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sexta-feira, 1 de novembro de 2024

A Era da Razão

 

    A Era da Razão é o título de um livro escrito por Thomas Paine em 1776. O autor, nascido em 1737 e falecido em 1809, é contemporâneo do que se chamou de Iluminismo, Ilustração ou Esclarecimento.

    O Iluminismo foi um movimento que teve lugar especialmente no século XVIII. Em termos filosóficos, teve como grandes figuras os enciclopedistas franceses (Diderot, D'Alembert, Rousseau, Montesquieu, Voltaire); os britânicos Locke e Adam Smith; além do prussiano/alemão Kant.

    Privilegiando o uso da "razão" para construir sua visão de mundo, o Iluminismo também reconhecia como valores seus a ciência, a tolerância e o secularismo.

    Uma das pedras fundamentais da cultura europeia, a religião, tornou-se alvo do movimento iluminista, porque era considerada dogmática, e, portanto, resistente ao exame da razão. 

    Fato importante, contudo, é que os pensadores que atacavam o dogmatismo religioso tinham amadurecido, emocionalmente falando, sob a égide religiosa. Por certo, alguns mais "radicais" rejeitaram tão veementemente a religião que se tornaram ateus. Outros, porém, ficaram num meio termo, digamos assim. Uma posição intermediária bem conhecida atualmente é o agnosticismo. Em breves palavras, trata-se de um ceticismo religioso. Ou seja, ciente da impossibilidade humana de alcançar um conhecimento absoluto, o sujeito cognoscente abre mão de declarar a verdade, ou falsidade, de algum elemento transcendente no que concerne à religião. Assim é que, por exemplo, o agnóstico reconhece que não pode ter conhecimento exato sobre a natureza de Deus.

    Outra possibilidade, pouco em voga atualmente, é o "deísmo". Aqui entra o nosso amigo Thomas Paine. Ele resume assim a sua posição, que vai ao encontro do deísmo:

   - sob um ponto de vista mais metafísico: "Eu creio em um Deus único [...]; e espero pela felicidade que existe depois desta vida"; e

    - sob um ponto de vista mais pragmático/social: "Acredito na igualdade entre os homens e que os deveres religiosos consistem em fazer justiça, amar o perdão e empreender esforços para tornar mais felizes os nossos semelhantes".

    A perspectiva deísta enxerga um ser todo poderoso que cria e organiza o Universo. Como parte dessa ordem, o homem justo, que perdoa e que se preocupa com a felicidade dos outros merece, ele mesmo, ser feliz depois desta vida. Assim, há uma "alma", ou coisa que o valha, que resiste à morte e que será o sujeito que experimentará as consequências das ações do indivíduo mortal. 

    Por outro lado, nas palavras de Paine, "todas as instituições eclesiásticas - a judaica, a cristã e a turca - não passam de invenções humanas".

    Apenas comecei a ler esse livro. Depois comento o que achei.

sábado, 21 de maio de 2022

História da Liberdade Religiosa

 

    Comprei esses dias o livro História da liberdade religiosa - da Reforma ao Iluminismo, de Humberto Schubert Coelho, publicado pela Vozes Acadêmica e pelo Instituto Homero Pinto Vallada, agora em 2022.

    O livro é dividido em seis capítulos: (1) Raízes medievais e renascentistas da luta pela liberdade religiosa; (2) Nasce a Reforma; (3) O mundo moderno: religião e ciência reconfiguram sua relação; (4) Despertar espiritualista na aurora do Iluminismo; (5) A geração de Voltaire; e (6) A Era das Luzes.

    Nosso filósofo aparece no capítulo 3, no artigo de título "O papel decisivo de Espinosa no entendimento moderno da religião".

    Há uma rápida biografia, seguindo-se logo a apresentação das ideias spinozanas, ao longo dos seus diversos escritos.

    Diversas passagens são interessantes, mas eu destacaria essa, que achei, no mínimo, curiosa:

    "[...] suas [de Spinoza] ideias estão muito longe de serem fáceis, transparentes ou desambíguas, dando margem tanto para a defesa do materialismo mais radical quanto para a mística mais exaltada ao longo do século XVIII. Em ambas as vertentes, a presença de Espinosa formatou significativamente aquilo que entendemos por materialismo e mística modernos, com influência sobre autores tão discrepantes quanto os philosophes franceses e os idealistas alemães".

