia de representação já poderia ser colocada sub judice. A percepção é a de que o correto seria sempre uma participação direta do cidadão. Quem defende essa ideia, apela às inovações tecnológicas para viabilizar este tipo de participação.
   A mim parece que, se a própria eleição com a utilização de meios eletrônicos já é colocada em dúvida, com a alegação de que urnas eletrônicas - que, lembremos, são checadas e ficam sob responsabilidade de um grupo de pessoas escalado só para isso - são violáveis, a participação direta, por meio da internet, por exemplo, seria considerada muito mais vulnerável. Portanto, ainda acho utópica a democracia direta, quando tratamos de um contingente muito grande de cidadãos.
   Outro problema grave da democracia representativa - este, aliás, colocado pelo nosso companheiro Luís - é a não vinculação completa entre propostas pré-eleitorais e ações pós-eleitorais. Como não há, pelo menos no Brasil, o mecanismo de recall, os políticos ficam livres para praticar o chamado "estelionato eleitoral" durante seu primeiro mandato. Obviamente, a não recondução dos mesmos ao cargo para que foram eleitos inicialmente representaria a "punição" possível para este "estelionato". Mas isto requer do eleitor a espera pela nova oportunidade de exercer o voto.
    A questão que defendi junto ao Luís é que, com todos os defeitos - realmente existentes - do sistema representativo, alguém irá exercer esta representação. Lembro, inclusive, que há fake news circulando antes das eleições, dizendo que. se a maioria dos cidadãos não votar, elas teriam que ser anuladas. Ou seja, se quase todos os eleitores não votarem, nossos representantes serão aqueles que tiverem as maiores famílias, ou o maior número de amigos, por exemplo. Teremos, então, vereadores eleitos com cinquenta votos; deputados, com cem... um presidente com mil indicações - num país de mais de duzentos milhões de habitantes.
   Defendo, portanto, que deve haver a escolha. Alguém pode perguntar: "Mas o que fazer se todos os candidatos forem ruins?". Minha resposta seria: "Escolha o menos pior". 
   Em tese, os candidatos - e seus partidos - têm posições específicas em áreas diversas. Todos podem ser ruins, no cômputo geral, mas alguns terão, por exemplo, visões sociais mais adequadas do que outros. Dentre esses "ruins" que sobraram, alguns podem ter passado por cargos de gestor que possibilitaria ações mais adequadas, quando na função para que devem ser escolhidos. Destes "ruins" - agora em número mais restrito -, alguns podem pertencer a partidos que têm quadros mais gabaritados. E assim por diante. 
   A escala hierárquica do que será valorizado, nesta avaliação de quem é "menos pior", vai depender do eleitor, obviamente. Eu posso achar mais importante a visão social, enquanto outro cidadão acha mais importante a visão macroeconômica. Uns podem valorizar mais a escolaridade, enquanto outros o carisma. Mas, no fundo, o que quero dizer é que, se todos estão, na média, aquém do esperado, mas alguém irá NECESSARIAMENTE assumir a vaga, a questão é o critério para realizar a seleção.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Por que se vota em alguém? (2)


   Diante do que foi apresentado no post anterior, podemos sugerir que escolher um candidato não é um ato totalmente "racional" - mesmo segundo o critério da Escola Econômica. 
   Se resta pacífico que, do ponto de vista das escolas sociológica e psicológica, a tomada de decisão tem a ver com o caráter do indivíduo, o que envolve fundamentalmente perspectivas afetivas, no que diz respeito à Escola Econômica/Racional, esta dimensão também se revela importante, visto que os valores a que damos destaque para considerar o que é do nosso "interesse" também passam pelo afetivo. O aspecto puramente racional surgiria apenas como instrumental, isto é, como meio, a fim de alcançar um fim já dado afetivamente, digamos assim.
   Fujamos, então, de uma interpretação meramente racionalista da escolha daquele que merece nosso voto.

Por que se vota em alguém?


