quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Ideologia (2)


   Antes de tratar do conceito de "ideologia" como o percebemos rotineiramente hoje em dia, gostaria de registrar que sempre penso em algum termo que possa exprimir melhor a essência do mesmo. Gosto de "idealidade", sugerido, sem grande explicação, por Emmanuel Renault, em seu Vocabulário de Karl Marx, justamente no verbete "Ideologia". 
   Vejamos seu texto no verbete em questão, com grifos meus.
   "Ao conceber a ideologia como 'a linguagem da vida real', o objetivo de Marx é explicar as IDEALIDADES por seu contexto histórico [...]. O conceito de ideologia é, com efeito: a) o do condicionamento das IDEALIDADES por interesses materiais; b) o da dimensão política da consciência e da teoria (as idealidades aparecem como meio de garantir a dominação de uma classe sobre outra [...]". 
   Há uma sequência, com mais dois significados, para, depois, ser apresentado um resumo: "Logo, a ideologia pode ser identificada às ideias dominantes no sentido das ideias dominantes numa determinada época, no sentido das ideias que produzem uma dominação e no sentido das ideias que justificam uma dominação".
   Ou seja, "ideologia" estaria associado a um conjunto de ideias... que poderíamos traduzir melhor como "idealidade". Pelo menos, é o que penso.

Ideologia


   Sempre me incomodou muito o conceito de "Ideologia"... mas de uma maneira distinta daquela que alguns teóricos sentem. 
   Meu incômodo é essencialmente etimológico. 
   O que é Biologia? Simplificadamente, é a ciência que tem por objeto os seres vivos (bios). O que é Psicologia? Resumidamente, é a ciência que tem por objeto a mente/alma (psyche). E por aí vai...
   Temos sempre um objeto que é estudado e explicado por um discurso (logos), o que poderia ser pensado como um saber organizado ou uma "ciência". 
   Então, o que seria Ideologia? Seria a ciência das ideias. 
   Mas é isso? Lógico que não é assim que percebemos o conceito de "ideologia" hoje... porém, já foi.
   Anthony Giddens dá a seguinte explicação:
  "O conceito de ideologia foi usado pela primeira vez na França ao final do século XVIII para descrever uma suposta ciência das ideias e do conhecimento - uma ideia-logia. Nesse sentido, a ideologia deveria ser uma disciplina próxima da Psicologia [...]. Nas décadas de 1930 e 1940, Karl Mannheim tentou recuperar essa ideia em sua Sociologia do Conhecimento, que associava modos particulares de pensamento às suas bases sociais".
   A versão "neutra" do conceito de "ideologia" não se tornou o mais aceito. Ficamos, então, com a categoria marxiana de "ideologia"... motivo para outro post.
   

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Cervejas "comerciais"


   Os que gostam das cervejas "comerciais" - aquelas que incluem o milho - normalmente falam que apreciam só as do tipo pilsen. Mas... há que registrar que pilsen é um tipo de cerveja que pertence à família Lager (a outra família é a Ale), mas também seria "puro malte". 
   As cervejas "comerciais" com que estamos acostumados são, na verdade, do tipo "Standard American Lager".
"Cervejas do estilo American Lager são leves em cor e corpo, têm baixo amargor e costumam ser neutras, refrescantes e bem carbonatadas. O sabor é sutil (ou seja, nenhum ingrediente pode dominar os demais). Há um dulçor residual de malte e adjuntos e outras fontes de açúcar podem ser utilizadas."

Puro malte é necessariamente melhor?!?!


   Até alguns anos atrás, o brasileiro bebia só Antarctica, Brahma, Skol, Itaipava... e algumas populares menos conhecidas. De uns tempos para cá, cervejas mais elaboradas - primeiro importadas, depois produzidas artesanalmente por aqui - passaram a encher nossos copos. 
   Uma questão que surgiu logo foi a da pureza. Ficamos sabendo que nossas cervejas "comerciais" eram produzidas com milho e arroz - os chamados "cereais não maltados" -, em vez de somente malte, ou cevada maltada. Logo surgiu a ideia da superioridade das cervejas "puro malte"... endossada pelos "beerchatos". Mas será que isso é necessariamente verdadeiro?
   O mestre cervejeiro da Ambev há quatorze anos, Luciano Horn, explica que "o milho entra na receita para acrescentar leveza e refrescância".
    Acrescentando mais uma informação: a Wäls, cervejaria artesanal mineira, produziu uma India Pale Ale com xarope de milho, batizada Hopcorn IPA, a qual foi medalhista na Copa do Mundo das cervejas de 2017.
   Uma pergunta surge naturalmente: é o milho que "estraga" as cervejas "comerciais"?
   Depois deste último comentário sobre a Hopcorn IPA, acho que não podemos responder culpabilizando o pobre do milho. Talvez, seja uma combinação perversa - para o milho -, que inclui a qualidade dos outros componentes ou, até mesmo, um uso excessivo - e abusivo - da quantidade deste cereal.
  Portanto, não há que dizer que as puro malte são NECESSARIAMENTE melhores... afinal, mesmo os cervejeiros "antimilho" gostam de misturas, como as Witbier (com coentro e limão, por exemplo), as Weiss (de trigo) ou aquelas com aveia, etc.
   

