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sábado, 2 de janeiro de 2021

Racismos (3)

 

    O segundo caso é bem menos grave, já pelo fato de não envolver uma morte... ainda bem. De qualquer modo, caso se tratasse de uma questão de racismo, deveria ser abordado com repúdio total, do ponto de vista moral... além, obviamente, das punições criminais.

    O jogador Gérson, do Clube de Regatas do Flamengo - atleta de sucesso, respeitado no meio futebolístico e bem sucedido financeiramente - denuncia ter ouvido de um adversário estrangeiro, de nome Ramírez, durante uma partida, a seguinte frase: "Joga, negro!". 

    Ainda durante o jogo, Gérson teria reclamado com o juiz. Aparentemente, o ato discriminatório do atleta do Esporte Clube Bahia não foi percebido por outras pessoas, a não ser aqueles que se manifestaram, no momento, contra o supracitado ato, notadamente os jogadores do time do próprio jogador ofendido.

       Como no caso anterior, é impossível descartar a possibilidade de discriminação racial. Mas há algumas variantes importantes em relação ao primeiro evento.

    Não se trata de uma pessoa negra humilde, marginalizada pela sociedade, sofrendo uma agressão de alguém numa posição socialmente superior. Muito pelo contrário, trata-se de um jogador com experiência na Europa, com destaque num time de estrelas no Brasil, teoricamente recebendo injúrias racistas de um estrangeiro - sul-americano - que joga em um time de menor expressão no  cenário nacional, e, muitíssimo provavelmente, com um salário e um status social bem menor que o do possível ofendido. 

   O sentir-se ofendido do jogador Gérson me parece mais estranho ainda em função de outra coisa: uma partida de futebol não é exatamente o lugar para "bons moços", numa conversa razoável e educada. Prova disso, inclusive, é uma discussão utilizada como prova, inicialmente pelo Flamengo, tentando demonstrar que o atleta do Bahia teria ofendido outro jogador do clube - desta vez, Bruno Henrique -, com o mesmo tipo de discurso, ao chamá-lo de "negro". Contudo, o clube baiano contratou especialistas que indicam que o atleta rubro-negro teria, num diálogo durante o jogo, chamado o possível ofensor de Gérson de "Gringo de merda".

    Ninguém deseja que exista desrespeito dentro das quatro linhas do gramado, mas... o fato é que isso existe, e é tomado como "parte do jogo" pelos próprios atletas. Tanto é que os jogadores ofendem, são ofendidos e... normalmente não se manifestam. Quando um deles decide fazê-lo, passamos a conhecer o que acontece dentro dos gramados de forma aberta, mas velada para nós, os espectadores. 

    Acho, sim, que pode ter havido discriminação em ambos os casos, o do atleta Ramirez, ao chamar Gérson de "negro", sem acrescentar, por exemplo, "de merda", mas também o de Bruno Henrique, se chamou o atleta do Bahia de "gringo", desta vez, acrescido do "de merda". Mas, sinceramente, dentro de um campo de futebol, ainda mais pela origem usualmente humilde dos jogadores, conseguiríamos realmente falar em "racismo"?

    Essa pergunta pode parecer desconsiderar que a prática racista é abominável em qualquer espaço social. Mas não se trata disso. O que quero ponderar é que acabamos tomando por racismo -  aquele que realmente priva pessoas de direitos sociais fundamentais, inclusive, infelizmente, algumas vezes, do próprio direito à vida - uma discriminação que ocorre num espaço em que os antagonismos, inclusive com uso de violência entre os próprios "colegas" atletas, são até valorizados pelos espectadores - e "contagiam" negativamente os próprios participantes dos jogos.

    É muito bonito os jogadores entrarem em campo com faixas dizendo "Não ao racismo" ou "Vidas negras importam", mas, na primeira bola dividida, saírem de dedo em riste, no rosto do adversário-colega de profissão, emitindo um montão de impropérios, vários deles de cunho discriminatório. Portanto, parece que eles mesmos se dão essa "licença poética" de dizerem "Você é um merda!", e isso não passar de uma expressão hiperbólica de desconforto com o outro... o que vale, igualmente, para "gringo de merda", "negro", "branquelo", "paraíba" - para qualquer nordestino -, etc.

