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sábado, 2 de janeiro de 2021

O que é ser de esquerda, hoje? (2)

 

    Fiz um post com este mesmo título em 28 de fevereiro de 2019, explicando que lia um livro com este nome. Fiquei, na época, de fazer comentários sobre os textos contidos na publicação, mas... não fiz. 

    Aliás, na época, fiz apenas dois: (1) vários dos textos definiam o que é ser de esquerda hoje, ao que Ruy Fausto opunha a ideia de "identidades de esquerda" - que ele dizia serem três ou quatro, no Brasil -; e (2) meu espanto com o fato de ele indicar que uma dessas "esquerdas" é de cunho REVOLUCIONÁRIO.

    Sinceramente, achava complicado que, no Brasil, ainda existisse uma linhagem de esquerdistas que defendesse a via revolucionária de acesso ao poder - embora não duvidasse que alguém, isoladamente, pudesse pensar nisso. Mas tenho que dar o braço a torcer de que há, sim, essa esquerda. Em outro post, comento o porquê dessa minha concordância com Ruy Fausto.

    Antes, porém, de prosseguir, gostaria de registrar que também acho difícil haver uma linha de pensamento efetivamente reflexiva que defenda um golpe que nos leve à ditadura. Tanto um, quanto outro pensamentos me parecem desconsiderar o ambiente histórico em que eventos de tais tipos ocorreram, em comparação com o atual. 

    Mas... vamos lá...  tratando do que "paira" nos textos, mais do que o conteúdo efetivo deles.

    Senti - o que penso se confirmar mais e mais por leituras quotidianas - que há uma fragmentação grande da "esquerda" - lembrando que tomo o termo no singular criticamente. E, dentro dessa fragmentação, ainda que pese a hegemonia do Partido dos Trabalhadores, há certo desconforto em relação a este.

    Assim é que José de Souza Martins indica que o "[...] partido reinante [o PT] [...] governa em nome da esquerda. Mas o faz com programas de afirmação da mesma economia iníqua e desenraizadora do que foi chamado de neoliberalismo econômico, com ataduras e remendos sociais de natureza assistencialista".

    Trata ainda de um "proletariado de Lula e do PT construindo a prática populista e de direita em nome da esquerda, no presente sem futuro".

    Roberto Freire, por exemplo, diz que "A mudança para o PT nada mais significou do que chegar ao governo e tudo fazer para nele permanecer o maior tempo possível. Mesmo que isso implique em deixar de lado promessas de mudança exigidas pelos brasileiros e esquecendo o amanhã".

    Ruy Fausto indica que "A prática do governo do PT está muito longe de ser a efetivação de um projeto sólido de luta contra a corrupção e contra a desigualdade, projeto que só uma esquerda com outras exigências seria capaz de propor e de realizar".

    Há outras referências desabonadoras ao Partido dos Trabalhadores. Decerto que opiniões desse tipo vindas de partidos que lutam pela hegemonia no campo da esquerda podem ser consideradas "interessadas", e, por isso, levadas menos em consideração. Mas há também a opinião de teóricos do campo da esquerda que dão um tratamento eminentemente crítico ao tema, e que merecem reflexão séria.

    Reforço, de qualquer modo, que essas são críticas internas. Não se trata de um bolsonarista, por exemplo, "atirando" no PT.

    E... depois escrevo mais... prometo, desta vez. Rssss

  

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O caso Carol Solberg (2)

 

   Vale ressaltar o que disse o presidente do STJD do Vôlei, Otacílio Soares de Araújo: "Ela está lá para falar do que ocorreu dentro da quadra, e não sobre a política brasileira ou mundial".

   Ainda bem que a atleta vai poder continuar jogando, depois da punição considerada branda.

O caso Carol Solberg


   Como alguns devem se lembrar, a atleta do vôlei de praia Carol Solberg, no mês passado, após conquistar o terceiro lugar em uma competição, gritou "Fora, Bolsonaro".

   O Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Voleibol, ontem, a condenou com uma multa, convertida em advertência apenas. Segundo o entendimento do tribunal, Carol teria descumprido um determinado artigo do Regulamento do Circuito de Vôlei de Praia. Este artigo indicava, de modo resumido, que nenhum atleta pode se valer de meios de comunicação para expressar uma opinião crítica que possa vir a prejudicar a competição ou seus parceiros.

   Não vou entrar no mérito do regulamento, nem mesmo da punição. Gostaria de refletir acerca de duas outras coisas: o opinar de Carol e um pedido de sua defesa, durante o julgamento.

   Primeiro, em relação ao ato de emitir um juízo político, por parte da atleta.

   Em princípio, sou a favor da plena liberdade de expressão. Penso que isso implique, inclusive, aceitar opiniões antidemocráticas; que defendam coisas que achamos desumanas - como o nazismo, por exemplo. Uma opinião é a externalização do que é pensado. Nesse sentido, acho que ela deve ser respeitada como um ponto de vista, entre outros tantos existentes. Respeito, contudo, não quer dizer concordância e adoção daquele ponto de vista como motivador de uma ação. Além disso, quem emite uma opinião deve assumir sua responsabilidade pelo que foi dito, incorrendo até em crime, dependendo do que for afirmado.