Para que se vota em alguém? (4)


   Seguindo...
   3) Votar em pequenos partidos pode influenciar as políticas levadas a cabo?
   Segundo o Luís, apenas marginalmente. 
   Nesse ponto, concordamos integralmente. Aliás, isso passa por outra questão muito discutida no âmbito da reforma política, que são os chamados partidos "nanicos". No Brasil, havia grandes vantagens em ter um partido funcionando. Quanto mais representativos, mais dinheiro os partidos recebiam do Fundo Partidário. Até aí, tudo bem. Só que mesmo aqueles que tinham pouquíssimas vagas - ou até nenhuma - recebiam uma quota mínima. 
   Além disso, ainda há a possibilidade das coligações, o que acaba por permitir que os pequenos partidos negociem seus tempos gratuitos nos meios de comunicação com os partidos maiores. 
   Aliás, a questão da coligação é algo que me causa arrepios, pelo menos no modo como ela é realizada por aqui.
   Sigamos para uma questão que deixei propositalmente por último, porque acho bem delicada.
   1) Ao votar, escolho a política que vai ser seguida?
   Segundo Luís, "não". Isto porque o mandato não é imperativo. Ou seja, o candidato pode defender uma coisa antes da eleição, mas, após a eleito, votar em outra.
   Concordo que esse seja um problema real. Cheguei a dizer que talvez fosse interessante podermos utilizar o mecanismo do recall para os agentes políticos que praticassem essa espécie de "estelionato eleitoral". Também já sugeri que o enfraquecimento dos partidos acaba facilitando esse tipo de comportamento. Isto porque, devo lembrar, votar contra instruções do partido pode caracterizar o que se chama de "infidelidade partidária", que pode causar punição ao político filiado. Reforçando, então. Caso os partidos tivessem mais peso real, a candidatura chancelada por um deles garantiria uma série de compromissos com valores compartilhados por todos seus filiados, bem como pelos seus eleitores.
   Mas há algo que precisa ser dito também. A representação política é diferente de uma representação civil. Quando eu registro uma procuração para um amigo me representar em algum ato civil - a venda de um imóvel, por exemplo -, o objeto da representação é bem definido. No exemplo dado, meu amigo não poderia vender meu carro, visto que a representação concedida não alcançava este objeto. Só que a representação política não funciona assim. Não se concede uma procuração com objeto fixado. A representação concedida alcança objetos que já fazem parte do programa do partido, isto é, que já são conhecidos de antemão, mas também decisões sobre assuntos que sequer são considerados no momento da eleição. Isto é, pode ser apresentado um projeto de lei visando regular algum tipo de assunto que interesse à sociedade como um todo, mas que não foi pensado inicialmente por nós, eleitores. Nosso político eleito para o Legislativo precisará apresentar seu voto. Dependendo do assunto, ele poderá desconhecer totalmente nosso desejo. Novamente, ressalto que um partido forte poderia consultar suas bases, a fim de revelar o desejo dos seus eleitores. Mas não é isso que acontece sempre. E, quanto mais técnica for a questão, menor será o grau de consulta.
   Portanto, há que se reconhecer que a representação política guarda esta peculiaridade, e lidar com ela. Mas... reconheço que há problemas com isso, principalmente quando as matérias estão bem definidas no programa partidário ou foram suficientemente apresentadas no momento da campanha à eleição.
   Mas vou deixar uma provocação aqui, que diz respeito àquela famosa "herança maldita", de que tanto ouvimos falar. 
   Vamos supor que, numa avaliação prévia, o partido e o candidato digam que não aumentarão os impostos se ganharem a eleição para um cargo no Executivo. Ao conquistar o cargo, o eleito percebe que houve uma "contabilidade criativa" do governo anterior e que as contas não estão tão saneadas quanto se apregoava. Sua equipe faz as contas e verifica que... tem que aumentar os impostos. E agora? Manter a promessa ou não?
   Está aí mais material para nossa discussão.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Para que se vota em alguém? (3)


