sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Estabelecendo uma diferença

 

    Antes de continuar avaliando a "Guerra Cultural" sob a perspectiva que estivemos utilizando até agora, vale sinalizar que há outra possibilidade de abordagem, que seria mais "europeia", se assim podemos chamá-la.

    No livro A cultura importa - fé e sentimento em um mundo sitiado, de Roger Scruton, a abordagem sobre a "Guerra Cultural" não capta tanto a estratégia de uma pretensa viabilização do marxismo no Ocidente através da subversão da cultura deste. Assim é que o autor diz: "As sociedades ocidentais estão vivendo uma crise aguda de identidade com ameaças externas, do Islã radical, e internas, do 'multiculturalismo'".

    Percebemos que o Ocidente, tendo como fundamento os valores judaico-cristãos, é tido como atacado pelo Oriente/Islã, externamente. Ao mesmo tempo, internamente, ele sofre com um fenômeno mais delicado, que parece menos hostil que o anterior. Isto porque, ao se pretender dar voz a outras culturas, dentro do Ocidente, tem-se a impressão de que só se está sendo "democrático". Contudo, não se trata apenas da inclusão de outros bens culturais, com enriquecimento da cultura que os admite. A intenção é "igualar" todos os elementos, o que, em certo sentido, acaba por diminuir o que pertence à tradição ocidental diante do que lhe é alienígeno. 

    Iremos, aos poucos, discutir essa abordagem também.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

O que há de meio "estranho"?

 

    O que julgo mais "estranho" é que, aparentemente, o suposto plano de substituição dos valores... ou de "transvaloração dos valores" - lembrando o bigodudo Nietzsche - não apresenta os valores novos apenas como mais dignos de serem tomados como fundamento da sociedade pretendida. Isso seria absolutamente compreensível. Parece, contudo, que os valores - novos e antigos - são colocados para "brigar", com um potencial, inclusive, de degradação absoluta da ordem, em vez de uma substituição de uma ordenação inconveniente, por outra melhor estabelecida.

    Vamos a um exemplo.

    Marx havia criticado a "família burguesa" pela mesma ter entrado na lógica da mercantilização. Em O manifesto comunista (1848), o filósofo alemão escreve: "A burguesia arrancou às relações familiares o seu comovente véu sentimental e as reduziu a pura relação monetária". 

    Ora, o que seria de se esperar da família inserida em uma nova ordem que se guiasse pelo marxismo? Imagino que seria a nova família abandonar a pura relação monetária e ter sobre si novamente o comovente véu sentimental. 

    Mas e se, em vez disso, propuséssemos o fim da família nuclear tal como a conhecemos? Não seria algo parecido com aquela ideia de jogar fora o bebê com a água da bacia, para eliminar a sujeira após o banho da criança? Ou seja, para resolver a situação problemática em relação a determinado objeto, elimina-se o objeto. Melhorando o exemplo: para curar um doente de câncer, mata-se o doente.



E a "guerra cultural" atual?

 

    Mas o que dizer da "guerra cultural" que, defendem alguns, está em curso agora, contra o Ocidente?

    Seguindo o que é apresentado pelos defensores desta ideia aqui no cenário brasileiro, temos que esta guerra é empreendida com a utilização das estratégias propostas pelo "marxismo cultural".

    E o que quer dizer exatamente isso?

    Em resumo, a ideia apresentada é a seguinte: quando perceberam que não haveria mais a possibilidade de implantar o socialismo - como passo inicial para o comunismo -, através de uma revolução, como preconizava o marxismo clássico, imaginou-se um outro caminho para alcançar o mesmo fim. Esse caminho seria o da substituição dos "valores burgueses" por outros, mais alinhados ao pensamento marxista, através de ações sobre a cultura ocidental.

    Assim é que, ao invés do campo econômico, que se referia à base, no pensamento marxista clássico, a atuação se daria sobre o campo cultural, referente à superestrutura daquele mesmo pensamento.

