quinta-feira, 19 de julho de 2012

Religião

   Alguns amigos do blog sabem que já fui budista. Apesar de considerar o Budismo uma doutrina interessante - ou, talvez, uma religião interessante -, tenho a clara noção de que não sou mais um "seguidor" da mesma. 
   Não se pode dizer que tive alguma grande decepção com o Budismo - como acontece com alguns "desencantados" com suas religiões de origem, que acabam por se converter a alguma outra. O que aconteceu, de fato, foi que a Filosofia me arrebatou por completo, e o pensamento mítico-religioso foi perdendo lugar em minha alma.
   Sempre pensei na religião como algo que pudesse tornar o homem mais humano - bem menos do que outras pessoas, que pretendem que o homem se torne mais divino - e mais feliz. E, isso, acabei por encontrar na Filosofia.
   De qualquer forma, para quem sente que a Filosofia é algo meramente "racional" - o que, em verdade, não é... ou melhor, não é só -, há filosofias claramente voltadas para o aspecto mais existencial do homem. E não me refiro, com isso, apenas ao Existencialismo. Penso, por exemplo, que as filosofias epicurista e estoica dão conta, plenamente, dessa dimensão existencial do homem, sem deixar nada a dever ao Budismo, e que podem facilmente ser adotadas como "religiões", no sentido de melhorar a vida do homem.
   A bem da verdade, o próprio Cristianismo absorveu parte do legado filosófico antigo, sendo não só um "Platonismo popular" - como afirmam alguns -, mas isto com uma mistura de Estoicismo. A Providência Divina, por exemplo, está totalmente apoiada nesta última escola helenista.
    Portanto, se alguém "precisar" de uma religião de primeira linha, sugiro a Filosofia... e, principalmente, o Estoicismo. Rsss. Nada de ir ao Oriente buscar "velhas novidades", nós já temos "rivais" bastante adequadas no nosso Ocidente mesmo. 

4 comentários:

Anibal Werneck de Freitas disse...

Meu Caro Ricardo,

Sempre brilhante nas suas ponderações, assim como você, já curti o Budismo, que considero mais uma filosofia de vida do que religião, ateia e o Nirvana é o não nascido, ou seja, o nada. Acontece que o Budismo nega esta vida terrena e aí esta o seu grande erro, a vida não é um lugar onde pagamos os nossos pecados, a vida é pra ser vivida, infelizmente, muitos não conseguem porque infelizmente as coisas vão acontecendo ao acaso, umas dão certo outras não, mas acredito que há sempre uma nova oportunidade. Segundo os filósofos Demócrito e Leucipo, os átomos que formam nossos corpos, por exemplo, não se deterioram ou desaparecem quando morremos, mas se dispersam e podem ser reconstituídos. Está aí uma grande probabilidade de estarmos sempre voltando numa nova edição, quem sabe, mais elaborada. É aquele negócio, se o nosso Aleijadinho tivesse colocado filósofos no lugar dos profetas, certamente, o mundo hoje seria bem melhor, portanto, esta ideia de estarmos sempre voltando é realmente fascinante, vale a pena viver.

Marcelo Moreira disse...

Saudações meu amigo! Como vai?
Seria um crime se eu, sabidamente budista, deixasse de comentar esta publicação!
Não vou desperdiçar vosso tempo ou dos vossos leitores transformando este diálogo em um discurso pró-budismo! Os pregadores me cansam! rs
Quero apenas apresentar-lhe meu caminho pessoal, curiosamente oposto ao vosso! Conheci a Filosofia antes do Budismo, sendo que no budismo encontrei o "passo seguinte" que me parecia faltar à Filosofia! rs Ponto para o Budismo? Claro que não! Ponto para mim! Assim como é ponto para o senhor sua crença na Filosofia! O importante é mantermos viva e em movimento esta marcha pelo progresso do espírito humano (apresente este continuidade após a morte ou não).
Não creio que a iluminação seja exclusividade de Sakyamuni e seus seguidores! Ele, Heráclito, Sócrates, Jesus, Santo Agostinho, e tantos outros experimentaram fragmentos de um todo que é tarefa humana atingir! Não falo do Céu nem de Nirvana (embora eu adore "Smells Like Teen Spirit" rs). Falo tão somente da autosuperação humana! Do imenso potencial que nossa espécie guarda e que espero ansioso para ver desperto!

Clara Maria disse...

Bom dia, senhores!
Gostei particularmente deste post do Ricardo, não só por ele mas , também , pelos comentários. Contrariamente a vocês nem seguidora da filosofia, nem budista, nem nada … Gosto das 2 vertentes, mas vou deixando-me levar pelo torpor que me invade e carateriza a alma.
Estive na Índia há 2 semanas, e percorri os lugares de peregrinação budista marcados por Sakyamuni: kushinagar (onde morreu e foi cremado) Sarnati(onde deu o 1º “sermão”), Bodigaia(onde teve a iluminação) .,Escapou Lumbini por motivos burocráticos , de vistos, uma vez que fica no Nepal. Chegámos à fronteira e não pudemos passar.
De todos os lugares , Kushinagar era o mais calmo, ficando na Índia profunda na Índia assustadoramente paupérrima. Em Bodigaia, tive a sensação que todas as religiões se tocam e se assemelham nas suas bases. Grupos que poderiam ser transportados para Fátima e vice versa que quase pareceriam fazer parte de um todo. Até eu que não sendo budista me vi a guardar uma folha da árvore onde Sakyamuni teve a iluminação.
Quanto ao percurso do Ricardo do budismo para a filosofia, penso que ficou impresso nele o essencial do budismo: compaixão e uma grande tranquilidade que o caraterizam e que eu anseio ter, embora não faça nada nesse sentido.
Um abraço
Maria

Anônimo disse...

Achei interessante você ter usado o termo ''alma'', sendo que o budismo refuta tal conceito. hehe mas também tenho que comentar que o ''budismo não nega a existencia terrena'' - alias esse termo nem é usado - muito pelo contrário, como comentou o colega.