   Mas minha concordância ampla com o ato de opinar - e, obviamente, com o responsabilizar-se pelo que foi dito - exige uma reflexão a mais: as figuras públicas precisam de um cuidado a mais quando se posicionam de forma aberta. Isso porque muitas pessoas, pela simples fama daquele que profere a opinião, aderem irrefletidamente à mesma, como se a opinião do "famoso" tivesse um peso maior do que aquela de quem estudou o assunto e contradiz o que foi afirmado. Portanto, uma manifestação pública de uma figura amplamente conhecida, mesmo que fora da sua área de atuação, tem um peso diferente da de outras pessoas - inclusive daquelas que teriam mais "confiabilidade" no assunto. 

   Sob essa perspectiva, acho que tanto a manifestação de Carol - fosse, também, a favor do presidente -, quanto a de juízes, atores e outros, deveria ser bem avaliada pelos seus emissores. Digo isso, principalmente, porque a reverberação dessas opiniões pode criar tantos antagonismos na sociedade, que acabam por fazer mais mal do que bem.

   Quanto ao segundo ponto que levantei - aquele que diz respeito a uma solicitação específica da defesa de Carol -, gostaria de registrar que penso ser algo incoerente. Trata-se do pedido de que o julgamento não fosse político, mas exclusivamente técnico. Isso porque houve a preocupação de que a citação depreciativa ao presidente da República pudesse pesar contra a atleta - até porque uma das patrocinadoras e a própria organizadora têm a ver com o governo federal.  

   Dá até para entender o pedido da defesa, não fosse o caso de a origem da causa ter sido, justamente, nossa atleta ter deixado de lado exclusivamente o aspecto técnico da competição, para se imiscuir justamente no plano político. 

   Fica aí a reflexão, para quem quiser pensar junto comigo. 

    

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Covid-19

     Faz muito tempo que já não registro minhas ideias e o resultado de leituras por aqui. Ainda bem, para mim, que não fui vítima - letal, pelo menos - da pandemia que assolou nosso mundão. Então, mesmo com um tremendo atraso, ponho-me a fazer uma breve consideração sobre este momento.

    Infelizmente, a Covid-19 entrou para o rol das questões que são politizadas... ou melhor, partidarizadas. Como já deve estar claro para quem me lê, sou um entusiasta da Política (essa com "p" maiúsculo), mas tenho muitas reticências em relação à "política partidária". 

    Decerto que precisamos da política partidária para fazer Política. Mas não podemos confundir conquista e manutenção de poder, objetivo principal da primeira, com organização e administração da sociedade, a ser viabilizada pela última.

    Mas, vamos lá...

    Volto à ideia de que a pandemia passou a servir às disputas de poder, mais do que à administração da sociedade. Dados técnicos são lidos, por um e outro lado da disputa, com o viés que lhes interessa. Além disso, uma novidade, como a representada pelo coronavírus, passa a cristalizar "conhecimentos" tão seguros, sem que se perceba que estes podem ser - como diversas vezes foram - desmentidos na semana seguinte.

    A própria Organização Mundial da Saúde foi reinterpretando dados; ampliando saberes e se reposicionando, quanto às instruções, ao longo desse processo. E... os defensores e detratores de um determinado lado, aproveitavam esses redirecionamentos para se apegar à sua opinião acrítica e/ou atacar a do adversário.

    Fato é que, em vez de nos unirmos contra um adversário comum, o vírus, ficamos tentando tirar partido dos cadáveres que se somavam dia a dia, numa disputa estéril pelo poder. Como se ganhar a batalha, conquistando terra arrasada, valesse mais do que manter nosso solo pujante, para, vencido o inimigo comum, disputarmos o poder dignamente nesse ambiente salutar.

       Sem entrar em questões como "gripezinha" ou "apocalipse", que são narrativas, e não análises do fato real, gostaria de registrar alguns números... o que farei em outros posts.

    Mas... foi dado o pontapé inicial.

    E... grande abraço a quem me lê.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Telegram lavando a Lava Jato (2)


