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sexta-feira, 1 de novembro de 2024

"Um imortal decidiu morrer"

 

        O título deste post - muito criativo, aliás - diz respeito a um texto publicado no site UOL, comentando o "suicídio assistido" de Antônio Cícero.

    Para quem não viu nada sobre o assunto, o irmão da cantora Marina Lima, o poeta, filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) - portanto, "imortal" - Antônio Cícero, suicidou-se, de modo assistido, na Suíça, no dia 23 de outubro, com 79 anos de idade.

    Antônio deixou uma carta em que expôs o que motivou sua ação. 

“Queridos amigos,
Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer.
Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem.
Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi.
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia.
Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo.
Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação.
A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los.
Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo.
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!”

    Minha mãe também foi acometida de Alzheimer. Para quem a conheceu intelectualmente ativa, foi terrível constatar sua transformação. Tive a sorte de ser um dos poucos a ser identificado como muito próximo afetivamente - apesar de, para ela, fazer as vezes do meu pai, de mim mesmo, de irmão do meu filho. No finalzinho, ela, uma advogada, estava desaprendendo a escrever.

    Tendo experienciado essa queda cognitiva de minha mãe, e traçando um paralelo com meu pai, que faleceu aos 77 anos, super lúcido, passei a brincar com meus amigos que queria, eu também, despedir-me da vida com a mesma idade de meu pai. O que mais ouvia era "Isso, a gente não decide. Só Deus é que sabe". Eu não acredito em Deus, como Antônio Cícero, e o filósofo me relembrou que esta decisão pode caber a nós.

    Eu disse que "o filósofo" me relembrou, obviamente sem perder de vista aqueles "suicídios desesperados", em que a situação do sujeito é de tamanha destruição psicológica que ele só enxerga como saída o pôr fim à própria vida. Mas quis destacar o aspecto filosófico da questão. Os estoicos se suicidavam quando se encontravam não diante do desespero, mas sim da identificação de que sua vida estava "completa", por assim dizer. Isto é, quando se percebiam como tendo cumprido tudo o que haviam se comprometido a fazer. Não havendo mais nada a realizar, não fazia sentido, segundo a concepção deles, simplesmente "existir". Então, com grande tranquilidade, davam cabo da própria vida. 

    Em alguma medida, parece-me que foi o que Antônio Cícero fez - apesar de claramente dizer "minha vida se tornou insuportável". Ele fala de sua incapacidade para escrever poemas e ensaios filosóficos, bem como de ler e de conviver com os amigos. Diante da percepção do que já foi feito e das alegrias que já teve, penso que tranquilamente avaliou a situação e constatou que sua vida acabaria se resumindo apenas a "existir", e, como um valoroso estoico, lançou-se nos braços de Thanatos. 

    Percebamos que a vida se tornou "insuportável", segundo ele, por conta da impossibilidade de trazer à luz os produtos da sua criatividade e de brindar os que estavam à sua volta com a própria amizade. Trata-se de uma constatação existencial, e não apenas biológica ou mesmo psicológica. 

    Feita a escolha... realizada a ação... 

    

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

As "eupatheiai" estoicas


   A Internet Encyclopedia of Philosophy, em seu verbete "Stoic Philosophy of Mind" - mais especificamente, no item "b. Passion and Eupatheia" - segue a linha que apresentamos no post anterior, quando indica que:
    "It is a mistake to assume that if the Stoics reject passion that they seek a life void of any emotion [...]. A better reading of Stoicism is that the goal is not absence of emotion, but a well-disposed emotional life. [...] This view is supported by the Stoic doctrine of the eupatheiai. Calling positive emotions 'good-passions' may have been an attempt to rectify the misrepresentation of their school as being void of emotion. [...] [I]n the eupatheiai the force of the impulse is appropriate to the value of the object, the impulse is consistent with rational behavior, and finally the belief or judgement regarding the nature of the object is true". 
   Portanto, a desvalorização generalizada das "paixões", que é a interpretação corrente do Estoicismo, parece que deve ser reconsiderada. Afinal, se existem as paixões "ruins", também existem as "boas paixões" (eupatheiai), que, segundo os estoicos, precisariam ser valorizadas.

