quarta-feira, 7 de março de 2012

"Quem sou eu? E, se sou, quantos sou? Uma aventura na Filosofia"

   Nem lembro se já comentei algo sobre o livro que tem o mesmo título do post.
   Este livro - já o tenho há algum tempo - permaneceu sem ser lido por mim. O autor é Richard David Precht, um "filósofo, publicitário e escritor", segundo a "orelha" do livro. Filósofo e publicitário? Que seja! De qualquer forma... ele é formado pela Universidade de Colônia... O que não é pouco!
   O livro foi publicado no Brasil pela Ediouro, em 2009.
   Só no Carnaval "resgatei-o" da longínqua estante da outra casa da minha mãe, e o trouxe, são e salvo, de volta para o lar. Hoje, comecei, então, a folheá-lo.
   Contei tudo isto para citar um pedacinho.
   "Fazer perguntas é uma capacidade que não deveríamos perder nunca, pois aprender e apreciar são o segredo de uma vida plena. Aprender sem apreciar não satisfaz, apreciar sem aprender emburrece."
   Obrigado pela dica, Mr. Richard!
   Um pouco mais do livro.
   O mesmo está dividido em três partes, cujos nomes são um tríade famosíssima de questões: "O que posso saber?", "O que devo fazer?" e "O que posso esperar?". Alguém deixou de lembrar de Kant? Entretanto, ao contrário do alemão mais antigo, que pretendia que estas se reduzissem a uma última, este diz que, se respondidas essas três, estará resolvida aquela que pergunta por "O que é o homem?".
   O livro, então, na sua primeira parte, trata do conhecimento, através de artigos sobre a verdade, o cérebro, o "eu", a memória, a linguagem. A segunda parte diz respeito à ética, com artigos como "Há moral no cérebro?" ou "A moral é inata?". A última trata de questões como a felicidade, a liberdade, Deus e o sentido da existência. As abordagens têm sempre um ar fundo de Filosofia da Mente.
   A leitura parece ser interessante. Depois eu conto mais!
 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Kant e os comentadores

   Um conselho muito comum nos meios acadêmicos é "Não fique lendo comentadores, vá direto ao texto do filósofo!".
    Normalmente, esse conselho é dado por alguém que já venceu o estranhamento inicial e a impenetrabilidade das primeiras "muralhas" conceituais que se põem diante do novato. Ora, a menos que alguém de boa vontade se predisponha a auxiliar essas primeiras explorações, não é tão fácil ingressar no mundo de um pensador, até então, desconhecido. 
   Rotineiramente também, quem mais dá esse conselho são aqueles que não se mostram tão "abertos" ao monte de questões - algumas até realmente óbvias - que o neófito apresenta. Respostas como "Você tem que continuar lendo, pois assim entenderá este ponto" não ajudam muito... até pelo contrário, visto que se arrastam dúvidas desnecessárias por vários capítulos, podendo, inclusive, comprometer o entendimento de toda a tese e argumentação de um livro.
   Um exemplo absolutamente contrário a isso é o de Kant. Ciente de que seu "Crítica da Razão Pura" (1781) era um livro que poderia ser censurado pela "falta de popularidade" - no sentido, aqui, de falta de acessibilidade ao público -, Kant se propõe a melhorar as coisas na segunda edição, a de 1787. No Prefácio, ele mesmo declara ter feito "o possível para remover as dificuldades e obscuridades",  mas confessa que, "no tocante ao estilo, ainda há muita coisa a ser feita".
   Kant poderia muito bem pensar, como nossos professores modernos - ou como Hegel -, que o leitor é que tem que se "virar". Afinal, o trabalho "pesado" estava feito pelo filósofo. O leitor que repasse as linhas argumentativas, no sentido de fundamentar a tese apresentada e de entendê-la.
   Mas não era assim que esse  "gigante" intelectual via as coisas. O que ele faz é solicitar "a esses excelentes homens que tão afortunadamente equilibram a perfeita sabedoria com o talento da exposição lúcida (talento a que não posso aspirar)" que assumam a "tarefa de elevar a minha obra - muito falha neste particular - a maior perfeição". Ele só pede que esses comentadores sejam "juízes competentes e imparciais"... Era o mínimo que se poderia solicitar, não é?
    Quanta simplicidade do Immanuel, hein!
    Todavia, se reconhecia a dificuldade dele mesmo em relação ao "estilo", Kant indica, no Prefácio da primeira edição da "Crítica da Razão Pura",  que procurou obter a "clareza discursiva", oriunda dos conceitos, mais do que a "clareza intuitiva", provinda dos exemplos. E registra sua opinião - bastante curiosa - de que esta última espécie de clareza é frequentemente prejudicial àquela, e "muitos livros teriam sido mais claros se não tivessem tencionado ser tão claros".
    Sinceramente, não sei se concordo com essa última parte, mas... realmente vemos "excessos" em determinadas explicações que, parece, poderiam ter sido glosados, sem nenhum prejuízo ao entendimento da tese.
   Só para deixar a referência bibliográfica registrada, a parte da estória em relação a Kant nos é contada em "O pensamento de Kant", de Georges Pascal, publicado pela Editora Vozes, em 2003.
  

