Como bom spinozano, recuso-me a identificar no ser humano a existência de uma "pulsão de morte" - conforme Freud a conceituou. Só consigo enxergar a "pulsão de vida"... que eu costumo aproximar do conatus spinozano.
Aliás, interessante demais é perceber que, em Freud, a "trieb" ("pulsão") não tem uma instância meramente corporal... algo que seria mais próximo a um instinto. A pulsão tem uma dimensão física e psíquica... como me parece ocorrer também com o conatus.
Além dessa diferença com Freud, o conatus spinozano guarda oposição também com a ideia de Heidegger de que a morte é um elemento estruturante do homem. Ou seja, para o alemão, a morte estaria já dentro do homem, que é um "Sein zum Tod", segundo ele. Já para Spinoza, o homem é um "Sein zu Leben" - invencionice minha, só para provocar os que gostam do idioma alemão para filosofar! -, o homem tem como fundamento ontológico o "existir"... o resto vem depois, como a ação empreendida para existir; a tentativa de entender o que o cerca, permitindo-lhe escolher melhor como existir; etc. e tal.
O texto, penso, não caminha mal... mas o que isso tem a ver com a minha mãe? Eu respondo - e o faço em um dos posts mais pessoais que já coloquei neste blog: "Algo" externo parece querer tirar minha mãe da existência! O "esforço" interno parece não estar mais sendo suficiente para deixá-la totalmente ancorada nesse mundo... de vivências... e de convivências!
Seus olhos verdes já não tem mais aquele brilho de quem olha os problemas como possibilidades de vitória... não pelo problema ser pequeno, mas por haver confiança em sua própria "potência" interior, mas sem arrogância... sempre com "paixão" - não no sentido spinozano do termo, mas naquele que se refere a uma "explosão sentimental" vigorosa.
Seu caminhar, que nunca foi atlético, mas que sempre foi decidido, transforma-se num penoso e vagaroso deslocamento arrastado.
Sua argumentação forte e, quase sempre vitoriosa - que, quando não pela força da retórica, acontecia pela energia da personalidade - torna-se vacilante... e, principalmente, imprecisa.
Vacilante e imprecisa... termos difíceis de serem agregados à minha mãe... mas que, agora, cabem...
Uma doença a ataca, silenciosa e matreira, desligando minha mãe do mundo.
Mas esse processo de "redução" do conatus, da potência diminuindo, inicia-se quando da ida do meu pai. Sem querer, meu pai, o grande amor dela, levou consigo uma parte da própria vida da minha mãe. Ele, que sempre foi um músico que fez a "base harmônica" na vida do casal, acabou levando embora parte do virtuosismo da solista, que ela sempre foi.
Mas esse processo de "redução" do conatus, da potência diminuindo, inicia-se quando da ida do meu pai. Sem querer, meu pai, o grande amor dela, levou consigo uma parte da própria vida da minha mãe. Ele, que sempre foi um músico que fez a "base harmônica" na vida do casal, acabou levando embora parte do virtuosismo da solista, que ela sempre foi.
A morte vem de fora, diria Spinoza, quando as forças opostas a nós superam nossa potência de existir. E eu percebo que, se o amor de filho traz algum conforto, talvez só "O Amor" traga o próprio "élan vital" necessário à manutenção de uma existência em um corpo-alma desgastado pela própria existência, ou seja, só aquele "Amor" seria capaz de resgatar-lhe o que a natureza insiste em retirar dela... o "esforço de perseverar na existência"...