    Reconheço que há passagens do texto spinozano que podem sugerir certo materialismo - apesar de não concordar que ele seja um materialista -, bem como há, no mínimo, uma passagem que flerta com o misticismo - o que também não me parece ser a posição do holandês. Daí a dizer que ele "formatou significativamente aquilo que entendemos por materialismo e mística modernos", acho um pouco extremado. 

    De qualquer modo, o livro parece ter um conteúdo bem amplo, facilitando a pesquisa de vários nomes envolvidos com a liberdade religiosa ao longo da história. Acho que vale a pena adquirir.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Começando com uma fofoca...


   O livro 50 clássicos da Filosofia, de Tom Butler-Bowdon, publicado pela Benvirá, em 2019, parece bastante interessante. 
   Há comentários sobre livros e autores considerados clássicos, no sentido mais especial do termo, isto é, aqueles que colocam questões que sobrevivem ao tempo - embora este possa vir a ser curto, como é o caso de A soberania do bem, de Iris Murdoch.
   Mas vamos à fofoca.
   Junto com o comentário de cada obra clássica, aparece também uma pequena biografia sobre o autor. No caso de Aristóteles, veja o que está dito: "Casou-se com Pítia, uma de suas colegas na academia de Platão, mas teve um filho, Nicômaco, com sua amante, a escrava Herpília".
   Será que é isso mesmo? Vamos consultar a Wikipédia primeiro. Lá está dito:
While in Lesbos, Aristotle married Pythias, either Hermias's adoptive daughter or niece. She bore him a daughter, whom they also named Pythias.
   E, depois:
While in Athens, his wife Pythias died and Aristotle became involved with Herpyllis of Stagira, who bore him a son whom he named after his father, Nicomachus
   Bem... parece que essa estória de "amante" não é muito procedente... pelo menos, no que se refere a Herpília, já que:
According to the Suda, he also had an erômenos, Palaephatus of Abydus

    Diógenes Laércio, em Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, não parece dar tanta relevância às fofocas. Sobre o primeiro casamento de Aristóteles, ele explica que "Hermias se ligou a Aristóteles por laços de parentesco, dando-lhe a filha ou a neta em casamento", que seria Pítia. Contudo, Diógenes Laércio cita também uma estorinha, contada por Aristipo, segundo a qual, na verdade, Aristóteles teria se casado com uma concubina de Hermias, com a autorização deste. 
   Sobre o segundo casamento, nada se diz de modo tão explícito. Mas há a informação de que, em seu testamento, Aristóteles fala dos "ossos de Pítias" - indicando que ela já estaria morta - e dos cuidados com Herpilis e as crianças, citando logo a seguir que uma delas é uma menina, cujo nome não é referenciado, e outra é um menino, Nicômacos, segundo indica Diógenes Laércio.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A "novela" História do Brasil


