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sexta-feira, 22 de julho de 2022

Psicologia existencial e... Spinoza

 

    Estava lendo apenas a introdução do livro Psicologia Existencial, organizado por Rollo May, com textos de Abraham Maslow e Carl Rogers, entre outros, e me deparo com a seguinte afirmação, logo no primeiro parágrafo:

    "Pensadores cujas formulações se tornaram importantes para o seu século e para os subsequentes são os que obtiveram êxito, penetrando e articulando o significado e a direção dominante do desenvolvimento do seu contexto cultural..."

    E segue uma lista brevíssima destes "pensadores". Lá vai:

    "Espinosa, no século XVII; Kierkegaard, no século XIX; Freud, no século XX"

    Depois dessa lista, dá para desconsiderar nosso grande Spinoza? Pensemos rapidamente... Kierkegaard é o Pai do Existencialismo e Freud é o Pai da Psicanálise. Ambos, portanto, têm tudo a ver com a ideia de uma "Psicologia Existencial". Spinoza só pode ter entrado na lista por conta de ter "penetrado e articulado o significado no seu contexto cultural". Aliás, eu diria que não apenas do seu "contexto cultural", mas num âmbito bem mais amplo, conseguindo captar, com rara felicidade, o que é o ser humano.

    Outras duas curiosidades...

    A primeira, o que considero certa injustiça da lista, é não haver nenhum pensador indicado como tendo conseguido penetrar no contexto cultural do século XVIII. Afinal, a lista pula de Spinoza, no século XVII, para Kierkegaard, no século XIX.

    A segunda é que a lista continua, dizendo "intercalados por nomes não menos ilustres...". Apesar de "não menos ilustres", eles só são citados depois. Mas, vamos lá:

    ".... desde os Filósofos Renascentistas, os Reformadores da Idade Média, até mais recentes celebridades como Giordano Bruno [...], Jacob Boheme, Paracelso, Descartes, Locke, Galileu, Newton e outros".

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Dois livros interessantes

 

   Concluí a leitura de dois livros interessantes, embora pequenos e leves.
   O primeiro é do polêmico Luiz Felipe Pondé, chamado (In)Felicidade para corajosos, publicado pela Editora Planeta, em 2021.
   O segundo é História da Psicologia sem as partes chatas, de Joel Levy, publicado pela Editora Cultrix, em 2016
   Tanto o de Pondé quanto o que tem a Psicologia como tema parecem fazer parte de uma série. Assim é que Pondé tem o Filosofia para corajosos, o Espiritualidade para corajosos, o Amor para corajosos... e talvez alguns outros "para corajosos".
   Já o outro é acompanhado por Filosofia sem as partes chatas, História do mundo sem as partes chatas e até História do sexo sem as partes chatas - e sexo lá tem partes chatas? Rsss.
   Gostei de ambos. 
   Pondé, no seus estilo provocativo, trata da felicidade, mas principalmente da ditadura da felicidade dos tempos atuais. No seu estilo ácido, logo no início do livro diz:
   "A obsessão pela felicidade sempre me pareceu entediante. Coisa de gentinha. Brega. O mercado da autoajuda prova isso: quem escreve e quem consome mente um para o outro. Quem escreve é um picareta, quem lê é um retardado. Mas há algo verdadeiro, apesar de não honesto nesse nicho de mercado. A infelicidade é a senhora da vida, por isso tal demanda desesperada impera".
   Como se vê, nada de linguagem politicamente correta. Mas... é o estilo dele. Tirando os "excessos", há coisa interessante no livro. Depois conto mais...
   Sobre o segundo, embora o título indique ser uma "História da Psicologia", o texto não vai simplesmente alinhando várias teorias, descobertas e propostas aparecidas ao longo dos anos... pelo menos de forma tão direta. Há trechos da historiografia da ciência em questão, mas também são tratados temas específicos, que fazem surgir pesquisas de determinadas áreas, como Psicologia Social, Psicologia Evolutiva, etc.; ou mesmo curiosidades mais gerais, que tem um tratamento, por vezes, mesmo filosófico, por exemplo, em "De onde vem a linguagem?", "Por que as pessoas são racistas?", "A tristeza é uma doença mental?" ou "O que é normal?". 
   Em "É melhor sentir um pouco menos?", por exemplo, o tema do livro de Pondé parece aparecer, quando Levy diz:
   "A maior novidade em saúde mental desde a década de 1970 foi o crescimento explosivo da terapia com medicamentos. [...] existem objeções mais profundas, filosóficas, ao uso de medicamentos para tratar de problemas como tristeza, melancolia, ansiedade, mania e hiperatividade. Esses problemas podem ser vistos como aspectos extremos, mas naturais da condição humana, levantando questões sobre se é certo medicá-los. [...] Os medicamentos aliviam sintomas ou suprimem sentimentos? Devíamos, de fato, tentar reprimir sentimentos, mesmo os angustiantes?".
   O texto vai além da citação, servindo, no mínimo, para fazer pensar sobre casos que estão mais longe dos extremos, ou seja, aqueles que circulam usualmente pelo nosso quotidiano como um certo "mal estar" em lidar com a vida "como ela é".
   Depois, comento mais sobre esse também. 
   