    O que parece mais interessante, entretanto, é que essas modificações seriam propostas a partir de "dentro" do próprio Ocidente, ou seja, as ações que permitiriam a substituição dos chamados "valores burgueses", na sua maior parte, seriam implementadas por cidadãos que vivenciam esses mesmos valores. Assim é que, se insurgindo contra a "democracia" de cunho liberal, os seus detratores se valeriam justamente dos espaços democráticos que admitem o embate de opiniões distintas.

    Mas há algo meio "estranho"...

    

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Essa tal "guerra cultural"

 

    Do que falamos, quando nos referimos a essa tal "guerra cultural", empreendida com base no "marxismo cultural"?

    Vamos por partes... e sem complicações desnecessárias.

    Uma "guerra" diz respeito a um conjunto de ações, propositalmente escolhidas, a fim de conquistar bens, materiais e imateriais, que pertencem a outros. Esses "bens", como foi destacado, podem ser materiais - ou seja, pode dizer respeito a riquezas naturais, produtos manufaturados, etc. - ou podem ser imateriais - como a liberdade, técnicas específicas de produção, conjuntos diversos de ideias, etc.

    Embora, dentro da perspectiva mais tradicional da Antropologia, o termo "cultura" se refira ao "conjunto de bens, materiais e imateriais, produzidos por uma sociedade e que pode ser objeto de transferência entre gerações", poderíamos ser um pouco mais "preciosistas" e destacar especificamente os "bens imateriais" para representar a cultura. Se assim o fizermos, podemos acrescentar o adjetivo "cultural" ao substantivo "guerra" e resumir a definição desse conjunto da seguinte forma: a luta de um grupo pela conquista dos bens imateriais de outro. Vale ressaltar que pode ser até uma "conquista" para eliminá-los e impor os seus próprios.

    Pensemos no seguinte exemplo do que foi dito. Conquistadores portugueses chegam a um determinado local, que receberá no futuro o nome de Brasil, e lá encontram uma sociedade com seus modos de sentir, pensar e agir; seus valores e crenças; sua língua, em resumo, com sua cultura.  Os conquistadores/colonizadores empreendem uma "guerra cultural" que começa a privar o povo originário da sua cultura, que vai sendo substituída pela língua portuguesa, pela religião católica, pelo uso de vestuário diverso do anterior, por regras de convivência e de relacionamento sociais incorporadas, etc.

    O exemplo mostra que a ideia de "guerra cultural" não é tão nova assim.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Marxismo cultural

 

    Estamos vivendo tempos "complicados" na política brasileira. Há um enfrentamento constante e intenso entre grupos progressistas e conservadores... ou entre esquerda e direita.

   Uma das acusações lançadas pelos conservadores aos progressistas diz respeito à existência de uma "guerra cultural" estabelecida com uma estratégia bem definida que tem como fundamento o chamado "marxismo cultural".

  Tenho me debruçado sobre isso, tentando entender melhor o fenômeno, tanto da "guerra cultural", quanto do "marxismo cultural".

    O que ocorre é que, ao ler sobre o assunto, surgem novos elementos que vão merecendo atenção. Este é o caso de pessoas como Antonio Gramsci, György Lukács, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, entre outros. Também de termos como Pós-modernidade, Escola de Frankfurt, Nova Esquerda, entre muitos outros.

    Pretendo, nos próximos posts, sobrevoar o ambiente formado por esses elementos.

Um bebê em minha vida

     

    Não poderia começar de outro jeito, que não o do registro do nascimento de minha primeira neta, a pequena Helena, no dia 24 de janeiro de 2023.

Quanto tempo...

 

     Já há algum tempo venho querendo retomar a experiência do blog. Sempre achei interessante utilizá-lo como um diário, especialmente das leituras que realizo.

    Resolvi fazê-lo agora. Mas, sinceramente, não tinha noção do tempo que estava sem registrar nada. Agora vejo que já se passaram mais de dois anos.

    Então, vamos lá...