   Sei que a História tem uma "dialética" própria, que supera a ação individual. Mas, é fato, que ela se materializa justamente através das ações dos indivíduos. Sempre achei, então, que valeria à pena estudar essa dinâmica processual, mas incluindo as idiossincrasias daqueles que "realizam" - ou que "se fazem realizar através da" - História. No mínimo, o enredo da "novela" de cada personagem histórico estabeleceria um link bem conveniente para entender o processo. 
   Estou dando uma lida em algumas partes do livro Se liga nessa História do Brasil, de Walter Solla e Ary Neto, publicado pela Editora Planeta do Brasil, agora em 2019. 
   Vou contar uma parte que adorei, falando da Revolução de 1930. 
   Estuda-se na escola que a Revolução de 1930 tem lugar por conta da quebra da política do Café com Leite, pelo presidente Washington Luís (representante do "Café" paulista), que, para as eleições seguintes, apoiou outro do seu "time", Júlio Prestes. Este saiu vitorioso das urnas, na eleição de março de 1930. A chapa adversária era formada pelo gaúcho Getúlio Vargas e pelo paraibano João Pessoa, fazendo pesadas críticas ao governo de Washington. Em julho de 1930, João Pessoa é morto a tiros. Os "paulistas" levam a culpa. A pressão aumenta. Em outubro, Washington Luís é preso. E em novembro de 1930, Getúlio Vargas assume a presidência.
   Tudo certinho. Mas... quem matou João Pessoa? E... por que motivo?
   Agora entra a "novela", descrita no livro que citei.
   "João Pessoa queria aumentar a fiscalização em algumas regiões da Paraíba para aumentar a arrecadação de impostos. O coronel Zé Pereira, da cidade de Princesa, não queria pagar mais imposto. João Pessoa então retrucou: 'Vai pagar [...]'. [José] Dantas [o atirador], e a turma do Zé Pereira, queriam pagar para ver. João Pessoa, furioso, contratou espiões e os colocou no encalço de Dantas. [...] E foi aí que ele teve acesso a cartas de amor eróticas que Dantas trocava com sua amante Anayde. O governador da Paraíba, num golpe baixo, publicou essas cartas num jornal. Para defender a honra de sua amada, Dantas [...] meteu tiro [em João Pessoa]". 
   Caraaaambaa... estória de folhetim... Mas a novela não acaba por aí... 
   "Algumas semanas depois, a namorada, consumida de vergonha, se matou". 
     Viiiiixiiii... novela mexicana total...
   

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Rindo com a História do Brasil


    Está sendo muito divertido ler Breve História Bem-humorada do Brasil, de Ricardo Mioto. Decerto que o fato de ser escrito por um jornalista, e não por um historiador, pode render críticas por parte de alguns. Mesmo assim, acho que vale à pena ler o livro. O estilo leve e bem-humorado aumenta o interesse pelos temas. Acho que isso é o que merece relevo. Afinal, caso se decida pesquisar mais seriamente sobre determinado assunto, pode-se recorrer a um livro mais "ortodoxo" de História do Brasil.
   No livro em questão, eu aprendi, por exemplo, que o famoso jornalista Carlos Lacerda, um dos maiores críticos do ex-presidente Getúlio Vargas - em alguma medida, responsável pelo suicídio do mesmo, em 1954 -, se chamava Carlos Frederico Werneck de Lacerda. Até aí, tudo bem. A curiosidade é que esse grande direitista, filiado à União Democrática Nacional, tinha esse nome como homenagem à dupla Karl Marx e Friedrich Engels, os maiores "esquerdistas" da História.
   Para que se perceba o teor de humor do texto, vou citar um trechinho sobre o atentado sofrido por Carlos Lacerda, na Rua Tonelero, em Copacabana.
   "Um guarda municipal que estava por ali consegue anotar a placa do veículo.
      Com a placa do seu carro aparecendo na imprensa, o taxista [...] se apresenta voluntariamente em uma delegacia. Ele diz que havia levado dois passageiros até a rua Tonelero. (Que tipo de pessoa vai tentar matar alguém e... pega um táxi?)
      [...] a polícia chega aos nomes da dupla. Um era [...] chamado Climério Euribes, mas se você se chamasse Climério Euribes também teria certa vontade de sair matando gente e se vingando do mundo, não?
       O outro era um mestre de obras que estava fazendo um frila de pistoleiro. Sabe como é, a vida na obra tava difícil, os boleto tudo para pagar. 
      Era apenas a segunda vez que o mestre de obras estava trabalhando de pistoleiro [...]. Na primeira, tinha matado o cara errado... Na segunda, [...] repetiu a proeza [...]. Só quem já contratou pistoleiro sabe a dificuldade que é achar um bom".
    Estou rindo até agora. 
    Para quem quiser comprar, a capa do livro é essa...