 
   

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Fernando Savater


   O espanhol Fernando Savater é um grande divulgador da Filosofia. São dele, livros como Ética para meu filho, Política para meu filho, Os sete pecados capitais, Os Dez Mandamentos para o século XXI e mais alguns. Já li alguns desses. Agora, leio um que não conhecia, A importância da escolha. O original é de 2003, mas a tradução foi publicada no Brasil em 2004. Eu o descobri em uma feira de livros usados.
   Savater começa o livro dizendo que o tema do livro, pode ser colocado "ingenuamente" através da seguinte pergunta: "Em que consiste a liberdade?"... na linha investigativa básica da Filosofia: "O que é X?". Logo em seguida, explica que "logo que formulada, ela se mistura com outras - como acontece sempre com as verdadeiras questões filosóficas - que dificultam e retardam uma resposta direta: a liberdade existe realmente? [...] Sou capaz de liberdade ou sou liberdade, e por isso sou capaz de ser humano? E tantas, tantas outras: perguntas em demasia".
    O livro é bem interessante... até por conta da linguagem que Savater usa. Depois valerá uma exploração maior do seu conteúdo. Por enquanto, contudo, só quero registrar uma passagem. Lia eu:
   "[...] é preciso compreender que os dois extremos da balança axiológica, o Bem e o Mal, de nada servem à razão ou ao coração se os utilizamos em termos absolutos: só têm sentido a utilidade conceitual quando funcionam em relação a algo [...]"
   No que li isso, marquei logo a passagem como a posição de Spinoza. Eis que... logo depois, Savater escreve:
   "Isso significa que, no lugar de Bem e Mal, preferiremos dizer 'bom para...' e 'mau para...', como nos ensinou nosso pai Spinoza."
    Nem preciso dizer da minha felicidade... falar em "nosso pai Spinoza" reforça o peso do nosso querido holandês.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Spinoza, segundo Robert C. Solomon


  Adoro o livro A passion for wisdom - a very brief History of Philosophy, de Robert C. Solomon e Kathleen M. Higgins. Meu exemplar é todo rabiscado. Mas voltei a ele para dar uma refrescada em alguns personagens da História da Filosofia, aproveitando o modo agradável com que Solomon e Higgins os apresentam.
   Obviamente, vou citar o registro de Solomon a respeito de... Spinoza. Rsss. Achei bem interessante uma determinada observação dele sobre o filósofo holandês:
   "Spinoza's claims about substance, however, have far more important implications that cannot be understood in terms of metaphysical technicalities alone.
     In Spinoza's vision, there is no ultimate distinction between different individuals. [...] This means that our sense of isolation from and opposition to one another is illusion, and it also means that our sense of distance from God is mistaken. [...] Furthermore, since the One Substance has always existed and will always exist,  our own immortality is assured".
    Aliás, como sabemos, a Ética é toda construída em favor da felicidade, enquanto aumento da nossa potência de existir e agir.
   Como dizem Solomon e Higgins:
   "The book [Ética] is, in keeping with its title, a heartfelt proposal for a better way to live"... a despeito de toda sua poderosa construção metafísica.
   
 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Assim, eu desisto...


   Marx é incontornável para qualquer um que queira tratar de Sociologia e Política... aliás, de Ciências Humanas em geral. Então, temos sempre que voltar às suas ideias - ou àquelas que foram atribuídas a ele. Dito isto... estava eu a ler Arqueomarxismo - comentários sobre o pensamento socialista, de Alvaro Bianchi, publicado pela Alameda Casa Editorial - mais especificamente o artigo "Lenin como filósofo" -, quando me deparei com a seguinte nota: 
   "Vale lembrar o famoso aforismo formulado por Lenin no Conspecto do Livro de Hegel Ciência da Lógica: 'Não é possível compreender plenamente o Capital de Marx e particularmente o seu capítulo I sem ter estudado A FUNDO e sem ter compreendido TODA a Lógica de Hegel. Por conseguinte, meio século depois nenhum marxista compreendeu Marx!!'" (Grifo nosso)