   Seguindo...
   5) Os governantes são eleitos?
   Segundo o Luís, "não", visto que os auxiliares, como os ministros, não são escolhidos pelo eleitor junto com o titular.
   Acho que não é bem assim. Não seria muito racional submeter ao eleitor escolher o titular e todos os seus auxiliares - até porque estes são convidados, muitas vezes, posteriormente... lembrando até que, normalmente, não são agentes políticos de carreira.
   Além disso - e, talvez, o mais importante - escolhemos o representante de uma ideia geral, que precisa se cercar de especialistas em assuntos específicos, como economia, meio ambiente, agropecuária, educação, etc. A mim parece que seria uma utopia muito grande esperar que escolhêssemos TODOS os integrantes do governo. Nenhuma estrutura organizacional funciona assim. Numa empresa particular, o presidente escolhe superintendentes e alguns diretores, mas não vai descendo por todos os escalões. A "ideia geral" é o que importa. Escolhendo o escalão que lhe é mais próximo, em tese, garante que seus subordinados também prosseguirão com a mesma ideia e escolherão pessoas alinhadas à mesma.
   6) Quando podem, os eleitos têm interesse de agir?
   Segundo o Luís, "não", porque estão interessados apenas em se manter no poder.
   Novamente, não acho que seja bem assim. Ora, outra vez, nosso amigo está falando de algo que não deve ser, como se fosse, a regra. Em princípio, um político profissional tem que se manter no poder a fim de ter a possibilidade de implantar suas ideias, agindo em prol da sociedade. Ou seja, a manutenção do poder é um meio para que o fim, que é agir em benefício da sociedade, seja realizado. O político que confunde o meio com o fim não é um bom político. Decerto que isso pode até ser o mais comum na prática de nossa vida política, mas, de novo, a corruptela não pode ser confundida com uma característica do sistema.
  Vai continuar...

Para que se vota em alguém? (2)


   Agora, vamos...
   Eu não concordo com todas as colocações postas pelo Luís. Vamos começar por elas, respeitando a numeração adotada pelo nosso amigo.
   2) Escolho meus representantes?
   Segundo o Luís, a resposta é "não", visto que o partido é que faz esta escolha.
   Acho que não é bem assim. Pelo menos aqui no Brasil, as eleições proporcionais são com lista aberta. Então, o partido disponibiliza um grande número de nomes - obviamente, pertencentes aos seus quadros -, a fim de que o eleitor faça sua escolha.  
   Não sei se, do ponto de vista estratégico, seria muito inteligente fazê-lo com os candidatos a cargo majoritário, mas até seria uma possibilidade. Assim, o mais votado de uma lista, por exemplo, para presidente, acabaria sendo o representante do partido para a etapa seguinte, sendo essa escolha feita diretamente pelo povo - meio parecido com a ideia das prévias, quando existem.
    Quero apenas lembrar que, pelo menos no Brasil, a ideia é que se vota no partido. Só secundariamente é que se escolhe o candidato. Tanto assim que uma pessoa não pode se candidatar caso não pertença a um partido. Isso, em princípio, garantiria que há uma base mínima de concordância entre o candidato e o programa partidário, facilitando a escolha do nome pelo eleitor.
   É bem verdade que isso é muito esquecido no Brasil, e que os partidos têm andado a reboque dos nomes de alguns candidatos. Um artista famoso, por exemplo, impõe seu programa pessoal e usa um partido qualquer, da moda ou de fachada, para poder se candidatar, sem compromisso verdadeiro com um programa partidário.
   Seguindo...
   4) Os eleitos podem agir?
   Segundo o Luís, "não". Eles são reféns do que o Poder Executivo deseja.
   Também não acho que seja exatamente assim. Aqui no Brasil, uma lei ordinária tem a necessidade de 257 votos para ser aprovada. Não é algo fácil. É verdade que os Poderes Executivos exercem forte pressão de "convencimento", atendendo demandas específicas de bancadas ou partidos, que facilitam a formação de uma maioria da situação nas casas legislativas. Mas isso é muito mais uma corruptela do sistema do que uma característica do mesmo.
   E se a maioria dos projetos aprovados tem concordância do Executivo - o que é um fato, até porque ele pode vetar o que foi aprovado -, ainda assim há projetos que viram leis, mesmo contra o desejo do governo, muito baseado na pressão da sociedade civil, via mídia, normalmente.
   As perguntas 5 e 6, para as quais também tenho minhas divergências, ficam para depois.