   

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Hegel em Marx


   Escrevi um post com o título "Assim, eu desisto...", onde citava a ideia de Lenin de que, para entender Marx, seria ter uma ótima compreensão de Hegel. Tal informação veio através da leitura do livro Arqueomarxismo - comentários sobre o pensamento socialista. 
   Pois bem... em outra leitura - agora Curso livre Marx-Engels: a criação destruidora, organizado por José Paulo Netto e publicado pela Boitempo e Carta Maior - encontrei o seguinte:
   "[...] indiretamente, Hegel marcou o início da trajetória de Marx. [...] Marx sempre foi contra Hegel e, por causa disso, está preso a todo o horizonte do velho pensador. Afinal, passar um tempo [...] falando de alguém quer dizer que esse alguém é sua referência, ainda que seja para dizer que não concorda com ele. [...] [E]sse é o jovem Marx, porque sua referência é o outro. Depois, em certo momento, ele abandona a negativa sobre o outro e passa a se concentrar em um 'sim', isto é, na afirmação de si mesmo."
   Em princípio, o trecho acima parece apontar para uma correção no pensamento de Lenin, mas... apenas no que se refere ao jovem Marx. Afinal, o texto indica que, amadurecido, há uma "afirmação de si mesmo", por parte do filósofo alemão.
   Então... continua valendo minha esperança de ainda compreender Marx.

terça-feira, 27 de março de 2018

O Capital


   Todos conhecem a extensão da opus majus de Karl Marx (1818-1883), mesmo quando se trata apenas do volume publicado durante a vida do filósofo alemão. Muitos desejam compreender melhor as ideias marxianas indo diretamente à sua obra, mas acabam por se intimidar diante do "tijolo" que é o livro. Normalmente, essa dificuldade é contornada com o uso de textos que resumem diretamente O Capital ou daqueles que explicam as teorias de Marx e, indiretamente, tratam dos seus escritos. Particularmente, acho uma boa saída. Mas... há um pequeno livro chamado Compêndio de O Capital, de Carlo Cafiero, que pode permitir esse acesso.
   Em princípio, essa poderia ser apenas mais uma sugestão de leitura, mas ela carrega um valor diferente de outros "resumos" ao Livro I de O Capital. Carlo Cafiero (1846-1892) foi um filósofo político italiano, que desenvolveu uma série de estudos sobre o anarquismo e o comunismo. Mas, especificamente no caso deste compêndio, houve certa "chancela" do próprio Marx. Vejamos esta estória.
   Cafiero enviou a Marx seu compêndio, junto com uma carta, em 23 de julho de 1879, concluída assim: "[...] recorro a vós para pedir o favor de dizer se, no meu estudo, consegui entender e comunicar a exata concepção de seu autor".
   Marx responde, dizendo que já tomara contato com tentativas de resumo de sua obra, e cita alguns defeitos destas. A aprovação da obra de Cafiero vem quando Marx escreve que as "tentativas pareceram fracassar em seu principal objetivo: despertar o interesse do público para quem os livros eram destinados. E é aí que está a enorme superioridade do vosso trabalho".
   A tradução brasileira foi publicada pela Hunter Books, em 2014
   

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Leandro Karnal


   Comprei o livro mais recente do pensador que dá título ao post. Trata-se de Diálogo de culturas, publicado pela Editora Contexto. São pequenos textos, produzidos originalmente para o jornal Estado de S. Paulo, que foram adaptados para publicação em um livro. 
   Estou lendo aos poucos - entre outras leituras -, e sem respeitar a ordem de apresentação do próprio livro. Dois artigos me chamaram muita atenção: um sobre amizade e outro sobre a velhice.
   Depois comento sobre eles... e sobre outros mais.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

"Manifesto do Partido Comunista"