   Ainda observando o que acontece nesse caso do vazamento dos diálogos - adulterados ou não - entre o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, escutamos as opiniões de juristas sobre o caso. Opiniões, registre-se, que incriminam e que isentam de culpa o atual ministro da Justiça e Segurança Pública.
   Penso que não dá para deixar de considerar o aspecto ético da questão. Eu não gostaria de saber, por exemplo, que o juiz de um caso se alinhou com o advogado do réu para orientá-lo sobre a melhor forma de fazer a defesa de seu cliente, do mesmo modo que não ficaria satisfeito de tomar conhecimento que esse mesmo tipo de atitude ocorreu para facilitar o trabalho dos promotores do caso. Ponto!
   Por outro lado, duas coisas me fazem refletir.
  Alguém que defende a utilização dos diálogos para demonstrar que houve uma ilegalidade na atuação do juiz - o que lhe parece algo absurdo - não pensa que está se valendo de outra ilegalidade, que é a prova obtida sem autorização da Justiça, para anular aquela primeira?
   Concordo que, no caso do juiz, se espere "neutralidade", enquanto, do ponto de vista do advogado, é claro que há um posicionamento esperado. De qualquer modo, estamos tratando de uma ilegalidade para "corrigir" a outra. E, aí, poderíamos pensar também que o promotor estava, ele também com um posicionamento claro de acusação, tentando se articular, da melhor forma possível, para tentar punir a possível ilegalidade cometida pelo réu. 
   Outra coisa que me incomoda um pouco é a questão de se pleitear a anulação de todo o julgamento, com base na possível parcialidade do primeiro juiz. Ora, se o processo já foi apreciado por instâncias superiores, que ratificaram a decisão anterior, acho que se deve avaliar sobre a tal anulação com mais cuidado. Isso porque o que está sendo questionada é a parcialidade do julgador, e não, por exemplo, a consideração de uma prova falsa para embasar a decisão. Então, se o primeiro juiz foi parcial ao julgar, mas o processo - materialmente falando - contém todos os elementos que justificam uma condenação, e a instância superior, ao analisar exclusivamente o que consta do processo, também condena o réu, não me parece haver motivo algum para anulação do processo como um todo.
   Aliás, o ministro João Otávio Noronha, presidente do Superior Tribunal de Justiça, que é um crítico da Operação Lava Jato, comentou, em entrevista ao site UOL, diz que "O STJ julgou com o que tinha nos autos. E o que tinha nos autos foi produzido tanto pela defesa quanto pelo Ministério Público. [...] Portanto, o STJ não incorreu em nenhum erro". Lembrando, inclusive, que a 5ª Turma do STJ reduziu a pena do ex-presidente Lula de 12 anos e 1 mês para 8 anos, 10 meses e 20 dias.
   Mas... continuemos vendo o que vai ocorrer.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Telegram lavando a Lava Jato


   Assunto tremendamente em alta no momento é a questão da apresentação da interceptação de mensagens trocadas entre membros do Judiciário e do Ministério Público Federal - notadamente o então juiz Sérgio Moro, hoje ministro, e o procurador Deltan Dallagnol -, através do aplicativo Telegram, no período em que o processo do ex-presidente Lula evoluía.
   A partir da divulgação dos diálogos, pelo site The Intercept, gerou-se uma confusão bastante grande de opiniões. Legisladores consultados viram uma possível ilegalidade na conversa entre acusador e juiz, visto que haveria um concerto entre ambos, principalmente para possibilitar uma melhor estratégia de obtenção de provas para condenação dos implicados em casos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato. Moro e Dallagnol, ainda sem confirmar a veracidade dos diálogos, insistem que não há nada de ilegal em conversarem durante o processo. O procurador demonstra a imparcialidade do juiz mostrando que houve diversos momentos em que o Judiciário negou pedidos do MPF. Quem está alinhado com eles registra que, em casos tão grandiosos quanto este, há que atacar pesadamente os infratores, mesmo que isso implique uma "flexibilização" nas regras ortodoxas de atuação.
   Há defensores de um lado e de outro. Particularmente, gostei da análise de Rogério Arantes, professor da USP, doutor em Ciência Política, publicada na revista Época, de 17/06/19. Gostaria de destacar apenas dois parágrafos do excelente texto.
   "O que distingue a Lava Jato [...] é que ela teve o êxito de promover uma nova forma de triangulação no interior do sistema de Justiça Criminal e de perfilar todas as instâncias jurídicas na mesma direção. Entretanto, parece cada vez mais claro que a operação foi desenhada para alcançar um determinado alvo, e nisso reside sua principal fragilidade e extravagância [...]. Ao se colocar um objetivo predefinido, a Lava Jato tornou-se uma operação tecnicamente política. Aqui se trata, na verdade, da clássica separação entre Justiça e política, que pode ser pensada a partir da relação entre meios e fins. Política é ação com relação a resultados, e os meios são escolhidos de acordo com os objetivos que se quer alcançar. Assim é que a política se legitima pelos fins que alcança, e os meios podem ser até controversos sob a ótica da moral comum, como nos ensinou o pai da política moderna, Maquiavel. A Justiça, por sua vez, legitima-se pelos meios que adota para a tomada da decisão. Mais importante que o resultado é o devido respeito ao processo legal. Da Justiça se pode dizer, em suma, que se legitima pelo procedimento".
   É uma discussão que deve ir longe, porque todos - pelo menos os que não estão implicados na Lava Jato - querem que a corrupção seja, na medida do possível, extinta nos órgãos superiores de decisão no Brasil. Contudo, para o bem do nosso Estado de Direito, não se quer abrir mão da legalidade dos procedimentos pelas diversas instituições. 
   Ainda Rogério Abrantes apresenta estas duas posições, quando diz:
   "na prática [...], esse mesmo modelo [a Polícia investiga, o Ministério Público acusa e o Judiciário julga] sempre fora acusado de ser a causa da impunidade. A interação entre essas instituições, historicamente marcada pela desconfiança recíproca e pelas críticas de incompetência e morosidade de lado a lado, comprometeria a eficácia de suas ações"; e
   "Quem prega mãos limpas não pode sujar as suas, mesmo que em nome de excepcionais objetivos".
   Vamos acompanhar os próximos passos para saber o que vai acontecer.

