quinta-feira, 4 de junho de 2015

Eleitor, um mero detalhe nas eleições


   Cada vez mais, é esta a impressão que tenho: os eleitores são um mero detalhe nas eleições. A grande maioria dos políticos só tem como programa "viver da política". Mas e o povo? "Povo? O que é isso? Eu só penso nos votos!", devem pensar estes políticos. Alguém tenta explicar "Mas os votos vêm dos eleitores, que são ninguém menos que o povo!" O tal político dirá: "Ah, se esse tal de 'povo' significa 'voto', então eu gosto deles". Mas esse entendimento dura só até o resultado das eleições, quando os votos foram os votos - conferindo-lhes, ou não, seus cargos. E sossego por mais quatro anos. Nada de ter que pensar em votos... e muito menos em "povo" - seja lá o que essa coisa esquisita queira dizer.
   A minha impressão pareceu ser a mesma do sociólogo Demétrio Magnoli, que no texto "República dos políticos", publicado em O Globo, de hoje, disse (REPRODUÇÃO PARCIAL DO TEXTO):
   "Os partidos oficiais não precisam do apoio ativo de parcelas do eleitorado, pois são sustentados por recursos públicos, nas formas do Fundo Partidário e do tempo 'gratuito' de propaganda partidária. [...]
   A Câmara [...] negou-se a vetar as coligações em eleições proporcionais, que fraudam a vontade dos eleitores mas são cruciais para a existência dos partidos sem representatividade. [...]
    No Brasil, não se completou o percurso histórico de constituição de uma burocracia pública profissional regida pela meritocracia. Nossa elite política travou o processo antes de sua conclusão, reservando para si os escalões superiores da máquina estatal. As dezenas de milhares de cargos preenchidos por indicação política [...] são alvos de uma pilhagem permanente conduzida por meio dos partidos. [...] Nessa burocracia pública capturada pelos partidos estão as fontes da corrupção endêmica que enlaça a elite política ao alto empresariado de nosso capitalismo de Estado.
   O lulopetismo não inventou o sistema política brasileiro. A Justiça Eleitoral, instrumento de oficialização dos partidos, nasceu com Getúlio Vargas, em 1932. O Fundo Partidário foi criado pela ditadura militar, em 1965. [...] Os governos de Lula, entretanto, conduziram o sistema às suas mais extremas consequências. FH governara com base em uma coalizaão coerente, nucleada pela aliança PSDB/PFL [...]. Lula e sua sucessora, pelo contrário, estabeleceram coalizões incongruentes, que conectam a esquerda à direita. O preço da governabilidade foi uma extensão inédita das redes de corrupção. Nesse passo, a corrupção tradicional, fragmentária, deu lugar ao assalto partidário centralizado e sistemático dos cofres públicos. [...]
   Na 'reforma' que ele [Eduardo Cunha, presidente da Câmara] conduz, a única mudança de fundo é a coincidência geral das eleições, o que significaria uma alteração crucial do calendário político: a voz dos eleitores só seria ouvida a cada quatro anos. [...] Nessa hipótese, em longos ciclos de quatro anos, a república dos políticos permanecerá imune ao escrutínio das urnas". 

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