   Assim, desisto de compreender Marx... afinal, estudar Hegel a fundo e compreender toda a sua lógica está além da minha capacidade intelectual. Lembrando que A Fenomenologia do Espírito diminuiu meu CR (coeficiente de rendimento) na graduação de Filosofia. Rssss.
   É brincadeira. Continuarei tentando. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Os Econômicos, de Aristóteles


   Estudar traz cada novidade...
   Ainda em Perfil de Aristóteles, Berti louva o Estagirita, dizendo que "Aristóteles pode ser considerado o fundador do conceito da filosofia prática entendida como ciência diferente das teoréticas, porém munida de racionalidade própria". Até aqui, tudo bem.
   Berti continua: "As obras nas quais ele expõe essa filosofia prática são as três Éticas, isto é, a Ética a Nicômaco, a Ética a Eudemo e a assim chamada Grande Ética, e a seguir a Política". Até aqui, tudo bem também.
   Agora vem a novidade, para mim: "O tratado intitulado Econômica [ou Os econômicos], transmitido como parte do corpus aristotelicum e que trata de temas igualmente pertencentes à filosofia prática, é concordemente considerado como não sendo obra de Aristóteles". É mesmo?!?! Dessa, eu não sabia!!!

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Ainda Bobbio...


   No livro Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política, Norberto Bobbio indica sua motivação - bem nobre, aliás - para se envolver com a Política.
   Diz ele: "A razão fundamental pela qual em algumas épocas da minha vida tive algum interesse pela política [...] sempre foi o desconforto diante do espetáculo das enormes desigualdades, tão desproporcionais quanto injustificadas, entre ricos e pobres, entre quem está em cima e quem está embaixo na escala social, entre quem tem poder [...] e quem não tem".

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Mais um fã?!?!


   Há bastante tempo tenho o livro A companhia dos filósofos, do filósofo Roger-Pol Droit. Contudo, só por estes dias, fazendo uma arrumação nas estantes é que resolvi dar uma folheada mais séria no livro.
   Começando pela "orelha". Lá está: "Você já encontrou algum filósofo? [...] Constatou que os filósofos não são tristes? [...] Você constatará [através do livro] que esses fabricantes de ideias, que costumam ser tidos por uns chatos consumados, são aventureiros de uma espécie curiosa, experimentadores de existência. [...] Eles lhe mostram que pensar, viver e rir são atividades semelhantes. De Sócrates e Platão a Foucault e Deleuze, você vai ver que o exercício da filosofia luta apenas contra dois inimigos: a tolice e a tristeza".
   Prognóstico positivo de uma boa leitura. Fui direto para onde? Capítulo VI - Razão Clássica - Descartes e Spinoza. E... acho que descobri alguém mais entusiasmado com Spinoza do que eu. Vejamos o que Roger-Pol Droit fala da Ética, do Spinoza:
   "Livro-universo
    A Ética pertence ao pequeno número dos livros-universos. Muitos filósofos sonharam encerrar o mundo numa só análise, como explicar até mesmo suas zonas de sombra. Poucas obras dão a sensação de perfeição definitiva que emana dessa obra. Nenhuma, sem dúvida, conserva tão fortemente uma força de agir sobre nossas vidas. De fato, sua finalidade não é saber por saber. Graças ao conhecimento, trata-se de limpar o humano, em espírito e em corpo, das suas angústias insensatas, das suas cegueiras fanáticas, de todos os males gerados pelas ilusões ligadas à sua ignorância. A chave do mundo também é a chave da felicidade. A razão tem por missão governar a vida, cotidianamente. O saber pode levar à salvação. Desvendar os verdadeiros princípios, tirar retamente deles as justas consequências não é, aqui, uma contribuição limitada a um trabalho científico sem fim. É a via de acesso à beatitude infinita da sabedoria".
   Isso já disse muito. Mas Droit vai mais longe:
   "[...] convém ler e reler a Ética [...] tratado matemático que tem nossos sentimentos por objeto e que transforma em libertação o mais total determinismo".
   Em mais uma bela passagem, Droit explica:
   "[...]ao preconceito corrente segundo o qual cremos desejar o que é belo e bom, Spinoza opõe a ideia de que julgamos belo e bom aquilo para o que nosso desejo nos inclina. [...] somente o desejo julga e comanda. Positivo, construtor e motor, o desejo já não é uma parte maldita a ser refreada sob a autoridade da razão. A vida do sábio não é ascética. Ela é automodificação do desejo que sabe preferir, graças à compreensão racional, o que é mais proveitoso à sua expansão real".
   E, por fim:
   "A sabedoria de Spinoza é sem transcendência e sem mortificação. Essa alegria [...] é inimiga de toda e qualquer forma de tristeza, de diminuição ou de dilaceramento de si. Não se escapa do mundo pela salvação. Ao contrário, o ser humano se torna tão plenamente vivo que já não resta nenhum lugar para a ilusão dos transmundos".
   Eu queria ter escrito isso... Inveja branca... Rsss