terça-feira, 21 de maio de 2019

José Padilha


   José Padilha é o criador da série O Mecanismo, que já vai para a segunda temporada na Netflix. A revista Veja nº 52 publicou uma matéria sobre o lançamento e uma pequena entrevista com o próprio Padilha. Sabemos que o produtor Padilha pertence ao campo ideológico da esquerda, contra o atual presidente Bolsonaro. Por isso mesmo, achei relevantes duas das respostas da pequena entrevista. Nelas, Padilha declara:
   "Quem elegeu Bolsonaro foi a esquerda. Antes das eleições, eu disse que três nomes estavam na disputa: Bolsonaro, Haddad e Ciro Gomes. Só Bolsonaro e Ciro, que não tinham ligações com a Lava-Jato, tinham chances. Mas a esquerda decidiu apoiar Haddad" e
   "O impeachment foi uma enorme farsa, um golpe. Mas quem deu o golpe? Foi o vice-presidente em que todos os eleitores do PT votaram. Foi um golpe interno de quem estava no poder. Uma quadrilha se fracionou em duas. Não foi a direita que derrubou o governo: foi o MDB que estava associado ao PT. Dilma foi uma tragédia para o Brasil. Se ela foi vítima, é porque se aliou ao Temer. Quem dorme com cobra acorda picado".
   Antes de fazer um pequeno comentário sobre essas declarações, quero dizer que não concordo integralmente com Padilha. Mas... vamos lá.
   Falou-se muito, na época da eleição, do erro estratégico do PT em tentar "forçar" a candidatura de Lula, mesmo que alguns, dentro do próprio partido, reconhecessem a pequena probabilidade do TSE acatar a inscrição do ex-presidente. Contudo, quando os números do "sucessor" Haddad começaram a crescer, esse possível engano foi sendo descaracterizado como tal. Quando o segundo turno se desenhou, Ciro Gomes passou a ser pressionado para dar amplo apoio ao candidato do PT - mas não o fez. A "culpa" pela vitória de Bolsonaro, então, caiu no seu colo. Interessante, então, observar que esta culpabilidade migrou, pelo menos segundo a percepção de alguns, para a esquerda, por conta do apoio a Haddad - muito em função do protagonismo do PT junto às esquerdas.
   O segundo comentário diz respeito ao reconhecimento de que o "golpe" - deixei entre aspas para deixar a discussão sobre a real natureza do impeachment em aberto - não foi dado pela direita, mas que foi algo interno. Mesmo relatando sua revisão pessoal com a figura do, hoje ministro, Sérgio Moro - de admirável combatente contra a corrupção a alguém associado à "esgotosfera da milícia no Rio" -, Padilha não bate na tecla dos petistas ortodoxos, que culpam o ex-juiz por favorecer a direita - de modo planejado desde então. Se houve "golpe" - e, para ele, houve -, este foi interno, com certa participação do próprio PT, por escolher mal seus companheiros.
   O último comentário é mais uma observação sobre a contundência de uma das afirmações de José Padilha, quando este diz que "uma quadrilha se fracionou em duas". Nem falo nada...

quinta-feira, 16 de maio de 2019

"A guerrilha no palácio"


   A revista Veja desta semana traz como matéria de capa a presença, ainda que não física, do "ideólogo" Olavo de Carvalho no governo do presidente Bolsonaro.
   Sem a ingenuidade de quem lê a matéria como completamente neutra, no sentido ideológico, faço algumas reflexões. 
   A primeira delas - e é justamente o que me chama mais atenção - é sobre a personalidade de Olavo de Carvalho. Antes de fazer a graduação de Filosofia, já tinha interesse pelo assunto. Além da leitura óbvia de Marilena Chauí e Danilo Marcondes - livros introdutórios de qualidade, utilizados até hoje -, tive a oportunidade de assistir às aulas do professor Olavo de Carvalho, gravadas em vídeo. Polêmico, atacava os "erros" de gigantes, como Kant, por exemplo. As palavras eram até "duras", mas havia uma argumentação... ainda que esta pudesse ser rebatida por especialistas. 
   Portanto, o lado polemista do professor Olavo, eu já conhecia. O que não me foi apresentado foi um vocabulário cheio de palavrões. Sinceramente, isso me decepcionou muito. Nem estou entrando no mérito dos conteúdos combatidos, mas é inimaginável, para mim, ver um "filósofo" usando como argumento palavrões.
   A segunda observação diz respeito a uma curiosidade apenas. Quando Bolsonaro estava disputando a eleição, muito se falava na possibilidade de volta da ditadura militar, visto que havia um claro alinhamento do corpo das Forças Armadas com o candidato. Eis que, agora, os militares podem estar sendo brandos demais... segundo o pensamento de Olavo e seus admiradores. 
   A matéria diz:
  "o guru [Olavo de Carvalho] e seguidores acham que os militares são excessivamente dóceis com os esquerdistas infiltrados nas universidades, nas escolas, na Igreja, na produção cultural, na imprensa e até mesmo nas Forças Armadas".
   Os possíveis "usurpadores do poder, pela via antidemocrática", que seriam os militares, se transformaram em mantenedores do diálogo democrático. Afinal, para eles "Olavo é uma força do extremismo político" - ainda segundo a matéria -, sendo necessária a diminuição de sua participação no governo, a fim de que possa haver uma unificação nacional do povo em torno de um projeto de país.
   Vamos aguardar que essa confusão "interna" acabe da melhor maneira possível para o Brasil