"Lectures de Spinoza"

   Ontem adquiri um "livraço". Trata-se de "Lectures de Spinoza", organizado por duas "feras", Pierre-François Moreau e Charles Ramond - ambos com produções importantes no que respeita ao filósofo luso-holandês. A publicação é pela Ellipses, francesa.
    A capa não indica nada de tão especial, mas fica a promessa de bons textos, em função do "peso" dos organizadores. Entretanto, já quando passamos os olhos pelo índice, a coisa muda radicalmente. Vemos que os capítulos vão tratando, além da biografia, de cada produção de Spinoza individualmente. Obviamente, a "Ética" não aparece em apenas um capítulo, mas cada livro da obra magna de Spinoza ganha um capítulo específico.
   Conforme indica Moreau, a tentativa não é a de "fechar" um sistema spinozano, a partir do conjunto de seus escritos, mas avaliá-los individualmente. Desta forma, fica fácil acessar o "espírito" de cada obra spinozana de per si.
   Mesmo só dando um "sobrevoo" pelo livro, deu para perceber que os capítulos são muito bem escritos. Valeu a pena!
 

Os Simpsons

   Estava eu passando os olhos por aquela coluna "Você sabia... ?" do Wikipedia, no Portal de Filosofia, quando esbarrei com uma informação, até então, pelo menos para mim, inimaginável. Lá está escrito: "…that The Simpsons and Philosophy: The D'oh! of Homer, a book that analyzes The Simpsons using philosophical concepts, is the main textbook in some university philosophy courses?".
   Ao contrário de um professor meu, que disse que se interessou, certa vez, por um livro desta série - acho que era "The Beatles e a Filosofia" -, mas que nem se atreveu a aproximar-se da estante onde o livro estava, com medo de ser flagrado folheando algo tão "esquisito" e "pouco sério" por algum aluno ou colega, eu tenho simpatia pela coleção. 
   Mas vou confessar uma coisa... quando ele contou o caso na sala, e todos riram da frase: "Imaginem um aluno ou, pior, um outro professor me vendo com um livro daqueles nas mãos!", eu nem me atrevi a contar que já adquirira um exemplar. Só confidenciei a um amigo sentado próximo a mim. Ele, tão consternado quanto eu, balbuciou que também era possuidor de um... e que apreciara a leitura do tal livrinho que sofrera o anátema.
   Aliás, o primeiro que adquiri foi "Harry Potter e a Filosofia", que acho ótimo... até hoje!
   Mas voltemos ao "Você sabia...?"
   De fugir da estante dos livros da série a transformá-lo em livro principal em cursos universitários de Filosofia vai uma distância muito grande. Eu acho até que comentar determinadas passagens desses livros - ou capítulos inteiros, que tratam de temas específicos - é algo bastante interessante, mas adotá-los como livros de estudo... e principais... Aí, é demais!
   No caso daquele meu professor, imaginem sua chegada numa universidade desse tipo e, no seu primeiro dia, tendo que dizer, em vez de "Abram no Prefácio da 'Crítica da Razão Pura', para ver o que Kant nos diz da distinção entre númeno e fenômeno!", ele teria que dizer "Abram seu 'Os super-heróis e a Filosofia', para vermos os dilemas morais de Batman!".
   Caracas... não consigo imaginar esta cena! Rsss
 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O túnel do tempo