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Filosofia e cerveja


   Eu sempre achei que Filosofia e cerveja combinam muito bem. Parece que o professor de Filosofia do Long Beach City College pensa o mesmo. Tanto é que escreveu o livro Filosofia de botequim, publicado pela Editora Alaúde, aqui no Brasil.

   O livro começa apresentando 48 cervejas que serão "harmonizadas" com questões filosóficas. Há cervejas e questões para todos os gostos - artesanais e comerciais; claras e escuras (as cervejas) e metafísica, moral, epistemologia... (as questões).
   O final do prefácio é assim:
   "Com a cerveja e o livro em mãos, você está pronto para começar. Mas lembre-se: Beba com moderação. Pense em excesso". Boa!!!! Rsss.
   Depois, conto mais...

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O grande debate


   Eu já falei aqui no blog, há algum tempo, do livro Esquerda e direita - guia histórico para o século XXI, de autoria de Rui Tavares. Aliás, livro muito interessante, que acho que voltarei a mencionar aqui.
   Na época em que li este livro, havia a menção a uma forma alternativa de entender a famosa distinção entre esquerda e direita. 
  Como sabemos, a forma mais tradicional de tratar do início histórico desta distinção é aquela que remete à Revolução Francesa. Em 28 de agosto de 1789, estava em discussão se as deliberações aprovadas pela Assembleia Constituinte poderiam ser vetadas pelo rei. Os deputados contrários ao direito de veto real entraram e tomaram assento à esquerda do presidente da sessão, enquanto os favoráveis àquele direito se sentaram à direita. Esta organização espacial foi mantida quando houve a segunda discussão sobre o mesmo tema, em 11 de setembro de 1789.
   O livro diz, sobre isso: 
   "A oposição que se firmou em torno do direito de veto do rei [...] transcendi uma mera diferença de opiniões sobre um ponto específico, e via-se bem que se estendia a uma visão de múltiplas coisas: do próprio poder ao sentido da história, daquilo que constitui uma nação àquilo que constitui uma noção de direitos". 
  Mas... o livro informava também que:
  "Um autor norte-americano [...] chamado Yuval Levin, conta uma história diferente para o nascimento da esquerda e da direita, que situa entre a Revolução Americana e a Revolução Francesa [...]. Para isso vai buscar dois autores, Edmund Burke e Thomas Paine, como precursores da esquerda e da direita".
  Aí entra a novidade do post. 
  Agora, em 2017, foi lançado no Brasil o livro Grande debate - Edmund Burke, Thomas Paine e o nascimento da esquerda e da direita, de Yuval Levin, pela Editora Record. Este é justamente o livro a que se referia Rui Tavares em seu texto. Já comprei o meu, mas ainda não li.

domingo, 6 de agosto de 2017

Tese bem diferente


   Notícia bem interessante a de que um aluno se doutorou com uma tese escrita no formato de quadrinhos.
   Trata-se de Nick Sousanis, aluno do curso de Educação da Universidade Columbia. A tese, apresentada em 2014, acabou sendo publicada como livro, e agora chega ao Brasil sob o título Desaplanar. Na obra, que chegou a ser premiada, o autor analisa o processo de aprendizagem, questionando a primazia da palavra escrita na linguagem e defendendo uma simbiose das palavras com as imagens.
   Ele declarou, sobre seu projeto:
  
 "Comecei a pensar na forma como a página estática e plana ['flat', em inglês] de um quadrinho poderia conter mais informações do que parecia possível – a meu ver, mais do que um texto conseguiria [...]. De alguma forma, a página estava 'desaplanando' ['unflattening', em inglês] para mim. O termo ficou na minha cabeça."
   
   Bem interessante este caso, mostrando que há espaço para uma flexibilização no mundo acadêmico... pelo menos no exterior.
   