terça-feira, 7 de maio de 2019

O preço da eleição


   Ainda no mesmo livro do post anterior - no mesmo trecho, aliás -, Saturnino Braga fala sobre os serviços dos especialistas em ciência da psicologia eleitoral.
   Diz ele:
  "Tais serviços profissionais, prestados via de regra por toda uma equipe, custam somas vultosas que só os candidatos endinheirados podem pagar. E somas ainda muito maiores custa a cobertura noticiosa que os candidatos conseguem ter nos meios de comunicação, e que constitui outro fator absolutamente decisivo de êxito. A tal ponto que se pode hoje afirmar que o dinheiro é o fator mais importante numa decisão eleitoral de uma democracia moderna."
   Ou seja, por trás da lógica da manipulação "afetiva" dos profissionais em psicologia eleitoral, há o interesse de grandes grupos econômicos.

O voto


   Estava lendo um livrinho de Roberto Saturnino Braga, Entre séculos - textos políticos, publicado pela Contraponto, e me deparei com algo que já discutimos aqui, sobre a questão da racionalidade do voto.
   O texto expressa uma opinião que já defendi. Diz o seguinte:
"... a decisão do voto não é um ato puramente racional do eleitor esclarecido; é influenciada por um conjunto de impressões, emoções e sentimentos que os candidatos vão suscitando em seu espírito no curso da campanha. E a ciência da psicologia eleitoral formou profissionais especialistas na apresentação de candidatos cujos serviços produzem efetivamente resultados na cabeça do eleitor, principalmente no seu coração".

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O que é ser de esquerda, hoje?


   Essa me parece uma pergunta bem interessante de ser feita atualmente. Não só por que ela demonstra a preocupação de estabelecer quais são os pontos principais pelos quais se luta, mas também para identificar exatamente ao que se opõe - a "direita".
   Esta última parte - relativa ao lado oposto - é importante, visto que ouvimos falar muito, principalmente aqui no Brasil, que a esquerda se opõe ao "fascismo"... ideia bem problemática, caso tratemos deste último conceito de modo estrito.
   Estou lendo - meio indo e voltando - o livro O que é ser esquerda, hoje?, organizado por Francisco Inácio de Almeida e publicado por uma parceria entre a Fundação Astrojildo Pereira e a Editora Contraponto. São mais de quarenta textos reunidos sobre o assunto. A diversidade dos autores faz do livro algo interessantíssimo. Escrevem, para citar apenas alguns, Roberto Freire, Luíza Erundina, José de Souza Martins, Ruy Fausto, Cristovam Buarque, Ferreira Gullar, Renato Janine Ribeiro, Sérgio Besserman, Leandro Konder e Fernando Gabeira. Só por esses nomes, já dá vontade de entrar na discussão.
   Este será apenas o primeiro de uma série de posts sobre o assunto.
  A primeira coisa que me chamou atenção foi que vários autores tratam desse "ser de esquerda hoje" como se houvesse apenas uma "nova esquerda". Achei interessante que, em oposição a essa ideia, Ruy Fausto, em "Identidades da esquerda", diz que a esquerda brasileira oscila entre três (ou quatro) posições. Ele explica que "Apesar da catástrofe que representou o caminho revolucionário da Rússia, da China, de Cuba [...], os nossos radicais continuam pregando a solução violenta", ou seja, "continuam professando um projeto revolucionário".
   Realmente, ainda vejo pessoas com esse espírito.
   E... continuo depois.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

O PT e a esquerda no Brasil (2)


   Ampliando um pouco o horizonte da discussão da relação da Esquerda com o PT, gostaria de aproveitar ainda a matéria já citada da revista Isto É, quando ela apresenta a opinião de alguns participantes deste campo ideológico, deixando claro o descontentamento com o partido de Lula:
   - "É a velhice da estrela. Não podemos correr o risco de cometermos o mesmo erro" (Cristovam Buarque - senador);
   - "O PT deve um momento de silêncio ao Brasil. Ao não perceber que perdeu a hegemonia no campo da esquerda, o PT obriga o eleitorado a lhe dizer isso" (Paulo Delgado - fundador do PT); e
   - "O PT não está fazendo oposição a nada. Está indo com chicanas jurídicas, com prisioneiro que acha que pode fazer ou desfazer o que quer no País. Não está preocupado com a democracia" (Roberto Freire - presidente do PPS).
    
    A declaração de Freire me parece a mais forte. E explorarei posteriormente um pouco mais sua percepção em outro post.

Ciro Gomes e o PT (2)


   Depois daquela entrevista de Ciro Gomes à Folha de S. Paulo, foi publicada uma matéria de capa na revista Isto É, em 18/11/18, com o seguinte título "Uma nova esquerda - A banição do PT - liderada por Ciro Gomes, a oposição tenta se reinventar, exclui o Partido dos Trabalhadores das negociações e o relega ao isolamento político".
   No texto, fala-se da reunião do PDT ao PSB, à Rede e mesmo ao PCdoB, para a formação desta "nova esquerda". E ressalta:
   "O pedetista [Ciro Gomes] faz questão de ressaltar que o isolamento do PT não é o objetivo do grupo. É uma consequência. 'Nossa tarefa não é de se contrapor ao PT. Mas achamos que a hegemonia pouco crítica do PT já deu. Passou da conta e fez muito mal ao Brasil. Não existiria Bolsonaro sem o antipetismo, que foi introduzido por ele".
   