   Pesquisadores como M.M. Castro (Sujeito e estrutura no comportamento eleitoral), M. Figueiredo (A decisão do voto: democracia e racionalidade) e Angus Campbell (The American Voter) tentam responder à pergunta do título do post.
   Num resumo, poderíamos pensar em três tipos de escolhas de candidatos, que são explicados pelas seguintes escolas:

   1) Escola Sociológica - a escolha se baseia na identidade cultural do votante, ou seja, no contexto social do grupo ao que o eleitor pertence. Em alguma medida, de modo bastante simplificado, poder-se-ia pensar na "classe social". Para este tipo de votante, a campanha eleitoral tem pouco efeito, visto que não modificaria o pensamento da classe como um todo.

   2) Escola Psicológica - também chamada de Escola Emocional. Apesar de não negar a contribuição do grupo social do votante, considera-a insuficiente para explicar a motivação da escolha. Muito mais importante, segundo esta proposta teórica, seria o processo de socialização política do indivíduo. Este processo acaba sendo um amálgama de vários elementos, não apenas vivenciados de forma coletiva - como no grupo social em que se está inserido -, mas com forte viés das experiências individuais.

   3) Escola Econômica - também chamada de Escola Racional. Segundo esta escola, os eleitores, como alguém que procura um produto em um mercado, visam maximizar seus próprios interesses, através do voto, sendo movidos, portanto, exclusivamente por motivações egoístas.

   Apesar de a Escola Econômica ter ganho relevância na tentativa de explicar as motivações dos eleitores, admite-se que esses modelos puros são limitados para uma justificativa completa da escolha do eleitor. O melhor seria, então, definir proporções em que cada eleitor reage diante da possibilidade de escolha. Assim, poderíamos falar de tendências de seguir um padrão de escolha, muito mais do que a determinação de fazê-lo.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Progressistas e a esquerda


   Aqui no Brasil, acostumamo-nos a associar as bandeiras progressistas à esquerda e o conservadorismo à direita. Nada tão errado nisso. Mas... quem estuda um pouco mais, sabe que isso não é absolutamente necessário.
   Vejamos, então, um caso a levar em consideração.
   Estamos no meio da Copa do Mundo, realizada na Rússia. Um bando de brasileiros bobalhões, gravou um vídeo com o que parece ser uma cidadã russa que não compreende o Português. Os caras falam umas bobagens e a moça é induzida a repetir o que eles dizem, sem saber que ela está sendo objeto de uma brincadeira de mau gosto. O vídeo viralizou na internet. O portal de notícias UOL entrevistou russas e brasileiras sobre o vídeo. A indignação das brasileiras foi tremenda, enquanto as russas reconheceram que foi uma brincadeira de mau gosto, mas se mostraram menos "revoltadas" com o fato. 
   A matéria se encerra com da seguinte forma:
   "Essas opiniões tão distantes tem origem na realidade da Rússia atual. Elas vivem em um dos países mais machistas do mundo e que aprovou, recentemente, uma lei que despenaliza a violência doméstica: se o agressor não causar dano físico à vítima e não repetir a agressão em menos de um ano, ele não pode ser acusado.
   Além disso, movimentos feministas são mal-vistos nas ruas e, alguns deles, são perseguidos pelo governo.
   Svetlana Zhabirikova [uma das russas entrevistadas] diz que todas as pessoas têm direito à opinião, mas ela não apoia o feminismo. Considera que é um movimento que defende a igualdade entre homens e mulheres e acredita que no mundo isto já acontece e as mulheres não devem lutar.
   Até mesmo quem critica os torcedores brasileiros coloca panos quentes no conteúdo do vídeo. Maria Semenovich, a mesma que falou que foi uma brincadeira, afirma que houve falta de respeito por parte deles. [...] Mas termina dizendo que não se importa com o feminismo. 'O mundo deve ser controlado por homens'".
   Obviamente, os valores das moças russas representam aquilo que lhes é passado pela sociedade conservadora em que vivem. Mas o que quero destacar nem é a opinião - curiosa, para dizer o mínimo - das russas, e sim a questão de alguns movimentos feministas serem inclusive perseguidos pelo regime comunista - ou seja, de esquerda - conservador.