domingo, 21 de junho de 2009

"Os Pensadores" - Heidegger

Enfim, tive o prazer de encontrar Heidegger na Casa do Saber. Não pessoalmente, lógico. Do contrário, teria me assustado com seu fantasma. Rsss.
Outro desafio: falar de Heidegger I e Heidegger II - alguns até sugerem um Heidegger III - em tão pouco tempo, e para um grupo de não especialistas. Desafio absolutamente vencido pelo professor Edgar Lyra!
Edgar preparou um roteiro muito objetivo; prendeu-se a ele e caminhou de modo seguro até a "linha de chegada". Nesse roteiro, contemplaram-se duas etapas: a primeira ficou por conta de aclarar o Heidegger I, baseando-se nos conceitos apresentados em "Ser e Tempo", e uma segunda, apresentando a "virada" (Kehre) para o Heidegger II.
Parti para a aula tendo feito uma breve revisão das minhas leituras sobre Heidegger, radicalmente voltadas para "Ser e Tempo", por conta de minha "veia metafísica". A apresentação foi muito boa... mas não se abriu tempo para perguntas, num primeiro momento.
Após a degustação de um bom vinho sul-africano (perfeito em tempo de Copa das Confederações. Rsss), corte de Cabernet Sauvignon e Merlot - um dos meus preferidos... quase um bordalês -, voltamos para a segunda parte.
E aí... a "virada" foi completa. A ênfase de Heidegger II é a "hegemonia planetária da técnica". Lá estava o tema, apresentado de maneira superatual, trazendo do pano de fundo heideggeriano assuntos como internet, clonagem, consumismo... Eu, apegado ao Heidegger desconstrutor da Metafísica, tomei um choque! Nunca havia me interessado pelo Heidegger II, e eis que ele se mostra um pensador cheio de vida, que diz "Presente!" em nossas discussões atuais.
Continuo afastado do que seria um terceiro Heidegger, voltado para a "poesia, psicanálise e orientalismo"... mas, talvez, por pouco tempo.
Fato é que, ao lado de "Ser e Tempo", já ganharam espaço na minha estante os recém-adquiridos "Marcas do Caminho" e "Ensaios e conferências" - este último, aberto pelo texto "A questão da técnica".
Ao final da apresentação, abriu-se um espaço para perguntas e debates. Mesmo sob a euforia da apresentação do Heidegger II, fiz minhas "desagradáveis" considerações sobre o "desonesto" filósofo da Floresta Negra, o Heidegger I.
Para minha surpresa, o professor concordou com a colocação de que o primeiro Heidegger, apesar de arrasar a Metafísica ocidental, faz uso generalizado dos conceitos produzidos pelos filósofos de até então. Edgar Lyra explicou que fica claro que, até "O que é a Metafísica?" (1929), Heidegger ainda está tentando salvar o projeto metafísico. Há concepções diferenciadas, mas que se apoiam, sim, no que existia até a época. Concordou também que é difícil fazer a diferença entre os estados psicológicos e os ontológicos de um ser-humano aos moldes do Dasein. Por último, fiz referência à linguagem obscura de Heidegger, tanto no primeiro período quanto no último. Ele mostrou que Heidegger disse o seguinte sobre isso - na segunda fase, preocupado que estava com a linguagem : "A tarefa do pensamento exige um novo cuidado com a linguagem e não a invenção de termos novos como eu pensava outrora". Isso responde ao obscurantismo da linguagem do primeiro Heidegger. Quanto ao do último, o professor indica que Heidegger realmente acha que a arte responde melhor ao mundo do que a linguagem filosófica. Mas destaca que Heidegger não submete sua linguagem à poesia, porque imagina que é necessária uma polarização arte-filosofia, a fim de dar conta do todo do mundo.
Por último, uma informação interessante. Como muitos sabem, Heidegger, no final da vida, ocupou-se em organizar seus escritos para publicação. O fato é que estão previstos, nada mais nada menos que, 102 volumes, dos quais já foram publicados 90. O restante está previsto para estar disponível, em alemão, até 2015. Ou seja, ainda há muito de Heidegger inédito.
Será que descobriremos um Heidegger IV, um Heidegger V? Rsss.

2 comentários:

Prof. Guilherme Fauque disse...

O que é esta "Casa do Saber" que você fala? É um local de cursos de filosofia não acadêmico?

Já ouvi falar de lugares assim, mas aqui no Sul é raro... se não em engano em Caxias do Sul tem um. Mas para nós aqui em Passo Fundo é algo totalmente desconhecido. Como é que é isso aí?

Ricardo disse...

Guilherme:
Até onde eu saiba, a Casa do Saber só existe em São Paulo e no Rio (aqui é a filial, obviamente)
A ideia é de um centro multidisciplinar. Há cursos (ou minicursos, já que são quatro encontros, normalmente) de história, de literatura, de filosofia, de artes, etc. Esses dias, enquanto eu fazia "Os pensadores", havia um curso de moda. Há também encontros com personalidades da televisão, escritores, jornalistas, etc.
Se quiser conhecer, entre no site "www.casadosaber.com.br"