sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Futebol e zumbis


   Esclareço logo que, apesar de hoje ser Dia da Consciência Negra, o "zumbi" do título não se refere ao Zumbi dos Palmares, e sim àquela figura de "morto vivo" que faz sucesso em tantos filmes.
   Ainda corrigindo possíveis enganos, quero dizer que o post não diz respeito a uma possível crítica à nossa seleção de futebol, indicando que eles estão jogando tão mal quanto zumbis.
   O vínculo entre futebol e zumbis se dá a partir de uma lembrança da inautenticidade heideggeriana.
   Quando paro para refletir sobre minha relação com o futebol, sempre fico pensando: "Caramba, por que estou perdendo tanto tempo assistindo a esses marmanjos correndo atrás de uma bolinha?"; afinal, com tanto para ler e escrever, que ausência do mundo é essa que me permito, durante quase duas horas? E aí surge o conceito do "homem inautêntico", ou seja, daquele que foge da construção de sua própria existência, deixando de refletir sobre o mundo, e simplesmente aderindo a ele e se deixando levar... alienando-se de si mesmo para não encarar a angústia existencial, e fazendo "o que todo mundo faz"... isto é, assistir ao futebol.
   Ok... o "futebol" do título já está entendido. E os tais "zumbis"?
   Esta é outra "inautenticidade" que eu tenho me permitido: o seriado "The Walking Dead".
   Comecei a assisti-lo na Netflix, que tem as primeiras quatro temporadas. Eu, a mulher e a pequena corríamos para vermos os episódios - dependendo do dia, até três seguidos.
   Xiiii... vimos as quatro temporadas. Providenciei a compra da quinta, mas conseguimos dar um jeitinho de assisti-la completa... e adentramos pela sexta temporada - que está passando na Fox.
   Não posso negar que, da mesma forma que com o futebol, por vezes me ponho a refletir sobre o que estou deixando de fazer para assistir aos episódios, e me aflijo um pouco.
   Mas... eis que o jornal O Globo conseguiu diminuir um pouco esse meu desconforto. Vejamos a crítica sob o título "'The walking dead', na sua sexta temporada, abraça grandes temas":
   "[...] Entre uma e outra empreitada, nossos heróis se deixam embalar pelo debate denso. Nessas horas, parecem estar num divã e falam sobre o sentido da vida. 'The walking dead' ultimamente anda um grande 'ser ou não ser?' [...]
   No episódio mais recente, 'Always accountable' (em tradução literal, 'sempre responsável por algo'), a mensagem foi a de que todas as decisões tomadas têm as suas consequências. E que se deve assumir a responsabilidade pelas escolhas feitas. [...] O programa esbanjou filosofia em forma de cultura pop e em ritmo de aventura." (GRIFO NOSSO)
   Brincadeiras à parte, a série mostra, cada vez mais, que Hobbes estava muito certo em seu "o homem é o lobo do homem", pois, muito mais atentos aos outros seres humanos os nossos heróis - que  estão "walking dead" - têm que estar do que aos próprios zumbis - os que estão "living dead".
   Episódio marcante, por exemplo, foi aquele em que os habitantes de "Terminus" - nome da comunidade que não deve ter chamado atenção dos telespectadores anglófonos, que não pensam em "término" como em "end"/"fim"; mas que para os lusófonos estava claro como "termo final" - explicam que, antes, recebiam bem as pessoas que até lá chegavam, até serem vítimas de viajantes que mataram e agrediram pessoas gratuitamente e estupraram as moças da comunidade. A partir daquele momento, passaram a atrair pessoas, sob a promessa de acolhê-los, apenas para se alimentarem delas, matando-as com certa crueldade numa espécie de abatedouro humano. 
    Depois daquele "o programa esbanjou filosofia", senti-me, novamente, um "homem autêntico", refletindo corajosamente sobre a vida... ainda que através de um experimento mental de uma etapa da vida humana cercada de restrições e aventuras.
   Agora... sinceramente, ainda não consegui salvar o futebol. Rsss.

2 comentários:

Rafaela Garcia disse...


Amo a série "The Walking Dead" assim como você bem disse.E às vezes tenho este mesmo pensamento sobre o por quê estou diante de uma televisão prestando atenção em algo (falando superficialmente), que não é verdade? Mas se analisarmos direito, e talvez seja por isso que gosto tanto desta série é que ela mostra o verdadeiro valor da amizade e de como não devemos menosprezar uma pessoa.

Ricardo disse...

Caramba, senhorita Rafaela Garcia... falou pouco, mas falou bonito.
Adorei sua análise. Realmente, se a série mostra a dificuldade de um homem lidar com outro, bem como a violência desta relação em um mundo tão "descivilizado", ela também mostra o verdadeiro valor da amizade de um grupo que se "fecha" e se considera uma verdadeira família. Ou seja, ela mostra como seria possível, se realmente nos sentíssemos irmãos, conviver em harmonia e plenitude.
Obrigado pelo comentário.
Beijos do Pai Ricardo