Ciro Gomes e o PT

   
   Antes de tratar da esquerda como um todo, gostaria de explorar ainda um pouco mais da figura de Ciro Gomes, na sua relação com o PT. Para tanto, utilizarei a entrevista de Ciro à Folha de S. Paulo, dada em 31 de outubro de 2018, de que já falei em post anterior.
   Destaquei apenas algumas frases do candidato do PDT. Estas, de início, podem deixar transparecer uma crítica pontual, pertinente apenas às eleições de 2018. 
   1) "O PT elegeu Bolsonaro";
   2) "O lulopetismo virou um caudilhismo corrupto e corruptor que criou uma força antagônica que é a maior força política no Brasil hoje. E o Bolsonaro estava no lugar certo, na hora certa. Só o petismo fanático vai chamar os 60% do povo brasileiro de fascista";
  3) "Só essa cúpula exacerbada do PT é que já começou a campanha de agressão";
   4) "É muito engraçado o petismo ululante. É igual o bolsominion, rigorosamente a mesma coisa".
   
   Mas há um fechamento que parece mostrar que a questão é um pouco maior do que essa espécie de mágoa eleitoral com o PT, porque já trata de um realinhamento das esquerdas para o futuro.
   O jornalista Gustavo Uribe pergunta:
   - A postura do senhor não inviabiliza uma reaglutinação das siglas de esquerda?
   E Ciro responde:
   - Não quero participar dessa aglutinação de esquerda. Isso sempre foi sinônimo oportunista de hegemonia petista. Quero fundar um novo campo, onde para ser de esquerda não tem de tapar o nariz com ladroeira, corrupção, falta de escrúpulo, oportunismo. Isso não é esquerda. É o velho caudilhismo populista sul-americano.

   Pode-se notar que há críticas que ultrapassam o momento presente, referindo-se ao passado do PT - corrupção, oportunismo e populismo -, e demonstrando que o "novo campo" seria formado sem as práticas que Ciro reputa como desabonadoras da hegemonia petista no controle da esquerda no modelo tradicional.

    

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O PT e a esquerda no Brasil


   Ficou claro, já após o primeiro turno da mais recente eleição presidencial brasileira, que o PT tinha perdido alguns de seus amigos mais próximos.
   Talvez, a baixa mais importante tenha sido a do candidato do PDT, Ciro Gomes, terceiro colocado naquela ocasião.
   Para quem não lembra, esperava-se apoio declarado imediato do candidato do PDT à chapa de Haddad (PT) e Manuela D'Ávila (PCdo B) para o segundo turno. Afinal, como adversário desta estava Jair Bolsonaro (PSL), representando a "direita". Mas... Ciro não se manifestou de pronto, e ainda se ausentou do país naquele momento crucial da disputa. Em seu retorno, não fez um pronunciamento - avidamente aguardado pelos petistas -, limitando-se a dizer que explicaria, após o segundo turno, sua posição de aparente "neutralidade", digamos assim - embora ele mesmo tenha rejeitado este status.
   Passada a eleição, com vitória do candidato de direita, Ciro deu uma entrevista reveladora à Folha de S. Paulo.
   Para começar, disse que não traiu o PT, porque não tinha empenhado a palavra em apoiá-lo. Contudo, mais complicado foi dizer "Não declarei voto ao Haddad porque não quero mais fazer campanha com o PT".
   Poder-se-ia dizer que o extremamente autêntico - às vezes, até demais - candidato tivesse como motivação principal a mágoa em relação ao PT na condução da indicação da candidatura à Presidência. Primeiro porque o PT insistiu em lançar Lula como candidato - mesmo este estando preso -, em detrimento de reunir a esquerda e indicar o próprio Ciro. Depois, porque o PT tentou minar a candidatura de Ciro, assim que ele rejeitou o convite para compor, como vice, a chapa de Lula, "convencendo" o PSB a não apoiar a candidatura própria de Ciro à Presidência.
    Fato é que, mesmo após o fim das eleições, Ciro se manteve afastado do PT. Por isso, ao se desenhar uma nova oposição de esquerda, a ser liderada pelo próprio Ciro, o maior partido deste campo político foi afastado da composição. 
   Mas será que apenas Ciro decidiu se afastar do PT? E seria isso motivado apenas por esta eleição de 2018?
   Depois continuamos...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Ideologia (2)


   Antes de tratar do conceito de "ideologia" como o percebemos rotineiramente hoje em dia, gostaria de registrar que sempre penso em algum termo que possa exprimir melhor a essência do mesmo. Gosto de "idealidade", sugerido, sem grande explicação, por Emmanuel Renault, em seu Vocabulário de Karl Marx, justamente no verbete "Ideologia". 
   Vejamos seu texto no verbete em questão, com grifos meus.
   "Ao conceber a ideologia como 'a linguagem da vida real', o objetivo de Marx é explicar as IDEALIDADES por seu contexto histórico [...]. O conceito de ideologia é, com efeito: a) o do condicionamento das IDEALIDADES por interesses materiais; b) o da dimensão política da consciência e da teoria (as idealidades aparecem como meio de garantir a dominação de uma classe sobre outra [...]". 
   Há uma sequência, com mais dois significados, para, depois, ser apresentado um resumo: "Logo, a ideologia pode ser identificada às ideias dominantes no sentido das ideias dominantes numa determinada época, no sentido das ideias que produzem uma dominação e no sentido das ideias que justificam uma dominação".
   Ou seja, "ideologia" estaria associado a um conjunto de ideias... que poderíamos traduzir melhor como "idealidade". Pelo menos, é o que penso.