    Após uma informação privilegiada do meu compadre Paulo, fui a uma loja onde são vendidos DVDs de velhas séries de TV. Lá estão registros de "Viagem ao Fundo do Mar", "Perdidos no espaço" e "Terra de gigantes". Entretanto, o ponto alto, pelo menos para mim, é a série "O túnel do tempo", estrelada por Robert Colbert e James Darren, e dirigida pelo famosíssimo Irwin Allen.
   Antes de contar como eu me deliciava com os episódios de "O túnel do tempo" apresentados, tenho que confessar uma paixão juvenil minha: a atriz Lee Meriwether, que fazia o papel da Dra. Ann MacGregor. É verdade que a paixão se devia mais ao seu papel como Mulher Gato, no filme do Batman.
   Para quem não lembra da charmosa atriz, aí vai uma "refresco" para a memória.
    Bem... o assunto aqui é a série, e não minha paixão juvenil.
   Foram trinta episódios produzidos. O box que eu adquiri só contém a metade. Obviamente, estou à procura dos demais.
   Já assisti à metade dos que adquiri. É muito interessante perceber o que acontece de histórico nos filmes, como pano de fundo das aventuras dos cientistas Doug Phillips e Tony Newman.
   É curioso, entretanto, perceber como a inocência juvenil - ou melhor, a "minha" inocência juvenil - era grande. Só via filmes perfeitos. Hoje, noto que uma tribo de índios Sioux com vários deles tendo olhos azuis e verdes não deve ter sido muito comum, lá nos idos dos 1800. Além disso, aquelas fagulhas espocando dentro do túnel, com coisas surgindo e voando lá dentro, com fios pretensamente invisíveis, não fariam muito sucesso hoje, com crianças acostumadas às realidades virtuais e aos superefeitos especiais.
   De qualquer forma, descontados esses fatos, a série continua excelente. O episódio que narra os eventos de Troia, por exemplo, é muito explicativo, guardados os limites de duração de cada um deles.
   Esse é o tipo de coisa que merece a expressão "Vale a pena ver de novo!".

Luiz Eduardo Soares e seu livro (2)

   Dentro da história contada por Luiz Eduardo Soares - já comentada no post anterior - há uma passagem interessante, que demonstra a sensibilidade do autor.
   O trecho aparece durante a tal conversa com o taxista, num ponto em que o mesmo apresenta todo o seu "ódio" contra o ladrão-assassino dizendo que nada acontecerá a ele. A afirmação é a seguinte: "Não vai acontecer nada, porque nosso país é a terra da impunidade. Esse pessoal dos direitos humanos vai proteger o garoto. O delinquente não vai para a prisão porque é menor de idade. Daqui a dois, três anos, o homicida está por aí, livre, matando outros pais de família. Ele deveria ser linchado. Pena não haver pena de morte no Brasil. Queria ver esse cara torrando na cadeira elétrica".
   Neste ponto, Luiz Eduardo Soares escreve: "Sabia que era meu dever responder, ponderar, repelir a acusação que fazia a mim e a meus colegas, militantes dos direitos humanos, mas o homem estava tão emocionado [...] Naquele momento, não era o homem que falava; era seu coração, a sua dor [...] Há situações em que convidar o outro a raciocinar sobre um ponto de vista diferente já é, em si mesmo, um ato de hostilidade, de incompreensão do drama que a pessoa está vivendo. Há circunstâncias em que argumentar é impróprio e até agressivo, independente do conteúdo da argumentação".
   Mais comentários depois!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Luiz Eduardo Soares e seu livro