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

"Mentiram (e muito) para mim"


   Comecei a ler o livro que tem o mesmo título do post com uma expectativa enorme. O autor é Flavio Quintela, um jovem engenheiro que, atualmente, conforme nos informa a "orelha" do livro, se dedica à literatura, além de ser autor de um blog sobre Política e também colunista de um portal de notícias.
   O livro foi publicado em 2014, pela Vide Editorial.
  Disse "expectativa enorme", porque o Prefácio promete algo relativamente grandioso. Nele, Paulo Eduardo Martins, diz que "Flavio golpeia e desmonta as principais falácias estabelecidas [pela esquerda brasileira] com tamanha precisão e impiedade [...]" e que "Mentiram (e muito) para mim é daquelas obras que estabelecem um marco; um antes e depois na vida [...]".
   A expectativa aumenta quando sabemos que Flavio Quintela bebe das águas de Olavo de Carvalho, a quem, também o Prefácio informa, se atribui a formação de uma "nova intelectualidade que começa a surgir no país" cuja argumentação atordoa os opositores. 
   Como eu conheço a argumentação do Olavo de Carvalho, fiquei esperando um poderoso "quebra-cuca" para os "idiotas e cretinos" que formam a oposição indicada pelo prefaciador.
   O problema, parece-me, é o autor avançar com muita "volúpia" sobre determinadas ideias do adversário. Esse excesso de "pegada", por vezes, parece privá-lo do que pode ter de melhor, seu raciocínio, tornando-o, como o adversário, um tanto "ideológico" demais.
   Vejamos alguns exemplos simples.
   Ao atacar o conceito de mais-valia de Marx, Flavio primeiro diz que o "conceito-base da mais valia" indica "que a riqueza apenas sai de uns para outros, e nunca é criada". A ideia não é bem essa. E o próprio autor coloca as coisas de um modo mais preciso um pouco adiante. Ainda assim, indica que é "um raciocínio tosco, ridículo [...] e que se mostra ainda mais sem sentido na era da economia digital, onde se constrói uma empresa milionária em uma garagem, usando apenas inteligência e criatividade".
   Ora, Marx está tratando de um capitalismo industrial, e não de um capitalismo financeiro, e muito menos se refere a um tipo de produção que depende em grande parte de recursos que estão, por assim dizer, ao alcance das mãos do self made man. Portanto, se já não acho a crítica de ser um raciocínio "tosco" e "ridículo" válida, menos pertinente ainda penso ser criticar o conceito diante de uma perspectiva na qual ele não foi imaginado.
   Quando ataca o "relativismo", o autor também parte com muita avidez sobre o tema, que considera um ponto central de apoio às ideias esquerdistas. A questão é que a preconizada certeza sobre a "verdade", defendida por Flavio Quintela, é bastante atacada por toda a Filosofia a partir de Nietzsche... pelo menos. Esse ataque, embora possa até ser questionado, marca um novo modo de pensar a realidade a partir de então... e tem que ser levado em consideração, sim.
   Um engano que se segue é o de afirmar "se não existem verdades, então não existem códigos mútuos pelos quais possamos apreender a realidade". O fato é que esses "códigos mútuos" podem ser pactuados, e, neste caso, não dependem de corresponder a "verdades" no seu sentido "absoluto", digamos assim.
   Mas, neste mesmo capítulo do livro, há algo ainda pior: uma defesa exagerada da "herança judaico-cristã". Digo "exagerada", porque Quintela parece perder aquela "frieza" necessária ao bom raciocínio e à boa argumentação. 
   Primeiro, ele diz que "é impossível imaginar que uma civilização que partisse de valores absolutamente distintos como os do marxismo, ou mesmo os do islamismo, chegasse a conceber coisas como liberdade de expressão, direito à vida e igualdade racial, entre outros". Para, logo em seguida, dizer: "Basta olhar para os países comunistas e para as nações islâmicas, e nada se achará de conquistas. Pelo contrário, é lá que não há liberdade de expressão, que a vida vale menos que uma opinião, e que homossexuais são assassinados pelo simples fato de assim serem". O fato é que essa "herança judaico-cristã" teve que ser "filtrada", ao longo de séculos, para que ela representasse essa "liberdade" toda a respeito da qual Flavio fala. Quem não lembra das intolerâncias cometidas pelas autoridades religiosas - principalmente as cristãs -, dentro do cenário do Ocidente que conhecemos?
    Um pouco mais adiante, o autor escorrega numa informação meramente biográfica, ao falar que o filósofo Jean-Jacques Rousseau nasceu na França. Apesar do florescimento na França, Rousseau é suíço.
    Após as críticas pontuais, quero dizer que o livro é muito bom. Ele traz alguns argumentos bons; vários fatos históricos são explicados sob uma perspectiva diferente e determinadas posições são fixadas de um modo oposto àquele que costumamos encontrar nas críticas socialistas.
   Espero comentar mais sobre o livro aqui.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Reflexões pós-revolução francesa