    Aliás, em relação a essa última, se formos nos ofender mais radicalmente, acho que a discriminação é maior, porque "negro" é normalmente usado para pessoas de pele negra/preta, enquanto "paraíba" é uma referência jocosa que se faz a qualquer nordestino, e não somente àquele que efetivamente nasceu na Paraíba.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

O Fluminense tem que pagar a Série B? (2)


   Continuando...
  Enquanto o Fluminense jogava a Série C, ocorria um problema, que ficou conhecido como "Caso Sandro Hiroshi", na Série A. 
  Em resumo, o jogador Sandro Hiroshi ficou com seu passe bloqueado, por decisão da CBF, em virtude de uma possível transferência sem autorização do seu clube de origem para o São Paulo (SP). Logo na terceira rodada da Série A, o Botafogo (RJ) foi goleado pelo São Paulo e alegou que o jogador Sandro Hiroshi atuou irregularmente. 
   A coisa foi ficando mais confusa quando outros times se sentiram prejudicados por perderem pontos para o São Paulo. Ao fim e ao cabo, o Gama (DF) foi empurrado para a Série B, sem ter caído caso os resultados não fossem modificados. Resolveu, então, entrar na Justiça comum contra a CBF, que ficou impedida de organizar o Campeonato Brasileiro de Futebol de 2000.
   E o que o Fluminense teve mesmo a ver com isso???? Nada, obviamente.
   Conclusão da história: para haver campeonato, ele não poderia ser organizado pela CBF. Assim foi que o Clube dos 13 tomou para si esta tarefa, tendo a complexa tarefa de agradar gregos e troianos. O que fez, então? Reuniu as Séries A, B e C num campeonato com 116 clubes. 
   Se a intenção fosse apenas beneficiar o Fluminense, seria suficiente incluir apenas as Séries A e B, visto que o tricolor alcançara o direito ao acesso para o ano de 2000.

O Fluminense tem que pagar a Série B?


   Vez por outra, algum amigo, provocativamente, alega que meu querido Fluminense, através de manobras jurídicas, deixou de jogar a Série B do Campeonato Brasileiro de Futebol, tendo passado da Série C diretamente para a Série A. 
   Eu sei que torcedores são movidos por paixões, e que a brincadeira é mais importante que os fatos. Então, nem me incomodo tanto. Mas... eis que, sábado passado, no Jornal do Brasil, o jornalista esportivo Renato Maurício Prado, escreveu algo na mesma linha. Ora, como jornalista, ele deveria ter mais cuidado em contar a história, do jeito que ela ocorreu - ainda que haja motivações ocultas para a produção de alguns eventos, que possam ser esclarecidas.
    Vamos lembrar os fatos, então.
    Em 1996, o Fluminense joga mal a Série A do campeonato e acaba por ficar entre aqueles que deveriam ser rebaixados para a Série B. Esse é um fato. Mas... antes de o Campeonato Brasileiro de 1997, foram divulgadas gravações que mostravam que a Comissão Nacional de Arbitragem de Futebol estava envolvida em caso de manipulação de resultados. Foi o chamado Caso Ivens Mendes. 
   Diante da confusão, que foi parar até na Justiça comum, cancelaram-se os rebaixamentos de Fluminense e Bragantino. A Série A do ano seguinte teria, então, estes dois clubes, mais os dois que subiram da Série B, totalizando 26 times.
     No ano seguinte, 1997, o Fluminense jogou a Série A - pessimamente -, ficando entre os quatro últimos colocados e, portanto, caiu. Desta vez, não havendo nenhuma irregularidade na disputa, o Fluminense foi rebaixado e efetivamente jogou a Série B em 1998.
         Nova campanha pífia na Série B e... queda para a Série C. Novamente, não havendo questão jurídica a resolver, o Fluminense jogou a Série C, em 1999, sagrando-se campeão. Tudo preparado, portanto, para disputar a Série B, em 2000.
     Aí... surge nova confusão...
    Assunto para o próximo post.