   
   Obviamente, o título do post se refere ao livreto escrito por Karl Marx e Friedrich Engels.
   A versão que tenho é publicada pela Edipro, e conta com uma Apresentação, escrita por Annibal Fernandes, e um Prefácio, de autoria de Edmilson Costa - o primeiro é jornalista, advogado e cientista social, enquanto o último é economista e, também, cientista social.
   Não tenho competência específica nas áreas de Economia e Direito, como os autores dos textos que introduzem a versão que tenho. Contudo, por vezes, acho que é difícil deixar de estranhar algumas opiniões apresentadas. 
   Embora Annibal Fernandes privilegie a descrição do texto do livreto, há pelo menos um trecho em que ele se deixa levar pelo entusiasmo com o ataque ao Capitalismo, e parece exagerar na dose. Isto ocorre quando ele explica que o jornalista Carlos Chagas repercute uma notícia do New York Times, de 1996, sobre o aumento da miséria no mundo - obviamente, "empurrando a conta" para o Capitalismo. Annibal conclui que, antes de 2048, metade do gênero humano estará na indigência. Uma matéria da revista Exame, baseada em dados da ONU, indica que aproximadamente um terço da população mundial se situa na região da pobreza, ou na iminência da mesma. Isto é diferente da "indigência", que corresponde a uma "pobreza extrema". Só para que se tenha uma noção melhor, segundo a ONU, aqui na América Latina, calcula-se que, em 2014, haja 28% de pessoas vivendo na "pobreza", mas menos de 12% vive na "indigência".
   Além disso, houve, segundo determinadas estatísticas, uma redução da pobreza, durante certo período, com uma posterior estabilização. Entretanto, é verdade que os índices apontam para uma retomada do agravamento destes números. Não seriam estes os efeitos dos "ciclos" do Capitalismo, muito mais do que uma tendência de extermínio do mesmo?
    As opiniões de Edmilson Costa, penso, são mais problemáticas. Ele diz, por exemplo, que "a burguesia, apesar de rotineiramente decretar a morte do comunismo, sabe ela mesma que seu domínio histórico é transitório". Pergunto: Será que Edmilson realmente acha que os bilionários donos dos meios de produção pensam que seu domínio é transitório? E, se pensam, será por crer que o Comunismo vá substituir o Capitalismo no mundo?
   Diz também que "enquanto houver o capitalismo [...], a luta de classes permanecerá [...] e o Manifesto continuará tão atual quanto o era às vésperas da revolução de 1848 na Europa". Até aqui, nem vou implicar com nada. Mas, logo em seguida, ele registra: "Não se trata aqui de uma profissão de fé, mas, sim, de avaliar a história da humanidade", dando a entender que racionalmente se chega a essa conclusão. Contudo, se a análise da História pode mostrar o que veio antes, somente em certa medida poderá garantir o que virá depois. Este "exercício de futurologia" que Marx faz dá errado em vários momentos. Portanto, parece-me, realmente só uma profissão de fé permite aferrar-se cegamente às suas previsões. Aliás, em anexo, o exemplar traz o "Estatuto da Liga dos Comunistas", que, em seu Artigo 2º, indica "As condições para dela [da Liga] ser membro são: [...] 3º) profissão de fé comunista". Não há nada sobre "analisar criticamente o que está dado".
   Curioso é perceber que o próprio Edmilson reconhece alguns "furos" dos pensadores alemães, pais do Comunismo. Ele explica, por exemplo, que "Marx e Engels imaginavam que a revolução socialista irromperia brevemente pelo mundo"... o que não aconteceu. E também diz: "Outro enunciado que também não se verificou foi o desaparecimento das camadas médias". 
   De um modo geral, penso que os "marxistas" são muito crentes na futurologia de Marx, e que se recusam a reconhecer que os "pequenos enganos" do filósofo prejudicam, e muito, a sua visão sistêmica.
   Continuarei falando deste pequeno texto depois.

terça-feira, 21 de julho de 2015

"Por que virei à direita"