   Parei tudo para "dar cabo" do livro "Justiça - pensando alto sobre violência, crime e castigo", de Luiz Eduardo Soares - livro do qual, inclusive, eu já tinha falado aqui no blog.
   Para possível nervosismo do meu compadre, gostei do livro. Como se diz dos vinhos que não são maravilhosos, mas que também não decepcionam: "É honesto!". Essa seria, portanto, uma boa definição para o livro.
   Logo na abertura, o autor posiciona o livro em seu nicho - que, é verdade, acaba por ficar amplo demais -, dizendo: "Escrevi para os leitores não especialistas de todas as idades, mas espero que o livro seja útil também para os especialistas, principalmente os da área de direito, mas também para cientistas sociais, psicólogos, psicanalistas, filósofos, teólogos, sacerdotes, jornalistas e artistas". Ou seja, de leigos a especialistas de várias áreas, o livro "está valendo".
   Gostaria de comentar algumas passagens aqui no blog, e é o que me proporei a fazer em posts futuros.
   Uma primeira observação a ser feita, é a de que o livro não para nas críticas à Justiça Criminal, mas propõe alternativas que o autor considera "atraentes e promissoras".
   Outra, é que o autor não está completamente isolado em suas críticas e propostas alternativas. Ele expõe que "o modelo alternativo de fazer justiça que proponho é membro da família do que se convencionou chamar Justiça restaurativa", mas que seu modelo tem "divergências tópicas com algumas abordagens da restauração".
    Feitas essas duas observações, absolutamente superficiais, há que reconhecer que várias informações do livro são apenas constatações desagradáveis da nossa realidade jurídico-punitiva. Eu mesmo, aqui no blog, já questionei o real papel do aprisionamento, identificando uma crueldade desproporcional, muitas vezes, entre o crime cometido e o castigo imputado - não por conta do tempo excessivo que o "criminoso" ficaria encarcerado, mas por causa das condições de aprisionamento. Este ponto é ricamente ilustrado por Luiz Eduardo em seu livro.
   Um exemplo de bom desenvolvimento de argumentos que aparece no livro é o de uma história contada por um taxista que conduzia o autor a uma palestra. Vou abreviá-la enormemente aqui, só para captar-lhe o conteúdo.
   O taxista começa a contar a Luiz Eduardo, como passageiro, que perdeu um grande amigo, motorista de ônibus, num assalto. O ladrão entrou no ônibus; roubou os passageiros e, ao sair, disparou covardemente contra o motorista.
   Grande amigo do motorista do ônibus, o taxista conhecia detalhes de sua vida familiar. Pondera, então, com Luiz Eduardo - certamente, sem conhecer seus pontos de vista -, que o meliante deixara em estado de penúria a mulher e os filhos do amigo morto. Isto porque, a esposa era "do lar", apenas, e os filhos eram muito novos para trabalhar. Reflete, fazendo uma espécie de "futurologia", que os filhos poderiam, com a ausência do pai, e a menor atenção da mãe - então, dedicada a sustentar financeiramente a família -, passar a ter más companhias e acabar se envolvendo com drogas.
   A "sentença" do taxista era de que o ladrão deveria ser linchado, para nunca mais fazer o mesmo, isto é, vitimar tantas pessoas - não só o pai de família, mas também a esposa e os filhos.
   Luiz Eduardo, com muita delicadeza, faz algumas perguntas. Primeiro, reforça o sentimento de que os filhos do motorista eram também vítimas nessa situação. Depois, presentifica a possibilidade de envolvimento de um deles com drogas. Em seguida, consegue a concordância do taxista quanto ao fato de que, eventualmente, um dos filhos do amigo poderia precisar de capital para "investir" no consumo da substância ilícita. E, por fim, ressalta que, no desespero pelo dinheiro, o filho do motorista, vítima na ação pregressa, pudesse vir a ser, também ele, um agressor e assassino de algum trabalhador. A derradeira pergunta é "O senhor participaria do linchamento dele?" - lembrando, apenas, que o taxista era grande amigo da família, e, por conseguinte, das crianças também.
   Dá o que pensar, não é?