domingo, 6 de agosto de 2017

Fluminense fazendo história


  Sou tricolor de coração... Como tal, orgulho-me com vários fatos envolvendo o Fluminense ao longo da história do futebol brasileiro - e mesmo mundial. Decerto que nem todos, mas... isso é estória para outro post.
   Desta vez, fiquei curioso ao ler uma afirmação de Tony Platão - tricolor fanático -, sobre o Fluminense ter sido o primeiro clube fundado contendo a palavra "futebol" na sua "certidão de nascimento". Seria uma visão excessivamente valorizadora do clube de coração? Fui pesquisar. 
   A Wikipedia tem um artigo com o título "Lista dos 60 clubes de futebol mais antigos do Brasil". Pronto... Está lá:
119/07/1900Sport Club Rio GrandeRio GrandeRSMais antigo clube brasileiro ainda em atividade a ser fundado[1]
211/08/1900Associação Atlética Ponte PretaCampinasSPMais antigo clube paulista ainda em atividade a ser fundado[2]
314/07/1902Esporte Clube 14 de JulhoSantana do LivramentoRSFundado em cidade na fronteira com o Uruguai[3]
421/07/1902Fluminense Football ClubRio de JaneiroRJPrimeiro dos 12 maiores do Brasil a entrar em campo e o primeiro a ostentar a palavra futebol no nome[4]
513/09/1902*Esporte Clube VitóriaSalvadorBAFundação do clube: 13/05/1899. Primeiro clube baiano ainda em atividade a entrar em campo, em 22/05/1901, informalmente por associados. Departamento de futebol inaugurado em 1902, primeira partida do clube em 13/09/1902[5][6]
615/09/1903Grêmio Foot-Ball Porto AlegrensePorto AlegreRSPrimeiro clube de Porto Alegre ainda em atividade a ser fundado
    Confirmado. O Fluminense é o quarto clube de futebol mais antigo do Brasil, sendo o primeiro a utilizar a palavra "futebol" - na forma inglesa. Após o tricolor carioca, outro tricolor, o gaúcho, faz uso da expressão.
   Parabéns aos tricolores!

domingo, 17 de maio de 2015

Boca vs. River


   Assisti ao triste espetáculo oferecido pela torcida do Boca Juniors, no último jogo contra o River Plate, pela Copa Libertadores. Com o lançamento de um spray similar ao de pimenta sobre os jogadores do River Plate, dentro do túnel de acesso ao campo, a partida teve seu recomeço adiada por quase uma hora, até que finalmente se decidiu sobre sua paralisação definitiva.
   Depois do triste espetáculo, já no dia seguinte, fiquei pensando o quanto o aspecto afetivo da nossa relação com o futebol acaba por "barbarizar" nossa participação como torcedores. Não vamos ao estádio, ou nos postamos diante da televisão, tentando simplesmente apreciar o que se passa diante de nossos olhos. Não! Nós nos colocamos apaixonadamente nesses espaços. Mas a "paixão", aqui, nos empurra de um lado para o outro, sem que pensemos exatamente no que está acontecendo. E essa agitação  de nossa alma, dos nossos estados internos se dá, infelizmente, mais usualmente para o lado "desagradável", digamos assim.
   Vejamos o que disseram especialistas no futebol - embora eu sinceramente ache que esse caso exemplar mereça a discussão por pensadores de outras áreas.
   Renato Maurício Prado, em O Globo, do dia 17/05/15, diz: "Impressiona e desanima a capacidade que o futebol tem de aglutinar imbecis e marginais [...]. [Palavras duras, mas absolutamente verdadeiras!] O problema é que os cartolas e seus tribunais, na América do Sul (Brasil aí incluído), costumam ser tão ou mais nocivos que os 'barras bravas'. E assim, a Libertadores segue ano após ano como um competição de várzea metida a besta". [Muito feliz a expressão "competição de várzea metida a besta", visto que, naquele tipo de competição, há um "vale tudo" danado].
    Fernando Calazans, no mesmo dia e mídia, diz: "[N]ão tem o menor cabimento, num MUNDO MAIS OU MENOS CIVILIZADO, a repetição dos acontecimentos de quinta-feira [...]. Se uma partida da Libertadores não pode acabar por causa de agressões a adversários como essa, melhor acabar com a própria Libertadores" (Grifo nosso). [Não chego ao que considero um exagero, acabar com a Libertadores, mas que a repetição de violências, incluindo o que vemos quando brasileiros vão jogar em outros países daqui da América Latina, é uma tristeza sem tamanho para quem gosta de futebol, e acha o mundo "mais ou menos civilizado", isso é!]
   Dois detalhes a mais: (1) os dois times eram argentinos - ou seja, não havia rivalidades internacionais envolvidas e (2) só havia uma única torcida no estádio, a do próprio Boca, para diminuir a possibilidade de confusões - Doce ilusão!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