   O título do post é o mesmo de um livro a respeito do qual eu já falei aqui no blog. Os autores são João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield - havendo um Prefácio de Marcelo Consentino.
   O subtítulo do livro, que não registrei no do post, é "Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo". E essa última palavra parece criar uma confusão na cabeça de um leitor menos preparado. Isto porque a posição de "direita" poderia ser mais bem aproximada, num primeiro momento, apenas ao "liberalismo" - ou, talvez pior, ao "neoliberalismo" -, e não simplesmente ao "conservadorismo". 
   Para iniciar um comentário a esse respeito, talvez valesse à pena ler a abertura do Prefácio.
   "É fácil tipificar o homem de direita como o moralista hipócrita e pedante, ou então como o burguês satisfeito de si e indiferente a todo o resto, e opô-lo à sua contraparte esquerdista, o poeta militante que avança entre barricadas urbanas combatendo todas as forças de opressão[...]. [Mas] Seria igualmente fácil inverter os sinais e seguir os passos deste último [...] até o alto de um palanque jacobino, de onde comanda o despencar das guilhotinas para o espetáculo da plebe, ou até o interior de um gabinete bolchevique, de onde planeja usinas, gulags e o destino de multidões em uma planilha, e contrapô-lo ao homem de mentalidade conservadora, forjado pelo ideal da honra e do dever, temperado numa vida de renúncias, ora dando as costas a sonhos utópicos na rotina anônima e maçante da administração dos bens públicos e privados, ora usando mão forte em defesa da sociedade civil contra o banho de sangue em que guerrilhas e rebeliões armadas ameaçam mergulhá-la sempre que esses mesmos sonhos se pervertem em alucinações maníacas".
   Obviamente, cada uma das oposições mostradas acima atende a um viés ideológico distinto. E, em certa medida, correspondem à verdade - mas também à inverdade. 
   Segue o Prefácio.
   "Imagens como essas, no entanto, mais movem e comovem do que esclarecem [...] [A] condição primeira de toda boa crítica [é] discernir o princípio essencial de tal ou qual fenômeno intelectual ou social e, se possível, por seu lado bom". 
   Talvez esse "por seu lado bom" já seja um excesso. Em tese, pelo menos, deveria ser buscada a neutralidade. Desta forma, bastaria tentar "discernir o princípio essencial" do objeto de estudo, a fim de efetivamente poder confrontá-lo com suas posições pretensamente antagônicas.
   Um conservador prefere o que já está posto do que aquilo que é modificação. Contudo, não é um cego que prefere o pior, porque já está aí, ao melhor, que ainda não está. Por exemplo, não imagino que alguém com um mínimo de bom senso seja contra uma distribuição mais justa de bens e direitos em nossa sociedade. Portanto, que seja contra uma modificação do status quo que implique aumento da justiça. E, em sendo contra, que se negue a dar apoio a tal alteração na sociedade. Isso, por puro "conservadorismo". Contudo, imagino que o mesmo cidadão de bom senso não se empolgue muito com aventuras "utópicas" que preguem alterações práticas baseadas em um ponto de vista teórico que não pareça se coadunar com a natureza humana, sob a justificativa simples de tal modificação representa uma "inovação" e um "progresso" para a sociedade.
   Lembrando ainda que ser conservador não é ser reacionário!!!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"Marx estava certo"


   Em alguma ocasião, neste blog, eu já citei o título deste livro - o que dá nome ao post. Na ocasião, acho que fiz o comentário de que a edição brasileira do livro de Terry Eagleton é prefaciada por Luiz Felipe Pondé - que sabemos não ter nenhuma ligação de simpatia com o marxismo -, e que este filósofo brasileiro comenta a importância da obra, "que serve tanto a marxistas quanto a não marxistas. [...] [sendo] um texto formador, servido aos homens de boa vontade". Segundo Pondé, "se você quiser aprofundar de modo atento e claro o pensamento do grande crítico do capitalismo Karl Marx, leia Eagleton". Mas adverte: "A pergunta que fica é: a desconstrução da caricatura de Marx não serviria como antídoto, não apenas para não marxistas, mas também para os próprios marxistas mais devotos?".
    Concluí a leitura do texto hoje. Achei o trabalho de defesa do pensamento de Marx, por parte de Eagleton, bastante interessante. Mas, sinceramente, pareceu-me menos eficiente do que se propunha. A forma, em si, é bastante interessante: cada capítulo contém uma crítica comum feita ao marxismo, e Eagleton refuta a tal oposição ao pensamento marxiano, em algo em torno de vinte páginas, na média. 
   Há alguns problemas, contudo. O principal é que, em alguns dos questionamentos, Eagleton acaba por apresentar textos de Marx que dão pleno apoio ao ataque que lhe é lançado. Cabe, então, ao seu defensor apenas apresentar outros textos em que o filósofo alemão se "desdiz", ou melhor, que apresenta visões distintas daquelas do outro texto.
    Um dos aspectos mais interessantes do livro, penso, é que saímos daquela mesmice de "Em O Capital, Marx disse...", sendo apresentadas reflexões de Marx contidas em vários textos seus. 
   Acho que o livro merece uma análise mais cuidadosa, o que pretendo fazer em outros posts. Por ora, gostaria de registrar apenas duas curiosidades terminológicas.
   A primeira é sobre o termo "proletariado". Em seu sentido primeiro, ele vem da palavra latina "prole", significando aqueles que eram tão despossuídos que não podiam oferecer ao Estado nada mais do que seus corpos para a produção de filhos, ou seja, de dar sua prole à sociedade como mão-de-obra. Desta forma, o "proletariado" era formado apenas por mulheres que cediam seu útero para o Estado.
   A segunda diz respeito à expressão "ditadura do proletariado" - etapa intermediária do socialismo, necessária, antes da conclusão do processo com o comunismo -, que, apesar de tão ligada a Marx, foi cunhada, na verdade, por Auguste Blanqui, parceiro de luta política de Marx, que rotulava um governo em nome de gente comum.
    Depois, escrevo mais sobre o livro.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Philosophy: key themes