   Depois da leitura de Modelos de Filosofia Política, percebi a angústia de certos filósofos em compreender melhor o movimento completo da Revolução Francesa - de uma origem que pretendia a igualdade até uma carnificina "democrática", que não poupou nem mesmo alguns de seus maiores líderes.
   Chamou muito minha atenção a apresentação do pensamento de homens como Benjamin Constant (1767-1830) e Alexis de Tocqueville (1805-1859). 
   Prometendo posts futuros, neste momento só quero registrar a feliz coincidência de a Folha de São Paulo ter publicado, em versão econômica, para ser vendida em bancas de jornais, O Antigo Regime e a Revolução, de Tocqueville.
   Ah... lembro também que existe publicado em Português, pela Editora Edipro, Reflexões sobre a Revolução na França, de Edmund Burke.

terça-feira, 21 de julho de 2015

"Por que virei à direita" VS. "Marx estava certo"


  Minha ideia de escrever um pouco sobre o livro Por que virei à direita diz respeito a uma "promessa" que fiz aqui no blog de analisar, mais detidamente, o Marx estava certo.
   Penso que a melhor análise começa sempre pelo entendimento claro do objeto de estudo - como disse Marcelo Consentino, "discernir o princípio essencial", que citei no post anterior. A partir desse pressuposto, vale à pena tentar olhar o que seria a "direita" que se contrapõe à "esquerda" que Terry Eagleton defende no Marx estava certo.
   Esse olhar o que seria a "direita" começará, então, com comentários retirados dos três ensaios contidos em Por que virei à direita. São eles: "Dez notas para a definição de uma direita", de João P. Coutinho; "A formação de um pessimista", de Luiz F. Pondé, e "A esquerda na contramão da história", de Denis Rosenfield.
   Depois escrevo mais.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A insustentável leveza do ser


   Ainda dentro do meu espírito sabático, li A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Já há muito tempo desejava conhecer esta estória... talvez, a bem da verdade, menos pelo próprio enredo do que pelo instigante título. Por que a leveza seria insustentável? Sempre fiquei com a impressão de que uma alma pesada é que seria ruim. Aliás, o próprio livro comenta os pares de opostos apresentados por Parmênides, e o "pesado" é sempre o negativo, diante do "leve".
   Adorei o livro. Apesar da narrativa ir e vir - do que eu normalmente não gosto -, essas circunvoluções são tão bem feitas que não há como deixar de admirá-las. O pano de fundo, da invasão russa à Tchecoslováquia, após a Primavera de Praga, traz um profundo peso às estórias individuais dos personagens que se entrecruzam.
    Achei também superinteressante o autor "aparecer" no livro vez por outra, falando da própria criação e dando opiniões.
    Minhas considerações críticas sobre o livro certamente são dispensáveis, visto que não sou nenhum literato, mas separei algumas observações que achei interessantes. Seguem algumas.

Sobre fofocas, por exemplo:
"as pessoas se alegravam demais com a humilhação moral alheia para deixar esse prazer ser estragado por uma explicação".

Sobre o idioma alemão:
"Na língua de Kant, mesmo a expressão 'bom dia', devidamente articulada, pode parecer uma tese metafísica. O alemão é uma língua de palavras pesadas".

Sobre a individualidade:
"A unicidade do 'eu' se esconde exatamente no que o ser humano tem de inimaginável. Só podemos imaginar o que é idêntico em todos os seres, o que lhes é comum. O 'eu' individual é o que se distingue do geral, portanto o que não se deixa adivinhar nem calcular antecipadamente, o que precisa ser desvendado, descoberto, conquistado no outro".
   
Sobre a humanidade do homem:
"O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, situado num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais".

Sobre a eutanásia:
"Os cães não têm muitos privilégios sobre o homem, mas um deles é apreciável: para eles, a eutanásia não é proibida por lei; o animal tem direito a uma morte misericordiosa".