A 'apatia' estoica


   Os estoicos se referem ao "sábio" como alguém que atingiu a "tranquilidade" e a "liberdade" da escravidão das paixões.
   Contudo, esse empreendimento de superar as "paixões" causa muita confusão e leva a uma concepção enganosa de que os estoicos seriam sem emoção, procurando reprimir seus sentimentos.
   Mas, conforme explica Diógenes Laércio, o próprio Zenão indica que:
  "O homem sábio é 'desapaixonado' [apathê], porque ele não é vulnerável a elas".
   Donald Robertson, em Stoicism and the art of happiness, explica:
   "Zeno meant that the wise man was not enslaved by his feelings of fear or desire, but we're explicitly told here [na continuação da passagem aí de cima] that's not the same as being 'hard-hearted' and 'insensitive', which is the false impression many people have today of Stoicism".
   E em outra passagem, Robertson reforça essa "falsa impressão", ao dizer:
   "However, these endeavours to overcome the 'passions' have caused much confusion and led to the widespread misconception that the Stoics are somehow 'unemotional' or seek to repress their feelings".
   Vou explorar um pouco mais este assunto nos próximos posts. Isso, principalmente, porque me lembro de, no mestrado, ter feito um trabalho que se referia à possibilidade de Spinoza ser um "neo-estoico". Demarquei bem a diferença entre o pensamento do nosso filósofo daquele dos estoicos. Mas tenho achado que a barreira é uma zona mais cinzenta do que percebi à época.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Nietzsche e os estoicos


   Sabemos que o bigodudo Nietzsche tratou do "eterno retorno [do mesmo]" sem dizer que esta ideia já estava presente na Antiguidade, com uma força autoral bastante significativa no Estoicismo. É lógico que todos os nietzscheanos dizem que o conceito estoico não é tão elaborado quanto o do alemão, e que, se neles a percepção é meramente cosmológica, no do bigodudo há ares éticos, principalmente. O fato, entretanto, é que a intuição estoica é bem forte, e parece reivindicar mais originalidade que a do alemão.
   Uma coisa que sempre se diz - ou seria melhor escrever "que os nietzscheanos sempre dizem"? - é que a concepção estoica é fatalista demais, e que só resta ao homem seguir resignado esse retorno do mesmo. Eu sempre caí nesse engodo. Mas, eis que lendo do De vita beata, ou seja, o Da felicidade, de Sêneca, me deparo com a seguinte passagem: "Só a virtude pode chegar lá, passo a passo dominará o caminho, mantendo-se firme, suportando todos os imprevistos, sem resignação, mas com alegria, consciente de que as adversidades da vida fazem parte da lei da natureza" (Grifo meu).
   Percebe-se, portanto, que, além de usurpar o conceito de "eterno retorno" dos estoicos, o alemão também acabou tomando deles algo que poderia ser comparado ao "amor fati", afinal é isso o que o tal "sem resignação, mas com alegria" parece sugerir.
   Esse tal de Nietzsche é bem espertinho, mesmo!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Religião

   Alguns amigos do blog sabem que já fui budista. Apesar de considerar o Budismo uma doutrina interessante - ou, talvez, uma religião interessante -, tenho a clara noção de que não sou mais um "seguidor" da mesma. 
   Não se pode dizer que tive alguma grande decepção com o Budismo - como acontece com alguns "desencantados" com suas religiões de origem, que acabam por se converter a alguma outra. O que aconteceu, de fato, foi que a Filosofia me arrebatou por completo, e o pensamento mítico-religioso foi perdendo lugar em minha alma.
   Sempre pensei na religião como algo que pudesse tornar o homem mais humano - bem menos do que outras pessoas, que pretendem que o homem se torne mais divino - e mais feliz. E, isso, acabei por encontrar na Filosofia.
   De qualquer forma, para quem sente que a Filosofia é algo meramente "racional" - o que, em verdade, não é... ou melhor, não é só -, há filosofias claramente voltadas para o aspecto mais existencial do homem. E não me refiro, com isso, apenas ao Existencialismo. Penso, por exemplo, que as filosofias epicurista e estoica dão conta, plenamente, dessa dimensão existencial do homem, sem deixar nada a dever ao Budismo, e que podem facilmente ser adotadas como "religiões", no sentido de melhorar a vida do homem.
   A bem da verdade, o próprio Cristianismo absorveu parte do legado filosófico antigo, sendo não só um "Platonismo popular" - como afirmam alguns -, mas isto com uma mistura de Estoicismo. A Providência Divina, por exemplo, está totalmente apoiada nesta última escola helenista.
    Portanto, se alguém "precisar" de uma religião de primeira linha, sugiro a Filosofia... e, principalmente, o Estoicismo. Rsss. Nada de ir ao Oriente buscar "velhas novidades", nós já temos "rivais" bastante adequadas no nosso Ocidente mesmo.