Meu trabalho de fim de curso na pós de Ciência Política tinha por título "O esvaziamento conceitual da díade direita-esquerda no campo da ideologia política". Na verdade, eu não advogava em favor do esvaziamento, mas diagnosticava a possibilidade desse evento.
Uma de minhas teses era de que as variações históricas envolvidas nas definições que diziam respeito aos conceitos de direita e esquerda causavam certa confusão em quem os usava. Além disso, ao se assumir o campo dos costumes como definidor das características do que vem a ser direita e esquerda num espectro político, causou-se um pouco mais de confusão.
Pois bem, lendo o artigo de Luís Felipe Miguel, "A reemergência da direita brasileira", publicado em O ódio como política, me deparei com uma explicação do que vinha a ser "Libertarianismo". Nenhum problema. Era uma apresentação clássica, digamos assim. Assim é que li algo como:
O libertarianismo descende da escola econômica austríaca, pregando o menor Estado possível. Ele representa uma radicalização da tradição liberal do século XVIII, considerando a igualdade como ameaça à liberdade, sendo esta última um valor fundante dos defensores do libertarianismo. E esta SUPOSTA [pequena ressalva, mas usando os termos do autor] oposição - entre liberdade e igualdade - seria o equivalente à distinção entre direita e esquerda.
Pois bem. Neste finalzinho, o autor mostra que a tal "oposição" é "suposta" porque ela se baseia em determinada tradição filosófica, sem levar em conta outras. Sigamos, porque esse não é meu ponto. Quero insistir numa certa dificuldade, desde que não se especifique bem do que se está a tratar, do uso pacífico dos termos.
Observe-se, então, essa passagem do texto, sem perder de foco que, para o senso comum, as bandeiras progressistas representam a "esquerda" e que "libertarianismo" está francamente associado à "direita":
"O libertarianismo original, por sua convicção de que a autonomia individual deve ser sempre respeitada, levaria a posição avançadas em questões como consumo de drogas, direitos reprodutivos e liberdade sexual. Mesmo nos Estados Unidos, porém, tais posições tendem a estar mais presentes em textos dogmáticos do que na ação política dos simpatizantes da doutrina".
Segundo o autor, é a união a grupos conservadores que acaba por impedir a assunção dessas bandeiras, reforçando, ao contrário, os valores da "família tradicional".
Mas como explicar a um empolgado jovem militante das causas progressistas que ele defende algo classificado como "de direita"?!?!?