No entanto, a mais interessante citação, eu vou deixar para um próximo post. Trata-se de um paralelo com o famoso Problema do Mal, que tanto trabalho dá aos teólogos...

terça-feira, 23 de junho de 2015

"O livro mais polêmico do ano"


   O título do post é uma referência feita ao livro Submissão, de Michel Houellebecq, publicado no Brasil pela Editora Alfaguara.
   Não sou leitor frequente de romances, mas, vez por outra, sou "pescado" por algum, normalmente por conta de alguma relação com a História, ou seja, romances históricos, montados sobre a vida de alguma personagem real. Neste caso, contudo, a coisa foi um pouco diferente. Estava eu para ler Herege, de Ayaan Hirsi Ali, cujo tema, já comentei em outro post, é o Islã, quando, no blog do amigo Gustavo, vi uma referência ao livro. Fiquei curioso. E como o tema era, de certa forma, também o Islã, interessei-me.
   A orelha do livro conta a ideia do texto:
   "François é um professor universitário que leva uma vida solitária. [...] Num futuro próximo, ele acompanha pela TV desdobramentos dramáticos, que prometem mudar o panorama político e social da França. Pela primeira vez na história do país, o segundo turno das eleições presidenciais é disputado pelo partido de extrema direita e pela chamada Fraternidade Muçulmana. Os políticos moderados, tanto de direita quanto de esquerda, decidem apoiar o candidato islâmico - o aparentemente moderado Mohammed Ben Abbes -, e esse é o momento decisivo na vida não só de François como na de milhões de cidadãos franceses. [...] [O texto de Michel Houellebecq] é provocador, irônico, mas é também carregado de questionamentos sobre uma civilização em crise."
   Na contracapa do livro há uma referência ainda mais valorosa para o texto: 
   "Comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Submissão é uma sátira precisa e devastadora, sobre os valores da nossa sociedade. É um dos livros mais impactantes da literatura atual."
   Em que pese algum exagero midiático e marketeiro, o livro é realmente bom. Sua leitura flui bem e atrai o leitor, fixando-o ao texto. Eu li as quase 250 páginas entre a quinta-feira e o domingo passados, sem dificuldades. 
    Dito isto, que não é nenhuma propaganda do livro, queria destacar algumas passagens curiosas. Não são muitas, mas, neste post, colocarei apenas uma... só para vocês perceberem como Spinoza me persegue. Rssss.
   Não é que a personagem principal, comentando um texto produzido para defender a universalização do Islã evoca pejorativamente nosso querido Spinoza? Diz ele: "Mas o essencial do artigo era uma curiosa meditação, não desprovida de uma espécie de kitsch SPINOZIANO, com escólios e toda essa lenga-lenga, em torno da teoria dos grafos". (Grifo meu)
    Precisava falar mal do Spinoza? "kitsch" e "lenga-lenga"? Que falta de respeito. Eu deveria ter parado de ler aí... mas só faltavam vinte páginas. Preferi ir até o final. Rsss.
   

terça-feira, 26 de maio de 2015

Steven Nadler e o TTP


   Steven Nadler é autor de A book forged in the Hell, que já tem tradução no Brasil. Desta vez, ninguém inventou, e o título em Português é Um livro forjado no Inferno, ou seja, o equivalente exato do original Inglês.
   O livro já está na minha biblioteca há algum tempo, mas sempre foi ficando para ser lido em um momento mais adequado. E qual o momento mais adequado do que um período sabático? Ou seja, agora. Rsss.
   Por enquanto, só quero registrar que o livro já foi lido. No máximo, acrescentar a observação de que Nadler é um gênio desse tipo de escrita: ele consegue tratar um tema histórico sem deixar de fazer uma análise filosófica. Quero lembrar que ele é também o autor do fantástico Spinoza -  A Life.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Todos... menos alguns