Ideologia


   Sempre me incomodou muito o conceito de "Ideologia"... mas de uma maneira distinta daquela que alguns teóricos sentem. 
   Meu incômodo é essencialmente etimológico. 
   O que é Biologia? Simplificadamente, é a ciência que tem por objeto os seres vivos (bios). O que é Psicologia? Resumidamente, é a ciência que tem por objeto a mente/alma (psyche). E por aí vai...
   Temos sempre um objeto que é estudado e explicado por um discurso (logos), o que poderia ser pensado como um saber organizado ou uma "ciência". 
   Então, o que seria Ideologia? Seria a ciência das ideias. 
   Mas é isso? Lógico que não é assim que percebemos o conceito de "ideologia" hoje... porém, já foi.
   Anthony Giddens dá a seguinte explicação:
  "O conceito de ideologia foi usado pela primeira vez na França ao final do século XVIII para descrever uma suposta ciência das ideias e do conhecimento - uma ideia-logia. Nesse sentido, a ideologia deveria ser uma disciplina próxima da Psicologia [...]. Nas décadas de 1930 e 1940, Karl Mannheim tentou recuperar essa ideia em sua Sociologia do Conhecimento, que associava modos particulares de pensamento às suas bases sociais".
   A versão "neutra" do conceito de "ideologia" não se tornou o mais aceito. Ficamos, então, com a categoria marxiana de "ideologia"... motivo para outro post.
   

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Para que se vota em alguém? (4)


   Seguindo...
   3) Votar em pequenos partidos pode influenciar as políticas levadas a cabo?
   Segundo o Luís, apenas marginalmente. 
   Nesse ponto, concordamos integralmente. Aliás, isso passa por outra questão muito discutida no âmbito da reforma política, que são os chamados partidos "nanicos". No Brasil, havia grandes vantagens em ter um partido funcionando. Quanto mais representativos, mais dinheiro os partidos recebiam do Fundo Partidário. Até aí, tudo bem. Só que mesmo aqueles que tinham pouquíssimas vagas - ou até nenhuma - recebiam uma quota mínima. 
   Além disso, ainda há a possibilidade das coligações, o que acaba por permitir que os pequenos partidos negociem seus tempos gratuitos nos meios de comunicação com os partidos maiores. 
   Aliás, a questão da coligação é algo que me causa arrepios, pelo menos no modo como ela é realizada por aqui.
   Sigamos para uma questão que deixei propositalmente por último, porque acho bem delicada.
   1) Ao votar, escolho a política que vai ser seguida?
   Segundo Luís, "não". Isto porque o mandato não é imperativo. Ou seja, o candidato pode defender uma coisa antes da eleição, mas, após a eleito, votar em outra.
   Concordo que esse seja um problema real. Cheguei a dizer que talvez fosse interessante podermos utilizar o mecanismo do recall para os agentes políticos que praticassem essa espécie de "estelionato eleitoral". Também já sugeri que o enfraquecimento dos partidos acaba facilitando esse tipo de comportamento. Isto porque, devo lembrar, votar contra instruções do partido pode caracterizar o que se chama de "infidelidade partidária", que pode causar punição ao político filiado. Reforçando, então. Caso os partidos tivessem mais peso real, a candidatura chancelada por um deles garantiria uma série de compromissos com valores compartilhados por todos seus filiados, bem como pelos seus eleitores.
   Mas há algo que precisa ser dito também. A representação política é diferente de uma representação civil. Quando eu registro uma procuração para um amigo me representar em algum ato civil - a venda de um imóvel, por exemplo -, o objeto da representação é bem definido. No exemplo dado, meu amigo não poderia vender meu carro, visto que a representação concedida não alcançava este objeto. Só que a representação política não funciona assim. Não se concede uma procuração com objeto fixado. A representação concedida alcança objetos que já fazem parte do programa do partido, isto é, que já são conhecidos de antemão, mas também decisões sobre assuntos que sequer são considerados no momento da eleição. Isto é, pode ser apresentado um projeto de lei visando regular algum tipo de assunto que interesse à sociedade como um todo, mas que não foi pensado inicialmente por nós, eleitores. Nosso político eleito para o Legislativo precisará apresentar seu voto. Dependendo do assunto, ele poderá desconhecer totalmente nosso desejo. Novamente, ressalto que um partido forte poderia consultar suas bases, a fim de revelar o desejo dos seus eleitores. Mas não é isso que acontece sempre. E, quanto mais técnica for a questão, menor será o grau de consulta.
   Portanto, há que se reconhecer que a representação política guarda esta peculiaridade, e lidar com ela. Mas... reconheço que há problemas com isso, principalmente quando as matérias estão bem definidas no programa partidário ou foram suficientemente apresentadas no momento da campanha à eleição.
   Mas vou deixar uma provocação aqui, que diz respeito àquela famosa "herança maldita", de que tanto ouvimos falar. 
   Vamos supor que, numa avaliação prévia, o partido e o candidato digam que não aumentarão os impostos se ganharem a eleição para um cargo no Executivo. Ao conquistar o cargo, o eleito percebe que houve uma "contabilidade criativa" do governo anterior e que as contas não estão tão saneadas quanto se apregoava. Sua equipe faz as contas e verifica que... tem que aumentar os impostos. E agora? Manter a promessa ou não?
   Está aí mais material para nossa discussão.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Para que se vota em alguém? (3)