   Há alguns posts atrás, tratei do autor Julian Baggini. Elogiei-o, e indiquei que faria outras leituras de textos seus. Acabei comprando Philosophy: key themes - que é escrito em parceria com Gareth Southwell. O livro é introdutório, mas apresenta muito bem a própria Filosofia e áreas da mesma, como Epistemologia, Ética, Filosofia da Mente, Filosofia da Religião, Filosofia Política e Estética.
   Como meu foco, agora - mesmo durante esse período sabático. Rsss - tem sido a Filosofia Política, foi sobre tal parte do livro que me detive. 
   Há uma primeira apresentação da própria ideia de Filosofia Política, para depois se tratar de conceitos como Liberalismo, Socialismo... e os demais "ismos". Nesta parte, os autores não só apresentam as linhas mestras dessas doutrinas, mas também fazem um pequeno apanhado dos argumentos contra elas. Bastante interessante. Há uma parte que trata mais essencialmente dos fundamentos da Filosofia Política, como, por exemplo, da justificação do Estado e de sua autoridade sobre os cidadãos. Contudo, a parte que mais gostei foi aquela que trabalha os conceitos de Liberdade, de Justiça, de Direitos e de Tolerância.
   Vale à pena a leitura!
   Num próximo post, tratarei de algumas questões do livro.

   

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Ethics - The basics, de John Mizzoni


   O título do post é o mesmo do livro que estou lendo... ou relendo. Não, não... já que não li nenhuma vez por inteiro, é lendo, mesmo. Rsss.
   Explico. Utilizei - e, por isso, li - algumas partes do livro na minha dissertação. Mas, agora, estou lendo o texto pela primeira vez em sequência. E ele é muito bom.
   Os capítulos são: "Relative Ethics or Universal Ethics?", "Virtue Ethics", "Natural Law Ethics", "Social Contract Ethics", "Utilitarian Ethics", "Deontological Ethics", "Care Ethics" e "Conclusion: Using the Tools of Ethics".
   Não se trata apenas de uma apresentação das diversas teorias éticas, mas de uma discussão elaborada sobre a Ética e suas diversas abordagens. Além disso, entre os apêndices, há um sobre Metaética.
   O livro mereceria vários posts... e, talvez, venha a ter. Mas, por enquanto, só vou colocar uma ideia que achei bem interessante, que é de uma frase atribuída a São Francisco de Assis: "Preach the gospel at all times, and sometimes use words".
   A "pregação" envolve o exemplo, e não simplesmente a repetição de palavras, que só devem ser usadas de vez em quando. O que mais vemos é o contrário, muito blá-blá-blá e pouco bom exemplo.

Reforma política


   Penso que todos que acompanham a Política brasileira diagnosticam a necessidade de uma reforma nesta área. O assunto, além de urgente, não é tão simples. São muitas as modificações a serem realizadas e, por sua complexidade, grande quantidade de debates também deve ser empreendida.
   Para auxiliar nosso pensamento, encontrei um livro relativamente leve que trata do assunto. Trata-se de Reforma Política - O debate inadiável, de Murillo Aragão, publicado pela Civilização Brasileira, agora em 2014. 
   O autor é advogado, cientista político e possui doutorado em Sociologia.
   O livro, que tem pouco menos de duzentas páginas, conta com uma apresentação do jornalista William Waack, e tem capítulos como "O que é Reforma Política", "Necessidade da Reforma Política", "Democracia: crise e seus caminhos alternativos", entre outros.
   Sinceramente, só passei os olhos pela obra, mas parece boa para aumentar nossa ilustração sobre o tema.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