   Sempre que alguém quer aprofundar seu conhecimento de Aristóteles, e me pede alguma sugestão de leitura, indico Introdução a Aristóteles, de Giovanni Reale, publicado pela Contraponto Editora.
   O livro em questão tem uma visão bastante geral. Contém uma biografia do Estagirita e depois vai se desdobrando em capítulos que tratam das áreas de pensamento a que ele se dedicou - quase tudo, como bem sabemos. Vemos desfilar diante de nós uma análise da Metafísica, da Ética a Nicômaco, da Política, da Poética  e do Organon, para sermos apresentados a uma história das interpretações do pensamento peripatético e, por fim, a uma lista comentada da bibliografia existente.
   Acho o livro importante porque apresenta, em um só volume, uma grande quantidade de conceitos aristotélicos de forma suficientemente clara.
    Contudo... neste final de semana, enquanto aguardava minha esposa comprar roupas para minha filha - o que demoooooora muito -, fui passear em uma livraria e decidi comprar um outro livro introdutório ao pensamento peripatético. Além de sempre haver algo novo a aprender, podia ser válido como sugestão para os amigos interessados em Filosofia. O título do livro é Aristóteles para todos - uma introdução simples a um pensamento complexo, de Mortimer J. Adler. 
   Como tenho certa desconfiança das propostas que tentam explicar Filosofia "para todos", decidi dar uma espiada no currículo do autor. O senhor Mortimer era filósofo, professor e pesquisador nos Estados Unidos, até falecer em 2001. "Ah... assim posso continuar a investigar o livro!", pensei. Afinal, estamos cheios de jornalistas escrevendo livros de Filosofia. Reconheço que, dependendo do caso específico, a leitura pode até fluir melhor para um curioso, mas sempre me inclino a valorizar mais alguém da área utilizando a pena para registrar suas impressões sobre assuntos filosóficos.
   Fui ao Prefácio e soube que o primeiro título pensado por Mortimer foi Aristóteles para crianças. Se este fosse o título, confesso que dificilmente teria a curiosidade de abrir o livro. Mas o autor diz ter compreendido que tal título não representaria "com exatidão a plateia a que essa exposição simples e fácil da obra de Aristóteles se destina. A plateia, acreditava, eram todos - de qualquer idade, a partir dos doze ou quatorze anos". Ah... melhor assim: não era apenas para crianças, mas para qualquer um a partir da adolescência! Aí, veio uma parte curiosa, onde Mortimer explica melhor quem é seu público alvo: "Quando digo 'todos', quero dizer todos menos os filósofos profissionais, em outras palavras, todas as pessoas de experiência e inteligência comuns, que não foram maculadas pela sofisticação e pela especialização do pensamento acadêmico".
   Ooooopa! Pera lá! Senti-me discriminado com esse "maculado". Isso é bullying! Rsss. Brincadeiras à parte, entendi o recado de Adler... embora ache que isso possa ser mais uma estratégia mercadológica para divulgação do livro entre o público apenas  superficialmente interessado pelo mundo filosófico, que poderia se assustar com algo do tipo "este livro atende ao público em geral, mas também aos estudantes universitários e, mesmo, aos filósofos  e pesquisadores na área de Filosofia". Tal apresentação poderia intimidar o curioso, fazendo-o pensar num nível de aprofundamento além das suas próprias expectativas.
    Sinceramente, tendo a não concordar com a ideia de que alguém, simplesmente por ter cursado uma faculdade de Filosofia, deixe de poder usufruir uma leitura mais leve sobre o assunto. Talvez Adler tenha razão no que concerne a um pesquisador especializado em Aristóteles. Este já está tão impregnado com os debates aprofundados sobre as nuances do pensador grego que até se arrepia ao abrir um livro e se deparar com "Aristóteles nasceu em Estagira, na Macedônia, no ano de 384 a.C. ..."
   Por enquanto, o livro ficará de lado, aguardando sua vez na fila sabática. Mas depois eu falarei mais dele.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A Revolução dos Bichos


   Já li 1984, de George Orwell, há muitos anos. Apesar de ter achado o livro espetacular, não me interessei por A Revolução dos Bichos. Achava, inocentemente, que o texto era um conto infanto-juvenil.
   Há alguns anos, um dos meus amigos filósofos desfez essa minha ilusão. Desde então, fiquei com vontade de ler o tal livrinho. O pior é que ele sempre adoçava a minha boca, com comentários sobre o texto, quando falávamos sobre Política... e, obviamente, sobre o socialismo.
   Neste meu período sabático, nada melhor do que pegar o livro na estante e começar a ler. Foi o que fiz. E achei realmente muito bom. Para quem conhece um pouco de História, os paralelos do livro com alguns fatos da União Soviética são absolutamente inconfundíveis.
   Adorei a ideia de manipulação do povo, com ferramentas retóricas; das mudanças dos fatos pretéritos; do desejo humano de poder e de tudo o mais que aparece no livro, só que remetido ao mundo animal. 
   Esse senhor Orwell é um ótimo escritor mesmo! Não à toa o fato do conto ter sido elencado pela revista Time entre os cem melhores em língua inglesa e constar da lista dos melhores romances do século XX, segundo a Modern Library List.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Scivias


   Obviamente o título do post se refere ao livro Scito vias Domini (Conhece os caminhos do Senhor), de Hildegarda de Bingen.
   A novidade que trago é que o texto foi traduzido para o Português e publicado pela Editora Paulus, agora em 2015.
   O livro conta com um Prefácio escrito pela professora de História Caroline Walker Bynum, da Universidade de Columbia. Esta parte do livro está disponível no link:  http://www.paulus.com.br/loja/appendix/3899.pdf
   Vale a pena dar uma lida.