a falta de ética do futebol brasileiro


   Volto a insistir que os maiores responsáveis por grande parte dos problemas do futebol brasileiro são os jogadores, que são muito "pilantras".
   Os erros dos árbitros são um grande problema, mas a maioria desses enganos tem a ver com a safadeza dos nossos jogadores.
   Vejamos o que aconteceu na primeira rodada do semifinal: no jogo Botafogo vs. Fluminense, o jogador alvinegro saltou com as duas mãos para o alto e interceptou, dentro da área, um cruzamento do tricolor. Pênalti claríssimo. O juiz marcou. O que aconteceu? Um bando de jogadores do Botafogo partiu para cima do árbitro, como se ele tivesse incorrido no pior erro de toda a História do Futebol Mundial. Quase bateram no sujeito. 
    Aí, veio o Flamengo vs. Vasco. O rubro-negro Jonas dá uma pezada digna de MMA no jogador vascaíno Gilberto. Lance para expulsão direta. O que aconteceu? Um mísero cartão amarelo. Os jogadores do Vasco, obviamente, ficaram indignados. Mas vejamos o que o capitão do Fla disse ao final do jogo: "O que se fez hoje foi uma molecagem. Não estou falando que teve favorecimento, mas ele tem que ser imparcial. Falta que deu lá, ele tem que dar cá". Ou seja, depois de claramente beneficiado, o jogador Wallace acha que o juiz não foi imparcial. Eu até diria que não foi mesmo... ele foi parcial a favor do Fla. Mas certamente essa não foi a reclamação do "capita".
    Se a pilantragem entre os jogadores não acabar, como é que se pode esperar alguma solução para os erros do futebol brasileiro? Enquanto quisermos ser os "espertalhões" do mundo, continuaremos tomando de sete dos outros.
    

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Resposta ao compadre

   Compadre, o futebol tomou conta do espaço, hein!
 Bem, aproveitemos esse momento de "inautenticidade" - aos moldes heideggerianos.
   O compadre quase sempre tem razão. Mas, em relação aos últimos comentários, acho que ele está apaixonado demais por suas ponderações.
   É verdade que os números apresentados parecem corroborar a tese do compadre. Até os exercícios de "futurologia", em relação aos jogos de punição que serão recebidos por Tite e Émerson - o nosso eterno desafeto, não é?
   Eu só pergunto o seguinte: entre erros e acertos - ou só erros, se assim preferir o compadre -, o que se pretende para o Corinthians? Espera-se forçar mais um título brasileiro? Se a questão é essa, acho que eles são mais "ingênuos" que eu, até porque o próprio "Timão" já está começando a abrir mão deste Brasileirão por conta do Mundial, como já o fizera, aliás, para tentar - e conseguir - conquistar o Libertadores.

Resposta de Fernando Calazans

   No dia em que postei "A arbitragem no futebol", escrevi também para o próprio Fernando Calazans, elogiando a coluna e convidando-o para dar uma espiada no blog.
   Muito gentilmente, recebi a resposta do colunista de O Globo. Infelizmente, ele não acredita na possibilidade de adoção da minha "solução radical", sugerida no post.
   Curiosamente, ele pediu até para dar um recado para meu compadre Mundy. Lá vai, então: "Agora: explica ao seu companheiro que faz comentário, que eu tampouco estou absolvendo os juízes. Eles são fraquinhos...".