"Spinoza's Moral Philosophy"


   O título do post é o mesmo de um famosíssimo artigo de Edwin M. Curley.
   Valho-me do artigo para tirar uma breve citação e apresentar um livro brasileiro.
   A citação é a seguinte:
   "It is a rare book on ethics which does not have at least a passing reference to Spinoza. But it is an even rarer book which has more than a passing reference".
   A bem da verdade, livros introdutórios brasileiros de Ética são muitos os que não fazem nem uma "referência passageira" à ética spinozana. Portanto, se a primeira parte da asserção de Curley já se torna complicada, aqui no Brasil, mais raros ainda seriam os livros que correspondem à segunda parte.
   Mas... eis que nos meus passeios por livrarias, encontrei um pequeno livro chamado A Ética como fundamento dos projetos humanos, organizado por Maria Lourdes da Cunha e Lene Revoredo Gouveia, publicado pela Saraiva, em 2012, que tem um capítulo chamado "A ética de Spinoza: da imanência metafísica aos princípios morais", de autoria do prof. Dr. Carlos Frederico Gurgel Calvet da Silveira.
   São menos de quinze páginas sobre o assunto - extensão que não fica muito aquém dos diversos outros capítulos, passando mesmo alguns -, num tom introdutório, mas que tem a relevância de colocar nosso querido filósofo num livro acessível e de grande apelo de divulgação. O artigo cita interpretadores como Matheron e Yovel, o que é uma garantia de abordagem séria. 
   Em que pese o fato de o autor ser especialista em Tomás de Aquino, e não em Spinoza, vale a pena ler o artigo.
   

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Hannah Arendt e Martin Heidegger

   Durante algum tempo, procurei incansavelmente o livro  que trazia a correspondência entre Arendt e Heidegger, publicado, no Brasil, pela Editora Relume Dumará, em 2001. Não obtive êxito.
   O livro permaneceu esgotado durante muito tempo e, sinceramente, acabei ficando com os dois amantes afastados de minha cabeça. Na Arendt, nos últimos tempos, ainda tenho pensado mais do que em Heidegger - se é que alguém considera possível ficar muito tempo sem pensar no filósofo da Floresta Negra.
   Eis que hoje, num dos meus passeios "biblioinvestigativos", deparei-me com "os dois", a minha espera, num sebo - ou "alfarrabista", como dizem meus lusoamigos. Sem pestanejar, adquiri o exemplar. 
   Uma velha amiga, há muito sem contato comigo, certa vez comentou que eu adoraria "bisbilhotar" a vida dos dois pensadores. Aliás, parênteses aqui: é muito melhor esse tipo de "fofoca" do que a das novelas e BBBs. Fechados os parênteses, só posso dizer que ela acertou... ou, pelo menos, lidas míseras três páginas, que acertará. Rsss.
   Só para adoçar a boca dos amigos do blog, percebam como o "Lobo Mau" Martin se dirige à "Chapeuzinho Vermelho" Hannah:
   "Preciso encontrar-me ainda hoje com a senhorita, para falar ao seu coração [...] Nunca terei o direito de possuí-la, mas a senhorita pertencerá de agora em diante à minha vida e ela deve crescer junto à senhorita [...] Jamais estamos em condições de saber como nossa existência pode vir a atuar sobre os outros. No entanto, uma reflexão atenta é certamente capaz de evidenciar em que medida ela pode produzir um efeito destrutivo e tornar-se um óbice [...] estamos dispostos a guardar como um presente no ponto mais profundo de nossa intimidade o direito de nos encontrarmos e não desejamos desfigurá-lo em sua vitalidade pura através de nenhuma auto-ilusão. Não queremos nos deixar levar pela tola fantasia de uma amizade entre nossas almas - uma amizade que nunca tem lugar entre seres humanos [...] Seu M. H."
   Se o alemão não consegue me convencer completamente com sua Metafísica disfarçada de não-Metafísica, nos galanteios, ele recebe meu reconhecimento pleno.