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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Goethe - Ensaios Científicos (3)


    Continuando...
    
   "Quando a alma se apercebe de uma relação como que germinal, cuja harmonia, caso estivesse totalmente desenvolvida, ela não conseguiria ver de modo abrangente ou perceber de uma vez só, chamamos essa impressão de 'sublime' - e esta é a mais nobre que pode caber a uma alma humana.
  Quando divisamos uma relação que, em todo o seu desdobramento, é suficiente para termos uma visão abrangente ou para compreendermos a medida da nossa alma, chamamos a impressão de 'grandiosa'.
     Dissemos acima que todas as coisas existentes e vivas têm sua relação em si próprias. Portanto, a impressão que causam em nós, tanto individualmente quanto em conexão com outras, bastando que essa impressão se origine de sua existência perfeita, nós a chamamos de 'verdadeira'; e caso essa existência seja parcialmente limitada de modo a podermos compreendê-la facilmente, e esteja em tal relação com nossa natureza que apreciemos captá-la, chamamos a coisa de 'bela'.
    O mesmo acontece quando pessoas, de acordo com sua capacidade, dão uma forma de totalidade - seja esta rica ou pobre, como se queira - à conexão entre as coisas, e depois fecham o círculo. Elas considerarão como o mais certo e seguro aquilo em que pensam mais confortavelmente, aquilo em que podem encontrar prazer. Na maioria das vezes, porém, se notará que elas veem com sossegada compaixão outras pessoas que não se contentam tão facilmente e aspiram a buscar e conhecer relações entre coisas divinas e humanas; e em toda oportunidade farão notar, de modo acintosamente modesto, que no 'verdadeiro' encontraram uma certeza que está acima de qualquer comprovação e entendimento. Não cessam de louvar sua invejável calma e alegria interior e indicam a cada um essa felicidade como sendo a meta final. No entanto, como nem são capazes de descobrir claramente por qual caminho chegaram a essa convicção, nem qual é efetivamente o motivo da mesma, e sim falam meramente de certeza como certeza, quem deseja aprender tem pouca confiança nelas, pois tem sempre de ouvir que a alma deveria tornar-se cada vez mais simples, dirigir-se a somente um ponto, esquivar-se de todas as variadas relações embaraçosas; apenas então se poderia encontrar a felicidade num estado que é dádiva voluntária e um dom especial de Deus.
    Ora, segundo nossa maneira de pensar, não gostaríamos de chamar essa limitação um dom, porque uma escassez não pode ser considerada um dom; mas poderíamos considerar, isto sim, como uma graça da natureza o fato de - já que o ser humano é no máximo capaz de alcançar conceitos imperfeitos - ela ter cuidado para este sentir satisfação em sua própria estreiteza."

    Eis aí! Comentários... interpretações... ?
    

terça-feira, 1 de abril de 2014

Goethe - Ensaios Científicos (2)


       Continuando...
    
   "Uma coisa existente e viva não pode ser medida por nenhum meio exterior a ela; caso isso tenha de ocorrer, ela própria deveria fornecer a medida para tal; esta, porém, é altamente espiritual e não pode ser encontrada pelos sentidos; já no caso do círculo a medida do diâmetro não pode ser aplicada à circunferência. Foi assim que se quis medir o ser humano mecanicamente: os pintores tomaram a cabeça como a parte mais distinta para a unidade de medida, mas não se pode empregá-la sem causar pequenas e indizíveis violações no restante dos membros.
    Em cada ser vivo existe o que denominamos partes, porém tão inseparáveis do todo que só podem ser compreendidas nele e com ele. E nem as partes podem ser empregadas como medida do todo, e nem o todo como medida das partes; e assim, conforme dissemos acima, um ser vivo limitado participa da infinitude, ou melhor, tem algo infinito em si - e isto se não quisermos dizer melhor: que não podemos compreender inteiramente o conceito da existência e da perfeição do ser vivo mais limitado, e portanto, do mesmo modo como a imensa totalidade em que são compreendidas todas as existências, ele deveria ser explicado como sendo infinito.
    Existe uma imensa quantidade de coisas das quais nos apercebemos, e suas inter-relações que nossa alma pode captar são extremamente variadas. Almas que possuem uma força interior para expandir-se começam a ordenar a fim de facilitar para si o conhecimento, e começam a adicionar e conectar a fim de alcançar o prazer.
    Portanto, devemos limitar em nossa alma toda existência e perfeição, para que estas se tornem adequadas à nossa natureza e à nossa maneira de pensar; só então afirmaremos compreender algo ou desfrutar dele."

    Mais uma página.

domingo, 23 de março de 2014

Goethe - Ensaios científicos


   Na semana passada, visitando uma livraria pela qual não costumo passar sempre, encontrei um pequeno livro que apresenta uma coletânea de ensaios de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), sob o título de "Ensaios Científicos - Uma metodologia para o estudo da natureza". A publicação é das editoras Barany e Ad Verbum, no ano de 2012.
   Até aqui, nada de tão especial; afinal, mesmo crendo naqueles que falam da genialidade de Goethe, o alemão não faz parte de minhas leituras - o que, aliás, reconheço como uma falha da minha formação. Mas... o que há de especial é o conteúdo do primeiro ensaio, "Estudo segundo Spinoza", escrito entre 1884-1885.
    Neste, e nos próximos posts, pretendo transcrever o tal ensaio.
   Começando...
   "O conceito de existência e de perfeição é um único e mesmo conceito; ao seguirmos esse conceito até onde nos é possível, dizemos que estamos pensando o infinito.
   Contudo, o infinito ou a existência completa não pode ser pensada por nós.
    Nós só podemos pensar coisas que sejam ou limitadas em si mesmas ou limitadas por nossa alma. Portanto, temos um conceito do infinito na medida em que conseguimos imaginar haver uma existência completa exterior à capacidade de compreensão de um espírito limitado.
   Não se pode dizer que o infinito tenha partes.
   Todas as existências limitadas estão no infinito, mas não são partes do infinito, e sim participam da infinitude.
   Não podemos imaginar que algo limitado exista por si mesmo, e no entanto tudo existe realmente por si, apesar de os estados estarem tão encadeados que um tem de desenvolver-se do outro, parecendo que uma coisa é produzida por outra, o que de fato não ocorre; em verdade, um ser vivo dá a outro o ensejo de ser e o obriga a existir em determinado momento.
   Toda coisa existente tem, pois, sua existência em si, e também a conformidade segundo a qual ela existe.
   Medir uma coisa é uma ação grosseira que, aplicada a corpos vivos, só pode ser altamente imperfeita".
   Ficamos nessa primeira página, de quatro, da versão que tenho.