   Seguindo...
   5) Os governantes são eleitos?
   Segundo o Luís, "não", visto que os auxiliares, como os ministros, não são escolhidos pelo eleitor junto com o titular.
   Acho que não é bem assim. Não seria muito racional submeter ao eleitor escolher o titular e todos os seus auxiliares - até porque estes são convidados, muitas vezes, posteriormente... lembrando até que, normalmente, não são agentes políticos de carreira.
   Além disso - e, talvez, o mais importante - escolhemos o representante de uma ideia geral, que precisa se cercar de especialistas em assuntos específicos, como economia, meio ambiente, agropecuária, educação, etc. A mim parece que seria uma utopia muito grande esperar que escolhêssemos TODOS os integrantes do governo. Nenhuma estrutura organizacional funciona assim. Numa empresa particular, o presidente escolhe superintendentes e alguns diretores, mas não vai descendo por todos os escalões. A "ideia geral" é o que importa. Escolhendo o escalão que lhe é mais próximo, em tese, garante que seus subordinados também prosseguirão com a mesma ideia e escolherão pessoas alinhadas à mesma.
   6) Quando podem, os eleitos têm interesse de agir?
   Segundo o Luís, "não", porque estão interessados apenas em se manter no poder.
   Novamente, não acho que seja bem assim. Ora, outra vez, nosso amigo está falando de algo que não deve ser, como se fosse, a regra. Em princípio, um político profissional tem que se manter no poder a fim de ter a possibilidade de implantar suas ideias, agindo em prol da sociedade. Ou seja, a manutenção do poder é um meio para que o fim, que é agir em benefício da sociedade, seja realizado. O político que confunde o meio com o fim não é um bom político. Decerto que isso pode até ser o mais comum na prática de nossa vida política, mas, de novo, a corruptela não pode ser confundida com uma característica do sistema.
  Vai continuar...

Para que se vota em alguém? (2)


   Agora, vamos...
   Eu não concordo com todas as colocações postas pelo Luís. Vamos começar por elas, respeitando a numeração adotada pelo nosso amigo.
   2) Escolho meus representantes?
   Segundo o Luís, a resposta é "não", visto que o partido é que faz esta escolha.
   Acho que não é bem assim. Pelo menos aqui no Brasil, as eleições proporcionais são com lista aberta. Então, o partido disponibiliza um grande número de nomes - obviamente, pertencentes aos seus quadros -, a fim de que o eleitor faça sua escolha.  
   Não sei se, do ponto de vista estratégico, seria muito inteligente fazê-lo com os candidatos a cargo majoritário, mas até seria uma possibilidade. Assim, o mais votado de uma lista, por exemplo, para presidente, acabaria sendo o representante do partido para a etapa seguinte, sendo essa escolha feita diretamente pelo povo - meio parecido com a ideia das prévias, quando existem.
    Quero apenas lembrar que, pelo menos no Brasil, a ideia é que se vota no partido. Só secundariamente é que se escolhe o candidato. Tanto assim que uma pessoa não pode se candidatar caso não pertença a um partido. Isso, em princípio, garantiria que há uma base mínima de concordância entre o candidato e o programa partidário, facilitando a escolha do nome pelo eleitor.
   É bem verdade que isso é muito esquecido no Brasil, e que os partidos têm andado a reboque dos nomes de alguns candidatos. Um artista famoso, por exemplo, impõe seu programa pessoal e usa um partido qualquer, da moda ou de fachada, para poder se candidatar, sem compromisso verdadeiro com um programa partidário.
   Seguindo...
   4) Os eleitos podem agir?
   Segundo o Luís, "não". Eles são reféns do que o Poder Executivo deseja.
   Também não acho que seja exatamente assim. Aqui no Brasil, uma lei ordinária tem a necessidade de 257 votos para ser aprovada. Não é algo fácil. É verdade que os Poderes Executivos exercem forte pressão de "convencimento", atendendo demandas específicas de bancadas ou partidos, que facilitam a formação de uma maioria da situação nas casas legislativas. Mas isso é muito mais uma corruptela do sistema do que uma característica do mesmo.
   E se a maioria dos projetos aprovados tem concordância do Executivo - o que é um fato, até porque ele pode vetar o que foi aprovado -, ainda assim há projetos que viram leis, mesmo contra o desejo do governo, muito baseado na pressão da sociedade civil, via mídia, normalmente.
   As perguntas 5 e 6, para as quais também tenho minhas divergências, ficam para depois.