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A arbitragem no futebol

   Meu compadre diz que esse blog não é um espaço de futebol... mas acho que ele não tem razão. Afinal, a concepção inicial - e penso que continua assim - era a de que nossos amigos pudessem lançar aqui quaisquer questões que os "incomodassem". É bem verdade que o assunto "futebol" normalmente não aparecerá como um mero tratar do resultado de um jogo, mas reflexões sobre o esporte, de maneira geral, ou até de itens específicos do mesmo, não são rejeitadas, de forma alguma.
   Então, é com esse espírito que escrevo hoje: refletir sobre as arbitragens no Campeonato Brasileiro (de futebol).
   Dois são os motivos básicos dessa reflexão: (1) dois jogos a que assisti, há duas semanas - Cruzeiro vs. Fluminense e Palmeiras vs. Flamengo -, e (2) duas colunas do Fernando Calazans, em O Globo.
   Os dois jogos me chamaram atenção pela "violência" em campo. Entretanto, quando os jogadores/gladiadores pararam para dar entrevistas, antes de descer para os vestiários no intervalo, todos fizeram questão de minimizar as "pancadas", dizendo que "Eram coisas do jogo". Se para eles está tudo bem, para mim, que estou só me divertindo, bebendo minha cervejinha em casa, também. Mas, como alguém que já curte futebol há anos, que já viu muitas "feras" - não no sentido de que atacavam os outros, como hoje -, que "comiam a bola", me dá um certo desânimo ver aos jogos "pegados" - como se diz hoje em dia.
   Ah... só um lembrete: os técnicos de Cruzeiro e Palmeiras são, respectivamente, Celso Roth e Felipão. Quem é do mundo futebolístico conhece a fama deles, quanto a mandar "dar um cascudo" nos adversários.
   Continuemos com a outra motivação deste post: a coluna de jornal.
   Fernando Calazans já tinha escrito uma matéria, logo após os jogos em questão, reproduzindo minhas impressões sobre a violência nos dois jogos. Pensei: "Ufa, não sou tão analfabeto em futebol... Embora não tenha a sapiência do meu querido compadre Mundy!". Calazans, então, comentava que a violência estava atrapalhando o nosso futebol, e que isso precisava ser observado por aqueles que cuidam - ou deveriam cuidar - desse nosso esporte.
   Mas, hoje, a coluna completou a análise do nosso tão querido - mas sofrido - futebol.
   O título da matéria já é bastante interessante: "Repensar, reeducar". Acho que, em qualquer área de nossas vidas, repensar e reeducar são boas dicas. Calazans abre a matéria escrevendo: "Quem acompanha o futebol com algum senso crítico e capacidade de interpretar o que está acontecendo já sabia que, um dia, a tentativa ou a sensação de obrigação de mudar a arbitragem iria acontecer". 
   O foco da matéria, portanto, é a arbitragem. Um princípio de leitura poderia sugerir que Calazans iria "descer a borduna" nos árbitros, dizendo que eles são fracos, etc. e tal. Mas o "senso crítico e capacidade de interpretar" do jornalista estão aguçados. Segundo Fernando Calazans, fazendo eco, conforme ele mesmo reconhece, ao comentarista de arbitragem da TV Globo - e ex-árbitro - Arnaldo Cezar Coelho, o maior "problema" são os dirigentes, técnicos e jogadores, com seus comportamentos absolutamente antiéticos.
    Aqui, como os nossos amigos já podem perceber, é que entra nossa reflexão filosófica da questão. 
   O jornalista diz: "Outro dia, fiz aqui um breve desfile do que se vê dentro de campo. Jogadores que entram para dar pontapés, parar os adversários com falta o tempo todo, com o rodízio delas. Entram, enfim, não para o jogo, mas para o antijogo. Outros jogadores, ou os mesmos, que entram para fingir que sofreram faltas, para simular, para se atirar acrobaticamente no campo, simulando também dramáticas contusões. A qualquer marcação do juiz e dos bandeirinhas, certa ou errada, esses jogadores os cercam com ameaças, palavrões, dedos em riste, vociferações". 
    Calazans destacará, mais adiante em sua matéria, que os técnicos incentivam esse tipo de comportamento... o que corresponde totalmente à verdade, em diversos casos. Segundo ele, Arnaldo Cezar Coelho teria dito, em relação a isso, que "Ninguém colabora", ao que o jornalista acrescenta, com muita propriedade, "Pior até: todos dificultam". E diz mais: "O futebol brasileiro perdeu a civilidade". Eu arriscaria que o futebol sul-americano... mas fiquemos no nosso "Brasilzão", para seguir o jornalista. Também poderíamos escrever, talvez, que "O (futebol) brasileiro perdeu a civilidade". Colocaríamos, então, a opção de incluir, ou não, na frase a palavra "futebol".
   Mas sigamos.
   Logo a seguir, Calazans lança outro título "A cara do nosso futebol" - eu registraria "A cara (de pau) do nosso futebol", mas o escritor é ele. Rsss -, para citar o caso do zagueiro do Corinthians, Paulo André, que "criticou severamente Neymar, depois do jogo com o Santos, por simular faltas e se atirar no chão", e que, no jogo seguinte, foi criticado por seu próprio técnico, o Tite - salvou-se uma alma! -, por também ter simulado sofrer uma falta. A observação de Calazans é que "Paulo André não é exceção, é regra". Isso, infelizmente.
   Concordo em gênero, número e grau com Fernando Calazans, quanto à "picaretagem" que grassa em nossos gramados. A falta de ética é a rotina, e não a exceção. 
   Mas... eu gostaria de acrescentar um item ao que o jornalista disse, e, se fosse possível, que ele refletisse junto comigo: não podemos esperar que a "honestidade" das instituições dependa da dos homens que as compõem. Se é necessário que os árbitros encerrem todos os jogos antes dos noventa minutos, expulsando os brigões, os "botinudos" e os "atores", que se faça isso. Da mesma forma que, se for necessário marcar dez pênaltis em cada partida, por conta do "agarra-agarra" na área em 100% dos escanteios, que assim seja. A coisa ficará tão ridícula que repercutirá no mundo todo. E, talvez, nossos "trabalhadores dos gramados", com seus milionários salários, comecem a repensar seu comportamento em campo.